Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
.....................
claude_bloc@hotmail.com

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

JULIO SARAIVA LEÃO - Por J. Lindemberg de Aquino

Julio Saraiva Leão era filho de Salviano Saraiva Leão e Isabel Pereira de Alencar Saraiva Leão. Nasceu em Crato aos 30 de Maio de 1895 e faleceu em 24 de Maio de 1971.
Casou-se com Maria  dos Passos Arraes, dois filhos, Salviano Arraes Saraiva, ator e fotógrafo, falecido; e Maria Telma Arraes Saraiva que lhe herdou o foto e é a mais requisitada fotógrafa do Crato e do Cariri.
Muito se teria a dizer sobre a extraordinária personalidade de Julio Saraiva. Ninguém o suplantou em amor e dedicação à cidade do Crato. Desde os 10 anos de idade ingressou no trabalho, sendo Ourives, naquela idade. Músico, tocava 3 instrumentos de sopro, participou e foi Diretor da Banda de Música do Crato; pintor e desenhista e fotógrafo.  Retratou as mais diversas figuras da sociedade cratense e até o Rei do Cangaço, Lampião.
Estudou até cursar a Escola Técnica de Arquitetura e Urbanismo, em Fortaleza, fez-se autodidata em outras profissões. Projetou e construiu praças na cidade. Montou a grande Exposição do Centenário do Crato. Ajardinou as praças e arborizou as ruas. Foi responsável pelas 2 fontes das praças ; da escultura da Mãe ´Dágua; do obelisco da praça Juarez Távora; da coluna da hora; do zoológico no Parque Municipal. Deixou pronta a planta de um elevador que ligaria a parte baixa do Crato ao Alto do Seminário.  Como bom entendedor de urbanismo, colaborou com todos os prefeitos, sem  partido político, a começar por Alexandre Arraes e fez verdadeira revolução urbanística no Crato. Implantou a primeira amplificadora da Região, fábrica de mosaicos, fábrica de colorau, fábrica de fósforos e Beneficiamento de arroz. Trabalhou nos reservatórios de destribuição de água e no Canal do Rio Granjeiro; no traçado de ruas e praças deixando em cada canto do Crato um pedaço seu.
Boêmio inveterado e incorrigível, era dono da noite, varando as madrugadas. Galhofeiro, piadista, a cidade guarda de memória centenas de suas piadas. Ajudou muito ao teatro amador. Conhecia profundamente a Natureza e o comportamento dos homens.  Se dizia ateu, mas tinha  as melhores relações com padres e freiras.
Se um dia a cidade construir o Elevador do Seminário, se fará justiça plena dando a ele o seu nome. Nome que já está no Largo ajardinado em frente à Prefeitura. Homenagem ainda modesta para o grande cidadão que soube ser.

Fonte : escritos oferecidos a Julio Saraiva pelo autor


A "Loirinha do Sertão" – por Pedro Esmeraldo



   Antonio Ferreira Mandaçaia era um senhor aloirado, nem rico e nem pobre. Era controlado em seu trabalho,  no ramo agropecuário. Habitava numa fazenda situada no rústico sertão nordestino. Na sua atividade, predominava a criação de gado bovino e uma agricultura rudimentar, baseada na cultura de grãos que servia para complementar o custeio de sua fazenda com cerca de 200 hectares. Sua propriedade, cortada pelo riacho, era por isso favorecida pois tal benefício reforçava a aquisição de  produtos ardilosos que facilitava o bom desempenho do plantio agrícola.
 
   Antonio Ferreira Mandaçaia era alegre, tinha de cerca de  1,75m. de altura, o que o elevava como um cidadão eficiente, o que facilitava vencer suas dificuldades no trabalho e a péssimas situação climática, que, vez por outra,  aparece na região Nordeste. Além da criação de gado bovino, seu Antonio se esforçava para a criação de outros animais da raça caprina, a qual era adaptada na nossa região e, por isso, facilmente vendável.
 
   Seu Mandaçaia não perdia a esperança e procurava estender-se a toda sorte de cultura favorecida ao meio-ambiente seco do clima semiárido nordestino.
Era valente, corajoso e enfrentava situações com bravura. Não perdia oportunidades, aproveitava todas as neblinas que surgiam no meio do tempo. Por isso era bem sucedido na sua colheita, já que conseguia um melhor preço em tempo hábil, auxiliado pela lei da oferta e da procura.
 
   Pai de uma filha loira, linda, que praticava todas as manhãs a equitação,  a arte do esporte na sela. Seu pai tinha o maior prazer de adquirir bons cavalos tipo manga-larga para satisfazer o desejo da filha, chamada Sandra.
Essa menina desde seis anos possuía  o apelido de “Loirinha do Sertão”, porque lá só havia ela com esta característica. Loirinha costumava cavalgar nas estradas da fazenda,  junto com sua companheira de estudos, Rita Maria, filha do capataz e  muito amigo do seu pai.
   Quando as duas completaram 16 anos tiveram de  se deslocar até a capital do Estado a fim de prestar exame vestibular para medicina, um desejo de ambas. Permaneceram as duas na capital até suas formaturas em medicina, voltando para casa somente após o término dos seus estudos. Eram umas meninas equilibradas e estudiosas. Forçaram a barra, procuraram adaptar-se emocionalmente ao meio no intuito de se qualificarem para exercer com precisão o seu trabalho.
   Quando estavam fora de casa, comeram o pão que o diabo amassou, já que os pais não muito ricos, tiveram de controlar as despesas enviando somente o necessário para a sua manutenção escolar. Mas as duas souberam compreendera situação e ajudaram o pai a manter a economia, deixando-o à vontade para que enviasse o mínimo possível de acordo com a suas possibilidades.
   As duas foram coerentes, souberam suportar com dignidade a dificuldade dos pais e respondiam com bom procedimento estudantil, deixando os pais totalmente enaltecidos e conformados pelo bom proveito das filhas.
   Está aí um exemplo de compreensão mútua que toda a juventude deveria seguir, pois se a maioria dos estudantes assim fizesse, o Brasil estaria numa situação bem elevada de dignidade moral, e seria um bom mostruário de trabalho para juventude desqualificada que prefere entregar-se ao vício da droga e da ociosidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

OS FLOCOS SE FORAM ... - Por Edilma Rocha


Admirando esta linda fotografia em sépia, feita por Júlio Saraiva, da Praça da Estação como era conhecida na época, constatamos o cuidado dos Cratenses pela Natureza na década de 40.

Cenário difícil de se ver, principalmente no Nordeste Brasileiro, e comum na Europa durante a Primavera. Mas este belíssimo cenário era também apreciado no Sul do Ceará, na Região do Cariri, na cidade do Crato.

Para conseguir transformar esta imagem num texto, precisei puxar pela memória da cidadã Telma Saraiva que muito contemplou estas flores na sua adolescência.
Ela era mocinha, filha de Júlio Saraiva, este urbanista da Prefeitura na gestão do Prefeito, o saudoso, Alexandre Arraes.

A estação de trem veio trazer o progresso da pequena cidade conhecida como "A Princesa do Cariri". E entre os viajantes que chegavam da capital Fortaleza, hum em especial, "O Holandês", como ficou conhecido no Crato trazendo consigo os catálogos para a venda de semente de flores.

_ Papai, chegou o Holandês !
Estrangeiro, estatura média, gorducho, loiro, olhos azuis e sempre com a face corada pelo calor da cidade. Tinha o andar lento e mantinha sempre um lenço branco nas mãos, que enxugava constantemente o suor. Vestia uma calça escura, um casaco marrom e nos pés um par de botas surradas. Na mão direita uma maleta que continha os catálogos das flores e das sementes.

_Bom dia, Sr. Júlio !
_ Bom dia Holandês, aceita um cafezinho ?
_ Com leitinho, muito bom !
Os catálogos eram colocados na mesa um a um e as fotos das flores encantavam Telma que foleava com cuidado o lindo álbum.
Todos os anos o Holandês chegava procurando o seu freguês, Júlio Saraiva Leão. Dizia que o clima do Crato era bastante favorável ao cultivo das muitas espécies que trazia e que elas desabrochavam rapidamente devido aos cuidados e a água pura.
Júlio cultivava as sementes em pequenos caixotes de madeira, muito bem adubados e este procedimento era feito pelos jardineiros, funcionários da Prefeitura. Mas ele não permitia que as sementes fossem germinadas em outro lugar, senão no seu próprio quintal. Quando era chegado o momento de transportar  as mudas, eram levadas para as praças: da Estação, da Sé e Parque Municipal. Para as Praças Siqueira Campos e 3 de Maio, eram outros tipos de flores, as mais resistentes como "Crótons" e a maioria germinadas por bulbos.

Estas pequenas flores da fotografia se chamavam "Flocos" e tinham uma grande variedade de cores, entre elas , as azuis que chamavam muito a atenção. Segundo Telma, o bailar das borboletas encantava as crianças e curiosos mas, preocupava o seu responsável pela presença das lagartas. Quando chegavam ao fim do ciclo, se desprendiam dos caules e voavam com o sopro da brisa suave das manhãs.

Onde foi parar o cuidado com a Natureza das pessoas ? Nos perguntamos hoje...
Os bancos das praças eram colocados ali para se poder contemplar as flores, conversar e namorar. E hoje, os canteiros são pisados e cheios de lixo deixando claro a falta de educação. A Prefeitura planta outras espécies mais resistentes e mesmo assim não sobrevivem a destruição. A maioria dos canteiros são usados para pequenos comércios sem nenhum respeito a Natureza.

E hoje, esta linda imagem do passado nos trás lembranças do Crato antigo. E só podemos dizer que estes lindos "Flocos" se foram com as pessoas e com o tempo...

Uma prosa - Por Claude Bloc

Outras palavras
(Claude Bloc)

A cidade vibra, efervesce, canta e cantamos junto, pois se a gente se fecha, as palavras ficam murchas e vão secando e descendo pelas paredes, pelos vãos, perdendo-se no abstrato da nossa existência. Depois, batem bruscas nas janelas e de encontro a elas para depois se desfazerem em silêncios de pó!

São momentos. E meu sonho interior é assim: agreste e quieto e tenta varrer para longe esse pó que sufoca a cidade e que assola os pensamentos soltos.

Por isso, arrumo tudo num cantinho, sopro as lembranças e pouco a pouco se enche de alegria esse deserto interior que a cidade não mostra.

Sinto, então, que tenho que dar vida às palavras. A essa inquietação que começa a tomar conta de mim. A essas palavras serenas e adormecidas, montinhos de quase pó, prestes a se desfazerem para começarem a ganhar vida.

E as palavras começam a ficar viçosas e a andar novamente pela calçada, pelo pensamento. Toco-as, sinto-as e ficamos a sós. A essa altura tudo em volta deixa de existir. Estamos ali: somente eu e as palavras. Eu a cuidar delas, a regá-las, a embelezá-las, tentando fazer a mistura certa, nas proporções certas. Pensamento me fazendo cócegas nos dedos, palavras escorregando pelo gargalo da caneta, pela franqueza do lápis e colorindo o branco da página.

Finalmente as palavras eclodem. A aridez que varria o interior da cidade transforma-se num riacho fresco e fértil. Sumiu o silêncio. Em frente ao azul da chapada os “soldadinhos”. Misturo-me com eles, eu e as palavras, e nos sentamos no risco que desenharam no ar. Balançamos as pernas de um lado para o outro como crianças felizes, contemplando o vale. Damos as mãos e começamos a sorrir. Os pássaros passam voando e sorriem para nós: as palavras e eu.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Rosemberg Cariry

Rosemberg Cariry (pseudônimo do cineasta e poeta Antônio Rosemberg de Moura) nasceu em 1956, no município de Farias Brito. Ainda criança veio para Crato.
 
Rosemberg Cariry publicou quatro livros de poesia: Despretencionismo (1975), Semeadouro (1981), S de Seca SS (1983) e Inãron ou na Ponta da Língua Eu Trago Trezentos Mil Desaforos (1985).

Nos anos 1980, também lançou a revista que integrava movimentos artísticos do Crato Nação Cariri, em circulação de 1981 a 1987. Seus trabalhos têm a finalidade de dar voz às minorias, preservar a história e as raízes da cultura popular do Nordeste.

Filmografia

 1986 - Caldeirão Da Santa Cruz Do Deserto
 1993 - A Saga do Guerreiro Alumioso
 1996 - Corisco & Dadá
 1999 - A TV e o ser-Tao
 1999 - Pedro Oliveira, o Cego que Viu o Mar
 2001 - Juazeiro, a Nova Jerusalém
 2003 - Lua Cambará, Nas Escadarias do Palácio
 2006 - Cine Tapuia
 2007 - Patativa do Assaré - Ave ou poesia
 2008 - Siri-Ará

Fonte: Wikipédia

Outros aspectos do Geopark Araripe (1ª parte) – por Armando Lopes Rafael


GEOPARK: encontro da ciência com os ritos, mitos e lendas do Homem-Cariri

“Poucas regiões do Brasil têm, como o Cariri, uma natureza tão pródiga, uma história tão rica e uma cultura popular tão diversificada. Festas, folguedos, ritos, mitos, lendas, narrativas orais, artesanatos, mestres brincantes e de ofício, santuários e sítios sagrados, marcos históricos e conjuntos arquitetônicos, sítios naturais e redutos ecológicos, tradições culinárias, passeios e belas paisagens, feiras e mercados, enfim, um número infinito de possibilidades e atrações a serem exploradas. Junte-se a isto uma vida intelectual e acadêmica em pleno crescimento, com sólidas instituições públicas, universidades, artistas, escritores e um plantel de profissionais técnicos e liberais da melhor qualidade”. (Oswald Barroso)

Resgatar o passado, reinventar o presente

Incentivar as mudanças tecnológicas e, simultaneamente, investigar e preservar as tradições populares, eis o desafio da Universidade Regional do Cariri. O Geopark Nacional do Araripe, que a URCA planejou, insere-se neste desafio. A sua concepção não contempla apenas o desenvolvimento autossustentável da Chapada do Araripe. Vai mais além. Inclui a manutenção do potencial ecológico, geológico, histórico e das tradições de uma região considerada das mais ricas do Brasil, no que diz respeito à cultura popular.

Apesar do processo de modernização por que vem passando a sociedade do Cariri, insuflado pelos ventos da globalização que atinge todos os setores da vida, as tradições populares do Sul do Ceará, e seu entorno, não desapareceram no modo de ser e de viver dos seus habitantes. O povo, de forma inconsciente, vem atendendo ao apelo da UNESCO, no sentido da preservação do patrimônio imaterial, este, infelizmente, muitas vezes, relegado em relação à evolução tecnológica. Nossas tradições continuam presentes no cotidiano dessas populações, num processo em transformação, é verdade, mas ainda latentes. Exemplos dessas presenças são as xilogravuras e as poesias narrativas, populares, impressas, mais conhecidas como Literatura de Cordel. Ambas constituem-se em forte componente das tradições populares do Cariri.
Um dos grandes divulgadores da xilogravura e da Literatura de Cordel, no passado, foi Tipografia e Editora Lira Nordestina, localizada em Juazeiro do Norte, que exerceu influente papel de comunicação, tanto no meio citadino como no rural, de vasta área nordestina. Lamentavelmente, ao longo dos últimos anos, a Lira Nordestina foi perdendo sua importância para outros modernos meios de comunicação. A Universidade Regional do Cariri tomou a si a tarefa de revitalizar essa tipografia, resgatando-a como o maior polo difusor de literatura popular de folhetos de cordel e xilogravura do Brasil.

A Lira Nordestina, fundada em 1926, estava praticamente abandonada, quando foi incorporada à URCA. Após o retorno do acervo, dos equipamentos e dos artesãos da Lira e dentro da sua política de valorizar a cultura popular, a Universidade Regional do Cariri reinstalou a Tipografia-Gráfica no Campus do Pirajá, em Juazeiro do Norte. Em seguida, procurou ajuda financeira da Caixa Econômica para reativá-la. Depois de conseguir este apoio financeiro, através de concorrência pública, nacional, a Lira Nordestina foi selecionada, recentemente, pelo Ministério da Cultura, como um dos “Pontos de Cultura do Brasil”.

No Vale do Cariri, a tradição popular mantém-se também através da dança e da música. As bandas cabaçais, herança da musicalidade dos índios Cariris, perduram até os dias atuais. A referência mais antiga às bandas cabaçais pode ser encontrada no livro do naturalista escocês George Gardner (“Viagem ao Interior do Brasil”. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942. 468 páginas).

Ele esteve no Sul do Ceará, em 1838. Na sua passagem pela Vila Real do Crato (localidade nascida de um aldeamento dos índios Cariris), Gardner registrou: “toda a população da vila chega a dois mil habitantes, na maior parte índios ou mestiços dele descendentes”. Ainda em Crato, Gardner teve oportunidade de assistir aos festejos de Nossa Senhora da Penha, Padroeira da cidade, citada por ele erroneamente como Nossa Senhora da Conceição. As manifestações da cultura popular, presentes nos festejos religiosos, não agradaram ao escocês. Foi o caso da banda cabaçal, assim descrita pelo naturalista: “(…) uma banda de música, com dois pífanos e dois tambores, mas a música era desgraçada…”

Antigamente, a banda cabaçal era composta por dois pífanos e dois tambores (zabumbas). Hoje, geralmente, ela é formada por dois pífanos, uma zabumba, tarol e pratos. A mais famosa banda cabaçal do Cariri é a dos Irmãos Aniceto. Seus componentes, residentes num subúrbio de Crato, mantêm a tradição transmitida pelo pai, que a aprendeu com descendentes dos índios Cariris. A terceira geração dos Aniceto já começa a incursionar nesse ofício.

Outros aspectos do Geopark Araripe (2ª Parte) -- por Armando Lopes Rafael


As romarias ao Padre Cícero (um santo não-oficial da Igreja Católica), feitas por populações sertanejas que acorrem, em certas datas do ano, a Juazeiro do Norte são outro forte componente da cultura regional. (Na foto ao lado a Procissão da Romaria das Candeias)

Essas romarias começaram a acontecer no final do século XIX, por conta da fama de santidade e de “milagreiro” atribuída ao Padre Cícero. Ao longo do seu processo evolutivo, elas incorporaram e conservam até hoje alguns rituais, praticados nas três fases da peregrinação: a viagem, a chegada e o retorno do romeiro.

O principal componente é de caráter religioso: participação nas missas e procissões; confissão dos pecados e a comunhão reparadora; visita aos lugares considerados sagrados pelo romeiro– Capela de N.Sra. do Perpétuo Socorro (onde está sepultado o Padre Cícero), Santuário da Mãe das Dores, igrejas de São Francisco e do Sagrado Coração de Jesus. Também é considerado um local sagrado pelos romeiros a colina do Horto (onde ficam a grande estátua do Padre Cícero e a pedra do “Santo Sepulcro”), visita obrigatória aos que vêm renovar sua fé na cidade-santuário.

Por outro lado, o sagrado convive com o profano. Os romeiros executam uma coreografia, não ensaiada, com chapéus de palha na cabeça e rosários no pescoço. Soltam fogos. Assistem ás exibições das rabecas na Dança de São Gonçalo. Compram, no comércio e nas feiras ao ar livre, imagens de santos, peças artesanais, remédios fitoterápicos e produtos alimentícios, típicos do Cariri, como a rapadura e a “batida” (ambas subprodutos da cana-de-açúcar), doces de buriti, dentre outros.
Como bem definiu o escritor Gilmar de Carvalho: Diante de tanta fé e de tanta festa, que diferença faz que ele (Padre Cícero) seja ou não santo oficial? Poderá haver maior homenagem do que essa canonização espontânea, essa devoção que cresce, cada vez mais, essa cidade que transborda alegria, bodejando salmos, esperando sinais, na atualização desse momento maior que é epifânico, encontro do homem com o divino?

A URCA, ao longo dos seus 20 anos de existência, não se manteve estanque ou isolada das comunidades localizadas no território da sua atuação. A Universidade sempre procurou compartilhar com a sociedade os conhecimentos produzidos na Academia. Para tanto, promoveu simpósios, seminários e palestras. Firmou convênios e realizou pesquisas. E até mesmo quando seu Conselho Universitário outorgou a alguma personalidade o título de Professor Honoris Causa, fê-lo sempre em reconhecimento à contribuição que o homenageado deu para o conhecimento e divulgação do homem e do meio nordestino.

No caso específico do Geopark Nacional do Araripe, uma das preocupações da URCA tem sido o resgate da herança e o redescobrimento do elemento nativo, oriundo da etnia Cariri. Sabe-se que a contribuição indígena foi – e continua sendo – importantíssima para a variegada composição das ricas manifestações populares da região.
O homem da Chapada do Araripe (foto abaixo à direita ) é vinculado umbilicalmente a sua terra, semelhante a uma árvore, cujas raízes sugam do chão os nutrientes para viver.

 A obrigação de a Universidade divulgar essa profunda ligação homem-terra, o que, aliás, já vem sendo feito. Urge difundir os saberes e fazeres do Homem-Cariri. Aprender seu conhecimento sobre a flora, o processo da escolha da melhor fibra para a produção de peças artesanais – como a peneira e a urupema – e conhecer o barro utilizado para produzir o melhor pote.

Resgatar as atividades das Casas de Farinha, locais onde os operários entoam canções plangentes, em meio ao trabalho das “raspadeiras” e dos “puxadores” de roda. Outras atividades do homem caririense estão a merecer esse resgate, como o vaqueiro da Chapada, os cortadores da pedra laminada de calcário, os produtores do carvão da serra…
Ritos, mitos e lendas
Na história primeva do Vale do Cariri, ganhou destaque uma cachoeira – localizada no município de Missão Velha – que era apresentada como um lugar misterioso e sagrado para os primeiros habitantes do Vale: os índios Cariris. Estes, naquele aprazível sítio, interagiam com a natureza. Na cachoeira existe a Pedra da Glória, donde, ainda hoje, a voz humana é projetada com sons metálicos. Dizem que essa pedra era o local escolhido pelos silvícolas para suas cerimônias místicas.

O imaginário popular conservou muitas lendas, a partir da Cachoeira de Missão Velha (foto à direita) Falava-se na existência de passagens subterrâneas que, partindo do local, levariam a castelos encantados, cheios de tesouros. Traços da cultura da Península Ibérica? Na realidade, um contraste com o estado de penúria de parte da população que vivia e vive marginalizada do exercício da cidadania. Nos dias atuais, esta Cachoeira virou local para encontros dos adeptos do Candomblé, religião introduzida no Brasil pelos escravos negros, e que vem crescendo, ultimamente, até nas pequenas cidades do interior brasileiro. Esta outra realidade do presente, da qual o Cariri não pode fugir.

Quem sabe, vem daí esta interação – que perdura até os dias de hoje – entre o Homem-Cariri e a terra que lhe serve de habitat. Dotada de belas paisagens – emolduradas pela Serra do Araripe – a Região do Cariri é muito mais do que um vale fértil, privilegiado de águas abundantes, onde predomina o verde das matas e dos canaviais. Aqui foi plasmada uma cultura sui generis, formada por duas correntes. A primeira é remanescente das manifestações culturais dos índios Cariris. A segunda, que se fundiu com a primeira, teve origem na Península Ibérica e foi trazida pelo colonizador branco. Desta última conservamos as festas do Pau da Bandeira, que abrem as novenas dos padroeiros das cidades do Cariri. Uma coisa uniu essas duas correntes: a simbiose com a terra, que influenciou e modificou os costumes importados.
             

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Apresentando o livro de Cláudia Pierre -- por Armando Lopes Rafael

(Excertos do texto da apresentação do livro “Culpa, Cura e Relacionamento”, de Cláudia Pierre, feita por Armando Lopes Rafael, em solenidade ocorrida no Encosta Hotel da Serra, na noite do último dia 8)

Semanas atrás, fui surpreendido com a publicação do primeiro livro de Cláudia Pierre (foto ao lado), epigrafado de Culpa, Cura e Relacionamento. É este livro que tenho a honra de apresentar nesta noite.
       Ao lê-lo, vi que tinha razão o jornalista alemão Peter Seewald quando escreveu no  seu livro “Como voltei para Deus”: 

“Nas décadas passadas antigas virtudes sofreram uma rápida desvalorização. A globalização nivelou pela mesma medida culturas inteira. Fomo-nos afastando continuamente dos antigos padrões básicos de valores, instituições e modos de relacionamento. O mundo secular, no entanto, não pode sobreviver sem tradições, regras, ritos, espiritualidade. E até pessoas afastadas da Igreja já consideram bárbara uma sociedade inteiramente descristianizada. O debate ético está (pois) em andamento...”.



    Agradável a leitura do livro Culpa, Cura e Relacionamento  – que veio alimentar esse debate ético, em andamento, dentro do amplo tema da  espiritualidade.     É comum a pergunta:  O que é espiritualidade?

     A partir da leitura deste livro de Cláudia Pierre poderíamos tentar defini-la, de forma sintética,  como tudo o que tem por objetivo as coisas do espírito – elevação, transcendência, sublimidade – ou qualidade do que é espiritual. Espiritualidade é,  ainda,  o conjunto de princípios que orientam a vida moral e religiosa de uma pessoa.

       Este livro de Cláudia Pierre é, pois,  um contributo à busca do caminho espiritual, ou seja, quando  nos dispomos a nos reconectar com a Luz do Criador, tendo como meta o equilíbrio de nossa vida, apesar das nossas limitações humanas. Nessa busca as pessoas não são rotuladas; Não somos cristãos, budistas ou judeus; Nem masculino ou feminino. Essa busca tem como finalidade nos ajudar a ser cada vez mais livre da matéria e senhores dos nossos instintos. 

        Ao concluir a leitura do livro de Cláudia, fiquei sabedor de que a espiritualidade possui a sua ética – no reconhecimento da culpa, na busca da cura, no melhoramento do relacionamento com os nossos semelhantes.
           Assim, podemos resumir a ética como sendo a confiança, respeito, unicidade, integridade. Estas seriam as palavras-chave, os eixos centrais de alguns caminhos da ética e da espiritualidade. Práticas constantes do bem.

          Como a autora bem exemplificou numa citação:

“No mundo material, quando damos algo, tornamo-nos mais pobres, ficamos desprovidos desse algo que demos. A partilha de objetos materiais é uma subtração. A partilha no mundo das ideias é uma soma, melhor, é uma multiplicação. Quanto mais damos, mais temos, pois o que damos não perdemos, mas permanece conosco e continua de um modo reforçado”.

   Neste conceito emitido pela autora, compreende-se o significado da  espiritualidade. Ele é amplo. Não se restringe apenas aos conceitos religiosos. Espraia-se nas  ciências. Repercute em  outras dimensões humanas e nas da Natureza.

     O livro de Cláudia Pierre – modesto como a autora – mas  profundo de conteúdo permite-nos detectar a importância da espiritualidade como uma das fontes de inspiração do novo; da busca do sentido da vida e  da forma de administrar o nosso relacionamento com o semelhante.

      Gostaria de finalizar  minhas palavras, citando um pensamento do Dalai-Lama que bem poderia ter sido escrito por Cláudia Pierre:

“A essência de toda vida espiritual é a emoção que existe dentro de você, é a sua atitude para com os outros. Se a sua motivação é pura e sincera, todo o resto vem por si. Você pode desenvolver essa atitude correta para com seus semelhantes baseando-se na bondade, no amor, no respeito, sobretudo na clara percepção da singularidade de cada ser humano”. 
           
(Texto e postagem de Armando Lopes Rafael)

O Sertão com nova cara. – Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Observando o gado pastando, o movimento suave da brisa balançando as árvores, o açude com sua água verde e tranqüila, acalmando-me do stress da cidade, eu chego à conclusão de que tudo continua igual no tocante a natureza, nesse sertão localizado no município de Bodocó - Pernambuco. Porém mudanças recentes aconteceram na vida das pessoas. Tudo é muito seco, melhorando a paisagem para o tom verde na época das chuvas.

Há quarenta anos, eu vinha algumas vezes passar fins de semana aqui com a família de Carlos juntamente com a minha, quando ainda éramos namorados. Sempre achei o lugar agradável e tranqüilo, embora não houvesse o menor conforto.

A casa de taipa, alpendrada, ainda é a mesma. Agora, olhando ao redor da fazenda, vejo o quanto melhorou a vida das pessoas que ali residem, após a instalação da energia elétrica, através do programa “Luz para Todos”, iniciado no governo Lula e continuado na gestão Dilma.

Antes da luz elétrica, os banhos eram de açudes, os banheiros no mato, a luz era de candeeiros e velas. As mulheres dos moradores pegavam água no açude, transportando-as em latas, nas cabeças. Lavavam louças nas bacias tirando a água do pote. Hoje existe água encanada em todas as casas, facilitando a vida de todos. Tudo antes era muito seco, mas agora com água canalizada, vemos alguns coqueiros e outras fruteiras surgindo.

Com a chegada da energia elétrica, cada casinha por mais pobre que seja, tem a sua antena parabólica sintonizando a televisão com imagem perfeita, o que contribuiu para informar, mudar a maneira de vestir e de falar das pessoas.

Em vez dos vestidinhos de chita, as mocinhas e mulheres do lugar se vestem com shorts, saias e calças jeans. A alimentação melhorou com o programa Bolsa Família. Além do que esse programa exige que os pais coloquem os filhos na escola. A prefeitura de Bodocó fornece transporte para os estudantes se dirigirem até àquela cidade para freqüentar as aulas. Antes, os filhos dos agricultores eram analfabetos. Atualmente todos têm oportunidade de terminar o ensino médio. Ou seguir mais adiante, conseguindo emprego melhor.

Assistindo à celebração da Palavra numa comunidade próxima, realizada pelos próprios moradores, admirei-me das leituras serem feitas por crianças, que lêem muito bem. Como o padre da cidade de Bodocó só pode celebrar a missa uma vez a cada dois meses, os próprios camponeses assumem a celebração.

Essas observações não têm nenhuma conotação política, não sou filiada a nenhum partido político, porém como cristã admiro os governantes que trabalham para melhorar a vida dos pobres.

Será utopia, um mundo onde todos tenham “voz e vez”? Quem não sonha com uma sociedade onde prevaleça a justiça e a paz para todos? Enquanto esse dia não chega, podemos torcer e rezar, para que os governantes façam a diferença ajudando a promover um Brasil onde exista mais justiça social. Afinal de contas, somos todos filhos de Deus e “o sol nasceu para todos.”

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

Macário de Brito Monteiro: uma homenagem a um amigo que se foi – por Pedro Esmeraldo

Quando iniciei o emprego no antigo DCT, habituei-me a seguir a rota da outrora Rua do Fogo, hoje denominada de Rua Senador Pompeu. Admirava-me do encontro matinal de um grupo de cidadãos de bem que permanecia lá durante alguns minutos, antes dos seus horários de trabalho.

A princípio, atravessava aquela artéria urbana com acanhamento. Aos poucos,  fui perdendo a inibição e  aproximando-me daquelas pessoas, tentando enquadrar-me ao rol daquela turma. Enfrentei o grupo com confiança e serenidade; esforcei-me para encontrar lá um ambiente compreensível e agradável, proporcionando-me integrar com os novos amigos.

Era um grupo de pessoas brincalhonas, onde aconteciam brincadeiras sadias, inofensivas, deixando todo tempo para  conversas amenas. Tudo que eu quero dizer é que havia coesão entre aqueles amigos. Não se via, nem havia malícia, mas gestos de pessoas corretas, praticantes do bom senso, estimuladoras da arte do racionalismo social.

Lembro-me que havia entre eles uma pessoa de grandeza espetacular, tanto pelo seu caráter, como pela maneira de agir. Por isso senti-me integrado ao grupo que permaneceu por lá há cerca de quarenta anos. O cidadão a que me refiro sempre agia com simplicidade e muita sinceridade. Não estimulava a discórdia entre aqueles amigos. Não zombava de ninguém. Era bondoso e prestativo. Tratava todos com atenção profunda e respeito. Era fiel e marchava no caminho firme. Tinha o costume de evitar a desatenção para com quem quer que fosse...

Agora quero ressaltar o grande comportamento dessa pessoa digna merecedora de aplausos, que só fazia o bem e estimulava – com os seus exemplos –  todos a seguirem seu caminho.

Refiro-me a  notável figura de grande valor moral, possuidor de espírito prestativo e solidário, econômico no uso das palavras, que foi Macário de Brito Monteiro. Era ele descendente de importantes clãs caririenses que deram homens da envergadura de José Pinheiro Bezerra de Meneses – conhecido como Capitão Zeco dos Currais,  e de  Macário Vieira de Brito, nascido na Ponta da Serra, neste município.

Não tenho dúvidas em afirmar que Macarinho (como sempre o tratávamos),  foi com toda certeza um dos maiores líderes da sociedade cratense.

Nunca se viu Macarinho queixar-se ou falar mal dos amigos. Era comedido no agir. Não maltratava ninguém e nem discutia por qualquer brincadeira. Era um senhor observador; não respondia aos insultos; preferia dar uma tapa com mão de luva aos insultos dos intrigantes aos quais respondia com o silêncio.

Para mim, dificilmente há outra pessoa semelhante a Macário de Brito Monteiro. Se Deus permitir, creio que algum dia poderá aparecer outro –  mas não igual a ele  –  imitando o seu gesto, pelo menos em parte, além de dotado de uma bondade natural.

Agora olho para o céu peço ao Bondoso Deus que afaste esses “ intrujões” que vez por outra aparecem naquele local e que não permaneçam mais cutucando os cidadãos com palavras ofensivas, abalando a moral de qualquer pessoa que por lá compareça.
Por fim, algum só tem a casca, e o miolo podre.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Figuras que marcaram a cidade de Crato

Madre Esmeraldo – por Huberto Cabral


Faleceu nas primeiras horas de 20 de novembro de 2007, em Crato, Madre Esmeraldo. Segunda filha do casal José Pinheiro Gonçalves e Maria Santana Esmeraldo Pinheiro, Madre Esmeraldo nasceu aos 10 de março de 1927, em Crato, Ceará. Recebeu o batismo aos 12 de março de 1927, na capela de Santa Teresa, oficiado por seu tio, Monsenhor Pedro Esmeraldo que, juntamente com a sua avó, Amélia Pinheiro Teles, foi seu padrinho. Sob a presidência de Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, 1º bispo de Crato, Madre Esmeraldo recebeu o sacramento do Crisma, na catedral de Nossa Senhora da Penha, aos 09 de janeiro de 1928, sendo amadrinhada pela sua tia, Pia Esmeraldo Cabral.

Ingressou na Congregação das Filhas de Santa Teresa de Jesus, aos 30 de janeiro de 1949. Em 02 de outubro do mesmo ano foi admitida ao noviciado e em 03 de outubro de 1950, emitiu os seus primeiros votos. Em 03 de outubro de 1955, Madre Esmeraldo pronunciou perpetuamente os seus votos de pobreza, obediência e castidade. Segundo o livro de registro da Congregação, Madre Esmeraldo foi o n.º 93 e pertenceu a vigésima quarta turma. Madre Esmeraldo viveu com fidelidade a sua Consagração nas seguintes comunidades e nos diversos trabalhos:

Colégio Santa Teresa de Jesus, em Crato, onde exerceu o magistério no ano de 1950.
De 1951 a 1953 esteve em Fortaleza cursando a Faculdade de Filosofia no curso de Letras Neolatinas, oportunidade em que permaneceu no Pensionato Nossa Senhora do Carmo, naquela capital. De 1954 a 1962 esteve novamente no Colégio Santa Teresa de Jesus, quando exerceu o magistério, foi Mestra de Disciplina, assistente da Juventude Estudantil Católica, JEC e Diretora do Colégio. Exerceu a função de ecônomo geral da congregação durante 06 anos.

A partir de 1964 passou a residir na Casa de Caridade do Crato quando assumiu a Caritas diocesana e os trabalhos no bairro Seminário, e no próprio Seminário. Fundou o grupo dos idosos, de casais, adolescentes e pastoral da criança. Foi membro do conselho paroquial das paróquias de São José e do Sagrado Coração de Jesus.

O público alvo de sua missão eram as crianças e os idosos. A disposição para tanto, encontrava no encantamento de sua vocação específica: amar e servir ao mais pobre.
Desde sua infância dedicou-se aos sacerdotes e aos seminaristas, época em que seu pai os acolhia no sítio Belmonte para repouso e recuperação de saúde. Nunca mais deixou de olhar com carinho para estes servos e ou futuros servos do Senhor. Exerceu função de pioneirismo quando o reitor do seminário abriu a Obra das Vocações Sacerdotais em Crato. Seu trabalho profícuo e vitorioso evidenciou-se naquela década de 1950.

Durante a enfermidade, Madre Esmeraldo, demonstrou ter clareza do significado do sofrimento cristão: "participação no sofrimento de Cristo". Compreendeu as palavras de Jesus: "é permanecendo firme que ireis ganhar a vida".
                                                                                                                                              

Os "ateus" da Universidade -- por Armando Lopes Rafael


Ou a vida na Terra teve uma origem integral como a deusa Atena que saiu inteira da cabeça de Zeus ou ela teve origem em algum outro lugar” – David McKay, da Nasa.
A partir de  2005, depois da minha aposentadoria no Banco do Nordeste do Brasil, exerci por dois anos e meio o cargo de Assessor de Comunicação da Universidade Regional do Cariri. Foi uma experiência nova e gratificante para mim, uma pessoa proveniente da atividade financeira. E foi uma experiência que me trouxe muitas surpresas.
  
   Uma dessas surpresas foi descobrir que nas universidades públicas brasileiras – compostas por pessoas talentosas e inteligentes – sobreviviam segmentos ideológicos – segmentos esses possantes e ruidosos –, que ainda acreditavam e pregavam velhos e superados métodos de planejamento e gestão estatais para a condução da economia.  E isso,  mais de vinte anos depois da  queda do Muro de Berlim, que simbolizou a falência do socialismo real.

   Também me surpreendeu o fato de que muitos do meio acadêmico proclamavam – e o faziam  até com certa ufania – sua condição de ateus ou agnósticos. Essas pessoas recorriam a velhas ideias e  velhos livros para defender suas opiniões.

    E eu ficava me perguntando por que essas pessoas – talentosas e inteligentes – pareciam desconhecer as recentes descobertas astronômicas, as quais  provaram que o universo não é só esta nossa galáxia – o nosso velho, imenso e conhecido “universo” que tem 80 a 100 mil anos luz de diâmetro.

     Cientistas já haviam descoberto que há bilhões (repito, bilhões) de galáxias no universo e que sua velocidade varia de 300 a  1 milhão e 800 mil quilômetros por segundo. Descobriu-se também que elas se distribuem em grupos de galáxias, e que esses grupos se afastam uns dos outros a essas velocidades fantásticas.

   Aliás, vale o registro, dessas descobertas nasceu a teoria da exploração primeva, também chamada de explosão primordial (como a denomina cientistas franceses), mas chamada pelos norte-americanos de teoria do Big-Bang, nome que prevalece hoje em dia. A partir dessas descobertas, nossa concepção de universo mudou muito. Desconhece-se hoje os limites do universo, sabe-se apenas que ele continua  em plena expansão, embora dê a impressão de que está parado.

   Daí concluirmos que o ser que fez tudo  isso tem um poder infinito. Deus é infinito. E fez o universo assim, tão imensamente grande, para que o homem formasse uma ideia de seu poder infinito. Diante dele o homem não passa de um minúsculo ser.

(Texto e postagem: Armando Lopes Rafael)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nas nuvens...


Sonhos de algodão



Mais um vôo. Pela janela encanto-me com as nuvens e olho-as como se fossem calmas locuções de meu pensamento. No vazio do dia, no vácuo de tudo, as nuvens são nesse momento, frontes de um universo deslumbrante. 

Permaneço calada e em silêncio as vejo deslizar nesse balé luminoso, como sonhos de algodão de uma brancura unânime. 

Me recomponho como um sopro de desejo que modela a vida, como uma idéia que transita pelo pensamento. Sinto-me, então, unificada e continuo a observar as nuvens no seu suave dinamismo. 

Percebo, nessa hora, que sou mais que um corpo, que sou mais que um sonho que se eleva ao espaço inteiro, à luz ilimitada desse céu. Sinto-me ave planando em torno dessas nuvens, no espaço onde eu posso depositar esse sonho transparente.

Claude Bloc

Os suspiros - Emerson Monteiro

Quando ouço alguém suspirar profundo, lembro de um provérbio popular destinado a essas situações, que diz: Quem suspira não tem o que deseja. Bela sabedoria humana perpetuada nessas tiradas impagáveis que o tempo transmite dos pais aos filhos, no vagar dos calendários. Vem pela tal oralidade, boa e ouvida, repassando o conhecimento decantado na mais fina literatura das pessoas que não têm a literatura oficial.

Bom, mas tratar disso indica outras colocações nestas palavras, onde os suspiros, aqueles respirares pespegados de emoção que saem sentidos do coração e esvoaçam no correr das jornadas. De quando se acorda com o peito dolorido das tantas insatisfações, procuras frustradas e esperanças encravadas lá por dentro feitas crianças guardadas que dormem sem querer logo nascer. Sujeitas até nem querer nascer mais, quando os suspiros encruaram e vêm bem fortes, chamando a atenção dos companheiros de quarto que andam ali perto às vezes até suspirando, gemendo e chorando, nesse vale das lágrimas quentes da longa estrada do chão.

Orar lembra, sim, este assunto. Invés de andar suspirando toda hora, há criaturas que rezam primeiro; de terço na mão, balbucia os lábios, olhos conformados e murchos de chorar. Esquecem mesmo de suspirar, partem para a ação de pedir aos santos, a Deus, os lenitivos que aguardam pacientes.

Quase ninguém, neste mundo, entretanto, pode usar a prerrogativa de andar de barriga cheia no que tange isso de felicidade, quando conformação virou fruta rara, posição firme dos apanhados experientes, os chamados realistas. Poucos respeitam a pulsação da natureza e ajeitam viver só no espaço das quatro linhas dos próprios limites, longe de pretender além do que lhe merece.

Os ensinos sagrados repetem as tais necessidade soberanas do respeito às leis que regem a existência, e não contrariam aquilo que recebem de direito. Contudo poucos agem assim. No entanto que jamais devam ultrapassar a conformação, sob pena de virar desilusão e desconforto.

Enquanto demorar a correspondência dos pedidos, suspirar compõe o quadro, e gemer alto pelo menos alivia o que a alma sente e a boca evita transformar nas palavras. Nesse meio turno, os suspiros cumprem a doce função das linguagens quase silenciosas, a demonstrar os sentimentos guardados a sete capas das saudades e dos sonhos queridos que permaneceram misteriosos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

PAUSA PARA UM DOMINGO DE SOL - Por Claude Bloc

Encantadora Liberdade

Não sei mais dizer o que são férias. Faz tempo que estou sempre trabalhando em alguma coisa ou outra... Não sei mais o que é “fazer nada”, ter nada marcado. Se nada me resta a fazer, encho meu tempo de poesia.

... E sigo em frente, pois meu percurso sempre anda sujeito a alterações... Posso até eliminar alguma escala nessa trajetória, por falta de tempo para ir aos tantos locais que desejo ver, conhecer, revisitar.

Às vezes, sinto vontade de conduzir a noite e reverter o dia. Seguir viagem com mala pequena, reduzida ao mínimo essencial: óculos escuros, livros, coisas que me prendem o pensamento.

Finalmente, quero sentir esse momento de abrir os braços e sorrir para essa encantadora liberdade, essa vontade de dormir sob um céu estrelado e cancelar essas idas e regressos que já me cansam. Fazer pausas e ganhar forças. Dar novos passos e ter descansos. E nunca, deixar o Crato fugir de mim. Mesmo se vou por outro caminho. 

Claude Bloc

Os Santos: Dom de Deus ao Mundo – por Ângela de Fátima Coelho (*)


Na sequência: Os pastorinhos de Fátima, Madre Teresa de Calcutá, a menina Benigna Cardoso da Silva, de Santana do Cariri e João Paulo II 

Santos – santidade: talvez as palavras já estejam gastas ou tenham perdido força. O desgaste do uso e a desvalorização daquilo para que remetem banalizou referências de que precisamos e apelos que não podemos dispensar. Num mundo cinzento pela ausência de ideais, os santos – amigos de Deus na história humana –  iluminam o nosso caminho pelo seu testemunho de amor a Jesus Cristo e de confiança na presença transformadora do Ressuscitado.

Podemos dizer que cada um deles viveu, sob a ação do Espírito Santo, um traço específico do Senhor, como se em cada um deles uma página do Evangelho se transformasse em vida, até chegarem “à medida completa da plenitude de Cristo” (Ef 4,13). Os santos fizeram caminho antes de nós, viveram uma realidade semelhante à nossa, partilharam as dificuldades e seduções da nossa condição humana e aprenderam a ler os sinais de Deus na história.

Agora, junto de Deus, acompanham-nos no percurso de vida que cada um de nós tem de fazer: com eles aprendemos a ler os sinais de Deus e da Sua presença na nossa história pessoal.

(*) Ângela de Fátima Coelho, postuladora da causa de canonização dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, a quem Nossa Senhora apareceu em Fátima