Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
.....................
claude_bloc@hotmail.com

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mando-te um doce - Por: Alexandre Lucas



Mando-te um doce
temperado em azeite
Para oferenda de orixá
Mando-te águas de Iemanjá
A fita do padim
O cheiro do jasmim
Os colares de guia
Para saudar a sabedoria
Mando-te a foice
Para abrir caminho
O manifesto comunista
Para sentir o cheiro pisado da terra
E a sensibilidade que nos impera
Mando-te um do doce...
Coberto de prazer
Recheado de quererquerer
Até o galo cantar pra o amanhecer.

Alexandre Lucas

( O autor permitiu a publicação deste texto e qualquer outro de sua autoria)

PARABÉNS, BRUNO PEDROSA !

Para o amigo de tantas ARTES


A arte maior de fazer AMIGOS


Parabéns, Bruno Pedrosa. 
Daqui do Brasil ,
lhe mandamos nosso abraço e a amizade de sempre...

Sempre Sucesso!
Sucesso sempre!

Pérola nos Bastidores - por Claude Bloc

O tempo tecendo o tempo
O tempo tecendo a hora
Não sei se tenho mais tempo
Não acho mais tempo agora...

Não sei se há contratempo
Na hora de escrever
Mas na hora que escrevo
O tempo passa a correr...


Claude Bloc

Curtas - XVIII - Aloísio

Enquanto tropeço em meus problemas,
O tempo corre.
Quando ando me divertindo,
O tempo voa.
Aloísio

Jornal O Povo chega com força ao Cariri Cangaço



JORNAL O POVO CHEGA COM FORÇA AO CARIRI CANGAÇO
Aderbal Nogueira, Manoel Severo e Diretores do O Povo: Plínio Bortolotti - Institucional e Mariza Quinderé - Comercial
Aconteceu na última semana, dia 04, reunião de trabalho entre os representantes do Cariri Cangaço; Manoel Severo - Curador, Aderbal Nogueira - Conselheiro; e a Diretoria do jornal O Povo; jornalista Plínio Bortolotti - Diretor Institucional, Mariza Quinderé - Diretora Comercial e Linda Tavares - Gestora de Mercado Nacional e Projetos Comerciais.
Na oportunidade foi fechada a parceria entre o jornal O Povo e o Cariri Cangaço em sua edição 2011. O evento que acontece no próximo mês de setembro , na Região Metropolitana do Cariri, promete reunir mais de 150 personalidades do universo da pesquisa de temas nordestinos para mais seis dias de intensa programação de conferências, visitas tecnicas, apresentações artísticas, oficinas, mostra de teatro, cinema e vídeo, lançamento de livros, Latada Cariri Cangaço, dentre outras atividades.

Na oportunidade os Diretores do Jornal O Povo conheceram o Projeto Inicial para 2011; o tema principal, os sub temas e todos os desdobramentos do evento em sua terceira edição, com Conferências , Debates, Oficinas, Visitas Técnicas, Mostra de Vídeo Documentário, Lançamento de Livros, além da tradicional Latada do Livro Cariri Cangaço e as mais tradicionais manifestações da arte e floclore do cariri cearense. A parceria se dará tanto a nível institucional, como a nível editorial.



Para Manoel Severo, curador do evento, "nossa responsabilidade aumenta e muito com a chegada do O Povo, um dos grandes veículos de comunicação do nosso país, isso tudo  nos enche de satisfação e alegria, agora é continuar trabalhando, sempre acreditando que podemos efetivamente construir um grande instrumento de debate, aprofudamento, fortalecimento e acima de tudo divulgação das coisas de nosso nordeste, O Povo é uma conquista de toda família Cariri Cangaço".


VEM AÍ A REVISTA CARIRI CANGAÇO 2011 - EDIÇÃO DE LUXO!
Linda Tavares, Manoel Severo e Mariza Quinderé
Um dos pontos altos do Cariri Cangaço 2011 será o lançamento da Revista de Luxo - Cariri Cangaço; uma publicação comemorativa ao evento; editada pelo Grupo O Povo de comunicação. A revista trará a história da criação do Cariri Cangaço, suas várias etapas, os parceiros, os  principais momentos; matérias de pesquisadores e escritores renomados, de todo o Brasil, além de tudo o que acontece no mundo do Cariri Cangaço.
Para o Conselheiro do Cariri Cangaço, Aderbal Nogueira, "sem dúvidas nenhuma que o O Povo vem acrescentar ainda mais credibilidade ao já consagrado Cariri Cangaço, a cobertura editorial e o apoio institucional é muito importante para continuarmos a consolidar o Cariri Cangaço como um grande fórum de debates e estudos de temas da região, e ainda contando com o lançamento da espetacular revista Cariri Cangaço, toda produzida pela editoria do jornal O Povo, será sem dúvidas um marco em nosso evento".


tudo isso e muito em: cariricangaco.com

Gabriel Henrique
Produção Cariri Cangaço

                                                          


(recebido por e-mail)

Uma questão de tempo – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Umas das desculpas mais esfarrapadas que, se costuma dar quando não se deseja realizar alguma tarefa, principalmente por falta de interesse é “não tenho tempo.” Como se o tempo fosse uma propriedade nossa ou um vilão a comandar nossa vontade. Alguns dizem que o tempo não existe. Se assim fosse teríamos que inventá-lo. Aliás, eu acredito que o tempo, assim como a Geometria realmente não existiam na terra em formação, sem seres vivos. Foi uma criação do homem. Se com o conhecimento geométrico edificamos o mundo como hoje o conhecemos, com o tempo movimentamos nossas vidas. O tempo é uma grandeza física referencial na quantificação do movimento. Mas o tempo varia de acordo com a percepção sensorial de cada pessoa. Quando crianças, o ano letivo demorava muito a passar. Já as férias de fim de ano esvaiam-se em um piscar de olhos. Depressa o tempo voltava a se arrastar, como um carro de boi carregado de cana de açúcar subindo uma ladeira.

À medida que vamos envelhecendo a nossa percepção de tempo muda e, este nos parece passar mais rapidamente. Recentemente soube por notícias, que o tempo não está mais rápido, o que alterou foi o movimento da terra em torno do sol, e o deste, arrastando a terra em sua viagem ao infinito. E é isto que nos dá a idéia dessa rapidez. Será? Por via das dúvidas, o sol poente do mês de julho que incidia na janela do meu quarto formando um ângulo reto há dez anos, projeta agora uma sombra com ligeira inclinação.

Há pessoas que dependem do tempo. Entre elas o relojoeiro. Mas não há um meio onde o tempo seja mais precioso do que na televisão. Um minuto de anúncio comercial custa uma fortuna. Aliás, em um minuto a televisão nos castiga com quatro propagandas, a maioria delas um “saco.” Um exemplo mais ilustrativo da eternidade de um minuto para a televisão, eu ouvi do saudoso dom Helder Câmara. Segundo ele, diretores da Rede Globo o convidaram para uma entrevista em sua sede no Rio de Janeiro. Pagaram suas passagens na primeira classe de um vôo internacional que fazia escala em Recife, hospedaram-no no melhor cinco estrelas da Barra da Tijuca, com mordomias que jamais o despojado Dom Hélder fora tratado. No dia seguinte, quando Dom Hélder chegou à estação da Globo, conduziram-no à sala de maquiagem. Antes de entrar no estúdio o diretor de jornalismo lhe avisou: “o senhor terá dois minutos para expor todo o conteúdo da sua mensagem.” Diante desse aviso Dom Hélder reagiu: “Mas meu amigo, vocês me trouxeram do Recife, gastaram um fábula com passagens aéreas, pagaram minha hospedagem num hotel caríssimo, com transporte à minha disposição aqui na cidade, tudo isso para eu falar apenas dois minutos?” – “Mas Dom Hélder são cento e vinte segundos!” – Valorizou o diretor da Rede Globo.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

PACIÊNCIA - Enviado por Roberto Jamacaru (por e-mail)



No parque, uma mulher sentou-se ao lado de um homem.
Ela disse:
- Aquele ali é meu filho, o de suéter vermelho deslizando no escorregador.

- Um bonito garoto - respondeu o homem - e completou: - Aquela de vestido branco, pedalando a bicicleta, é minha filha.

Então, olhando o relógio, o homem chamou a sua filha.

- Melissa, o que você acha de irmos?

Mais cinco minutos, pai. Por favor. Só mais cinco minutos!

O homem concordou e Melissa continuou pedalando sua bicicleta, para alegria de seu coração

Os minutos se passaram, o pai levantou-se e novamente chamou sua filha:
- Hora de irmos, agora?

Mas, outra vez Melissa pediu:
- Mais cinco minutos, pai. Só mais cinco minutos!

O homem sorriu e disse:
- Está certo!

- O senhor é certamente um pai muito paciente - comentou a mulher ao seu lado.

O homem sorriu e disse:

- O irmão mais velho de Melissa foi morto no ano passado por um motorista bêbado,
quando montava sua bicicleta perto daqui. Eu nunca passei muito tempo com meu filho e agora eu daria qualquer coisa por apenas mais cinco minutos com ele.

Eu me prometi não cometer o mesmo erro com Melissa.  Ela acha que tem mais cinco minutos para andar de bicicleta. Na verdade, eu é que tenho mais cinco minutos para vê-lá brincar...

Em tudo na vida estabelecemos prioridades.
Quais são as suas?

Lembre-se: nem tudo o que é importante é prioritário, e nem tudo o que é necessário é indispensável!

RODA-VIVA - CHICO BUARQUE

Dedicado a Aloísio e Zé Nilton Figueiredo

 

FALANDO DE FLORES - Por Edilma Rocha


GIRASSOL- Helianthus annus.
A dourada flor do Sol. Venerada pelos índios americanos e pelos astecas. No século XV, os astecas coroavam as sacerdotisas do sol com suas flores para as cerimonias sagradas. Hoje, da semente às pétalas de sua flor, tudo no girassol é utilizado, na alimentação ou na cura. Na culinária, os botões das flores podem ser adicionados crus às saladas ou cozidos como alcachofras. As sementes germinadas podem ser usadas em saladas e sanduiches. O óleo de girassol também é largamente empregado na indústria alimentícia.


Planta da família das compostas, atinge 3 metros de altura. Originada dos Estados Unidos e cultivado há mais de 3 mil anos pelos índios americanos. Foi introduzido na Europa no século XVI e sua cultura, em larga escala, teve início na Rússia onde até hoje suas sementes são oferecidas em restaurantes e vendidas nas ruas. Por sua grande capacidade de absorver água do solo, a planta foi utilizada para recuperar as terras pantanosas da Holanda.

Pensamento para o Dia 10/01/2011


“Você se sente feliz quando sabe que este corpo físico é seu, não é? E se você soubesse que dois corpos são seus, não deveria estar duplamente feliz? Da mesma forma, com o conhecimento de que tem um número crescente de corpos, a experiência de felicidade aumentará. Quando o universo inteiro for conhecido por ser um corpo, e a consciência universal se tornar parte do entendimento, então a bem-aventurança (Ananda) será completa. Para obter essa consciência universal, os muros limitantes da prisão egocêntrica devem ser destruídos. Quando o próprio ego se identificar com a alma individual (Jivi) ou Atma, a morte cessará. Quando o próprio ego se identificar e fundir-se com a bem-aventurança de Deus, o sofrimento cessará. Quando ele se fundir com Jnana ou Sabedoria Superior, o erro cessará.”
Sathya Sai Baba

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“A mente muda de rumo o tempo todo. A meditação (Dhyana) é o processo pelo qual ela é treinada a adquirir concentração. Quando sua verdade básica é conhecida, a mente não será iludida pelo evanescente, falso e desprovido de bem-aventurança. Em vez disso, ela acolherá o florescimento da alegria, felicidade e verdade, e não será afetada por tristeza e dor. Sua vida também assumirá um novo esplendor quando você visualizar e perceber a bem-aventurança na consciência da Realidade Suprema. O sabor do fruto é evidente quando todo ele for comido, sem deixar nenhuma parte para trás. Do mesmo modo, quando o sabor da meditação for, então, descoberto, você descartará toda dúvida e discussão e se envolverá totalmente nela. Portanto, inicie a meditação, cada um de vocês, a partir de hoje - até mesmo a partir deste momento!”
Sathya Sai Baba

Imediações da paciência - Emerson Monteiro

Diz-se que a pessoa tem pavio curto quando, com facilidade, deixa disparar o instinto agressivo, pondo pés no lugar das mãos, ao menor estímulo. Por motivo dos mais insignificantes, chuta o pau da barraca, na linguagem popular. Muitos fazem disso profissão, ganham no grito situações as quais bem poderiam conduzir do jeito amistoso, com educação, aproveitando as chances que surgem, toda hora, de criar relacionamentos produtivos, e construir lugar melhor de viver entre habitantes deste mundo nem sempre tão fácil de atravessar.

Há, entretanto, diversos amigos que contribuem nesse trabalho de aperfeiçoar o trato com os demais moradores das imediações da virtude, no âmbito social e consigo mesmo, nas criaturas humanas. Um deles, a valiosa paciência.
Quanto maior o uso da paciência, melhor o seu desempenho, semelhante ao amaciamento das máquinas e dos sapatos. Paciência não esgota, ao contrário de quem perde as estribeiras e quer se justificar. Pois ela pertencer à qualidade interna dessa virtude, a capacidade para ser inesgotável. Se não, caso esgotasse, perderia sua característica principal e viraria outro estado de espírito, fraco e descartável.

Bom, perto da paciência, nas imediações, residem alguns valores apreciáveis pela riqueza que transmitem aos que deles lançam mão. A esperança, por exemplo, uma dessas personagens da infinita misericórdia, parceira valente dos instantes de aflição. A feliz esperança, mãe bondosa das preciosas noites de sono dos aperreados, passageiros das agonias desse chão quente de travessias escuras. A que jamais esquece e nunca morre, apesar dos que dizem que morreria por último, conversa de quem a desconhece. Caso assim ocorresse, porém, também perderia sua principal qualidade, invés da rica essência, nutrição dos aflitos.
Uma outra cidadã do bairro onde mora a paciência recebe o nome de fé, palavra pequena de potencial esplendoroso. Ela veio habitar aqui por perto trazendo a energia dos contatos imediatos da divindade, linha aberta de escutar, dentro do coração, os sussurros do Universo. Fé, procedente das florestas virgens da religiosidade, na fibra íntima das emoções puras, moradora inabalável dos edifícios que rodeiam a paciência, que remove montanhas, alimenta famintos da luz verdadeira, mitiga a sede dos desvalidos, clareia passos aos cegos, alegra lares infelizes e transforma pesadelos em sonhos de paz.

No recenseamento dos habitantes desse território onde mora a paciência, na cidade das almas humanas, precisa, ainda, visitar a casa de outros moradores ilustres, o otimismo, sujeito de valor apreciável em qualquer empreendimento, sem esquecer de entrevistar seu irmão mais velho, o senso da realidade, para evitar cair da cama nos excessos de fantasia. Ouvir outro, um senhor entroncado, musculoso, calmo, persistente e simpático, o respeitado professor de nome trabalho, companhia necessária todo tempo, com intervalo só aos finais de semana. E novos e úteis viventes daqui de perto, onde existe a fiel paciência, em tudo por tudo a líder comunitária do sucesso.

"Gravidez masculina" - José Nilton Mariano Saraiva

Alguma vez você já parou pra pensar sobre o impacto demolidor e mortífero de um cruzado de direita na mandíbula, desferido por uma daquelas deformadas montanhas de músculos americanas, tipo Myke Tyson ou Evander Hollifield ??? Já se deu ao trabalho de sequer imaginar qual o potencial descomunal da força liberada por um daqueles “coices”, verdadeiras “patadas” eqüinas, aproveitando a “guarda baixa” do adversário ???
Pois bem, mesmo sem nunca tendo tido a experiência de subir num ringue (embora apreciador de um bom combate), passamos por algo que, imaginamos, deva ter alguma coisa a ver.
Oito anos se passaram (2003, até aqui) e, no entanto, parece que foi ontem.
Após rotineiros exames de sangue, um dos resultados ( PSA ) fugira - e muito - aos padrões culturalmente estabelecidos pela Medicina. Providenciada com urgência a competente biópsia, o “petardo” na cara (ou, se preferirem a linguagem boxeana, aquele golpe sujo, abaixo da linha de cintura), através de um diagnóstico apavorante: “temos um tumozinho maligno na próstata, de um milímetro, que necessita de cuidados especiais”, sentenciou o Doutor, frio, impassível, voz suave, mas segura, sem maiores cerimônias e sem aparentar qualquer surpresa ou sequer mover um músculo da face (como se fosse a coisa mais natural do mundo).
Pois foi assim, abruptamente, que tomamos conhecimento da nossa indesejada “gravidez masculina”, ou melhor, de que em nossas entranhas repousava um “ser vivo”, pulsante e... repulsivo.
E muito embora já estivéssemos um tanto quanto desconfiados com o número apresentado pelo exame, a verdade é que a bordoada foi grande, o golpe dolorido, o impacto demolidor, a dor profunda: fomos a nocaute técnico, literalmente. Tanto é que, dirigindo no trajeto de volta do consultório para casa, cerca de seis quilômetros, simplesmente ignoramos semáforos, limites de velocidade, sinalização esquerdo-direita, o escambau, tantas e tão copiosas eram as lágrimas a rolarem pela face. Mas, chegamos... e vivo.
Adeptos e absolutamente convictos da existência de um “ser superior”, mas um “milenar” descrente de santidades, papas, bispos, diáconos, padres e por aí vai, ao tempo em que um aliado de primeira hora da Igreja Católica em relação ao Padre Cícero Romão Batista (não passa de um grande charlatão), evidentemente que o caminho a seguir não poderia jamais contemplar a excrescência de incluir terços, promessas, figas, orações e rezas (ao contrário de muita gente, “cristão roxo”, que delas só se lembra em tais oportunidades).
Assim, após uma noite insone e reflexiva (se isso era possível naquele momento), a decisão preliminar: poupar os dois filhos (adolescentes), mas abrir o jogo para a esposa (em Fortaleza) e transmitir a notícia para pelo menos um dos membros da família (no Crato); pai e mãe, por motivos óbvios e em razão da idade avançada, nem pensar. E assim foi feito.
Ao contrário da gravidez feminina (onde “ele” é execrado e sequer mencionado) e como o nosso “fetozinho querido” media apenas “um milímetro”, de comum acordo com o Doutor chegamos à conclusão que a opção mais apropriada e recomendável de eliminá-lo seria através do temível “aborto”, via tratamento de choque (paradoxalmente menos invasivo): portanto, “radioterapia” nele, intensiva, maciça, durante ininterruptas trinta e sete seções diárias, de segunda à sexta (dois meses). Religiosamente. Toda manhã.
Durante o processo, dois momentos que marcaram indelevelmente: a) lá pelo meio do tratamento, como que para mostrar a fraqueza do ser humano, um brabo e caudaloso sangramento irrompeu, provocado pelo rompimento de uma artéria atingida pela radiação; haja sangue, expectativa e temor (a medicação prescrita, entretanto, incontinente debelou-o); e b) de partir o coração (numa cena comovente), testemunhar numa mesma sala dezenas de pessoas (políticos de alto coturno, empresários, faxineiras, socialites e por aí vai) repentinamente irmanadas por uma tragédia, tentando se ajudar uma às outras as mostrarem confiança, exercitar a solidariedade em toda a sua essência, extraírem otimismo de quem já se mostrava descrente, mesmo que para tanto tivessem, vez por outra, que recorrer ao uso de uma pitada de humor negro (mas sem nenhuma maldade), através da simplória frase: “onde é o teu” (tumor) ??? E haja detalhamentos (foi aí, por exemplo, que tomamos conhecimento que o ex-prefeito do Crato, Ossian Araripe, por lá houvera passado, meses antes, em tratamento, antes de morrer num incêndio em seu apartamento).
Fato é que já se passaram oito anos e os exames do PSA, antes trimestrais, hoje passaram a ser semestrais, com seus percentuais sempre na faixa tranqüilizadora do zero ponto alguma coisa, indicando que, mui provavelmente, vencemos, sim, o temido câncer (claro que há espaço para uma indesejável recidiva; é torcer para que não pinte no pedaço).
Evidentemente que quem passa por situação tão crítica jamais será o mesmo. A “coisa” marca profundamente, deixando seqüelas e cicatrizes inenarráveis, físicas e psicológicas. Assim, por mais precisa e cirúrgica que haja transcorrido a intervenção radioterápica, a demolidora radiação atingiu o entorno dos órgãos sexuais, limitando a prática da atividade sexual, posteriormente (agora, por exemplo, tanto com uma “ninfeta”, com uma “mulher da vida” ou com uma “miss mundo”, pra conseguir alguma coisa em termos de sexo só com o uso da pílula e se houver o imprescindível “estímulo-complementar” da parceira; e não adianta reclamar, estrebuchar, ficar zangado, porque você fica literalmente a “meio-pau” e tem mesmo é que adaptar-se).
De outra parte, por mais “cabeça” que você seja, por mais arejada que seja sua mente, por mais despreocupado que se pareça, sempre que pinta uma “dorzinha no pé da barriga”, uma simples pontada na região tratada, a tendência é se pensar que a “coisa” acordou, ta viva, ameaça voltar. Há que se controlar os nervos.
Alfim, um esclarecimento que reputamos necessário: como não conhecemos e não somos conhecidos pessoalmente por quase ninguém dos blogs que participamos (Cariricaturas e Cariricult), você, do outro lado da telinha, curioso, há de indagar: o que é que nós temos a ver com o drama do Mariano, pra ele vir com esse papo furado, com esse lero fúnebre, com essa conversa sinistra ???
É que entendemos ser preciso acabar de vez com esse preconceito idiota de que alguém que tem ou teve câncer se acha condenado a viver no isolamento completo, tornar-se um pária social, ser tratado como um leproso incomunicável e evitado a todo custo, além de ter que “guardar segredo” para o resto da vida e mais algum tempo. Como se fosse algo degradante, contagioso, imoral e vergonhoso. E nada melhor para debelar e evitar isso do que exercitar o jogo aberto, limpo, transparente, sem frescuras ou tergiversações, abrindo a mente e o coração (mesmo que para desconhecidos).
Nem que isso implique no iminente risco de, durante a Exposição do Crato, repentinamente alguém mais liberal e expansivo venha a cumprimentá-lo com a exótica saudação: “diga lá, seu canceroso brocha”.
Vida que segue...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Professorinha
- Claude Bloc -

Sou professora desde que eu tinha 14 anos. Algo a estranhar? Pode ser, para as gerações mais novas que não conhecem e não sabem como era difícil, nessa época, se conseguir um professor que dominasse a Língua Francesa.

Quando comecei a dar aulas, eu tinha estado e na França por um ano - havia pouco tempo – e, estando lá, tinha estudado num colégio de freiras que eram amigas de minha avó Germaine, a quem eu carinhosamente chamava de Mamie Menotte. Isso me trouxe a experiência de conhecer a escrita do Francês e entender as “peripécias” da Língua no que tange às suas peculiaridades. Pois é, chegou o dia de enfrentar a primeira aula. No início, sem experiência tudo era difícil. Eu, professora, aos 14 anos, sozinha diante dos alunos, tentando captar a atenção deles... Bom, mas era uma tentativa. Madre Feitosa havia posto em minhas mãos um voto de confiança e eu teria que superar minha timidez e dar conta do recado.

Felizmente nessa época as salas de aula não pareciam, como hoje, um salão de festas com crianças barulhentas, parecendo “Gremlins” ou coisa assim. Não havia ninguém voando ou gritando pela sala, apenas vários pares de olhos me olhando esperando o desfecho daquele momento. Não posso dizer que foi esse o pior dia de minha vida, pois hoje sei o que pode ser bem pior, mas foi um passo difícil, pois tive que me superar, imitando meus mestres.

O fato é que acabei conquistando aquela turma e a pouca diferença de idade foi motivo de interação e não de afastamento. Eu e eles havíamos dado um passo à frente, todos aprendemos.

Hoje acredito ser muito importante na vida de um professor o momento em que ele vê que algo deu certo e com isso concluir que pode seguir adiante. Foi isso que fiz e nunca me esquecerei dessa lição e ao mesmo tempo de como trabalhar tão cedo foi útil e benfazejo para mim.

Nunca esquecerei igualmente de como, era nessa época, estar do outro lado da sala, sentada passivamente, como aluna, apenas bebendo da fonte. A simples menção do nome de algum professor mais austero já me provocava medo e fazia as cordas do meu coração darem um nó cego por dentro. Minha timidez era um verdadeiro fardo. Eu por exemplo, morria de medo de Alderico Damasceno. Não conseguia abrir a boca para falar palavra alguma perto dele. Se um dia eu tivesse tido a oportunidade de ter sido sabatinada por esse mestre acho que desabaria desmaiada aos pés dele. Ridículo, mas verdadeiro.

Daí porque decidi nunca agir com firmeza excessiva em relação aos meus alunos. Não quis adotar essa retaliação para não deixá-los exasperados. Creio que a idéia de nunca esquecer como é estar no lugar do aluno fez bem ao meu processo educativo. Mesmo diante de minha pouca experiência tirei minhas próprias conclusões. Aprendi com isso. Sem esquecer de como é gratificante ler o reconhecimento nos olhos de quem nos ouve.

Diante disso, concluí nesse processo, que todo professor não deve entrar em sala sem ter preparado sua aula. Essa é a regra primordial. O resto a gente aprende com o tempo, mas é sempre útil imaginar e supor como será a aula que preparamos e manter os pés no chão. Incentivar a aprender pelo prazer de aprender e não pela obrigação.

Enfim, posso dizer que embora nem tudo sejam flores, amo meu trabalho, sou apaixonada pela minha profissão. Dedico-me. E afirmo: continuo aprendendo, afinal tudo na vida é  um aprendizado. 

Claude Bloc

Pérola nos Bastidores - por Claude Bloc

Claude Bloc disse... sobre a poesia "Lua Atrevida" de Marcos Barreto de Melo postada aqui no Cariricaturas:


A lua espia de riba
Você espia de baixo
Procurei sua morena
Cacei muito mas não acho

Só a lua atrevida
Sabe onde ela está
Enquanto ela segue a vida
O que lhe resta é sonhar.

Claude Bloc

SE AQUELE FUSCA FALASSE - Por Edilma Rocha

Ele chegou nas mãos do Ernesto através de uma grana ganha como prêmio da corrida ciclista "Piocerá". Fusca 1980, branco que mais parecia côr de burro fugido de tanta sujeira. Todo descascado e cheio de rachaduras na pintura, aqui e ali ocorreu um crakelê com descamação que para cobrir a lataria, muitos adesivos do torneio "6 horas de Mountain Bike". A porta do motorista só abria por fora, a alavanca da marcha parecia uma cobra embriagada sem saber onde parar, 1ª, 2ª, 3ª, 4ª ou ré. Quem sabia ? Os bancos detonados pelo calor do sol, mas de couro, um bagaço, o piso mais parecia uma cocada baiana soltando lascas de ferrugem a qualquer contato. O revestimento do teto estava bom e o painel funcionando todas as indicações, mas a direção ficava grudando os pedaços  na nossa mão. Tudo original ! Por incrível que pareça, todo durinho e aprumado. De bom mesmo só 4 pneus "Michelym", novinhos. Esta "Pereba" passou 5 anos na garagem exposto a sol e chuva por causa do gerador que comeu 3 baterias zero. Como Ernesto não tinha grana sobrando, abandonou o coitado.
Em 2010 apareceu um maluco disposto a comprar o fusca 1980 para uma reforma total, Celso. Acho que até passará a fazer parte do " Clube do Fusca" em Fortaleza. Dois mil reais foi o preço acertado pelo negócio, mas teria que passar uns dias antes da viagem na oficina do Valdemar para uma rápida revisão no translado do Crato para Fortaleza. Foram feitos uns arranjos, bateria nova e o fusca funcionou.
- Imaginem quem foi a navegadora da corrida maluca?
- Eu, euzinha mesma!
Dia 2 de Janeiro de 2011 às 9:30hs saímos pela Vilalta para pegar a estrada do "Algodão" até o nosso destino. Bagagem até o teto, incluindo: ventilador, lanche, refrigerante, comida de cachorro e o próprio no meio da "fusaca". Tínhamos tudo a bordo, menos: estepe, chave de rodas, macaco e qualquer ferramenta. Foi colocado 20 reais de gasolina para testar algum possível vazamento no tanque e bem sentados na frente Celso e eu amarrados por um só nó pois os cintos não tinham mais as fivelas de segurança. Documento certinho, transferido em Dezembro por ocasião da compra, IPVA em dia, vamos nós e que Deus nos proteja.
Por segurança estávamos escoltados pelo meu filho Pedro Julio com a turma jovem a bordo da "Eco Sport 2010". O "Pereba" corria aos  80 e nem sentia a trepidação da estrada sem asfalto da "Ponta da Serra" até "Dom Quintino". A poeira era enorme e se fechasemos os vidros não suportávamos o calor e se abrisse comia pó e cabelo ao mesmo tempo. Era o jeito seguir fechado mesmo.
De repente um alarme.
- Depressa Edilma, se baixa aí e tenta soltar o cabo do acelerador que emperrou e a ladeira abaixo é grande !
Meu coração cheio de pavor  e eu enfiada nos pedais tentando soltar o cabo acelerador...
- Pronto consegui, ufa ! Foi por pouco !
Ao olhar pelo retrovisor vi os faróis e lanternas da "Eco Sport" dando sinal para  encostar... O que será agora ?  Era para avisar que se continuasse a cair mais pedaços como os da descarga e para-lamas pelo caminho, ia chegar em Fortaleza apenas o chassis, o câmbio e os quatro pneus, pois o para-choques traseiro estava se arrastando já fazia um tempo.
Paramos o "Pereba" e não tínhamos nada para prender o para-choques, nem uma cordinha, nem um arame, nada... Celso rapidamente tirou o cinturão das calças e deu várias voltas até conseguir prender a fivela, e tome estrada de novo... O ponteiro do combustível já dava sinal que era hora de reabastecer e paramos em Iguatú.
- Encha o tanque, é gasolina aditivada. Aqui está a chave!
E no outro carro Pedro Julio recomendou:
- Encha o tanque, é gasolina comum e aquele cara do "Fusca" ali paga a nota.
E saiu para a lanchonete e a moça frentista deu uma risada pensando ser uma piada pois o motorista do "Fusca" depois de se deitar na estrada de barro para o conserto estava um lixo.
Carro abastecido, tanque cheio e vamos nós outra vez. O cheiro forte de gasolina embrulhou o meu estômago e o faro do cachorro o deixou inquieto. O que será agora ? Ora, um carro que fazia tanto tempo que não via tanto combustível azul no seu tanque, vazava por cima dos meus pés e  escorria pelo piso. Agora não tinha jeito, era consumir para acabar o vazamento. Nariz entupido com "Vick Vaporub" e a cara coberta com a minha toalha, fazer o que ? Eu cheirava  a gasolina da cabeça aos pés que se tivesse alguém por perto dando umas baforadas de fumaça acho que explodiria.
Por onde passava a "Pereba" chamava à atenção. O carro mais feio do Ano Novo correndo feito uma bala: 100, 80, 80, 100.
E entre paradas para prender o capô, os para-lamas, a tampa do motor, o para-choques e soltar o cabo do acelerador, chegamos à Fortaleza precisamente às 16:45 minutos, tempo recorde para um carro que estava parado a cinco longos anos...
- Outra aventura dessas ? Nunca mais !
Se aquele "Fusca" falasse ...

Edilma Rocha

PÉROLA NOS BASTIDORES - POR EDILMA ROCHA

  Edilma disse ...


Claude,

Por onde andaste na infância
fui sua sombra amiga
Aprendemos o linguajar do matuto
o dançar buliçoso,
a comer no tacho capitão com farinha

Aprendemos a montar no cavalo
a pescar no açude,
a plantar hoje para colher amanhã
folhas e legumes no lugar do jardim

Aprendemos a ouvir no escuro
historias do outro mundo
a pisar de mansinho e respirar fundo

Aprendemos o gosto da simplicidade
vivida no matuto fora da cidade
na sua roupa surrada
nos seus pés no chão
no seu colo amigo
que ensinou o perdão

Aprendemos que matar é morrer
cada sentimento antes mesmo de nascer
Que a vida é bela
quando se é feliz
e que fica a saudade
plantada no coração
de alguem que viveu a mais pura ilusão.

Edilma Rocha

São longos
os dias e as noites
que escondem
meus desejos proibidos.
Ninguém vê
meu corpo despido
do íntimo pudor.
Revela-se a imagem
pura e intocável.
Como por encanto,
cerro os olhos
inundados de lágrimas
por migalhas de amor.
E aguardo
pacientemente
por novas emoções
na descoberta por encanto,
que ainda vive
por debaixo do meu ser.

Cabras Pastando - Sérgio Sampaio


CABRAS PASTANDO
(Letra e música: Sérgio Sampaio)

Eu tenho
um dom de causar consequências
um ar de criar evidências
um sapato novo no lixo
vem cá,
vem me lembrar
que eu venho
de um bando de cabras pastando
de um ninho de cobras me olhando
de herói, de poeta e bandido
Eu vejo
um simples carneiro no pasto
cachorros latindo pra lua
e eu distraído e sem medo
indo pra rua
em tempo
de ver os cordeiros
que amam fechados nos quartos
e pagam pecados a Deus.
.
P.S.: Esta letra me veio à memória lendo o texto de Edilma - POR ENTRE SAUDADES, postado mais embaixo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Ser Transparente
- Claude Bloc -


As vezes me pergunto por que é tão difícil ser transparente... Quando falo “ser transparente” não é simplesmente e apenas ser sincero/a, não enganar os outros. É muito mais do que isso... É a pessoa ter coragem de se expor, de se mostrar frágil, de chorar, de ajudar, de se doar, de perdoar, de ser solidário/a, de falar o que  sente...

Ser transparente é desnudar a alma e deixar cair as “máscaras”, baixar as armas, destruir os muros enormes que insistimos tanto em levantar... Ser transparente é ir à luta em busca de um sonho, é permitir que toda a nossa doçura, nosso amor, desabroche e até transborde.

O que podemos perceber é que infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. De um modo geral se prefere a dureza da razão à leveza que exporia toda a nossa fragilidade humana.

Muitas vezes preferimos o “nó na garganta” às lágrimas que vêm nos socorrer trazendo alívio. Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar diante da verdade e admitir que não sabemos de tudo, que temos medo.

Muitas vezes construimos uma “máscara” que nos distancia cada vez mais de quem realmente amamos e preferimos manter essa imagem que nos dá a sensação de proteção, mas que nos esvazia e nos dilacera. E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos. Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas porque somos como folhas secas, nos perdemos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado.

Com o passar do tempo, acabamos por nos envolver num vazio frio e escuro e quando acordamos percebemos que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar: a doçura, a compreensão, o amor, a amizade, a doação, a solidariedade, o perdão, a ajuda...

E, no entanto, tudo isso pulsa e grita dentro de nós, só que já não temos coragem de mostrar, pois aprendemos que é mais fácil simplesmente dizer: “Você está me machucando, me magoando”.

Aprendemos, que ser fraco, é ser bobo, é ser menos. Mas, na verdade o que devemos fazer é deixar explodir toda a doçura que sentimos sem prender o choro, sem conter a gargalhada, sem esconder tanto o nosso medo, sem desejar parecer invencíveis. Simplesmente sendo transparentes.

Claude Bloc
Adaptação do texto de Rosana Braga 
http://www.rosanabraga.com.br/index.php?pagina=artigos

(INTER)TEXTUALIZANDO COM CHAGAS - Por Claude Bloc


* Chagas
* Claude


despe-se na noite
em fuga
e em retalhos se desdobra

nuvens desenham um céu
que mal cabe no coração
de quem escreve por temor
de que o dia resulte em palavras estropiadas
poesia no escuro
poesia no espaço
céu de cetim em lábios exangues
véus de promessas,
silêncios apagados

olhos castanhos de um nada casto
no horizonte não vislumbram
senão a certeza de uma cidade
toda feita de memórias
de lembranças opostas
impostas
dispostas
no vazio da obscuridade

com a palavra saudade
escreveria seu nome
mas saudade é uma coisa que consome
e deixa marcas dessas que se fazem com fogo
para nunca mais
com saudade
escreveria o mistério
os traços, os sinais
dessa chama que arde e
se extingue ao amanhecer


vinho
cigarros
livros
poemas
aí se faz uma morada
acima do tom sombrio
dessa tarde toda de ocre
criando raízes num coração oco
com todos os seus enganos
dúvidas mas também vozes
desfilando canções
porque nem tudo é triste
e a tarde é tudo
nessa sede infinita
nessa “promessa de sol
contra a solidão”.


de tarde II

quando chega a tarde
sobre as palmeiras
e longe gemem pássaros de palha

é certo que os homens
fogem da fome
de amor semeada
nas ruas onde
seus passos ficarão
de fato
na prisão do tempo

nasce um de olhos vermelhos
não do sangue
mas da luz
toda de espadas
e as faces expostas
ao sol insuportável do meio dia

pra onde vou não sei
nuvens abraçadas ao ar
sobre as espáduas

o mundo na oca cabeça oca
os mares na boca
nenhuma palavra
que saiba traçar as linhas
no azul e seus segredos
abrindo o mar
na alma de queixosos peixes

POR ENTRE SAUDADES - Por Edilma Rocha


O meu coração se encheu de expectativas ao entrar no carro rumo a Fazenda Serra Verde depois de tantos anos. Ao meu lado Ricardo e Claude e lá estávamos nós, os três entre sorrisos e prosas ao encontro de Rita, nossa guardiã da infância.
Quando saímos do asfalto e entramos  por uma  estrada de calçamento em Dom Quintino, era realmente o começo dos encontros com os antigos moradores que se instalaram por ali.

As casinhas simples de um colorido vibrante abrigavam os amigos da Fazenda que nos recebiam com alegria novamente. Um delicioso café com bolo de milho lembrava o passado e um picolé de castanha guardado no congelador demonstrava a atualidade. Nos quintais o recanto das flores, das cascas de laranjas ao sol, das galinhas e dos porquinhos como a esperar o clique de nossas máquinas fotográficas.

Registramos tudo. Tudo era festa com a nossa chegada, até o gatinho amarelo brincava de esconde- esconde com um filhote de cão por entre as pernas de Ricardo. A amizade pura entre supostos rivais já representava o caminho para a Fazenda França Livre.
E lá estávamos nós entrando na estrada de terra, antigo caminho para a Serra Verde. Não nos incomodava o sacudir do carro por entre as pedras da estrada sinuosa e empoeirada. Grande foi a emoção quando nos deparamos com o arco que faz a divisa das terras. Dali por diante estávamos na Serra Verde.  A velha estrada até a subida do Morro do Cabloco, passando pelos pastos da engorda e as ruínas do engenho de cana de açúcar.

Coração apertado e chegamos ao sangradouro do açude que nos levava até a antiga escola e depois a Igrejinha de Santa Joana D'arc. Depois da curva logo após a subida, lá estava ela, a casa da Fazenda, ainda de pé desafiando as intempéries do tempo.
Foi um momento de emoção ficar por alguns instantes a contemplar aquele lugar tão cheio de lembranças. Não mais encontrei meu pé de Cajarana com nossos nomes gravados em fantasias infantis e juras de amor e nem o colorido das flores do imponente Buganville que enchia de beleza a frente da casa. A escada rachada, as telhas da varanda que não a protegiam do sol e da chuva por inteiro e a pintura desbotada deixando visível as marcas do tempo. Mas a velha plaquinha de flandre pintada, ainda continuava ali com os dizeres " França Livre".

Escolhi para um ângulo fotográfico um monte de arames jogados num canto tal qual uma trincheira de guerra a proteger dos inimigos a vida ainda viva nos descendentes que ali passeiam. Cada canto uma saudade e a cada passo um pedaço de nossas vidas.

A sala grande com a velha estante cheia de livros, o corredor, os quartos, a sala de jantar e a cozinha com o mesmo fogão a lenha que preparou tantas delícias para nós depois das cavalgadas. Estava tudo a nossa frente, real e palpável. O quarto de Dona Janine com a linda vista para o açude e lá fora a natureza continuava exuberante. Se  lá dentro  os antigos habitantes não estavam mais ali para pintar e consertar os estragos do casarão, lá fora Deus tomou conta de tudo. No azul do açude com o morro do Cabloco refletido nele feito um espelho de luz e cada plantinha, cada flor e cada árvore.

Corri cada canto do lugar e reencontrei os moradores que permaneceram para receber com alegria os meninos das férias do passado, hoje adultos e cheios de sabedoria. Na noite coberta por estrelas a brisa fria que cobria de orvalho o verde da Fazenda como um verdadeiro milagre para preservar a beleza natural. O silencio enchia o coração de paz e tranquilidade numa verdadeira fuga do stress e novamente estávamos os três amigos irmãos sentados no sofá da sala a relembrar antigas histórias. E ao pisar o  assoalho, o ranger da velha madeira nos dava a certeza da presença de Papí, Mamí, Hubert e Janine a nos acolher novamente. A casa era a mesma, mais sem a vida de outrora e a falta das pessoas da família ficou em cada canto. O meu quarto com Dominique já não existia mais, deu lugar à ampliação da sala. Restaram o quarto de Mamí, intacto, perfeito com os mesmos móveis, o quarto de Claude com Teresa, o dos meninos e a galeria dos banheiros que ainda guarda a lembrança dos mais audaciosos fumando escondido.

Ficou a certeza da Serra Verde de antes, com Hubert produzindo com fartura, motivo de orgulho para o Cariri e a Serra Verde de agora, vazia, triste, sem vida, aqui e alí ruínas como marcos de uma história. Uma casa vazia, em dores por entre as suas rachaduras, uma casa que mora a saudade dos tempos da "França Livre", dos tempos da nossa infância ...

Edilma Rocha

de tarde

a tarde não cumpre a promessa
de sol contra a solidão
de quem espera

nuvens desenham um céu
que mal cabe no coração
de quem escreve por temor
de que o dia resulte em palavras estropiadas
poesia no escuro

olhos castanhos de um nada casto
no horizonte não vislumbram
senão a certeza de uma cidade
toda feita de memórias

com a palavra saudade
escreveria seu nome
mas saudade é uma coisa que consome
e deixa marcas dessas que se fazem com fogo
para nunca mais

vinho
cigarros
livros
poemas
aí se faz uma morada
acima do tom sombrio
dessa tarde toda de ocre
criando raízes num coração oco
com todos os seus enganos
dúvidas mas também vozes
desfilando canções
porque nem tudo é triste
na tristeza que existe

Sísifo

Entrou em casa , à noite, como se trouxesse no corpo as feridas de uma batalha. Os dias todos pareciam uma xerox de um só . Trabalho repetitivo de tabelião de cartório, imerso no cofre da fina burocracia: escrituras, registros civis e de óbitos, reconhecimento de firmas. Olhava para aquele mundão de livros velhos e sobrenadava-lhe a certeza: ali , no cartório, estava depositada a vida perdida de várias gerações. Prazeres que não foram desfrutados, viagens que deixaram de ser feitas, felicidade enfim que acabou encarcerada em páginas esmaecidas, aguardando a sanha feroz dos inventários.O estranho é que, com o passar do tempo, aquela inutilidade armazenada nas prateleiras empoeiradas começou a inundar um pouco a sua própria existência, como se seu mundo, de alguma maneira, fosse sendo também aprisionado entre carimbos e certidões. O patrão, rígido, já tinha aquela cara esquisita de formato partilha. Até mesmo o descanso do domingo adquirira uma feição cartorial: ou Faustão ou Sílvio Santos. Sentia-se, como tantos dos seus clientes, um pouco órfão, ausente e interdito. Pois foi com aquela cara de arquivo morto que entrou em casa, por volta das 20 horas. Dirigiu-se para a mesa da sala em busca do jantar, já olhando , com o rabo do olho, a rede que o esperava atravessada na varanda. Estranhamente não viu pratos , nem talhares. Súbito, a mulher saiu do quarto e, sorridente, andou em sua direção. Estava maquiada, cabelo esticado às custas de uma escovinha de última hora e vestia um longo , preto, ainda com o cheiro da loja. Pensou, rapidamente, que ela devia estar voltando de alguma festinha da escola do filho. Com a barriga protestando, pediu-lhe que servisse o jantar. A esposa franziu o cenho , não deu palavra e retornou cabisbaixa, apagando os próprios passos . Ele recostou-se na rede e ficou imaginando o que poderia ter ocorrido: alguma fofoca de vizinha, um telefonema anônimo, alguma festa em casas de amigos ou na toca daquela jararaca da sua sogra, que havia esquecido ? Antes que chegasse a alguma conclusão, ouviu uns soluços secos que ressoavam a partir das paredes do quarto. Correu para lá e deu com a esposa aos prantos, sentada na cama, com a maquiagem já toda borrada. Que diabos estava acontecendo ? Achegou-se e perguntou, carinhosamente do que se tratava:

--- O que aconteceu ,Terezinha?Você está doente? Está sentindo alguma dor ?Levantaram algum falso contra mim ? Quer que eu lhe ajude a tirar esta roupa de festa ?

Terezinha , muda, apenas chorava convulsivamente e aumentava o tom do pranto, em uma oitava, a cada nova pergunta do marido. Em pouco , a patroa parecia um soprano interpretando uma ópera desconhecida. Ele achou mais sensato parar e voltar à rede da varanda onde tentou , sem êxito, descobrir o enigma. Adormeceu em meio ao cansaço e a fome e sonhou com uma terra em formato de almofada, assolada por uma tempestade de carimbos. Despertou cedinho e retornou para a tarefa de Sífiso. Não adiantava mexer com aquela sensitiva, ressonando ainda com o vestido da véspera na cama. Ao retornar, à noite, encontrou-a ainda trombuda e só , então, descobriu o erro fatal: esquecera seu aniversário de vinte anos de casado. A esposa o aguardara, ontem, para um jantar a luz de velas e algum presentinho que relembrasse a data. Passara batido. Tentou desculpar-se , sabendo de antemão que para tal crime não haveria perdão, não tinha sursis, era inafiançável : estaria condenado ad eternum .
Tentou minar aquele coração pétreo com afagos, com uma posição diferente na cama, com um almoço arrumado de última hora e um perfume francês. Mas tudo parecia exatamente o que era : uma tentativa vã de corrigir um erro imperdoável. Usou então o argumento derradeiro , deslocou-se até uma floricultura e encomendou um bouquê de rosas vermelhas , aquelas que trazem o cor flamejante da paixão . Junto anexou um cartãozinho dourado , com dois pombinhos ,aos beijos em um dos cantos, e sapecou a cantada em letra bonita, com seu linguajar de tabelião:

“ Para Terezinha,
Meu maior bem móvel.
Amo-te
O referido é verdade.
Dou Fé .
Osvaldo"

Depois das flores o clima melhorou um pouco, as coisas foram voltando para o devido lugar. . Qualquer briguinha , no entanto, qualquer arrufo e lá ressuscita o terrível pecado de omissão :

--- Você não lembra, não ? Até nosso aniversário de casamento você esqueceu ...

Aprendeu, tardiamente, que o coração feminino tem arquivos impecáveis e de facílimo acesso. O detalhismo está profundamente entranhado naquelas almas :Terezinha perdoou , mas não esqueceu. Osvaldo comprou agenda eletrônica, marca as datas importantes no calendário sobre seu bureau, usa até a Internet, temendo uma recorrência fatal no mesmo crime hediondo. Contratou até algumas testemunhas que possam falar a seu favor em casos mais melindrosos. Percebe, porém, que como na vida, nos livros de tombo do sentimento não é possível passar procuração e nem substabelecer.


J. Flávio Vieira