Lembranças de viajar na Chapada do Araripe. Este post fez parte de uma série, Viagens", originalmente publicada no blog Casulo Temporário (www.casulotemporario.blogspot.com).
A série "Viagens" termina com este post, reminiscências de viajar quando criança, junto com meus irmãos. Como depois, em outras circunstâncias, por locais mais ou menos distantes, viajar era subtrair-se ao cotidiano e olhar o mundo com olhos de encantamento. Pois: foi ali que aprendi a viajar.
Crônica de uma festa de casamento
Voltando do Ceará, precisaria de pelo menos um dia inteiro só para me acalmar. Não o tendo, escrevo no avião, urgentemente, aflita para dar vazão a tantas palavras.
Tudo me deixa à flor da pele, este ser de uma tribo, esta herança índia pela qual sou parte dessas serras, desse recorte verde, lá do interior do mato, e me sinto tão integrada à chuva, à neblina, aos raios e relâmpagos, eu que sou tão alérgica. Este encontrar-me remetida a estar comigo vem de um modo tão veloz, vai tão longe e tão intenso que não consigo conter. Não penso: fico sabendo disso pelo olho, pelo olfato, pela pele, pelo estômago, e ainda pelas cores, dentro e fora, luz e sombra das casas à beira da estrada.
O senso térmico me remete ao denso que era crescer no interior, aprender a viver aqui, em tribo, essa colagem tão forte do tribal em nós, da qual é impossível falar, da qual calar é perder sentido.
Enquanto me preparava tão mecanicamente para a viagem, em Salvador, vinham com freqüência, sem qualquer antecipação, lembranças de Emanuel quando pequeno. É o meu irmão menor, tão doce e gentil, e que foi cedo para tão longe também, e de quem agora sei que me senti um pouco mãe -cuidei dele com tanto gosto, embora minha mãe não me deixe esquecer de quando ele caiu da janela por minha culpa. Fiz suas primeiras fotos, brinquei, conversei, e também fazia medo a ele - das bactérias e de outros perigos do mundo, o que era, sem dúvida, uma estranha forma de cuidar. Ele foi para longe, de volta à tribo, mas lá só se vê o quanto é um de nós, repetindo o pai até no modo como calça os sapatos.
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Não sei se pelo cansaço, mas estou à flor da pele.
São as casas à beira da estrada, e eu diante delas sem precisar ser forte - somente desarmada -, com vontade de chorar por tudo.
São as casas à beira da estrada, e seu cheiro que é real de tanto que a visão das casas entra em mim tocando o que está lá dentro impregnado.
É o cheiro da cozinha da casa de minha avó Sinhá, indescritível, mas impossível de desconhecer. Um cheiro feito de silêncio, de gestos suaves, de passos suaves pela cozinha em direção à sala onde eu lia, na cadeira de balanço. Ou onde talvez me escondesse atrás do livro sem saber o que fazer com o sentimento tão intenso e desconhecido da vida contida em apenas estar ali, amando o silêncio, sons e o cheiro da cozinha. O cheiro que vinha do fogão a lenha - torresmo, um vago chá de eucalipto ou sabugueiro, feijão de corda novinho cozinhando em panela de barro, a figueira no quintal, o fumo de rolo que vovó mascava escondido, podendo ser frágil, a gente podendo ver e saber disso.
Esse olhar de avó que é lembrança tão doce, e eu queria saber chorar de saudade. A janela que se abre é de um mundo adulto no qual não éramos jamais intrusos, mas netos - e ela dizia que “não tinha nenhum neto feio”, e secretamente talvez me preferisse, recusando responder, mas sorrindo à pergunta "de qual neto gosta mais”?
Esse lugar e tempo amo, a paz daquela esquina e o café feito bem fraquinho e com bastante açúcar para que a gente pudesse tomar, e o bom não era nem o café, mas poder estar sentados em volta da mesa, escolhendo qualquer cadeira, escolhendo copo e colher ("de ouro" o alumínio amarelo, melhor ouro não havia). E conversar, e bastar pedir algo e ser sempre acolhido de alguma forma, naquela casa de poucos e sempre os mesmos objetos, que do mesmo modo estão ainda arrumados, em alguns armários e na memória.
Bolinhas de homeopatia, guardadas no armário de copos, que podia ser aberto sem medo, porque o andar discreto era de ser suave e delicado, não suspeitoso ou vigilante. E mesmo vovô, que quebrava o silêncio quando vinha toc toc com suas muletas, se era bravo (contam que no dia seguinte ao casamento ele vendeu o violão de vovó, que tocava e cantava lindamente), jamais o era conosco, podia se divertir infinitamente nos contando "causos" de almanaque ou nos deixando ficar perto da janela escutando com ele as notícias da cidade que seu amigo Pedro Maia trazia.
E as palavras se distraem e migram na frase, invertidas na lembrança que teimosa vem pela pele, pelos cheiros.
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O frio da serra, o cheiro dos eucaliptos, os tão variados cantos dos tantos pássaros no Parque Nacional de Ubajara. Estou novamente na infância, cheiros e sons, e viajava por perto do Crato, algum sítio em cima ou ao sopé da Chapada do Araripe, e era frio, e as crianças vinham meio enrodilhadas umas nas outras em cima da caminhonete do tio, em cima de uma lona, e o carro cheirando a ração de gado ou a algo que não sei o que era, mas que era tão bom.
Nós, irmãos, juntos porque era frio, e Beto, meu irmão tão querido, que inventava estórias e descobria coisas para cantar falando da noite estrelada do Brasil (ele adorava, e eu também, uma que começava dizendo “quisera eu ser um grande poeta/pra te escrever um poema bonito”). E era 'uma viagem' deitar no desconforto e no frio e olhar as estrelas, chegaríamos ao sétimo céu se este houvesse. E não sei se vi jamais algo tão belo quanto aquele céu estrelado sob o qual flutuávamos no alto da serra, tão perto de nós, tão claro, tão perto das estrelas e de seus nomes, que meu pai nos contava nas noites suaves sem luz elétrica. Muitas lembranças de Beto são iguais às minhas, em cheiro, cor, gênero, número e grau.
Em meio a muitas outras felicidades, sem dúvida, são tantas boas lembranças, e eu não queria ter tido uma infância diferente - temos essa felicidade de irmãos que é a de poder chorar pelas mesmas coisas, como diz meu irmão Luís Sávio.