Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
.....................
claude_bloc@hotmail.com

domingo, 26 de julho de 2009

A SABEDORIA DIVINA - JACOB BOEHME



“28. DISCÍPULO: “Ó mestre! não posso mais suportar o que me mantém no desgarramento e no erro. Qual o caminho mais curto para encontrar esse amor?

MESTRE: “Toma o caminho mais duro. O que quer que o mundo deprecie, toma para ti. O que quer que o mundo faça, não faças tu. Faz, em tudo, o contrário do mundo. Esse é o caminho mais curto para chegar ao amor de Deus”.

29. DISCÍPULO: “Se, em tudo, tenho de caminhar na direção contrária à todo o mundo, por certo me encontrarei num estado muito intranqüilo e triste, e o mundo me tomará por louco”.

MESTRE: “Não te digo, filho meu, que deves fazer mal a quem quer que seja. Não é isto que quero dizer quando te aconselho a fazer o contrário de todo o mundo. Mas é que o mundo só ama o engano e a vaidade, e anda por caminhos falsos. Portanto, se tua inclinação é agir sempre de uma forma limpa, tens de andar apenas pelo caminho correto, o caminho da luz, que é contrário aos caminhos do mundo, pois o do mundo é propriamente o caminho das Trevas.

“Porém, se tens medo de, com isso, suscitar problemas e inquietudes, sabe que, segundo a carne, isso de fato ocorrerá. No mundo, certamente terás problemas, e tua carne muitas vezes te intranqüilizará. Porém, isso te dará oportunidade para um contínuo arrependimento; além disso, em tal angústia da alma, que provém do mundo da carne, o Amor se inflamará, e seu Fogo conquistador resplandecerá com mais força ainda para destruir tal mal. Também dizes que com isso o mundo te tomará por louco. É certo que o mundo te tomará por louco por caminhar em sentido contrário a ele, e não deves surpreender-te se os filhos do mundo rirem de ti e te chamarem de néscio ou louco. Pois o caminho que conduz ao amor de Deus é loucura para o mundo, mas sabedoria para os filhos de Deus. Por isso, quando o mundo percebe esse santo fogo de amor arder nos filhos de Deus, conclui prontamente que enlouqueceram; mas para os filhos de Deus, esse ardente Fogo de Amor de Deus é seu maior tesouro, um tesouro tão grande que vida alguma pode expressar o que é, nem língua alguma pode nomeá-lo. Ele é mais brilhante que o Sol, mais doce que qualquer doçura, mais forte que toda fortaleza, mais nutritivo que qualquer alimento, mais inebriante ao coração que o vinho, mais prazeroso que todo o gozo e todos os prazeres deste mundo. Quem quer que o obtenha é mais rico que qualquer rei da terra, mais nobre que qualquer imperador e mais forte que todo poder e autoridade” (p.101-102).
BOEHME, Jacob. A Sabedoria Divina, s.ed., São Paulo: ATTAR, 1994, p.146

sábado, 25 de julho de 2009

Noturno - Por Socorro Moreira


É assim que o ausente

entra em nosso sonho ...

Como Eros !

.

Chega energia amorosa

em penas , em pautas, em dó

Chega pela "vereda tropical",

assobiando " la mer "

.

O corpo todo a esperar ....

A cara recebe o pimeiro vento,

o primeiro raio

.

Traz no hálito

o cheiro do céu

Na madrugada

traz e deixa

o pó das estrelas.

HOJE EU VI DEUS - Por JOAO MARNI


Na cura inexplicável dos enfermos;
...no sim da minha amada e nos filhos que vierem;
...na chinela de mãe e no olhar incisivo de pai;
...no sorriso e nas gargalhadas das crianças;
...na felicidade dos pais ao verem felizes os filhos;
...na força da superação que é a cara da criança que cobre distâncias e come poeira em busca de sua escola, pelo caderno puído e pelo chão que é a sua escrivaninha, na descoberta e na alegria indescritível da primeira palavra ao juntar as letras;

...no olhar perdido do idoso e na memória para longe;
...na graça que seria morrermos antes dos filhos;
...no sangue do santo e do herói;
...na mão estendida e na divisão do pão;
...no pensar; e pensar é vagar, é viver em total liberdade;
...no amanhecer, no entardecer e na noite estrelada;
...na chuva, na garoa, na neve, no granizo e na aurora boreal;
...nas tempestades, nos furacões, nos vulcões, nos maremotos e terremotos;
...nas águas límpidas das fontes e córregos e no barulho das cascatas;
...nas quatro estações;
...nos cinco sentidos, mesmo se um dia a vida parecer não ter sentido;
...no pólen que as abelhas carregam nas pernas;
...no ninho do beija-flor e na casa do joão-de-barro;
...no estômago do urubu;
...na confiança dos sabiás pelo ninho na varanda da nossa casa;


...no vento que balança as folhas e também os cabelos da minha amada;
...no vácuo absoluto;
...na bola azul que é nosso planeta;
...na descentralização da terra por Galileu, desnudando nossa presunção;
...nas elipses de Copérnico e nas eclipses daí advindos;
...no mínimo do átomo, no máximo das supernovas, das supergaláxias e no buraco negro;
...na igualdade entre os homens sob seu justo olhar;

...na advertência ao homem e no perdão que lhe concede;
...na transformação do homem, qualquer homem, em pó!!!


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p.s SOCORRO, obrigado pelas suas palavras gentis.
A nossa casa estará sempre de portas abertas para voces.
bjs
Fotos de Claude Bloc

O Fantasma da Ópera - Por Zélia Moreira


Bom mesmo seria ver direto da Broadway, mas se você não tem tempo , vontade e/ou grana, tenho aqui uma alternativa: vá às Lojas Americanas e adquira por R$12,99, o dvd do filme.
Chegue em casa, coloque no aparelho de DVD, acomode-se na cama ou na sua poltrona preferida, relaxe, e sinta o maior prazer, assistindo "O FANTASMA DA ÓPERA".
Vamos aos comentários :
A história, narrada pela primeira vez por Gaston Leroux, em 1908, mostra a solitária vida de um gênio musical desfigurado(Charles Dance), que "assombra" um imponente e misterioso teatro parisiense. No entanto, uma jovem soprano(Chistine ) , desperta seus sentimentos mais profundos(amor, ira, ciúme, ódio).
Sucesso absoluto nos palcos Britânico e Americano, tem uma versão para o cinema do ano de 2004(a melhor).
O compositor e produtor musical britânico, Andrew Lloyd Webber( Memory/ Cats, Don't cry for me , Argentina, Evita..), assina a trilha sonora(a mesma da versão para o teatro) e divide o roteiro com o diretor Joel Schmacher. Tem no elenco Gerard Butler(Fantasma) e Emmy Rossum(Chistine), como personagens principais.
O filme é muito bom até mesmo pra quem não gosta de ópera.
Deixo aqui registrado uma das cenas.
Vale a pena conferir!






Tenham medo dos contos de Luiz Arraes

Everardo Norões

Luiz Arraes é um escritor pernambucano que conseguiu se desvencilhar do demônio do regionalismo. Sem despedir-se de nosso universo diário – pois é dele que desenraíza a matéria-prima de seus contos –, sua narrativa pode mover-se em qualquer espaço onde houver uma fresta para a travessia da luz. Luz que tem o vigor e a precisão de um laser, pois corta como bisturi e escolhe o lugar certo da ferida.
Ele também se livrou da influência de mestres, cuja obra, a cada passo e a cada estação, costuma arrebanhar discípulos entre os escritores mais jovens. Sua admiração por Augusto Monterosso, o contista guatemalteco, nada tem a ver com o tamanho de seus contos, nem com a estratégia de sua narrativa. Nos contos que escreve, Luiz Arraes adota dois elementos que o circunscrevem no rol dos contistas mais modernos: a brevidade de uma leitura que não expurga a forma e “aquela intensidade como acontecimento puro”, de que trata Julio Cortázar no ensaio sobre Poe. Uma intensidade em que cada palavra deve concorrer, segundo o escritor argentino, para fazer do conto “uma verdadeira máquina literária de criar interesse”.
Ao desviar-se daquelas limitações – a infecção regionalista e o estigma de algum antecessor –, Luiz Arraes não receou desbrenhar o caminho solitário da criação e soube permanecer arredio a essa espécie de mímesis tão pouco aristotélica.
Qual a chave do enigma? A decifração pode estar contida numa das frases do conto O tudo e o nada, publicado no livro O remetente (7Letras: Rio de Janeiro, 2003): “Eu, vocês notaram, não tenho medo das grandes palavras nem de lugar-comum”.
Pouco importa se o narrador é, ou não, o alter ego do autor. A linguagem objetiva, quase coloquial, não carece de floreios. As grandes palavras residem, primeiro, nas epígrafes, recorrentes em muitos de seus contos e saídas da pena do filósofo alemão Friedrich Nietzsche ou do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, de um dito popular ou do filósofo brasileiro Gustavo Corção. Pouco importa. A grande palavra que serve de mote conduz à tessitura da fábula, à ilustração do preceito. No final de um texto em que o coloquial predomina, o leitor é duplamente surpreendido: tanto pela chave que fecha as portas da narrativa como pelo arremate sentencioso, que se nos afigura como uma frase de Montaigne ou o fecho de uma fábula. Porém, fábula que rompe com todos os cânones. Primeiro, a concepção aristotélica de nela só admitir os animais. Em seguida, a de La Fontaine, que as escrevia para “agradar e instruir”. Talvez seja melhor falar de apólogo, que pode ser definido como uma narrativa curta susceptível de ilustrar uma verdade moral.
Ocorre que nos contos de Luiz Arraes há uma subversão que nos dificulta defini-los de acordo com os preceitos de praxe. A “moral” ou a “verdade” que deles irrompe transtorna e incomoda. Revela a feiúra de nosso cotidiano. A feiúra se inscreve na soleira do que se costuma chamar a “modernidade”. “Pois o importante para a arte não é mais mostrar o que é apenas ‘belo’, escreveu Baudelaire – o poeta francês reconhecido como fundador da “modernidade” –, que não conseguia conceber um tipo de Beleza em que não existisse Infelicidade. E no conhecido ensaio A desumanização da arte, de 1924, Ortega y Gasset já observava, com propriedade, que a arte “obriga o bom burguês a sentir-se tal como ele é: bom burguês, ente incapaz de sacramentos artísticos, cego e surdo a toda beleza pura”.
O conto O remetente, que empresta o título ao livro, pode ser lido como uma alegoria sobre a própria condição do autor: o personagem envia cartas anônimas às pessoas de seu conhecimento, com o objetivo de criar situações incômodas, transtornar aqueles para quem a vida é “mais vazio do que plenitude”. Até que desiste do intento e resolve escrever para si mesmo, ao reconhecer que é melhor recebê-las do que se dar ao trabalho de enviá-las.
Os contos de Luiz Arraes são como essas cartas, incômodas, que gritam dentro de nós. Incômodo e emoção, como no conto O sonho da criança pobre: aquela que sonha com a mãe sem roxo na cara, com o pai sem bafo de álcool, com alguém capaz de lhe passar a mão na cabeça. Aquela que, finalmente, apenas aprendeu a sonhar cheirando cola e, desde então, “sonha acordada e, quando dorme, tem pesadelos”.
Tenham medo das narrativas de Luiz Arraes.
Não são amenas como as narrativas edulcoradas, que tratam de algum passado épico, ou de amores bem-sucedidos.
Tenham medo dos contos de Luiz Arraes.
Sobretudo se quiserem esquecer, no aconchego de vossos quartos congelados de um último andar, que existe uma outra cidade: a que sonha em assaltar nossos sonhos.
Como os colonizados de Frantz Fanon.
___
A ilustração do fundo é de Francisco Toledo, pintor mexicano.
___

Stand by me - Por César Augusto


(Essa canção diz, não importa quem é você, qual o seu destino na vida, em algum ponto, voce vai precisar de alguém ao seu lado)


Esse é o resultado do esforço de um grupo de músicos no mundo todo. O dinheiro apurado nessa produção vai para uma organização de nome "Playing for changes", que ajuda comunidades ao redor do mundo a melhorar suas qualidades de vida. O grupo já construiu a primeira pequena escola na Africa.

Uma inspiração para muitos de nós, senão todos nós.


Cesar Augusto

"SWAY" - Para João Marni e Fátima Figueirêdo - Por Socorro Moreira





Estou vivendo em tempos de festa, como uma colegial nas férias de Julho.

Quinta-feira , nos reunimos na casa de J.Marni. Madruguei por lá .Fui ficando pelo carinho do casal, pela discoteca do João. Difícil outra igual !

Hoje voltamos lá. E no claro do dia, avistei o Cariri do alto da sacada, e de todas as janelas da casa. Eles recebem os amigos com elegância e coração rasgado !

Música de boa qualidade.Tudo de boa qualidade. Abrem os braços, "a radiola ", e as palavras :

"Tá vendo ? Deus existe !

E essa casa é Dele , esse panorama, jardim, música e o carinho que habita, no coração dos afins.

Eu acho todo mundo bom, todo mundo lindo...Meu coração é assim!

Sou-LHE grato pelo ar que respiro, e sinto !

A música que eu mais gosto ?

Marimba.

Porque me faz lembrar de Cândido (meu pai) ! "

-( Marimba ? Marimba não é um instrumento como é o berimbau ?)

E fui atrás de "Marimba" pra oferecê-lo , na nossa amplificadora blogal.

Aliás estamos ficando como somos : musicais e poéticos. Que a arte e o amor ao Cariri promova a reunião e interação dessa tribo, que arma a sua oca nessa toca, criando e recriando , mais uma história.


Padre Gomes e o Río de la Plata...

Padre Antonio Gomes de Araújo. Meu professor e um dos maiores historiadores do Ceará, da escola de Capistrano de Abreu. Batina negra, com larga faixa a esconder um 38 duplo, segundo as más línguas. Temido – não só dos alunos – , um dia, em plena aula, caiu da cadeira. Ninguém ousou mexer-se. De súbito, levanta-se, aponta o indicador e sentencia:
-Agora, podem rir!
Numa de suas aulas, a temível inquirição, feita sempre de surpresa.
- Quem foi o descobridor do Rio da Prata?
Apesar de bom aluno de sua matéria, não sabia responder.
De pronto, um colega sopra:
-Juan Diaz Solis!
Salvei-me e nunca mais esqueci
Juan Diaz Solis.
Às margens de Colonia del
Sacramento, Uruguai, relembro o episódio.
E saboreio as Cronicas del Rio de La Plata, seleção e prólogo de Horacio Jorge Becco, publicadas pela Ayacucho, excelente biblioteca on line do governo bolivariano da Venezuela. E ali está o relato de Francisco Lopez de Gomara (1511-1560), “cronista da Índias”, que nunca esteve por estes lados, mas ouviu de outros os relatos que escreveu, entre os quais “o da empresa de conquista do Rio da Prata, em que o navegante Juan Diasz Solis encontrara uma terrível morte nas mãos dos índios no ano 1516”...

Vida de Violeiro


Vida de Violeiro

Onde nasci me falavam
(desde que me entendo gente)
de famosos cantadores,
violeiros repentistas,
e eu pretendia ser um.
Dentre os mais considerados,
Inácio da Catingueira,
um gênio no desafio,
e o grande Cego Aderaldo,
a quem Baden celebrou
nas notas de um ponteado.
Vejam só, que ricas rimas,
o mundo perdeu de mim:
nem viola, nem repente,
e, como diz um parente,
nem retórica, nem dim dim.
Mas,
(e graças a Deus em tudo,
pra tudo, se acha um mas)
quando eu tinha quinze anos
escrevi em redondilha
sextilha que diz assim:
“Eu tinha catorze anos
quando minha mãe nasceu,
sol brilhou sobre o seu medo
e espiou dentro do meu,
eu tinha catorze anos
quando minha mãe morreu”.
Meu pai, hoje vos confesso,
naquele tempo me dava
um lugar de acompanhante
no coro dos enjeitados:
(isso era o que eu achava)
lugar para mim, jamais
de “puxador” de bendito,
um posto alto demais.
No entanto
(graças a Deus inventaram
conjunções adversativas),
consegui que aquele verso,
por incrível que pareça
abrisse os olhos do velho
ao talento que surgia:
- Quem sabe puxei aos Sátiro!,
ramo antigo da família
que cultivava o repente,
tinha alguns que eram letrados,
dizem, tão inteligentes,
porém estudaram tanto
que na plena juventude
doidos varridos ficaram.
Em suma, sem o saber,
meu pai me reconhecia,
quem sabe, até me incluía
na linha do Zé Limeira,
o poeta do absurdo,
e para brindá-lo agora
transcrevo um seu breve estudo:
“Nessa vida de viola
vivo pra diante e pra trás,
nunca mais tive alegria
depois que perdi meus pais,
minha vida é de caboclo,
quatro é muito, cinco é pouco,
dez não dá, sete é demais”.

Assis Lima

O CAMINHO DA ESPIRITUALIZAÇÃO



"Para que o ser humano se espiritualize, o caminho não é, como alguns, indevidamente, pensam, permanecer estático em posição de lótus, mas sim, a elaboração constante dos grandes sentimentos e pensamentos. Estes, para serem bem definidos, bem elaborados e polidos, necessitam experimentar as sensações materiais a fim de que, através da sensibilidade, das adversidades da vida e das situações, sejam bem elaborados independentemente das pessoas e das circunstâncias" (ANÔNIMO,1988, p.120).

Estilhaços - Por Emerson Monteiro



Lembro como se fosse ontem meu primeiro dia no Banco do Brasil, na agência de Brejo Santo, Ceará. Era 27 de junho de 1967, uma terça-feira. Chegara no dia anterior para a posse. Meu pai fora de tarde me levar, na mesma pick-up Chevrolet em que eu depois aprenderia a dirigir. Morávamos em Crato. Cobríramos a distância em torno de 90km por caminhos de terra, inclusive na BR-116, porquanto naquele tempo havia asfalto só até Barbalha. José Ferreira, cunhado de minha mãe, casado com tia Nailée, me receberia em sua casa, defronte do Brejo Santo União Clube, e me hospedaria durante os quatro anos em que ali permaneceria.
O expediente começava às 13h. Sob uma árvore da longa praça principal da cidade, enquanto aguardava abrirem as portas da agência, conheci João Batista Carvalho, um outro do mesmo concurso e que se apresentaria como eu, para naquele dia também iniciar sua jornada profissional. Ambos trajávamos camisa branca de manga longa e gravata no pescoço. Dois precários (bancários novos, assim denominados pelos colegas veteranos).
Desde então testemunharia aquele período cheio de contradições, no mundo contemporâneo em convulsão, do trecho entre Brejo Santo e Crato; apenas em raros fins de semana aquietava canto no lugar do trabalho. Nas sextas-feiras de tarde, ou começo de noite, arrumava numa pequena bolsa alguns pertences e seguia para a estrada em busca de transporte. Deixara em Crato história rica de sonhos e relacionamentos. Gostava de cinema, bares, festas, passeios ao pé da serra e dos meus familiares, namoradas, etc.
Brejo Santo possuía seus atrativos, porém o peso dos sentimentos telúricos cratenses me arrastava de volta ao meu segundo berço, aonde chegara com quatro anos, em 1953. Sempre nutri pelo Crato uma quase paixão, fascinado por sua moldura de serras, as encostas do Lameiro em longas caminhadas a pé, o barro branco a colar na pele, bananeiras, pássaros, frutas doces, belas morenas; suas praças, sua gente, a água saborosa, a efervescência cultural, a política estudantil, informação vinda de fora pelas livrarias e bancas de revistas; o Jornal A Ação, que produzia com Vicelmo, Pedro Antônio, Armando Rafael, Huberto Cabral e Padre Honor, por mais de ano, com boa repercussão na comunidade; o Jogral Pasárgada, que fundara com outros seis jovens, no Colégio Diocesano, e sua larga demanda de apresentações.
Lembro, no entanto, de entrosamentos valiosos que estabeleci em Brejo Santo, tanto junto aos colegas do Banco, na maioria de outras localidades, quanto junto aos naturais do município, gente de reconhecida hospitalidade, laboriosa e de senso de realização, haja vista o progresso que, nos dias atuais, lhe movimenta e destaca no elenco das comunas interioranas, naquela fase só de modestas proporções.
Nessas pessoas especiais de quem preservo lembranças benfazejas, José Lirismar Macedo ocupa espaço próprio. Dada sua formação de radialista que vivera em centros maiores e trabalhara em importantes emissoras, Lirismar guardou consigo vivências que bem nutriram a nossa aproximação. Por seu intermédio, conheci e passei a admirar autores exponenciais da música brasileira e da literatura universal.
Ele despertou meu gosto por figuras inigualáveis tipo João Gilberto, Carlos Lira, Dorival Caymmi, Tom Jobim e outros, sobretudo da bossa nova, no âmbito musical; na literatura, dada influência sua conheci importantes obras, quais Os velhos marinheiros, de Jorge Amado; e Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse, peças chave de minha formação, no meio de outras mais; e autores como o mineiro Fernando Sabino, para citar alguns poucos e trazer à tona poucos dos detalhes de nossas agradáveis conversações.
Nos finais explosivos dos anos 60, época demolidora e definidora dos rumos da história recente, ao meu lado, para compartilhar das minhas apreensões de resto de adolescência, havia a personalidade marcante deste amigo, o qual permanece no crivo fiel do meu reconhecimento em preito de notável consideração.

Clã Brasil e Marinês -- por José do Vale Pinheiro Feitosa


.
Coração de bêbado: chora por tudo. Pois não é que ao abrir no youtube neste endereço http://www.youtube.com/watch?v=indT4s2hTgI o caroço dos olhos ficou com ilha cercado de água por todos os lados. Umas meninas bem bonitinhas, com os rostos do meu coração, a altura da minha estatura, um modo de ser nordestina como esta vida inteira. Alguém por favor post direito este Clã Brasil e a voz de arranca saudades da Marinês.

PENSAMENTO PARA O DIA – 25/07/2009


PENSAMENTO PARA O DIA – 25/07/2009
A pessoa torna-se o que pensa (Yad bhavam thad bhavathi). Portanto, as pessoas devem cuidar para que seus pensamentos sejam puros e bons. A vida humana é a expressão dos pensamentos da pessoa. Os pensamentos que surgem na mente preenchem a atmosfera com ondas de energia. As ondas de pensamento são muito poderosas. Portanto, nossos pensamentos deveriam ser sublimes e sagrados. Nenhuma idéia má deveria afetar nossos pensamentos. Pensamentos maus conduzem inevitavelmente a ações más. Quando pensamentos cruéis vêm à mente, os homens comportam-se como animais cruéis. Quando, ao contrário, existem pensamentos bons e amorosos em um homem, eles o divinizam e o capacitam a executar atos bons e sagrados. Portanto, o coração de todo homem deveria estar preenchido com amor, compaixão e bondade.
SATHYA SAI BABA

Pograma de Auditório - Rolado Boldrin ( colaboração de Glória Pinheiro)


Um cumpadi meu, meu querido conterrâneo, foi um belo dia fazer um passeio pela capital de São Paulo. Isso se deu naquela época dos boleros, lá pros anos 50 ou 60.
Muito bem: caminhava o dito cujo pela rua das Palmeiras, onde existia a famosa Rádio Nacional, quando, ao passar pela porta, se depara com uma multidão pronta para entrar no auditório onde se anunciava uma apresentação do então grande astro da música mexicana, Pedro Vargas, que fazia um enorme sucesso com todos os seus discos lançados no Brasil. Isso na forma de 78 rotações, a famosa ``bolacha preta´´ na época de ouro do disco.
Só para se ter uma ideia, os títulos apelativos das músicas do Pedro Vargas – e de outro cantor mexicano famoso na época, o saudoso Gregório Barros - eram
Mais ou menos assim: ``Perfídia´´, ``Pecadora´´, ``Hipócrita´´. Tudo na base do xingamento, do pejorativo, que era o que o povão que consumia disco gostava.
Pois bem: o meu cumpadi vê anunciado ali o grande cantor e resolve não deixar passar em branco a oportunidade única de assisti-lo, só para depois contar vantagem lá na minha terrinha.
Compra o ingresso, se abanca num bom lugar e assiste prazerosamente ao mexicano desfiar um rosário de umas 20 canções do seu repertório. Claro que, como é de praxe entre os artistas, ele deixou para o final os grandes sucessos, para atender os pedidos do público.
CANTOR (para o público) – Aora ustedes podem pedir lãs canciones que quieram.
Bastou isso para o pessoal do auditório começar uma gritaria, todos ao mesmo tempo.
FÃ – Perfídia!
OUTRO – Hipócrita!
OUTRO – Pecadora!
OUTRO – Malvada!
A gritaria ia por esse caminho quando o meu cumpadi achou-se no direito de também xingar. E no berro:
CUMPADI (gritando) – Ladrão... sem-vergonha... cafajeste... ordinário... fio duma égua...
Naturalmente, foi expulso da Rádio Nacional... o meu cumpadi.

(Rolando Boldrin)

Laboratório dos Repentes - Magali, Carlos,César e Socorro


Respeitando os humildes
Vivendo com amor e fé
Devemos sempre lembrar
Quem foi Maria Caboré

Humildade é uma virtude
Que nem todo mundo tem
Presumo que Magali
É dócil como ninguém !

Todo sábio é humilde
No silogismo da vida
Mas ser santo é difícil
É quase mesmo impossível

Entre o Crato e o Juazeiro
Não precisa haver o ódio
Se formos bons capanheiros
Juntos iremos ao pódio!
.

O Grangeiro é um parque
Onde a morada é divina
O panorama de lá
Avista meu Padim Ciço.
.
O Seminário do Crato
É um lugar de oração
De lá sai jovem letrado
Para assumir a missão.

A vida é assim mesmo,
Com completa acrobacia,
Para evolução e salto,
Precisa SABEDORIA

Se a verdade aparece
Nos escombros remexidos
No vento que ela dança
Se esconde uma mentira
Mentira tem pernas longas
Verdade tem cara limpa

Paixão é fogo de palha
Mas clareia o coração
Deixa o corpo todo aceso
E a alma em prostação.

O mote é : Sábado

sexta-feira, 24 de julho de 2009

No ho l´etá - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando compreendi o que me dizia, poderia ser, mas não foi uma decepção. De fato estava confuso. Era uma menina de 10 anos, eu tinha 19, não podia admitir, mas ambos nos apaixonáramos. Ela, um pássaro voando, eu penitente no estrado do confessionário. Jamais poderia dizer o que sentia, mas ela não tinha dúvida, enquanto eu negava. Admitia que não pudesse admitir. Hoje sei que estava apaixonado, mas na ocasião desempenhando o papel do adulto ético, um horror à paixão pedófila. Enquanto representações sinceras, eram outros os sentimentos. Trairiam a firmeza ética? Sim.

Mas não de momento, qual fraqueza de ocasião. Uma traição ao longo do tempo.

Irmã de um colega desde os tempos da alfabetização. Lembro quando a família comemorou o nascimento da menina. O seu crescimento, brincado, atrapalhando nossos esforços de estudo, sempre pedindo que eu desenhasse em folhas de papel que roubava do pai, paisagens e interiores de casas para brincar. Com o desenho no chão, as bonecas, carrinhos, miniaturas de animais, daquele cenário tosco, do aprendiz de desenhista, ela fazia um enredo sem igual. Perdi concentrações nas notas de colégio, observando, sem querer admiti-lo, a narrativa fantástica que bordava sentimentos.

No aniversário de sete anos. Eu tinha 16 anos, já me abraçava às adolescentes em boleros de corpos fundidos, nas matinês do clube social. Ludibriava a censura na porta do cinema para assistir os filmes de 18 anos. Fumava, me embebeda, lia romance, ouvia rock, trocava revistas do Carlos Zéfiro. Não fiquei tuberculoso com tamanhos esforços, nem a mão criou cabelos. Mas fui ao aniversário, apesar da pouca oferta naquele mundo infantil. E os olhos hipnóticos do coração retiraram com um simples espinho minha armadura juvenil:

- Eu vou me casar contigo e a teu lado viver a vida toda brincando.

Confissão que provoca riso. Cara de príncipe encantado, piadista de salão, queria disfarçar a intensidade do olhar dizendo tais palavras. Para equilíbrio na cena insegura, contei histórias de contos de fada, mas ela não mudou o olhar. Era firme e certeiro como são as convicções da história. Uma vez dito, aconteceria.

Quando compreendi a cena, a sombra do pecado cobriu meu coração. Viera jantar com a família, pois iria para a capital fazer universidade. O meu colega saiu com a namorada, os pais foram ao cinema, mas a menina, então com 10 anos, pediu-me para ficar um pouco mais e ouvir um disco.

Ela me deu a mão quente e puxou-me na direção da vitrola. Um perfume de paraíso saia dos seus cabelos, os seios nascentes despontavam sob o tecido fino, a cintura afinava e os quadris se avolumavam. Enquanto o mundo girava com as mudanças no corpo da menina, disfarçava de mim mesmo, o que sentia ao observá-las. Levou-me até um sofá junto à janela. Ligou o som, pôs o disco que despencou no prato feito meu sentimentos. Começava a girar e a agulha a correr os sulcos e ela sentou-se a favor da luz da sala, deixando seu rosto iluminado face ao meu. Olhar profundo e muda enquanto a música tocava. Em italiano, na voz de Gingliola Cinquetti, um tom de menina cantando:

Non ho l´etá. Non ho l´etá..per amarte...No ho l´etá... Per uscire solo con té.

Fervia e gelava em ondas sucessivas. Na música a mesma promessa de três anos atrás: Deixe que eu viva um amor romântico, na espera que chegue aquele dia. Não tenho idade. Para amar-te. Se você quiser. Se você quiser. Esperar-me naquele dia. Terá todo o meu amor por ti. A vitrola fez a última volta do compacto e desligou.

Ela foi comigo, sem dizer mais nada, até a porta de casa. Estiquei o braço para despedir-me e ela cobriu meu cumprimento com ambas as mãos. Mas não pronunciou sequer um adeus. Apenas prendia-me na eternidade com seu lindo e profundo olhar verde. Eu balbuciei algo como:

- Esperarei.

Esperei durante todo o curso universitário. Filho de pais pobres, trabalhando, fiquei seis anos sem voltar à cidade. A marca de uma linguagem simbólica, enviava cartas com uma única frase: a cada dia a espera diminui. Uma meizinha para minhas paixões arrasadoras à proporção que recebia a resposta de volta. Não eram letras, bilhetes ou poemas. Dentro do envelope a foto de uma menina virando adolescente, a adolescente se tornando o ente mais lindo que o mundo inventa em natureza de mulher. A vida e suas magnitudes por razão de viver. Apelei ao espiritismo: fôramos amantes em vidas passadas. Amor riscando o zênite da eternidade.

No início do sexto ano da minha ausência, as fotos continuavam afirmando a linda mulher, mas o cenário havia se modificado. Tinha Recife ao fundo. No final daquele ano a beleza dela era irretocável, mas a moda da roupa se modificara. Estilo mais militar, calças, jaquetas, cabelos presos, um ar de masculino feio como se fosse possível. No sétimo ano, assim que completei o curso, tratei de ser contratado na minha cidade.

Viver a prometida plenitude, embora a espera fosse um grande motivo para se viver. Assim que cheguei à cidade, um bilhete para ela: agora terás todo o meu amor. No meio do ano as fotos foram paulatinamente ficando coletivas, ela e um grupo de mulheres e depois com outros homens. Nas férias ela estava atolada de estudos e não veio. No final desse ano a quantidade de fotos diminuiu.

Após a passagem do ano, um bilhete dando-me o horário de chegada à cidade. Com meu carro fui até a rodoviária. Ela desceu iluminando a rodoviária. Mais que as fotos. Não a beijei, continuava encostado à barreira entre a menina e o adolescente. Fui saindo, lentamente, da rodoviária. Ela pediu-me para subir um morro que dominava a cidade e no qual havia um belvedere. Ficamos olhando a nossa cidade, ainda sem dizer palavras, tramando o futuro. Nisso ela foi até o bagageiro e pegou um gravador. Sentou-se ao meu lado e o ligou.

- Caminhando contra o vento. Sem lenço e sem documento...No sol de quase dezembro eu vou.

Olhando para a cidade, nem uma vez para mim, continuou ouvindo a fita, agora em outra música:

- Soy loco por ti América....Soy loco por ti amore.....Estou aqui de passagem, sei que adiante um dia vou morrer, de susto, de bala ou vício...

Agora explico os sentimentos traídos ao longo do tempo. Ela no movimento armado contra a ditadura, foi para o exílio e hoje está casada com um Canadense e mora na Austrália.

Cantoras do Rádio - Trailler - Estreou 9 de Junho passado- Quem viu? O que achou ?

Apresentação do Madrigal Intercolegial, na noite do dia 17.07.2009 - Por Joaquim Pinheiro

...E O MONS. MONTENEGRO ESTAVA NA APRESENTAÇÃO DO MADRIGAL

Durante a belíssima apresentação do Madrigal Intercolegial, no último dia 17.07, não me contentei em ver o espetáculo do térreo.

Subi até o primeiro andar para ter visão de outro ângulo. A cena do alto era tão bonita que arrisquei tirar uma foto, mesmo sabendo que a chance de obter imagem nítida era pequena, uma vez que minha máquina é das mais simples, sem muitos recursos. A foto ficou desfocada, mas captou a figura do Monsenhor Montenegro, presente através de banner colocado pelos organizadores. Dá a impressão que o homenageado, falecido há alguns anos, assistia ao show em sua homenagem.

.
Joaquim Pinheiro

Último Encontro

Fiz o papel de bobo
como todo poeta
ao levar um pé na bunda.

Agora que lhe afaguei o ego
e sinto sua autoestima elevada

deixo-a sozinha,
vou galinhar na praça.

Minha lágrima,
o vinho que bebo -

fermenta o peito,
mas logo passa.

Bolinho de Chuva - Por Anita D.Cambuim





Pois é, ainda chove.

Gotinhas prateadas brincam de escorregador na minha vidraça.

O sábado passa.

Tive vontade de comer bolinhos de banana salpicados com açúcar e canela:

bolinhos de chuva.

Ninguém mais me fará bolinhos iguais aos dela.

Observo os pingos de chuva escorrendo... escorrendo...

Sopro a vidraça e desenho um coração,

como fazia quando a gente morava na casa amarela.

Hoje, a casa está vazia e o meu peito repleto de lembranças.

Gotas brotam dos meus olhos e escorrem... escorrem pelas minhas faces...

Chovendo me vejo.

Embaçaram meus óculos... alguém os terá soprado?

Talvez.

Ao retirá-los, percebo algo desenhado.

Reconheci o contorno daqueles lábios:

- Mãe, foi como se mais uma vez você tivesse me beijado!
.
Anita C.Cambuim

UM CONTO SUFI – CONTO TRADICIONAL DA SABEDORIA ÁRABE

(TEXTOS E FIGURAS RETIRADOS DA INTERNET)

Conta-se que, numa cidade do interior, um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia: um pobre coitado de pouca inteligência, que vivia de pequenos biscates e esmolas.
Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam à ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 réis e outra menor, de 2.000 réis. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.

Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos:

"Eu sei - respondeu - não sou tão tolo assim. Ela vale cinco vezes menos. Mas, no dia em que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e eu não vou mais ganhar minha moeda."

Pode-se tirar várias conclusões dessa pequena narrativa:

* A primeira: - Quem parece idiota, nem sempre é.
*A segunda: - Quais eram os verdadeiros bobos da história?
*A terceira: - Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.

Mas a conclusão mais interessante é a percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma boa opinião a nosso respeito. Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim o que realmente somos.

”O maior prazer de um homem inteligente é poder bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente.”*

Créditos:
Imagens: Jupiter Images e Google
Música: Cathar Rhythm – Era
*Acervo do Grupo Sintonia Elevada
Formatação: Maristela Ferreira

A Poesia de Ana Cecília de Sousa Bastos







Uma poesia em tom menor, feita de impressões, miudezas, vestígios do dia. É desse modo que vejo a poesia da baiana Ana Cecília de Sousa Bastos. Ela mesma diz: "Acho que faço uma poesia assim, de um canto de jardim, de uma rede na varanda, não dos salões".

Nascida em Salvador, ela vem de uma família cearense. Por isso passou a infância, como diz, entre o mar da Bahia e o pé-de-serra da Chapada do Araripe, no Crato, Ceará. Quem sabe essa vivência entre o mar e o sertão tenha aguçado a observação da menina para ver e sentir coisas e pessoas e transfundi-las em versos, obedecendo "à doce tirania da palavra".

Psicóloga e professora da UFBa, ela escreve desde a adolescência. Fez uma edição de autor aos 22 anos e andou publicando textos esparsos. Em 1999, Ana Cecília conquistou o prêmio Copene/Fundação Casa de Jorge Amado, com o livro Uma Vaga Lembrança do Tempo.

Desse livro extraí os poemas ao lado. Em "Da Dor", a poeta procura entender e até localizar fisicamente o sofrimento moral. Mas, no final, em manobra bem drummondiana, foge para uma lembrança de infância. "Jugo" e "Vestígios" são poemas preocupados com o próprio ofício poético. É a mão do poeta mexendo no formigueiro das palavras. "Agenda", por sua vez, propõe indagações existenciais. "De todas as perguntas", afirma o poema, "só quero reter a centelha".

Carlos Machado



DA DOR

A dor é algo como se não fosse.
Derrapagem à beira do abismo
(aquele como se não estivesse).
Holofote sobre escura porção de sombras.
Eco à revelia do próprio eu
re-ver-be-ra-ção
por sobre o dia.
Fissura aberta minando,
ora esquecida ora sempre,
em alguma parte do corpo
como se fosse o todo.

Dasdô?
Na infância era uma prima
e seus olhos encovados.


JUGO

Obedecer à doce tirania da palavra.
Anular censura, momento, lugar.
Deixar no papel o verso líquido,
esse pálido espelho da alma.
Enquanto deixo-me estar,
impressionada pela cor da palavra
"pálida".


VESTÍGIOS

Estranha pulsão, esta:
derramar no caderno porções de alma.
A mão, captando sinais invisíveis.
Lenta, no formigueiro em marcha.
Absolutamente só,
enquanto todos perseguem a sagrada hora do
[ trabalho
e dos compromissos bancários.

E depois, palavras escondidas em oculto caderno,
papel rasgado, para que delas não sobrem
vestígios.


AGENDA

Decididamente não me interessam as vãs soluções,
nem as posições corretas
— essas respostas que a gente busca na opinião
[ informada,
antes de conferir o próprio desejo;
nem os dados que o banco ou a polícia já guardam por ofício,
nem como envelhecemos igual
— por força não da idade, mas do hábito.

De todas as perguntas,
só quero reter a centelha.

Desejo saber a que horas do dia encontro no céu
[ este azul de agora.
Desejo saber a que horas da vida há este sorriso
[ nos olhos dos filhos.
Desejo saber quanto dura a paixão pela vida.



poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004
Ana Cecília de Sousa Bastos
In Uma Vaga Lembrança do Tempo
Fundação Casa de Jorge Amado/Copene Salvador, 1999

Identidade( II) - Ana Cecília de Sousa Bastos


Somos oceano nas extremidades.
Contemplo minhas unhas,
conchas do mar.
Ver essas partes de nós que tanto brilham traz uma ilusão
de acabamento e completude.
Somos oceano,
peixe e cautela,
flutuação e peso em luta na água,
correnteza e vida.
Somos ave e liberdade.
E nada quero dizer do amor.
Alheio-me, abstraio-me,
ânsia e vertigem,
sonho de profundidades inauditas,
mergulho sem fim.



Ana Cecília de Sousa Bastos


P.S. Para quem não sabe, Ana Cecília é filha do estimado casal Dr. Jose Newton Alves de Sousa e Maria Rute Barreto de Sousa. Saudosos educadores , de suma importância , na formação educacional da geração cratense ( anos 60 e 70) . Diretores do extinto Colégio São João Bôsco ; Professores da Faculdade de Filosofia do Crato ( URCA).

Ele, Diretor fundador.

Devo-lhes o mérito de gostar , e viver a intimidade cultural com todos aqueles que se deliciam com a arte e a cultura.

Estou adentrando na poesia de Ana Cecília com verdadeira admiração !

Sem esquecer que, lembro-a, na meninice e adolêscência, colega de minha irmã Verônica, já destacando-se nas letras. Longe de surpreender-me , sinto-me orgulhosa por conhecê-la , e testemunhar a sua sensibilidade e competência, em todos os versos, que até hoje eram para mim silenciosos.

Socorro Moreira

Dona Almina Arraes - Talento na Maturidade - Por Socorro Moeira


Inútil tentar falar sobre Dona Almina... Não tenho a melhor palavra, embora tenha a melhor das emoções.
Casa linda, personalidade física da Rua Dr. João Pessoa.


Sua prole: Maria Amélia, Joaquim Pinheiro, Maria Edite, José Almino ,Antonio César, Maria Benígna.

Irmãs em sangue e alma: Dona Alda, Dona Anilda, Dona Almina.
(Ausência na foto de Violeteta , Maria Alice, Lais,Miguel)

Aos 84 anos , saúde e lucidez.
Pinta, visita e recebe os amigos, navega na internet, escreve.



"Casa na cidade do Crato-CE, que meu pai passou 10 anos construindo (1938/48) mas morou apenas 10 meses, falecendo no mesmo ano que para ela se mudou. Conhecida como Casa de Vovó - minha residência ".(Almina Arraes)
Delicadeza e fidelidade nos traços ; cores ternas de intensa luminosidade; o frescor da flora; o silêncio e a paz dos mosteiros ; o abrigo de uma família nobre; patrimônio ontológico nosso.
Essa é a alma de Dona Almina.
-Trabalho em tela maravilhoso !!!
P.S. Quem sabe dessa linda mulher, se pronuncie... Postaremos a complementação , na sequência.
.
URGENTE !!!
Entrem no site e deixem comentários e voto, na obra de Dona Almina .



Melodia Imortal - Sessão IV - Por Zélia Moreira


Pra hoje tinha pensado em um filme, mas lendo o artigo de Joaquim Pinheiro, pensei em outro.
Romina Power...Tyrone Power...Melodia Imortal.
Um dos melhores filmes que assisti.
Conta a história do pianista Eddy Duchin que entre as décadas de 1930 e 1940 encantou o mundo musical, mas conheceu o sabor da amargura quando sua mulher e grande amor, morre ao dar à luz ao seu primeiro filho.
Alternado com momentos de alegria e tristeza, tem seu ápice, (afinal somos bairristas), na cena em que Eddy toca" Aquarela do Brasil." Dá um imenso orgulho ser brasileiro.
Dramas à parte, o que tem de melhor em Melodia Imortal, para os apreciadores de uma boa música, é sua trilha sonora ( executada pelo piano de Carmem Cavallaro).
Um significado especial tem pra mim este filme, esta trilha sonora...Foi através dela que fui apresentada e me apaixonei de cara por Noturno de Chopin.
datado de 1956(ano do meu nascimento).Tem no elenco Tyrone Power, no papel de Eddy Duchin e Kim Novak(linda, talentosa, fenomenal!), no papel de Marjorie sua primeira mulher.
Melhor do que ficar falando ou lendo é conferir as cenas! Vamos lá?




Carlos Galhardo - Rapaziada do Brás -Para Norma Hauer

Carlos Galhardo - Por Norma Hauer



24 ANOS SEM CARLOS GALHARDO


Chegar ao dia 25 de julho é trazer toda uma lembrança de algo que preferia que não tivesse acontecido, mas que fazer? Aconteceu!

E se não fosse nessa data, seria em outra. Não podemos fugir a nossos destinos. Todos aqueles que embelezaram nossa infância, nossa adolescência, nossa maturidade já partiram.

Mas foi duro ver Carlos Galhardo partir naquele 25 de julho há 24 anos. É muito tempo...
24 anos sem Carlos Galhardo,24 anos sem aquela presença de uma pessoa amiga, agradável, que só nos proporcionava beleza.

É duro relembrar que já se vão 24 anos!!!

24 anos de um vazio dentro de nosso coração, de uma tristeza em nosso ser, de uma grande mágoa que não nos abandonará.

Ouvi-lo é fácil, basta fazer rodar um disco,seja de 78 rotações, seja um LP ou um CD, até mesmo um MP3; afinal estamos vivendo uma época de grandes transformações que Carlos Galhardo não viveu.

Mas estamos aqui, frente a um computador, onde podemos marcar nossa saudade ao mesmo tempo que podemos ouvi-lo como se aqui estivesse.

E AQUI ELE ESTÁ!!!

Ouço-o, vejo seu retrato, posso vê-lo no vídeo gravado de algum programa de trelevisão.
Pelo menos isso é possível.

Mas, principalmente, posso sentir sua presença!!! E Ouvir seu canto...

"No apartamento azul
Do nosso coração.
Há rosas de Istambul,
Em jarros do Japão..."

Carlos Galhardo, você está presente mesmo passados 24 anos de sua ausência.

OBRIGADA!!!


Norma Hauer

Paixão Fulminante - Por Joaquim Pinheiro




Início dos anos 70, apartamento de dois quartos no bairro da Torre, Recife, 6 acadêmicos, todos cratenses, assistiam um festival de músicas italianas numa TV preto e branco. Exceto o Dr. Cori, os demais eram primos entre si. O papo rolava solto, nem as músicas nem os intérpretes monopolizavam a atenção do pequeno grupo de telespectadores. De repente, um primo deu um salto e exclamou: Que coisa linda!!! Pregou os olhos no monitor e acompanhou a apresentação até o final como se estivesse em transe. Paixão fulminante. No dia seguinte, o primo percorreu as lojas de disco da cidade em busca do LP daquela musa, da qual só sabia o primeiro nome. Recorreu a um vizinho jornalista com trânsito na Rádio Jornal do Comércio para conseguir fotos da cantora. Dois ou três meses depois da aparição na TV, o “Romeu” cratense, então morador da Rua Conde de Irajá, entrou em casa com semblante de ganhador de medalha de ouro mostrando, como troféu, uma página de revista italiana com a foto preto e branco da cantora que arrebatou seu coração. A ilustração permaneceu algumas semanas afixada na parede ao lado do beliche do apaixonado e depois desapareceu. Ignoro como e quem deu fim à ilustração.

Há poucos dias, recebi um e-mail com endereço eletrônico do youtube e, para minha surpresa, a personagem era a artista responsável pela perturbação amorosa do primo. Trata-se de Romina Power, filha do famoso artista de filmes épicos de Hollywood, Tyrone Power. Para os padrões dos anos 60/70, era realmente linda. Confiram.





Joaquim Pinheiro

Laboratório dos repentes - Magali, Carlos,Claude, Socorro, César e Zé do Vale- (Foto de Pachelly Jamacaru)


Pequi é fruto gostoso
Da Chapada do Araripe
Quem come dele é formoso
E nunca pega uma gripe ( rindo)

No painel da alegria
meus amigos se agregam
o amor dessa magia
Junta os afins que se apegam.

Feliz estou, vendo só?
Comi arroz com pequi.
Para ninguém de mim ter dó
Sirvo doce de buriti.

O cratense que se preza
Toma banho na nascente
A água é limpa e desprega
Toda a sujeira da gente. ( rindo)

A saudade que eu sinto
é de mim e de você
dessa gente que não vejo
e que é meu bem querer

choveu tanto nessa noite
que gripou o Cariri
vejo brumas lá na serra
eu só não vejo é pequi.

O luar na Serra Verde
É o mesmo que eu vi
Quando chego lá no Crato
no Vale do Cariri

Lá de cima da chapada
O luar então se encanta
Se espalha na madrugada
Até quando o sol se levanta

Água doce em rocha escura
é seiva viva pra mim
no encanto da roseira
existe também capim.

Não há outro abraço como o teu,
perfurante com a flor dos teus olhos,
tantos braços, dores, tanto ardor,
Não há outro abraço como o teu,
doce como juá, sumarento feito caju,
disfarçando teus abraços de mandacaru.

Neste mundão de meu Deus
Todos nós somos irmãos
Não se despreza ninguém
Nem o Pedro Cabeção

Coração vermelho forte,
como retalhos de panos
tem pontes, pontos e pregas
e garantia de anos.

cigana que lê a sorte
no faz de conta da vida
não enxerga a nossa estrela
mas pensa que tem um guia

Deus me deu esse pendor
pois não ganhei de Tandor
de cantar as minhas loas
aqui pro nosso doutor.

Maria Caboré (Mote)

As perseíades de Agosto

Imortalizados em duas constelações , Perseu e Andrômeda, no céu se observam, mas choram a separação. As lágrimas caem como chuva de estrelas - são as perseíades . Ocorre todos os anos em meados de Agosto, vindas da constelação de Perseus .

"Situada a Sul da Cassiopeia, entre o Pégaso e o Perseu, Andrómeda é uma constelação que teve origem na mitologia grega. Neste mito são referidas outras constelações relacionadas com ele, como a Cassiopeia, Cefeu, Perseu e Baleia.
Segundo essa lenda, Cassiopeia era rainha e mulher do rei Cefeu. Juntos, reinavam no então chamado reino da Etiópia (note-se que esta Etiópia é lendária e não coincide com o actual país, do mesmo nome, sendo que este reino incluía territórios que constituem, nos nossos dias, Israel, Jordânia e Palestina).
Juntos tiveram uma filha, de seu nome Andrómeda. Cassiopeia, que era mãe de Andrómeda, era uma mulher muito bela, mas tinha um grande defeito: era muito vaidosa. E, um dia, ao pentear os seus longos cabelos, vangloriou-se de ser ainda mais bela que as cinquenta ninfas do oceano, chamadas Nereides (filhas de Nereu e Dóris).
Ao saberem disto, as Nereides foram queixar-se a Posedion (Deus dos mares, na mitologia grega), pedindo a este que desse uma lição à rainha da Etiópia.
Posedion enviou então um monstro (representado pela constelação da Baleia) com o objectivo de devastar as costas do reino de Cefeu e Cassiopeia.
Preocupados, os súbditos do rei pediram-lhe uma solução, pelo que Cefeu se dirigiu ao oráculo de Ámon, a fim de obter uma resposta. Ao recebê-la, ficou aterrorizado: para que a fúria do monstro fosse amainada, Cefeu teria de oferecer a sua filha Andrómeda, como sacrifício, à Baleia.
Não vendo outra alternativa, Cefeu decidiu amarrar Andrómeda a um rochedo, à espera que esta fosse devorada pela Baleia.
Porém, Perseu, herói conhecido por ter morto a Medusa (monstro cujos cabelos eram serpentes e que tinha o poder de petrificar quem olhasse para ela) viu Andrómeda naquele tormento e perguntou-lhe o que se passava, pelo que esta lhe contou a triste história que a envolvia.
Perseu dirigiu-se então aos pais de Andrómeda e, depois de a ter pedido em casamento, usou a cabeça da Medusa para petrificar a Baleia.
De seguida, Perseu libertou Andrómeda do rochedo a que estava presa e acabaram por se casar, sendo que, desta união nasceram seis filhos, dos quais se salientam Perses (antepassado dos reis persas) e Gorgófone (mãe de Tíndaro, futuro rei de Esparta). "