Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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sábado, 1 de agosto de 2009

Luar de Agosto - Por Socorro Moreira


Existem riscos

que eu não petisco ...

A lua protege de luz

o beco escuro dos meus olhos

Ontem ela estve soberba

Grávida de todos os sonhos

Ventre inflamado de encantos

Minha câmera invisível

encara o céu

A janela dos meus hóspedes

sempre aberta,

porta-retrato da poesia

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO E AOS PODERES PÚBLICOS MUNICIPAIS DE CRATO – CEARÁ (ANNA CHRISTINA)

Texto de Anna Christina Farias de Carvalho – anna_crica@hotmail.com

“Qual é o princípio ético que deve nos conduzir?“ Esta foi uma das perguntas que Albert Schweitzer fez durante sua trajetória de vida e diante de um mundo que se descortinava com tanta intolerância e desigualdade. A resposta veio como uma iluminação, que só as pessoas que entenden a importância de uma vida poderiam pensar:

“A reverência pela vida! Tudo que é vivo deseja viver, e tem o direito de viver. Nenhum sofrimento pode ser imposto sobre as coisas vivas, para satisfazer o desejo dos homens.” Com estas palavras, Schweitzer se firma como um dos precussores da Bioética no planeta, defendendo e difundindo o princípio do respeito de obrigações éticas não só com o homem, mas a todos os seres vivos, pois segundo ele “ […] A compaixão pelos animais está intimamente ligada a bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem […]”.

Bem, meus caros leitores, o porque desta Carta Aberta. Faço parte de uma associação sem fins lucrativos, que tem como missão promover a proteção da biodiversidade, pelo desenvolvimento de uma relação harmônica entre a humanidade e o meio-ambiente, denominada de ASSOCIAÇÃO DE PROTEÇÃO À VIDA - APROV , constituída oficialmente em junho do corrente. Hoje, eu e minhas companheiras de luta pela vida, assisti mos a cenas dantescas, mescladas de indiferença e intolerância para com a vida de cães e gatos, sacrificados de forma indiscriminada e nem um pouco indolor, pelos funcionários do Centro de Controle de Zoonoses do Crato.

Vim para casa refletir: De quem é a culpa? De Dr. Heldon, Diretor do CCZ, que trabalha com recursos humanos e financeiros precários como a maioria dos órgãos de promoção à Saúde no País? Dos agentes que sacrificam os animais, dentro de condições insalubres e estressantes e não têm direito a um salário digno, nem insalubridade, para sustentar a si e sua família? Do Conselho de Medicina Veterinária que não fiscaliza sistemáticamente o cumprimento da Resolução N. 714 de 20 de junho de 2002 que dispõe sobre o procedimento correto da eutanásia do animal com zoonose? Dos poderes públicos que não destinam verbas específicas para os CCZ´s e se destinam onde e como estão sendo aplicadas? Até porque gato não vota, nem cachorro.É culpa da população que não está e nem é sensibilizada para a adoção responsável, em sua maioria desconhecendo os seus direitos e que os animais também tem direitos? (Lei de Crimes Ambientais, N. 9605, de 12 de fevereiro de 1998, especialmente em seu art. 32 que estipula como crime contra fauna: “ Praticar ato de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos) Então? A quem culpar?

Deixo a pergunta para a reflexão de cada cidadão e cidadã do Crato comprometidos com um mundo melhor para todos os seres vivos – humano, animal e vegetal.
Nestes tempos de tantas intolerâncias, indiferenças, banalização da violência e descaso com a vida, aquela frase de Jesus Cristo está sendo cada vez mais esquecidada: “ Ama a teu próximo como a ti mesmo”.
Por último, solicito que acessem nosso blog, lá encontrarão fotos, informações e formas de ajudar a nossa luta por um planeta harmonioso (www.souprotetor.blogspot.com).


Anna Christina Farias de Carvalho
Diretora Presidente da APROV
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Doutora em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba..Pesquisadora do Núcleo de Ciência, Filosofia e Espiritualidade – NECEF e Núcleo de Estudos Regionais - NERE, da Universidade Regional do Cariri – URCA. Professora Adjunta do Departamento de Ciências Sociais da URCA. Diretora Presidente da Associação de Proteção à Vida - APROV– Crato-CE.
Albert Schweitzer (1875- 1965), Prêmio Nobel da Paz em 1952. Teólogo, médico, músico, missionário e filósofo alemão.
APROV – Associação de Proteção à Vida - CNPJ – 10.899.539/0001-88 Fones: (88) 88453542 (88) 96048204 .
E-mail: aprov-diretoria@googlegroups.com. Site: www.souprotetor.blogspot.com

Nise da Silveira - A Casa das Palmeiras



Nise da Silveira (Maceió, 15 de fevereiro de 1906 — Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999) foi uma renomada médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung.

Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia.

Sua formação básica realiza-se em um colégio de freiras, na época, exclusivo para meninas, o Colégio Santíssimo Sacramento, localizado em Maceió, AL. Seu pai foi jornalista e diretor do "Jornal de Alagoas".

De 1921 a 1926 cursa a Faculdade de Medicina da Bahia, onde formou-se como a única mulher entre os 157 homens desta turma. Está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina. Casa-se nesta época com o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma na faculdade, com quem vive até seu falecimento em 1986. Em seu trabalho ele aponta as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil.

Em 1927, após o falecimento de seu pai, ambos mudam-se para o Rio de Janeiro, onde engajou-se nos meio artístico e literário.

Em 1933 estagia na clínica neurológica de Antônio Austregésilo.
Aprovada aos 27 anos num concurso para psiquiatra, em 1933 começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.
Spinoza (1632-1677).Durante a Intentona Comunista foi denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas. A denúncia levou à sua prisão em 1936 no presídio da Frei Caneca por 18 meses.
Neste presídio também se encontrava preso Graciliano Ramos, assim ela tornou-se uma das personagens de seu livro Memórias do Cárcere.

De 1936 a 1944 permanece com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público por razões políticas. Durante seu afastamento faz uma profunda leitura reflexiva das obras de Spinoza, material publicado em seu livro Cartas a Spinoza em 1995.

O trabalho de Nise da Silveira é pioneiro na luta antimanicomial no Brasil.Em 1944 é reintegrada ao serviço público e inicia seu trabalho no "Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II", no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, onde retoma sua luta contra as técnicas psiquiatricas que considera agressivas aos pacientes.

Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicar eletrochoques em pacientes, Nise da Silveira é transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim em 1946 funda nesta instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional".

No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela cria ateliês de pintura e modelagem com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a Psiquiatria então praticada no país.

A biografia de Van Gogh é uma referência importante para os estudiosos interessados em compreender as possibilidades terapeuticas do trabalho criativo frente às perturbações emocionais.Em 1952, ela funda o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abrem novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.

Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção desta instituição podemos citar: Adelina Gomes; Carlos Pertuis; Emygdio de Barros, e Octávio Inácio.
Este valioso acervo alimentou a escrita de seu livro "Imagens do Inconsciente", filmes e exposições, participando de exposições significativas, como a "Mostra Brasil 500 Anos".
Entre 1983 e 1985 o cineasta Leon Hirszman realizou o filme "Imagens do Inconsciente", trilogia mostrando obras realizadas pelos internos a partir de um roteiro criado por Nise da Silveira.

A Casa das Palmeiras Poucos anos depois da fundação do museu, em 1956, Nise desenvolve outro projeto também revolucionário para sua época: cria a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas.
Neste local podem diariamente expressar sua criatividade, sendo tratados como pacientes externos numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade.

Ao perceber que a responsabilidade de cuidar de um animal e o desenvolvimento de laços afetivos pode contribuir para a reabilitação de doentes mentais, Nise da Silveira os incorporou a seu trabalho como co-terapeutas.Foi uma pioneira na pesquisa das relações emocionais entre pacientes e animais, que costumava chamar de co-terapeutas.

Percebeu esta possibilidade de tratamento ao observar como um paciente a quem delegara os cuidados de uma cadela abandonada no hospital melhorou tendo a responsabilidade de tratar deste animal como um ponto de referência afetiva estável em sua vida.
Ela expõe parte deste processo em seu livro "Gatos, A Emoção de Lidar", publicado em 1998.
Os estudos de Jung sobre os mandalas atraíram a atenção de Nise da Silveira para suas teorias sobre o inconsciente.Através do conjunto de seu trabalho, Nise da Silveira introduziu e divulgou no Brasil a psicologia junguiana.

Interessada em seu estudo sobre os mandalas, tema recorrente nas pinturas de seus pacientes, ela escreveu em 1954 a Carl Gustav Jung, iniciando uma proveitosa troca de correspondência.
Jung a estimulou a apresentar uma mostra das obras de seus pacientes que recebeu o nome "A Arte e a Esquizofrenia", ocupando cinco salas no "II Congresso Internacional de Psiquiatria", realizado em 1957, em Zurique. Ao visitar com ela a exposição, a orientou a estudar mitologia como uma chave para a compreensão dos trabalhos criados pelos internos.

Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962. Lá recebeu supervisão em psicanálise da assistente de Jung, Marie-Louise von Franz.

Retornando ao Brasil após seu primeiro período de estudos jungianos, formou em sua residência o "Grupo de Estudos Carl Jung", que presidiu até 1968.
Escreveu, dentre outros, o livro “Jung: vida e obra”, publicado em primeira edição em 1968.
Foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), sediada em Paris.

Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências.

Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, entre outras:

"Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987)
"Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte
"Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993)
"Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993)
Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas similares às que criou em diversos estados do Brasil e no exterior, por exemplo:

o "Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)
o "Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora, Minas Gerais)
o "Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psico-Social (Recife)
o "Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
a "Associação de Convivência Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador, Bahia)
o "Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)
a "Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris, França)
o "Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova, Itália)
O antigo "Centro Psiquiátrico Nacional" do Rio de Janeiro recebeu um sua homenagem o nome de "Instituto Municipal Nise da Silveira".

Obras publicadas
SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra, Rio de Janeiro: José Álvaro Ed. 1968.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
SILVEIRA, Nise da. Casa das Palmeiras. A emoção de lidar. Uma experiência em psiquiatria. Rio de Janeiro: Alhambra. 1986.
SILVEIRA, Nise da. O mundo das imagens. São Paulo: Ática, 1992.
SILVEIRA, Nise da. Nise da Silveira. Brasil, COGEAE/PUC-SP 1992.
SILVEIRA, Nise da. Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro: Francisco Alves. 1995.
SILVEIRA, Nise da. Gatos, A Emoção de Lidar. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 1998.

Referências bibliográficas
CÂMARA, Fernando Portela "Vida e obra de Nise

CRATÍDIAS - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Se você começou por esta postagem, aviso que existem muitas outras antes de grande qualidade. Quando a Socorro sugeriu que a publicasse, fiquei em dúvidas: é um longo texto. Mas como não se nega nada à uma mulher num dia de sábado, o fiz, talvez para desgosto dos leitores. E com o perdão dos bons escritores que ficarão páginas depois por conta disto.

"Referências existem sobre o helesponto, como ao curso de Odisseu, mas o foco desta epopéia, melhor dizendo, é a pequena cidade brasileira de Crato. Não a portuguesa, a orgulhosa Portugal da União Européia, tão próxima das grandes auto-estradas pelas quais vão às suas praias os BMWs e Mercedes da Alemanha, Bélgica e Holanda. A pequena Crato do drama da periferia da civilização, afinal mestiça, certamente filha da Europa, do Mediterrâneo, mais que do Atlântico e portanto da Grécia.

Os homens, mitos são

Os mortais não são quietos como pedra, pois sonhos lhe invadem.
Mesmo ela, cristalina rigidez, vibra, como o homem, imóvel não é.
Humanos, a sacra narrativa de marcas ultrapassadas, pelos mitos agem;
inundam as margens convencionais, cada pergunta, uma resposta quer;
todo átimo gestual, perdido na profusão de tantos, uma explicação tem.
Se esforço houver, com os deuses e sem eles, com o raciocínio ou a fé;
cada ato um fato, toda face um caráter, ao que todo desejo símbolo é.
Os homens e deuses, mitos são, como em minaretes, evocam almoedem:
o ato de acelerado circular, o carro solar, estiolando o verdor quando vem;
os tempos idos, sem retorno; vida, em raio, matéria permanente da glória é.

Vastas visões do mundo

Como na ágora grega, agora, no centro do Crato, na Siqueira Campos,
entre bancos de marmorito, sob a copa de palmas, teatro da vida em atos,
o milagre do nascimento, resulta do termo grávido, o mito abre-se de fatos.
Drama de atores com visão própria do mundo, abre-se em vida e Tânatos.
Primeiro chega, como mágica, o mundo clássico de Gregos e Troianos;
em resposta, aponta, na cena, os racionais, intérpretes dos mundos amplos;
há uma constelação de deuses, olímpicos, atos caridosos, protetores mantos;
rebatem o hábito da razão, jugo implacável da mecatrônica, sem prantos;
após, entra o capitalista dos interesses móveis, que o arrasta aos trancos;
por último, rock, droga e cartão de crédito, o jovem, aleatório, feito dados.

Explicitam-se os personagens

O drama: corpo contorcido a dores, fio de sangue, prodomos do nascituro,
no cor da praça, uma mulher indigente, ao abandono em trabalho de parto,
mancha rubra infiltra-se no tecido das calças, ao que desnuda o muco farto,
como largas faixas encilhando, dores lombares intensas vêm por seu turno,
do assento escorrega ao rés do chão, com entranhas em ambiente soturno.
Chega-se até ela, um homem de fé, carregando o peso da própria imanência,
no lapso dos afazeres, um homem racional, chega-se sem a transcendência,
especulando, é o hábito, um homem capital, sutil como uma transparência,
elefante na loja de cristais, um jovem, busca algo, mas cai na permanência,
são os personagens da tragédia do circuito humano, marca da indolência.

Para um único fato, fartas interpretações

A alvorada em vida, contempladores, os homens apenas são manicurtos,
emerge aos atores uma roca a tecer destino, grande questão ao seu turno,
a questão é! Não basta a cena! Ao personagem a exegese! Veio do monturo?
Seria a prenhe fidalga? Porque tal abandono? Quem do seu ventre nasce?
Tanta pergunta, como ramos e galhos, nem pingo que na inteligência passe,
alegrai filhos caribocas, netos dos Cariris, ponham as idéias para que asse,
aos deuses vitoriosos e àqueles tombados, no altar, sacrifique-se, eu julgo,
quem importa as versões? Primaveras e verões, como estações ao mundo,
os homens, esferas, não são, globais também, beleza é ser quimbundo,
rejubilai povo da terra, genealogia cruzada de um mor de sangue junto.

Ao que vês, o que afinal farás?

E a questão é: uma mulher em fase de dilatação, ao sol da Praça Central,
em volta, um homem de fé, outro de razão, consultado o feito capital,
logo se aproxima um jovem, buscando entender a cena de certo fatal.
Do século a grande dúvida: seria a inteligência alienígena? Sem resposta.
Algures! Porque afinal? Se ao lado tanta ignorância da inteligência posta,
afinal mova-se ao ritmo do que teus olhos vêm, e nascer é aqui e agora.
Bem ali, sob a sombra das palmas, ao limiar do termo e começo, é natal.
Qual fé a engravidou? Que sêmen ao óvulo nidificou? Quem pagará afinal?
Três homens se nutrem dos próprios hábitos para repetir-se o ciclo de bosta;
vozes fogem ao foco afora, com teorias, na prática, ao mundo dão as costas.

Nem deuses, nem reprodutores, apenas fazer

O homem de fé, do milagre à frente sua, às contrações dos lisos músculos,
da luz iminente, que a mulher expulsa, vê a planície qual manada de búfalos,
ao homem de razão diz: de Deus vontade desdobrando galhos a caulículos;
ao homem, o arbítrio livre, vontades migratórias, febres, acasos e impulsos;
e Deus, magnânimo, aponta a senda dos passos seus à paz do repouso,
se Deus não houvera, a fé alimentar-se-ia apenas do tempo momentoso.
Responde o homem de razão: como qualquer, os maus, felizes também são,
desprezíveis, rivalizam com animais; entre os dois, não há diferenciação.
O homem capital, absorto, esquadrinha a cena, calcula a própria subtração,
O jovem, desejo súbito, como faz no impreciso, de fumaça enche o pulmão.

Cabe a pausa reflexiva, frente ao drama?

E os fatos implacáveis são, o curso do grão, na ampulheta, jamais cessará,
a contratura expulsatória o rumo mantém, ao que os homens também,
permanente no longo significado de suas idéias o homem de fé continuará:
Forma, apenas isso, seria se à massa não aderisse a alma que lhe convém,
ela, o logos entre deus e os homens, hermeneuta, a alma certo traduzirá.
Abre os braços em condescendência humílima, o homem de razão vai além:
entre os homens e os demais animais, mais igualdade entre tais refletirá,
continuidade de ambos, a cura, igual do médico, no veterinário contém,
a obra da vida, que da criação foi, o cotidiano é o ensaio que a modificará;
a criação age no mundo e o mundo na criação, o homem pesa em achém.

Ignora-se tudo, mesmo a brisa

A brisa, largo da praça, sopra a folha de jornal, ao que é aprisionada e lida,
haveria nas suas tabelas o pregão Nasdaq? Examina-a, divergente da vida,
o homem capital cala-se, nos olhos, que percutem o vazio ilógico do jogo.
Se há para quem tudo é fé, ou àquele racional, há os abrasados em fogo;
o capital não se cala ao drama, aposta, especula, lucra, qual avião-suicida,
troca acusações a fé e a razão, sob o olhar atento, especulador, do tadarida;
ao que se indigna, apontando o parto em dores, o homem razão com arrogo:
transformação, em profundas raízes, debulhando grão, luz ao mundo novo,
será tempo vindouro, muito além do milênio, incandescendo a lamparina,
luz em desvãos sombreados, polindo o cinabre dos metais, qual ambarina.

Milenarismo revolucionário

Escoimados de Deus, decantados ao demônio só, são as crenças milenares;
esperança vã, se à ordem eclesial não forem, serão farrapos feito militares,
horda desordeira, condução da insanidade, lixo que se junta aos milhares,
ao sacrário exclui, à palavra de Deus deturpa, rapina a fé feito ladravazes.
De súbito diz o homem de fé e aquele de razão libera as apícolas mordazes:
Nem os escombros resistem, a mínima parte do edifício, se reduzirá ao pó,
o castelo da fé inabalável, ao etéreo se diluirá, nem fica o peristilo rococó,
clérigos, adubos da nova esperança, serão, pacíficos, qual o cativo mocó,
valores episcopais, novos rebanhos distribuirão, revolução não é tema só,
como funil arrasta todas as águas, transpõe sobrenadantes, abranda o jiló.

Vem um deus clássico

Um grito risca arco sobre a praça, se desdobra sobre íris, sinal divino,
as vozes se calam, os pensamentos emudecem, é o ponto do adivinho.
Lancinantes as dores são, o ventre, botão desabrochando, desejo de flor,
espera-se a realização dos sinais e de fato um deus clássico juntou-se à dor:
o mundo subjetivo é a diversidade, ao contrário da objetividade uniforme;
celeste, por assim dizer, subjetivo, de criação infinita, da corte disforme.
A objetividade, mediana é , já a subjetividade é dispersão e oportunidade;
cada sujeito um universo próprio, uma versão dada, determinada cidade,
o céu da subjetividade é, sem o Deus mediador, o céu expositor, o liberal.
Recolhe-se a luz celestial, fica a dor bestial, ao lado os homens, em geral.

É pausa. É repetição

Levanta-se, efeito dos ventos rasteiros, poeira de bilhões de grãos de areia,
quem irá saber de cada, se depositando, esmerilado, como realiza a bateia?
Assim vemos o drama humano, grandes números, fluxo da banalidade;
o autor some, desfaz-se o sujeito, desejos irrealizados, podre mocidade.
Assembléia sem decidir, tomada sem rumo, ao deus dará, nada mais há!
Há! O barro sublimado que cerâmica fez-se, um vaso e um pé de manacá,
mas, por se falar em frutos, o que se dirá da criança que na praça nasce?
Ao olhar atento, mente ocupada, membros dispersos, letras em longa haste;
versos gongóricos, pensares alegóricos, a vida flui, apesar do londrino fog,
afinal todos, a não ser o drama desenvolto, personagem de Gog e Magog.

Apropriações

Sobe a cotação da nova economia, Celera Genomics, ciência empresária,
nem conquista ou avanço, saber é negócio, célere feito “La Passionária”.
A ciência da vida cresce o pregão, multiplica aplicações, é gestacionária,
mesmo evoluindo do elementar, a ciência é uso na sua fase relacionária,
é lastro para a inversão...eis o homem capital e a sentença reacionária.
O jovem, hambúrguer, vídeo game, coca-cola, nem o drama ou discurso,
ignora tudo, enoja-se do líquido gestacional, apascenta-se ao dado curso,
o drama: qual seu papel? Prateleira de mercado, mercadoria em concurso.
Pai provedor o tutela à vontade. Fosco olhar enfastiado: hibernação do urso.
Vontade imprecisa, desejo disperso; tudo quer, nada é; só rumo excurso.

A felicidade é química

Intensificam-se as contraturas, a cada intervalo menor, no centro da praça,
rés do chão, nível abaixo dos longos discursos, o parto continua sem graça,
uma anunciação, o deus máquina entre eles, do impreciso, talvez de Talassa:
houve tempo em que a felicidade era busca no mundo afora; cada qual,
com seu método de conquistá-la, outros com a sorte de encontrá-la igual;
segredos guardavam tantos da felicidade possuída, mas veio um viés tal,
que a busca externa nada resolve. Sinapses, neurotransmissores, cerebral;
felicidade é o metabolismo da serotonina, sofrer é afinidade de massa.
De volta ao satélite de Netuno, o Deus foi, abandonando o parto na praça,
os homens permaneceram como os anéis de Saturno, um sinal que marca.

Impulsos culturais e biológicos

O homem racional aponta a parturiente: não é, o fruto, produto cultural,
mesmo que se programe, postergue o filho, a mulher na libertação social,
sua escolha sexual não é suficiente, pois de dentro, inexorável força vital,
um filho surgirá para somar o mol dos humanos socialmente necessários.
Um grupo de mulheres, de filhos mais cedo e outras, tardios, ao contrário,
todas mais férteis, tocadas pelo relógio biológico que não pára arbitrário.
O jovem perplexo ouve e nada compreende, nem a mulher em erupção,
ou as palavras da razão, não sabe da fé, da riqueza, só o efeito da sedução.
Ameaçado pela razão, o homem de fé se agarra ao mistério sem solução.
Já o quarto personagem indiferente ao ato, espreita oportunidade capital.


Entre o prazer e a tortura

Vendo-a assim, deitada no chão, nas dores do parto, um sentimento revolve,
o espírito do homem racional: entre o úmido bacante e o seco franciscano,
despojado face a luxúria, vive o medo do pecado, o líder Cratense é pobre.
Sorve o gole de cachaça numa mão e na outra aplica o cilício mortificando,
sedutor, servil, covil de crueldade; ao líder, toda culpa que ao outro move,
jamais é sua. A ele o esplendor da anunciação em seguida vai parando,
as luzes, apagam, os telefones se calam, o consumo cessa, passa das nove.
Tanto cinismo assim indigna ao homem de fé: porque aos líderes acusas,
se embaixo de ti uma alma clama ajuda e nada mais fazes que detratar,
a ciência vitoriosa é, também, a maior catástrofe, a todos e a tudo abusa.

Entre a fé e a razão

Jamais se viu algo igual, uma luta de deuses às claras quanto à dos homens.
Fazia-se de subterfúgios, ameaçou o deus máquina: tudo se resume a tijolos
- elétrons, múons, tau - e forças: forte, eletromagnética, fraca e gravidade.
Reage furioso deus clássico: teu pecado e a preguiça que a todos reduzem.
A forma? Imitas as casas que te abrigam. Vontade é força, como bipolos.
Ser é artigo de lei, social dinheiro é, natureza uma máquina em atividade.
O homem racional se alegra do mundo que seus deuses a si conduzem,
já o de fé rejubilou-se da mecanização que a ciência reduz com dolos,
o homem capital registra os fatos, as idéias, na busca de sua contabilidade,
rompe-se a bolsa d’água, amiúdam-se as contrações, desponta o nenen.

A ira do deus clássico

O deus clássico continua o argumento: a razão não fez o mundo mais belo,
a ciência ampliou a ameaça do ambiente sobre todos. O que era melhora,
fez-se apenas servidão. Conhecimento? Fortaleceu o dominador da hora.
A cada descoberta ou nova invenção, mais um braço a esgoelar o elo,
que mantém a integridade do ser. O liberto que da ciência é certo,
integrou-se ao processo da exploração. A sujeição da natureza morta?
Apenas a troca de uma crença eclesial pela economia secular e agora,
em desespero como sempre fez, ao fluxo de caixas, tudo estratégico.
A natureza hostil é projétil, violência é o cântico apologético.
Como de costume, lançou um raio que fulminou metade das palmas.

Ao que se ira o deus máquina

O deus máquina, em luzes de néon, rebate a ira clássica: Manipulação!
Palavras em Cristo, Buda ou Maomé, relíquias falsas sobre palma da mão.
O combustível que tangeu massas famintas e desesperadas tal qual o cão,
danados nas rotas da peregrinação. A paz, cuja única e possível realização,
é a morte. A sorte, ceifada a lâminas negras que arrasam tudo feito tufão.
A vitória da razão foi a descoberta das Américas, longas rotas comerciais,
foi a máquina a vapor, o laboratório, a imprensa, pensamentos racionais.
Eis a civilização do hidrocarboneto, sobre a pólvora, o ferro e os metais.
Destruição, na ira sua, não, possuía a bomba, mas preferiu efeitos espectrais,
jatos de luzes, canhões holográficos, focos de laser, mor efeitos especiais.

Surpresos! Fala o jovem.

Indiferentes, o epicrânio do nascituro da vagina brotava, ficaram surpresos,
com as palavras pelo jovem ditas: falso é o mundo a quem estamos presos!
Nada é natural, tudo se produz pelas máquinas, que nos conduz coesos.
Mansos, tudo artificial é, a luz do dia, a temperatura ambiente. Tal coelhos,
em caixas de laboratórios experimentais, consumidores de produtos coevos.
E tu! – Aponta o homem capital – Condutor deverias ser! És conduzido.
Crises capitais, ciclo depressivo, concorrência. As cifras, por elas seduzido,
não tens caminhos nas estrelas, apenas o chorume poluído por ti produzido.
Diferente não és! – Acusador ao homem de fé – Eternizas o pó evanescente.
Nem tu! – Ao homem racional – Reduzido imanente, jamais transcendente.

Ao que os sábios respondem

Uma associação imediata, mais denunciava identidade que contraditório.
Os homens presentes, em série reagiram, primeiro a fé: E tu? O ilusório,
as malhas da ficção televisiva e cinematográfica, em efeito alucinatório?
Quem sóis? – Reage o de razão – Apenas sobejo do pai um dia revisório.
Quanto queres? – O homem capital – Dinheiro divide, mas é consistório.
Como em coro, os três continuam: informe-se, informatize-se, fale inglês,
negocie, despoje-se do passado, a globalização aceira os valores de vez.
A sobrevivência, é ocupar canto entre melhores, os demais são apenas rês,
se prestam para alimentar as trocas dos talentos que a tecnologia fez.
Chão da praça, líquido amniótico derramado, finda-se o parto em higidez.

Segue a vida

Os deuses vitoriosos e os vencidos, os homens e o jovem, cada um em si,
pelas vias entremeadas de bancos e jardins, separam-se, hora é de partir.
Carregam consigo as malhas que os contém, as travas que os sustenta, eu vi.
A fase de decedura, antecâmara do puerpério, quando expulsa foi a placenta.
A mulher separando o recolho, esgotada, beija a cria, como à flor o colibri.
Segura nos braços a criatura, como oferta ao seio fizesse, ao quadril assenta,
não importa o corpo que nascera, sabe quem viera, as pernas mal a sustenta.
Solitária, entre palmas, imersa na brisa farta, trôpega, lentamente se ausenta.
Consigo, no colo de afago, leva um certo projeto, ou tentação de anfiguri,
talvez, nem suspeitas hão, para o manancial que a tudo arrastará feito bariri.

A Loucura em Liberdade, um artigo de Cleide Correia sobre a loucura em Crato


Por Carlos Rafael Dias

O nº 5 da revista Tendência – Caderno de Ciências Sociais, publicação do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (URCA), lançada em setembro de 2007,- traz um interessante artigo de autoria da professora Cleide Correia de Oliveira(1), sob o título “A Loucura em Liberdade: Vivência e Convivência”(2). A partir da identificação de personagens considerados diferentes, ou “loucos”, que circulavam livremente nos espaços públicos da cidade do Crato, no período de 1930 a 1970, o artigo é um estudo sócio-histórico ancorado no método da história oral. No artigo, “a loucura narrada no cenário de Crato indica a existência de uma multiplicidade que revela a complexidade, a diversidade transcendendo o paradigma psiquiátrico tradicional, cujo princípio fundamental é a idéia de que o louco deve ser isolado da sociedade”. Este paradigma se apóia na idéia de que a intervenção médica para o tratamento da loucura deve prescrever necessariamente o isolamento do doente em casas especializadas – os temidos hospitais psiquiátricos. Somente por este aspecto, o artigo já teria o seu inegável valor como literatura médica. No entanto, para quem viveu em Crato no espaço cronológico escolhido pela autora como recorte de tempo , o artigo vale, e muito, pelo resgate de uma série de personagens que, pela singeleza de suas vidas, nunca interessaram à história oficial, mas que permanecem preservadas indelevelmente no imaginário de toda uma geração.

O período abordado foi escolhido por abrigar dois marcos na história da saúde do Crato: a fundação da primeira instituição hospitalar na região do Cariri, o Hospital São Francisco de Assis, em 1936 (quando a sociedade local ainda convivia com a loucura em liberdade), e da criação do Hospital Psiquiátrico “Casa de Saúde Santa Tereza”, em 1970 (quando a loucura foi aprisionada).

Com a coleta de depoimentos de pessoas que conheceram os ditos personagens considerados diferentes, o artigo resgata a história de vida de nove loucos, verdadeiros tipos populares que marcaram época em Crato: Maria Caboré, Pernambucana, Tandôr, Compadre Chico, Dona Joaquina, Baixeirinha, Moipen, Pedro Cabeção e Antonio Corninho. Os relatos, com suporte de fontes secundárias, enfatizaram as características, as vivências e convivências desses personagens e revelaram situações tanto trágicas quanto cômicas. Esses “estranhos” personagens viviam em casas velhas, em ruínas e praças públicas, apresentando comportamentos que fugiam das normas sociais e dos mecanismos institucionais de controle.

SONHOS, MANIAS, DRAMAS E PAIXÕES

Entre esses personagens, alguns chegaram a transcender suas vidas de excentricidade e sofrimento, como foi o caso de Maria Caboré, “uma morena com estatura mediana, que gostava de usar pulseiras, bijuterias e colar doados pelos moradores da cidade. (...) Tinha um desejo muito forte de contrair núpcias com o “Rei de Congo”. As crianças da época conheciam esse desejo e exigiam que ela deglutisse objetos, como bola de gude, frutas pequenas e outros, em troca do casamento. Sendo assim, essa personagem fazia um grande esforço para engolir tais objetos, para casar-se com o referido Rei, fruto da sua imaginação.” Depois de morta, vitimada pela peste bubônica, na década de 1930, Maria Caboré passou a ser venerada como dispensatária de milagres. Até hoje, o seu túmulo, no dia de finados, é visitado por grande número de pessoas, que deposita flores e velas em retribuição às graças alcançadas.

Compadre Chico é outro personagem que merece destaque, pela sua fixa crença de que o regime monárquico seria restaurado no país e pela sua mania de planejar como este fato se daria. Com o seu imaginário subalterno, a quem chamava de Frutuoso, “planejava batalhas, nomeava comandantes, designava o local em que as tropas deviam postar-se para o ataque e, às vezes, marcava a data em que o Crato seria saqueado (...) em prol do retorno do imperador.”

O drama, não como uma ficção artística, mas como uma realidade cotidiana, sempre foi uma constante na vida desses personagens, como aquele vivenciado por Dona Joaquina, que viveu no Crato entre as década de 1940 e 1950. Trabalhava, junto com a filha, como doméstica, mas um dia abandonou a família e foi morar na Praça da Sé, sob um oitizeiro. Diariamente, sua filha deixava-lhe comida e um dia foi buscá-la quando o mal que a vitimou lhe acometeu.

Nas décadas de 1950 e 1960, um homem de estatura alta e de aspecto moribundo vagava pelas ruas da cidade, de porta em porta, com um prato de flandre já gasto, girando em um dedo da mão direita enquanto repetia, com voz diferente, uma locução: Moi... Moi... Moi... Moipen... Moipen... Moipen. Por isso, todos o conheciam por Moipen, sabendo, devido a sua inclinação religiosa, que a estranha palavra era uma corruptela que significava “uma esmola para Nossa Senhora da Penha”.

Para finalizar, não poderia deixar de citar outros dois personagens enfocados no artigo, responsáveis por situações de rara comicidade: Pedro Cabeção e Antonio Corninho.
Pedro Cabeção, assim conhecido devido a avantajada cabeça, ainda mais desproporcional devido ao seu corpo miúdo, tinha dois sonhos, que só veio a realizar depois de passar a perceber uma renda fixa por conta da aposentadoria: conhecer a estátua do Padre Cícero, na vizinha cidade Juazeiro do Norte, e adquirir um aparelho de rádio. Pedro vivia com uma tia que ao chegar em casa viu-lhe quebrando o rádio com uma pedra. Indagado por que fazia aquilo, Pedro respondeu que era por causa do rádio, que não parava de lhe aperrear, perguntando o tempo todo: você viu o cabeção por aí? Na verdade, ele se referia a um refrão de uma canção muito tocada pelas emissoras de rádio no início da década de 1970(3).

Já Antonio Corninho, que tinha ponto fixo na Rua da Vala (hoje rua Tristão Gonçalves), ficava bravo quando lhe tratavam pelo depreciativo sobrenome. Incontinenti, retrucava: “melhor ser corno do que ser prefeito. Prefeito é só quatro anos e corno é pra vida toda”. Não se sabe, porém, se a alcunha foi por conta de algum trauma sentimental, devido a uma infidelidade que lhe foi atribuída. Mas, os relatos sobre ele atestam a existência de um caso amoroso que ele manteve com uma louca a quem apelidavam de Macaúba, “a qual sempre aparecia grávida. Os dois viviam em eterna lua-de-mel, na rua Tristão Gonçalves, nos batentes do prédio onde funcionava o escritório da VASP, causando transtornos aos transeuntes.”

Lembro do dia em que Antonio Corninho morreu e como o fato teve uma grande repercussão na cidade.

Notas
1. Enfermeira. Professora Mestra Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Regional do Cariri – URCA, Crato – CE. cleide@urca.br.
2. Prêmio Jane da Fonseca Proença, 1º lugar – melhor trabalho de Enfermagem Psiquiátrica, Saúde Mental e Relacionamento Interpessoal – 54º CBEn.
3. Música “O Cabeção” de Roberto Corrêa e Sylvio Son, gravada pelos Golden Boys.

ELAS DANÇAM SOZINHAS

ELAS DANÇAM SOZINHAS

Durante estadia no Chile de Pinochet, quando se dirigia a um ensaio, o músico inglês Sting viu uma cena inusitada: uma mulher com lenço nas mãos dançando sozinha em volta de uma cadeira numa praça do centro de Santiago. No dia seguinte a cena se repetiu com a mesma mulher do dia anterior, acompanhada de outras, de idades variadas, repetindo os mesmos passos. Sting observou que elas traziam fotografias de homens penduradas nos seus pescoços. Soube que o ritmo era a Cueca, dança típica do país e descobriu tratar-se de denúncia/protesto silencioso contra o desaparecimento de maridos, pais, irmãos e noivos. A iniciativa, coibida com violência pela polícia política da ditadura, chocou o roqueiro e o inspirou a compor a música They Daced alone. Vejam a parte inicial da letra, a versão livre e, se quiserem ouvir a belíssima canção, acessem o site:

http://www.youtube.com/watch?v=a_jDiDya5j4

THEY DANCED ALONE

Why are there women here dancing on their own?
Why is there this sadness in their eyes?
Why are the soldiers hereTheir faces fixed like stone?
I can't see what it is that they dispise
They're dancing with the missing
They're dancing with the deadThey dance with the invisible ones
Their anguish is unsaid
They're dancing with their fathers
They're dancing with their sons
They're dancing with their husbands
They dance alone They dance alone

ELAS DANÇAM SOZINHAS

Por que aquelas mulheres dançam com elas mesmas?
Por que há tristezas em seus ohos?
Por que os soldados estão aqui com fisionomia de pedra?
Não consigo ver porque eles as desprezam
Elas estão dançando com os desaparecidos
Elas estão dançando com os mortos
Elas estão dançando com amores invisíveis
com suas angústias e seus silêncios
Elas dançam com seus pais
Elas dançam com seus filhos
Elas dançam com seus maridos
Elas dançam sozinhas, Elas dançam sozinhas

Quem quiser ver a dança “Cueca”. Acesse o endereço:

http://www.youtube.com/watch?v=W4PlPx7PTuE&feature=related

Repentes ao luar de Agosto - Claude, Anita, Socorro ...


A sina do matemático
é usar a sua lógica;
A sina de um poeta
é fazer versos sem lógica
matemático-poeta
usa no verso, a lógica.
.
Toda a gente do Crato
Vive em plena sintonia
Se não for durante a tarde
É de noite, é de dia
Padre Nosso, Ave maria.

Empatia e sintonia
casam bem nunca discutem
vivem o orgasmo da vida
numa plena sinfonia.

A loucura é um limite
Que quem ama desconhece
É sorrir estando triste
Um riso que enternece.

No mistério do querer
não sei muito o que dizer
Amor não pede licença
já entra arrombando a porta
mas entra suavemente
e se instala de repente

Tudo na vida é possível,
Basta tentar e querer
Impossível é, no entanto,
Eu me esquecer de você

Meu encanto mora longe
mas descortina o caminho
uma hora é minha aurora
mais tarde é meu desatino
- a lua é a minha mira ...
ri de mim , aqui perdida.

A noite ainda é criança
respinga a solidão
quando bate a saudade
pego logo um avião

atravesso o espaço
fecho os olhos, me deleito
me sinto em teu abraço
guardo o amor no meu peito

e se você duvidar
te trago nesse avião
e te guardo apertadinho
dentro do meu coração.

O reflexo da lua ,
banha uma parte de mim
nessa branca página ,
(que a lua deixou em mim)
escrevo um verso nostálgico...

Por que você assinou
o reflexo do bilhete
que a saudade rabiscou ?


LUAR DE AGOSTO( mote)
Quem vai entrar na roda ?

sexta-feira, 31 de julho de 2009

MEDITAÇÕES.por SOCORRO MOREIRA

.

A liberdade de ir além, exige desobediência.
Mas quando chegamos no além,
a gente obedece ao tempo ,
e começa a voar no pensamento.

MEDITAÇÕES.por JOÃO MARNI

Obediência - Observando hoje os pássaros
ao final da tarde, à hora do recolhimento,
Sinto-me irresponsavelmente fora dela.

Para ti - Por Claude Bloc


Foi para ti que abriguei a chuva
que calei o vento
e derramei-me feito perfume
nos confins da terra...
Eu te garanto
não toquei em nada mas para ti foi tudo,
tudo o que escrevi!
.
Para ti, criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei a fruta mais doce
e o sabor do sempre
sempre ficar.
.
Para ti dei voz
ao meu olhar
às minhas mãos
.
Para ti
abri os gomos das horas
verti as gotas do tempo
e voltei á rua
e revi a cidade ...
.
Para ti, sim, para ti
Escrevi este poema
e pensei que tudo estava em nós
desde outrora, nessa doce espera
no engano das horas
de tudo sermos donos,
e nada termos...
.
Para ti escrevi
simplesmente porque era noite e não dormíamos...
.
Para ti dediquei
Verso por verso
Em cada prosa
A cada momento
em que eu descia em teu peito
para me procurar.
.
Por Claude Bloc

M.A.S.A.

Depois da primeira tentativa de chegar à lua, Juvenal fogueteiro literalmente criou asa. Não tinha conseguido o feito porque não pensara naquele pequeno detalhe: mandara o fogo em dia de lua minguante e o artefato desceu na pontinha da lua. Terminou escorregando e se lascando no chão. Depois do pouso da Apolo XI, no Mar da Tranquilidade, Juvenal ficou meio capiongo. Matozinho tinha perdido a corrida espacial, por um detalhe velho muito do besta! Ao invés de baixar a crista, o fogueteiro criou sustança nas canelas. Resolveu construir um foguetão e mandar para lua, agora num dia mais propício. Nessa data que corre lobisomem , ela fica mais perto da terra e o alvo, também, é mais fácil de acertar. Procurou o Coronel Serapião Garrido, militar reformado, e contou das suas pretensões. O coronel animou-se com a idéia: Matozinho ia passar quinau em outras cidades que se diziam muito mais desenvolvidas. Imaginou, por outro lado, que o feito lustraria seus brios de militar reformado e que nunca tinha disparado um tiro sequer em campo de batalha. Serapião impôs prontamente uma regra de difícil exeqüibilidade para o sucesso da missão:
--- Aceito o desafio de chefiar a missão, seu Juvenal, agora sob uma condição: o vôo vai ter que ser tripulado. Não adianta mandar só o foguete que ninguém vai acreditar que o bicho chegou na lua. Tem que ter uma prova! Não é possível que não se encontre um cabra macho para enfrentar o desafio aqui em Matozinho! Se eu fosse mais novo, já estava alistado!
Juvenal concordou com Garrido. Partiu para casa e começou a refazer os cálculos. Agora , com os novos planos, mudava totalmente a logística. O foguete tinha que ir e voltar com o astronauta e as provas do pouso lunar. Como conseguir o intento? Além de tudo, haveria necessidade de roupas e equipamentos especiais . Juvenal conseguiu um gibão, uma perneira , o peitoral e as botas de Antonio de Lausemiro um famoso vaqueiro de Bertioga. O velho Janjão tinha um motozão Índia e aceitou emprestar seu capacete para uma causa tão nobre. Cálculos feitos, projeto pronto, Juvenal seguiu para prefeitura e lá conseguiu convencer o prefeito Sindé Bandeira da importância do feito para a história de Matozinho. Sindé não mediu esforços:
--- Este é um dia histórico, Juvenal, para Matozinho e para o Brasil. Vamos entrar, definitivamente, na era espacial. Vou fundar a MASA – Matozinho Aeronautics and Space Administration. A prefeitura lhe vai dar todos os insumos necessários. Pode ocupar a área que era destinada ao Matadouro Público e que nunca foi terminado.
De posse da carta branca municipal, faltava a Juvenal apenas o detalhe mais crítico. O tripulante. Por mais que procurassem a coisa não estava fácil. A prefeitura prometeu recompensa, mas ninguém se atrevia a pegar no rabo do foguete. Mais uma vez Serapião, presidente nomeado da MASA, foi quem resolveu a pendência. Lembrou de um astronauta em potencial que dificilmente se negaria a encabeçar a missão: Tan-Tan. Ele era um doidinho que vivia nas ruas de Matozinho e que não tinha medo de nada. Montava em burro brabo, comia gafanhoto vivo , pegava cobra com a mão. Tan-Tan, convidado, aceitou de pronto a missão, exigiu como recompensa apenas um queijo de manteiga e uma lata de doce de leite.
A construção do foguete de Juvenal durou mais de três meses. Cortaram um imenso pé de braúna, esvaziaram o miolo do bicho e pegaram a socar pólvora. Gastaram mais de dez quilos só no foguete de ida. Pregado a ele, ao contrário, rabo com cabeça, ia o foguete de volta., Tan-Tan , após o passeio lunar, foi orientado a acender o bicho e voltar para terra de novo, com a prova da missão realizada: uma peça do arreio do cavalo de São Jorge !
No dia aprazado, um sábado de Lua Cheia, estrategicamente escolhido, toda Matozinho se espremia defronte do Matadouro Municipal que abrigava os dois foguetões amarrados um ao outro com cordas de agave e apontados para o firmamento. No meio, tinham ajustado um esqueleto de bicicleta, justamente onde Tan-Tan se acomodou , devidamente paramentado. Depois, os discursos de praxe:
--- Este é um pequeno vôo para Tan-Tan, mas um grande salto para Matozinho!
Já anoitecendo, quando a lua começou a vazar sangrando no horizonte, apontaram o foguete na direção do planeta e Juvenal acendeu o estopim. O foguete desapareceu numa imensa nuvem de fumaça, soltando fogo para tudo quanto é lado. Subiu fazendo pirueta, parecendo rabo de égua. Ouviam-se , em meio à fumaceira, os gritos e gargalhadas de Tan-Tan. O povo , temendo uma explosão, saiu correndo desesperado. Pelo chão ficou um sem número de objetos.
Passados os dias, Tan-Tan não retornou e não mandou notícia. Um mês depois , Juvenal e Garrido entraram vexados na prefeitura. Finalmente haviam tido os primeiros sinais de Tan-Tan na lua. Um foguete velho todo queimado havia sido encontrado por um caçador, na Serra da Jurumenha, junto com um chaveiro cheio de chaves. Juvenal explicou:
--- O foguete voltou. Achamos que Tan-Tan , aluado como era, se deslumbrou com a lua e resolveu ficar por lá. Mandou o foguete de volta apenas com a prova da sua chegada nos solo lunar!
O prefeito Sindé não entendeu:
--- Mas como, ele mandou algum arreio do cavalo de São Jorge ?
--- Não, mas mandou esse chaveiro cheio de chaves...
Sindé ,confuso, pergunta:
--- Mas o que é que diabos tem a ver chave com São Jorge, pelo amor de Deus?
Juvenal explicou:
--- Cavalo, que cavalo! O homem ta moderno,meu Senhor, foi do tempo de cavalo, São Jorge agora usa é Moto ! Ói as chaves dela aqui que Tan-Tan mandou!

J. Flávio Vieira

saudade

perdido nesta sala
cadê você?
os olhos ardem na sua ausência
a música invade a noite
a noite sou eu escuro de você

sem a luz do seu rosto para me acalmar
é duro dizer
não passo de um barco sem mar

perdido nesta sala
todos os dias intermináveis
quase morto
estou um barco num mar sem porto

enfim
estou aqui
sem o aqui está em mim

O Erotismo Poético de Gilka Machado


Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro RJ 1893 - idem 1980). Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915.
Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931).
Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro.
Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo.
Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo,em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma?
Biografia: http://www.itaucultural.org.br/

Livros: Cristais partidos (1915), Estados da alma (1917), Poesias (1918), Mulher nua (1922), Meu glorioso pecado: amores que mentiram, que passaram o grande amor (1928), Sublimação (1918).

LÉPIDA E LEVE

Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
o verso não descreve...
Lépida e leve,
Guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos ruído,
o vocábulo, ao teu contato de veludo.

Dominadora do desejo humano,
Estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes , solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá de tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação ,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!

- Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
- Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de alucinação,
és o elastério da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
- Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contorrnas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...

Língua-lâmina, língua-labareda,
Língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

Hoje não tem fita ...Tem papel ! - Por Zélia Moreira


Hoje, a Zélia apaixonada por cinema e música tirou folga.Deixou no seu lugar a que adora poesia.
Por falar em poesia, tenho com ela um caso de amor antigo e mal resolvido .
Durante muito tempo fui uma poetisa frustrada, até o dia em que assisti o filme "O Carteiro e o Poeta ".Num diálogo entre Pablo Neruda e o carteiro Mário Ruoppolo ,ele(o poeta) diz: "A palavra depois de escrita é de quem dela precisa.."
Era tudo que eu gostaria de ouvir. Faço de vez em quando minhas as palavras dos poetas, respeitando a autoria, claro!
Dia Mundial do Orgasmo , lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade e seu livro "Amor Natural ".
São poesias eróticas( nada pornográficas), que assinadas pelo grande poeta, dispensa comentários.

SEM QUE EU PEDISSE FIZESTE-ME A GRAÇA.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo, não te escuto, não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Escutatória - Rubem Alves


(Casa de João Marni - foto by Nilo Sérgio)

Rubem Alves (educador, teólogo, psicanalista e escritor, nascido em Minas Gerais em 1933)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (o mestre de todos os heterônimos de Fernando Pessoa) que “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias dentro da cabeça sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.”

Parafraseio o Alberto Caeiro: não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor. Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração. E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Vejam a semelhança. Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos. Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado. Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.

E, assim, vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência. E se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras. No lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia. Que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Haikus - por Cesar Augusto

Vento deflora


uma árvore virgem


com ar estéril.



Soldado morto

vende suas entranhas

ao açougueiro.


Vozes na madrugada - Por Emerson Monteiro

Passada a guerra, em 1945, enquanto aguardavam terminar a casa que meu pai construía em uma colina fronteira ao pátio da pequena povoação, próxima da capelinha, meus pais ocuparam alguns meses uma das dependências da casa grande da fazenda.
Haviam casado em Crato, e logo se deslocaram para o município de Lavras da Mangabeira, onde, no Tatu, fixariam residência, nessa propriedade dos meus avós paternos.
O lugar guardava existência própria, na simples precariedade que detinha. Uma dúzia de casas de taipa habitadas por famílias de agregados. Dois açudes. Canavial. Moagem. Lavouras de subsistência no incerto período chuvoso. Arroz. Feijão. Milho. Fruteiras. Além da fama misteriosa de mal-assombrado.
Minha trisavó, Fideralina Augusto escolhera, na segunda metade do século anterior, estabelecer ali a sede do clã que formaria, filhos e genros senhores de baraço e cutelo na política e nas terras em volta. Construíra engenho a boi, o açude maior, uma casa senhorial e, no contar dos mais antigos em serões intermináveis, deixara enterrada botija de moedas de ouro, prata e ouropéis preciosos.
Desde sua morte, em 1919, vitimada por febre destruidora espalhada no mundo, vezes tantas apareceu nos sonhos, ou em vulto, causando transtorno fora e dentro dos antigos domínios. Queria a todo custo entregar o legado aos que ficaram, para escapar das chamas do engano e da maldição das almas penadas.
Minha mãe buscava não se impressionar com as histórias das aparições da matriarca. De formação católica, nutria outros pensamentos a respeito daquilo. Punha as histórias de alma na caixa do folclore, das tradições e lendas sertanejas, coisas de tipo fantasioso.
O tempo, senhor de tudo, no entanto, desfilava dias e noites e modifica até os mais arraigados conceitos.
Naquela hora, ainda acordada no meio de uma madrugada fria, escutava as rajadas do vento no escuro quando ouviu, de longe, o trotar de montarias. Vinham se aproximando. Pela estrada, percorriam o lado da bagaceira do engenho, passavam no terreiro da casa e mergulhariam pelo beco formado entre a casa grande e o engenho, indo desembocar no alto da parede do Açude Velho, fonte da água das imediações. Ao final, uma cerca de vara trançada e cancela que batia forte à passagem dos viventes, eco a deslizar na mata abaixo do açude.
O som da pisada dos animais chegava mais perto, realçando o vazio silencioso da solidão. Quase defronte da casa, vozes se destacavam em animada conversação.
- Hoje seu Amâncio começou a moer foi cedo?! – distinguiu nítidas as palavras de um dos cavaleiros.
Até então, nada incomum. No instante, contudo, ela lembrou ser dia de domingo, o feriado da semana, em que não se moia, a tornar irreal e estranho aquele comentário, a causar medo de ouvir sem uma razão que justificasse.
Ainda sob o impacto da afirmação desencontrada, frêmito percorreu seu corpo de cima a baixo, sob os lençóis, enquanto o tropel marchava adiante, deixando-lhe gravado no coração, naqueles vagos adormecidos, o ferro sombrio do inexplicável, presença constante na fase que viveria no sítio desde essa noite.



UM LONGO DIA



Ah! Tu não imaginas como são longos

Estes dias sem a tua presença amiga.

Correm morosos. e os minutos?

Estes se arrastam que nem carro de boi gemedor.

Passeio os meus olhos por estas velhas ruas

Do meu Recife a procurar teu rosto.

Vagueia o pensamento solitário por estas torres

E campanários,revolteando perdidamente livres

Em doces recordações de madrugadas convividas.

Ah! Não imaginas como é longo um dia...

Gostaria de não ter a mínima paciência e correr a teu encontro,

Ouvir histórias, descobrir teus segredos bem guardados.

Fazer amor ao entardecer, e já vindo a noite, te fazer dormir

Acariciando estes cabelos negros, soltos, livres

Como um mustang selvagem!

Quando estiveres comigo vou desejar dias assim... sem fim!




A DOR É SÓ MINHA

O vento gelado açoita meu rosto

E vai congelando devagar meu sorriso.

Os nervos crispados

Anunciam a metamorfose.

Sinto a falta dos teus pés

Na minha estrada, na viagem que você

Não fez pra dentro de mim.

Dói esta saudade do que não vivi...

Dos degraus que desci e te perdi.

Dói cada minuto do tempo perdido

Dos sonhos desfeitos

Que não tem volta e nem jeito (?)

Que dor é esta que vai e volta

Que sangra e para

Que une com dois pontos firmes

O Passado e o presente?

Cama suja

Luiz Felipe Pondé

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Desconfio das bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado
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NO FUNDO, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.

Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.

Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.

Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?

Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.

Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.

Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.

Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.

Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.

Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.

Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".

Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.

Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora.


...No dia mundial do orgasmo- Carlos Drummond !




AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
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Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,

e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

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O Chão é a cama

O Chão é a cama para o amor urgente,
O amor não espera ir para a cama.
Sobre o tapete no duro piso,
a gente compõe de corpo a corpo a última trama.
E para repousar do amor, vamos para a cama!


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Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica

quando tocamos a pessoa certa.

.
Carlos Drummond de Andrade

Das remessas por e-mail de Francini nos seus 16 anos

Este blog foi inventado por mulheres com a ajuda de dois grandes sujeitos do masculino pleno. Por isso não é demais postar o que tantos já fizeram. Ouso cair na mesmice, mas a verdade é que me tomo por referência, cada prato de arroz com feijão tem um sabor do dia. Mesmo fazendo o mesmo vôo lá:

Ana Kessler: Eu me habilito.

Minha cara botão de rosa, vestida em pensamento de mulher prosa.

Eu me habilito.

A jamais cobrar a costela que me roubaste.
Quando Gabriel expulsou-me do Paraíso,
levei-o comigo, um pedaço, feito tu.
Quando nossas vozes chorou no exílio de Nabucodonosor,
o doce canto era teu.

Prometo-te todas as estrelas,
a lua também,
quando tudo farei,
mesmo não indo além.

A minha natureza é cortar os galhos da floresta para que teu corpo trilhe solto.
Se teu semblante guerreiro afrontar-me flecha,
dos cabelos mover-me sequer uma mecha.
Quando presidires o congresso dos homens,
conduza-os com teu pleno instinto que gesta.

A decisão que nutre,
o outro que se cria,
nem maior e nem menor,
apenas como tu és.

Pois de outra mulher,
mesmo feminista,
o laço não se armou,
estava fora,
na produção.

A vida,
movida,
tangida,
subidas,
descidas,
saltos e atrasos resumira-se a meras jornadas.

Estiradas,
sulcadas feito disco gravado,
repetidas qual o passado que fala pelo presente.

Não esteve,
em ti e nem em outra,
a correia que move as engrenagens fabris.

Pois o maior dos erros é pensar em ti como parte duma caterpilar que esmagava,
Com as garras de suas esteiras,
como se este fosse um gesto de gênero,
feminino ou não.

Habilito-me a curtir o couro que tuas mãos soltam monções de artesanatos,
Secar a madeira que lentamente espelhará o formato incerto que teu corpo esconde.
A alma que faz brigadeiros,
papos de anjo,
toucinhos do céu,
ajoelhando-me por ti.

Como tanto a teu cérebro frenético ou aquele que recusa sair da cama.
Tanto ao teu corpo nu,
como à fantasia de extrair-lhe espartilhos e sutiãs.
Se algo confuso estou,
nem sempre se deva a papel teu,
pois paixão também entontece.

Seja o que fores,
o que ainda estar por vir,
ou jamais virá,
vivo porque és mulher.


Afinal sou apenas um José do Vale apaixonado por vocês.

Poema-Orgasmo- Por José Carlos Ary dos Santos

De sílabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmúrio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A Poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um Poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que fôr
fazer poemas é escrever amor
e poesia o que tem de ser é orgasmo.

ARY DOS SANTOS, José Carlos, "Obra Poética", Edições Avante, Lisboa, 1994, p.415

(Hoje é dia Mundial do Orgasmo)

PENSAMENTOS PARA O DIA – CHICO XAVIER



(texto retirado da Internet - SEJAM BEM-VINDOS AO MEU BLOG: http://bernardomelgaco.blogspot.com)

"Eu permito a todos ser como quiserem e a mim como devo ser."
Chico Xavier

3 frases

Concentre-se nas frases abaixo:

'Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez'.

'Quando Deus tira algo de você, Ele não está punindo-o, mas apenas
abrindo suas mãos para receber algo melhor'.

'A Vontade de
Deus nunca irá levá-lo aonde a Graça de
Deus não possa
protegê-lo'.
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(http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://botecoliterario.files.wordpress.com/2007/06/chico-xavier.jpg&):

“Cumpramos os nossos deveres, sabendo que a nossa responsabilidade tem o tamanho do nosso conhecimento”

(Chico Xavier, Programa Pinga Fogo 1972)
“Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível!”

“A vida, como a fizeres, estará contigo em qualquer parte. “

Estresse crônico dificulta decisões



(http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/090730/saude/eua_ci__ncia_animais)
Qui, 30 Jul, 07h53

CHICAGO, EUA (AFP) - O estresse crônico afeta o cérebro dos ratos de laboratório de tal modo que tomam decisões de memória no lugar de mudar o comportamento para obter recompensas, revela um estudo da Universidade do Minho (Portugal) publicado nesta quinta-feira na revista Science.

O estresse crônico também modifica o comportamento e a memória, e a liberação de hormônios afeta o cérebro.

Para determinar o impacto sobre a tomada de decisões, os pesquisadores portugueses submeteram a testes diferentes tipos de ratos.

Nestes testes, os ratos podiam mover alavancas para ganhar recompensas, como torrões de açúcar, e os animais estressados empurravam a mesma alavanca, mesmo que não recebessem recompensa.

O exame dos cérebros de ratos submetidos a diversos fatores de estresse durante 21 dias mostrou que duas áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisões estavam atrofiadas.

Uma terceira zona do cérebro, que se utiliza para formar a rotina, se expandiu nos ratos estressados.

A alteração para a tomada de decisões por memória pode ser um mecanismo para ajudar os animais estressados a preservar sua energia, mas é algo "altamente contraproducente" quando anula a capacidade de adaptação às mudanças do ambiente, escreveu o autor do estudo, Eduardo Dias-Ferreira, da Universidade do Minho.

Repentes nos bastidores - Claude, Magali, Carlos, César, Socorro e Anita


(Foto: Pachelly Jamacaru )
Fui cigana nessa vida
a sorte, aprendi a ler
na dança do fogo eu giro
o fogo tem seu poder
Porém só tenho um Deus
não sirvo a dois senhores
Mas prezo os escritores.

Minha mãe fazia a feira
Levando um grande balaio
Abastecia a fruteira
E eu dizia : de fome não caio !

flores enfeitam o olhar
deixam a vida perfumada
no campo do meu sonhar
a flor está camuflada

Gosto de fruta madura
Gosto do sumo da cana
Gosto de beijo na boca
Gosto de saudade louca

Entre esses gostos que existem
Não há nenhum gosto melhor
que o teu olhar quando brilha,
esse gosto sei de cor.

Se falta brilho na casa
eu encero tua lembrança
ou abro a minha janela
e espreito os passantes

Os passos e os pensamentos
se encontram na mesma rua
que já mudou de asfalto
tomara que a gente viva
o buraco que faltava

Aqui nesse blog novo
Poetisas eu encontro
Estou junto do meu povo
Neste grande reencontro

Peço que por piedade
Tenham pena do coitado
Que só sabe na verdade
Rimas de pé quebrado

Barbalha de Santo Antonio
Barbalha do Cariri
Uniu-se com Juazeiro
Ficou mais perto de mim
Agora quem pode tanto
com o danado do triângulo ?

A vivência de um amor
Também tem grande amizade
Exige respeito e fervor
Com muita fidelidade.

Carinho , diz a canção
na esquina não se compra
A pessoa carinhosa
é pródiga de muito encanto.

Vixe, como é difícil
fazer a danada da trova
é preciso muita emoção,
muita ternura na alma
e amor no coração
.
Tudo que se diz fácil
inibe nosso desejo
mamão com açúcar é fácil
rimar flor com amor
é besteira
mas na cartilha da gente
todo mundo é escritor
E o César Augusto, também !

Socorro você é gentil,
muito mais que generosa
reparto minha merenda
sua amizade é honrosa.

O César esqueceu do mote
Deixa grande a confusão
Não nos faça dançar xote
Põe um mote meu irmão!

Sapoti fruta gostosa
doce como um beijo casto
prometo pedir respaldo
ao meu amigo Esmeraldo
para quando esquecer o mote
nâo fazê-lo dançar xote

Dançar de rosto colado
nunca foi pecaminoso
mas tem que ser com o amado
senão não fica gostoso

Só está faltando o baile
e um bolero bem saudoso
falta tambem o meu par
que eu perdi nem sei o ano
portanto devo dançar
solta , e sem acompanhante.

O sono já vem chegando
Vem subindo a ladeira
Quando eu estou com sono
Fico falando besteira.

Mote: Sina

Blindados - E morreram como ratos ...- Por Joaquim Pinheiro

Muitos textos falando em corrupção sugerem que tudo começa com os mandatários ou partido no poder no momento. Foi assim, no regime militar, no governo Sarney, Collor, FHC e agora com Lula. Os novos escândalos se sobressaem sobre os de ontem e estes terminam esquecidos. Quase ninguém é punido, menos ainda perdem os bens adquiridos ou devolvem os recursos desviados do povo. Em Pernambuco houve um caso emblemático, resultou em 17 mortes, não se apurou nada, ninguém foi sequer indiciado.

Em 1928, o Governo de Pernambuco adquiriu dois carros blindados dos Estados Unidos. Os veículos deveriam ser iguais aos que a Polícia de Chicago utilizava para enfrentar o crime organizado. Custaram uma fortuna. Um dos argumentos para a aquisição era enfrentar os cangaceiros que imperavam no interior do Estado, principalmente Lampião, no auge da sua atuação. De saída, descobriu-se que os tais artefatos não teriam utilidade, já que os cangaceiros andavam nos matos, longe das estradas. Assim, sem ter como empregá-los, foram recolhidos e escondidos no pátio do Palácio do Governo e lá ficaram por dois anos.

Quando tropas do Exército, junto com estudantes e populares se rebelam contra a república velha e ao lado do movimento encabeçado por Getúlio Vargas, o então Governador de Pernambuco, Estácio Coimbra lembrou-se dos dois blindados e ordenou que fossem postos em ação contra os revoltosos. Assim, dois tenentes, dois sargentos e sete soldados da polícia militar embarcaram em cada uma das viaturas e se dirigiram ao quartel amotinado. Foram trucidados, não chegaram a disparar nem um tiro, sequer. Não deu nem tempo de acionar as metralhadoras que empunhavam. Morreram como ratos, sem chance ao menos de morrer com dignidade, oferecendo resistência, por mínima que fosse.

Descobriu-se depois que em vez de couraça, a proteção dos carros era de flande ou, como se disse na época, era “lata de goiabada”. O governador fugiu para o exílio, entrou novo governo, abriu-se inquérito mas não se chegou aos culpados nem denunciaram os responsáveis pela importação fraudulenta.

Arrisco-me a dizer que os “vivaldinos” de então, como acontece sempre, aderiram ao novo sistema, tornaram-se amigos das novas autoridades e a apuração não foi em frente.


Joaquim Pinheiro