Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Dr. David Benedicto Ottoni - Por Glória Pinheiro

(David Benedicto Ottoni)




(Maria Luiza Bezerra Monteiro Ottoni)


(Maria Luiza e um dos seus bisnetos)

É interessante a história do primeiro Prefeito de Poços de Caldas, o Dr. David Benedicto Ottoni.

Filho de família ilustre, tendo como pais Augusto Benedicto Ottoni e Maria Carlota Ottoni (nascida Vieira de Pina), nasce David aos 14 de abril de 1857, na antiga Filadélfia, hoje Teófilo Otoni.

A cidade que se formava às margens do rio Mucuri tinha, em seu pai Augusto e seu tio Theóphilo, conhecido como "O Senador do Povo", os seus fundadores.

Seu pai e seu tio, naturais de Vila do Príncipe, mais tarde Serro, também em Minas Gerais, sonhavam já àquela época com um porto para Minas, na região de Caravelas, justo na foz do rio Mucuri. Era essa a forma de livrar Minas da Alfândega do Rio de Janeiro e escoar os produtos agropecuários da região e importar máquinas trazendo o progresso para aquele território esquecido.

Nessa empreitada, os irmãos Ottoni contratam dois mil agricultores alemães, italianos, chineses, belgas, portugueses, franceses, suíços, e holandeses.

É neste ambiente progressista e eclétíco que David passa os primeiros anos de sua vida e, talvez por isso, é marcado para sempre na direção de abrir seus horizontes e seus conhecimentos.

Motivos políticos determinam a volta do tio Theóphilo à vida pública no Rio de Janeiro e Augusto decide também, dirigir-se àquela cidade com a finalidade de cuidar da educação de seus três filhos: Jorge (que se toma engenheiro), David (futuro médico e o primeiro Prefeito de Poços de Caldas), e Theóphilo (também futuro engenheiro).

Antes da mudança para o Rio de Janeiro, retomou Augusto ao Serro, acompanhado a família, no intuito de despedir-se de sua mãe. Era o ano de 1868 e contava David 11 anos de idade.

Encontrava-se o Serro nesta época, movimentada por tropas que vinham de toda parte. Umas vinham do Rio, conduzindo mercadorias para os negociantes locais, outras atravessavam a cidade em demanda de outros pontos ao norte.

Augusto observa o intenso comércio de compra e venda de diamantes que há na cidade e decide experimentar esse comércio.

O sucesso é maior que o esperado e Augusto estabelece-se na cidade com um negócio baseado em freqüentes viagens à Capital onde vende os diamantes comprados no Serro e retoma com gêneros que ali são comercializados.

O negócio prospera e mantém Augusto no local, enquanto seus filhos são enviados à Corte com a finalidade de concluírem os estudos.

Resolvido a juntar-se aos filhos no Rio de Janeiro, faz Augusto uma última viagem, realizando pesado investimento na compra e venda de um grande lote de diamantes que pretende revender no Rio de Janeiro e lá estabelecer novo negócio.

Nos dias que se seguem, corre a notícia que enormes depósitos de diamantes são descobertos em Kimberley, África do Sul, levando à queda violenta dos preços da mercadoria nacional.

Isto faz com que Augusto tenha um grande prejuízo e fique sem condições de manter David estudando no Rio de Janeiro.

Graças à interferência do tio Christiano Ottoni, consegue uma bolsa de estudos para David, no conceituado Colégio São Bento.

Em 1872, grassa a febre amarela no Rio de Janeiro e David contrai a moléstia, sendo obrigado a interromper seus estudos indo morar com duas tias solteiras.

Após o restabelecimento, continua David seus preparatórios ao curso medico, num dos mais notáveis colégios daquele tempo, o afamado Colégio Victório.

Em 1874, com apenas l7 anos, matricula-se no Curso de Medicina.

Passa, ainda, por grandes dificuldades financeiras e consegue com amigos trabalhar na "Gazeta de Notícias", onde tem por companheiros José do Patrocínio, Demerval da Fonseca e Américo Luz.

Trabalha na "Gazeta" até 1879 tendo, a partir do ano de 1876, acumulado o trabalho o jornal com o de interno no Hospital da Misericórdia.

As condições sanitárias do rio encontram-se péssimas e David presta um grande serviço durante as epidemias de febre amarela e varíola que se abatem na cidade, nos anos de 1877 a 1879.

Ao fim do ano de 1879, com 22 anos, forma-se em Medicina, obtendo distinção em sua tese de doutoramento.

O ano de 1880 encontra David trabalhando como médico em fazendas de Carangola, Minas, onde fica por um ano e onde consegue fazer boas economias.

Seu pai recupera-se financeiramente e transfere-se pára o Rio de Janeiro (onde morreria aos 94 anos de idade).

Em dezembro de 1880, decide David continuar seus estudos na Europa. Tais estudos têm início em maio de 1881 e, enquanto não parte, começa a clinicar em Juiz de Fora recebendo o apoio de seu colega João Nogueira Penido.

Chegada a hora da partida, não se sensibiliza com os apelos do colega Penido para que fique e mantenha a extensa clínica que, em tão pouco tempo, havia conseguido formar.

Toma um vapor no Rio com destino à Europa, desembarca em Lisboa e parte com destino a Paris, onde começa seus estudos de especialização em Oftalmologia -ou, moléstia dos olhos, como era então chamada.

Passa três anos estudando em Paris, Viena, Heideiberg e Londres. Toma-se um dos primeiros médicos brasileiros com especialização em Oftalmologia.

De volta ao Brasil, decide percorrer seu interior, levando seus conhecimentos aos pontos mais distantes. Visita e clinica em Ubá, Cataguases, São João Dei Rei, São Geraldo, Viçosa, Ponte Nova, Barra Longa, Mariana e Ouro Preto, em Minas Gerais. Daí passa ao estado de São Paulo, visitando as cidades de Sacramento, Franca, Batatais, Ribeirão Preto, São Simão, Casa Branca, Mogi-Guaçú, Mogi-Mirim, Jundiaí, Piracicaba, Campinas, Santos e Sorocaba.

Partindo para o sul do país, visita o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estando, entre outras cidades, em Pelotas, Bagé e Piratini (antiga capital da República dos Farrapos e futura Porto Alegre).

Monta sua base no Rio de Janeiro e dali parte em incursões por todo o país, inclusive indo à Argentina, Uruguai e Paraguai.

Volta mais tarde para o Rio, desmonta seu consultório e segue para o Norte. Visita o Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Em incursão ao Ceará, conhece no Crato, Maria Luiza Bezerra Monteiro, sua paciente, filha do fazendeiro Capitão José Geraldo Bezerra Monteiro e Dona Luiza Collares Bezerra.

Iniciava-se aí o ano de 1893 e, em 20 de maio casa-se com Maria Luiza; tinha ele 36 anos e ela 22. Dois meses depois inicia sua volta ao Rio de Janeiro, partindo do Ceará, para onde nunca mais sua esposa retomaria.

Novamente estabelecido no Rio de Janeiro, onde reabre sua clínica, progride cada vez mais. Mas, o destino faz com que novamente deixe o Rio.

Em setembro de 1893, a revolta dos Almirantes Custódio de Melo e Saldanha da Gama contra Floriano Peixoto ameaça a paz da cidade. Maria Luiza está grávida e, devido à confusão que se toma o Rio de Janeiro, decidem partir em direção a São Paulo.

Durante a viagem, a caminho de São Paulo, em Guaratinguetá são obrigados a paralisar a viagem devido ao nascimento do primogênito, em 11 de março de 1894. Ali são recebidos pelo primo Homero. Em sua homenagem a ele dão à criança o seu nome.

Convidado a operar um ilustre fazendeiro da região de São João da Boa Vista, compra ali uma residência e, nesta cidade, aos 10 de maio de 1895, nasce sua filha Luiza.

A pequena Liliza tem saúde frágil e sua asma motiva visitas constantes à vizinha Poços de Caldas para tratamento. Tais viagens se tomam rotineiras, levando ao surgimento de uma clínica nesta cidade, o que motiva uma nova e definitiva mudança.

Chega finalmente ao seu destino e onde deixaria suas raízes.

Em Poços de Caldas nascem Augusto (falecido na infância), Zulmira, Elvira, David (que se toma também Prefeito Municipal no período 1959/1962) e Maurício. A casa que projeta e constrói completou em 1997 um século e, ainda hoje pertence à família, localizando-se à Rua da Saúde, hoje Rua Minas Gerais, 413.

Não por acaso, o Dr. Ottoni, como era conhecido, passa a participar da vida pública de Poços de Caldas. Seus conhecimentos do mundo e da realidade brasileira de então, obtidos através dos anos passados na Europa e das inúmeras incursões ao enorme território brasileiro que percorrera exercendo uma medicina rara e especializada como era a Oftalmologia àquela época, dão a ele um poder de prever, sem igual.

Em sucessivos artigos publicados na "Revista de Poços", assina uma coluna muito adequadamente chamada “Em Prol de Poços”.

Lá estão registradas suas impressões e recomendações sobre os mais variados temas: o alerta à necessidade do tratamento das águas a serem servidas à população; a recomendação à preservação dos mananciais de águas através da manutenção das florestas; o alerta à necessidade de um sistema de esgoto e de manejamento adequado do lixo; a importância da implantação de um complexo turístico na cidade, onde alertava porém, da necessidade de diversificação de empreendimento.

Na área agrícola torna-se adepto da importação de matrizes importadas para a melhoria dos rebanhos; prega a imigração estrangeira para Poços, citando como exemplo o desenvolvimento que a família Maywaid havia trazido para as videiras da região.

Já àquela época defende a privatização quando cita os benefícios a serem obtidos se certos serviços públicos forem feitos por associações particulares. No campo do ensino prega maior investimento para escolas e uma melhor remuneração para o professorado.

Técnicas de administração pública e acompanhamento estatístico também são recomendados. Tem a coragem de enfrentar os poderosos donos da terra, quando defende uma justa desapropriação das mesmas para implantação de vias de acesso para escoamento de produtos agrícolas, da construção de avenidas e parques na cidade e da vinda de agricultores brasileiros e estrangeiros desejosos de se estabelecerem no local. Em 1905 antevê uma Poços de Caldas com uma população de 300.000 habitantes.

Havendo já ocupado diversos cargos na comunidade (Juiz de Paz, Vereador, Presidente da Câmara Municipal e Presidente do Conselho Deliberativo), por incumbência do Governo do Estado, instala a Prefeitura Municipal em 03 de Janeiro de 1905, exercendo interinamente o cargo de Prefeito.

É ainda, responsável pela melhoria do Plano da Cidade, organizado pelo engenheiro Pedro Luís Taulois em 1872, incluindo avenidas e parques e, ampliando o perímetro da cidade. São de sua responsabilidade a implantação da Av. Francisco Salles e os projetos das avenidas João Pinheiro e do Contorno (inaugurada recentemente).

Por motivo de saúde afasta-se da vida pública, de sua Clínica e recolhe-se ao lar. David Benedicto Ottoni falece em 15 de maio de 1925, aos 68 anos de idade. Sua esposa Maria Luiza lhe sobrevive até aos 82 anos, falecendo em 1960.

David Benedicto Ottoni e Maria Luiza Monteiro Ottoni tiveram 7 filhos, 18 netos, 38 bisnetos, 34 trinetos e, por enquanto, 3 tetranetos.


Texto original publicado na Sociedade Brasileira da História da Medicina, postado no Cariricaturas com autorização do autor:
Flávio Penido Ottoni é bisneto de David Benedicto Ottoni e Maria Luiza Monteiro Ottoni. É engenheiro, residente em Belo Horizonte.

NOTA: Maria Luiza Bezerra Monteiro Ottoni era irmã de minhas duas bisavós: Jerônima Monteiro Pinheiro Bezerra de Menezes e Leonor Bezerra Monteiro Moreira.
Glória

O Pelicano -Por João Marni


Deus segurou o sol enquanto soprava esta esfera nossa, árida e errante, a multicoloriu com o verde das matas, o azul dos mares e dos céus, o branco das nuvens, o marrom do barro, o amarelo, o vermelho e o cinza das rochas. Segurou a lua, fazendo as ondas, as praias e os sonhos dos poetas. Criou as placas tectônicas para que a terra aflorasse em montanhas e cordilheiras, nascedouros de rios caudalosos após chorar a neve. Desenvolveu um núcleo quente feito o coração da gente e que mantém a temperatura do sistema com vulcões e gêiseres.

Somos gêmeos: vegetais, minerais e animais e vagamos pelo espaço á mesma velocidade, sabe Deus para onde... Em meio a tamanha exuberância, surgimos nós, os homens, blasfemamente tidos como a imagem e semelhança divina.

Deus é o criador, mas nós somos os criadores de casos, os destruidores, raramente solidários, frequentemente pragmáticos e quase sempre falsos e interesseiros. Desenvolvemos a mentira para atrair a amada quando perdemos a cauda do pavão (ou nunca a tivemos!) Estamos cada vez mais desmembrados, como filhotes de cobra: rastejando logo para longe, sem nem mamar, antes que seja tarde demais, cada um por si, em fuga com sua cota de veneno, fazendo do abraço instrumento de sufocação e morte.

Se existe mesmo a possibilidade de novas vidas, peço encarecidamente ao criador delas que na próxima seja eu um pelicano, símbolo da caridade e da paixão de Cristo. Em tempos de escassez, antes que as lágrimas me devorem, bicarei meu peito em nacos grandes e suculentos e alimentarei meus amores.

Pois é, bem disse Lya Luft. “O contrário do amor não é o desamor. É a indiferença”. Bom é dormir em paz, sossegado por não dar as costas a quem precisa. Não devemos priorizar o que é prioridade para o homem, mas o que é relevante para Deus. Lembre-se, “todos podem dominar a tristeza, exceto quem a possui” ( Shakespeare)
.
P.S. Homenageio todos os pais ,verdadeiros pelicanos.
João Marni

Projeto Água pra que te quero!- Foto Nívia Uchôa


Astrólogo : um artista que interpreta símbolos - Por Stela Siebra de Brito


O papel do astrólogo aporta, além do conhecimento das teorias e técnicas astrológicas, a um saber mais abrangente, a uma compreensão dos fatores universais que se operam em cada ser vivente. Todas as coisas do Universo têm alguma relação com a natureza humana, com suas necessidades e potencialidades. É o relacionamento microcosmo e macrocosmo.
Na sua missão de fazer o cliente compreender essa universalidade, o astrólogo deve indicar-lhe os sinais que lhe farão encontrar o significado de se estar no mundo, deve indicar-lhe os caminhos que apontam para essa unidade entre homem e universo. O astrólogo não precisa ser filósofo, mas desenvolver e recorrer à sua porção filósofo; o astrólogo não precisa ser religioso, mas ter uma reverência religiosa frente à vida; o astrólogo não tem que ser poeta, mas conhecer e amar a poesia da vida; o astrólogo não precisa viajar pelo mundo, mas precisa freqüentar bibliotecas e livrarias; o astrólogo não precisa ser autor teatral, mas conhecer e compreender Shakespeare e os clássicos gregos; o astrólogo não precisa torcer ardentemente por um time de futebol, mas compreender a explosão de alegria do gol. Enfim, o astrólogo não precisa vender jornais na esquina, frutas na feira ou fazer literatura de cordel, mas compreender e aprender as simples e grandes lições da sabedoria popular. Como canta Milton Nascimento, “todo artista tem que ir aonde o povo está”. E o astrólogo é um artista e, como tal, sua função implica numa compreensão da vida por inteiro, para retratá-lo para o cliente no seu mapa astrológico.
O mapa astrológico, que revela a natureza da semente de cada pessoa e seu crescimento e frutificação, vai levá-la à completa e perfeita realização daquilo que ela tem em estado potencial. A apreensão e valorização dos sinais do mapa se faz numa interpretação, não só técnica, mas também dinâmica e intuitiva. No percurso do Mapa, da Primeira à Décima Segunda Casa, o astrólogo conduz a pessoa a uma viagem interior, onde tudo começa com a força impulsionadora da vida, representada por Marte, até a entrega netuniana.
Para passar essa compreensão, o astrólogo carece de um cabedal de conhecimentos e vivências, carece de usar símbolos e imagens, carece de, numa visão tradicional, ser um artista: sair da matéria e transcender. A poesia, por exemplo, pode e deve ser um recurso a ser usado pelo astrólogo, num convite ao cliente entender a chamada da vida, porque é preciso estarmos atentos aos sinais, considerando que a pessoa não escolhe, é escolhida.
Fernando Pessoa, num apontamento solto e depois incluído no início do livro Mensagem, ensina que o entendimento dos Símbolos e dos rituais simbólicos, requer do intérprete cinco qualidades: a primeira é a Simpatia pelo símbolo que se propõe a interpretar; em segundo lugar vem a Intuição, como uma espécie de entendimento do que está além do símbolo; a terceira qualidade é a Inteligência, relacionando no alto o que está embaixo. A Inteligência analisa e reconstrói o símbolo noutro nível; a seguir vem a Compreensão, expressa pelo conhecimento de outras matérias que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, por último a Graça, que é a mão do Superior Incógnito, o Conhecimento. O astrólogo como intérprete de símbolos deve enveredar pelo caminho dessas qualidades.


Stela Siebra

A Carolina - Machado de Assis



Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

"Carolina Augusta Xavier de Novaes e Joaquim Maria Machado de Assis casaram-se no dia 12 de novembro de 1869 e viveram uma plácida e amorosa vida conjugal durante 35 anos. A morte da esposa, em 1904, deixa Machado abatido e queixoso. Em carta a Joaquim Nabuco, datada de 20 de novembro do mesmo ano, escreve, lamentando-se: "Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo."

Em 1906, depois de terem sido publicadas as Poesias completas, o poeta escreve seu mais pessoal e profundamente sofrido poema, um verdadeiro réquiem, intitulado "A Carolina". Talvez, para não demonstrar vestígios de um sentimentalismo piegas, Machado elege uma forma poética que reverencia também, sutilmente, o tom e a textura camonianos. Essa aproximação estilística à linguagem castiça, que renova, mais do que copia, no século XX, o sabor do verso quinhentista, foi observada por J. Mattoso Câmara, no ensaio "Um soneto de Machado de Assis".

Ao lado de conhecidos poemas como "Círculo vicioso" e "A mosca azul", o soneto "A Carolina" é considerado a mais comovente pedra de toque da obra poética de Machado de Assis.

No ano de 2006, comemorou-se o centenário de "A Carolina", publicado pela primeira vez no livro Relíquias de casa velha, soneto que não foi recolhido em algumas edições das poesias completas. "

Não, Não é de Fernando Pessoa ( I )

Fernando Pessoa Não é Fofinho

Falsos textos atribuídos ao poeta fazem ele ficar com fama de poeta de debutante, que escreve coisas estilo auto-ajuda. Como somos pretensiosas, começamos aqui uma campanha para salvar a memória do mestre.

“Fernando Pessoa é coisa de adolescente.” Há tempos os fãs do poeta português estão sendo obrigados a ouvir essa bobagem. Como se o mestre fosse uma espécie de escritor de auto-ajuda.

Espera lá! Já que o Pessoa está morto, achamos que alguém tem que zelar pelo seu nome. E, neste caso, resolvemos assumir a missão e começar a campanha: “Fernando Pessoa não é fofinho”. Coitado do Fernando! Ele deve estar tendo um ataque epilético lá onde está (não sei onde é, mas é deus) ao perceber que virou um poeta de adolescente. Não, ele não merece isso!

Viemos por meio desta salvar o poeta, que não por acaso começa a ser considerado o maior poeta do século 20 (não em língua portuguesa, mas em todas). Na boa, como um cara que escrevia “parem com isso dentro da minha cabeça” pode ser fofinho? Outro dia mesmo a Ana Maria Braga leu um verso dele no seu programa matutino. Tudo bem. OK. Quanto mais gente conhecer Fernando Pessoa melhor, agora, o nosso amigo muito louco, “fumador de cigarros por profissão adequada”, “o indivíduo que fuma ópio”, virar auto-ajuda.

Falsas atribuições
Por que isso começou a acontecer com o pobre coitado?

1 As pessoas se apegaram a poesias mais bobas, tipo “Todas as cartas de amor são ridículas” e acharam que ele era fofo.

2 Uma praga tomou conta da internet e coisas que Fernando Pessoa nunca, em tempo algum, teria escrito começaram a ser atribuídas a ele. Exemplo encontrado no Orkut: “Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e que posso evitar que ela vá à falência. Ser feliz é agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida”.

O Pessoa jamais escreveria uma bobagem dessas. Ele jamais compararia sua vida com uma empresa. E, não, ele não acreditava em Deus! Fernando jamais escreveria que ser feliz é agradecer a cada manhã pelo milagre da vida. Inclusive porque o Fernando Pessoa não era feliz, ele era POETA. Outra frase atribuída a ele: “O dinheiro compra um mausoléu, mas não um lugar no céu”.

Na boa, temos a pretensão de achar que podemos salvar o poeta e por isso pedimos: divulgue nossa campanha.

http//revistatpm.uol.com.br

Cecília Meireles - A musa contra o ditador

Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia e contra o ensino religioso.

"Cecília, és tão forte e tão frágil. Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga: Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no livro ''Belo Belo'') Cecília Meireles na década de 30 rompeu com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos casuísta e uma educação moderna.

Por meio de seus artigos sobre política, educação e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira. Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração" (para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Valéria Lamego

Censura da era Vargas perseguiu poeta

Se a história da literatura desconhece a Cecília Meireles da luta política, desconhece também a que sofreu perseguições da censura de Vargas, dos católicos e em concursos literários.

O primeiro desencontro com Alceu Amoroso Lima se dá em 1929, quando Cecília concorre à vaga de professor de literatura brasileira pela Escola Normal. A jovem professora ainda não era a consagrada poetisa de ''Viagem'' (1939), ''Vaga Música'' (1942) e ''Mar Absoluto'' (1945), embora já fosse considerada pelos modernistas cariocas uma revelação, com seus livros ''Espectros'' (1919) e ''Baladas para El-Rei'' (1925).

Concorreu à pretendida vaga com a tese ''O Espírito Vitorioso'', um trabalho francamente liberal, no qual discorria sobre a liberdade individual na sociedade. E perdeu. Antônio Carlos Villaça, em ''Tema e Voltas'', é enfático: "Clóvis Monteiro derrotou Cecília, que sempre guardou tristeza de Alceu (Amoroso Lima) ter votado em seu adversário".

A contenda, até aí, poderia se resumir puramente a problemas de ordem pedagógica. Clóvis Monteiro era um técnico de educação sem qualquer pretensão literária. Sem dúvida, seu perfil, numa época em que a valorização da tecnocracia ganhava espaço, agradou muito mais do que o da jovem professora e poeta.

Passados cinco anos e todo o furor causado pela "Página de Educação", Cecília inaugura em 1934, junto com seu marido, o pintor Correia Dias, o Centro de Cultura Infantil, no "vazio e abandonado prédio" (nas palavras dela) do Pavilhão do Morisco, na praia de Botafogo, no Rio. Na administração de Anísio Teixeira, o centro reunia "mil e quinhentas inscrições de leitores".

Em 1937, em plena vigência do Estado Novo, o centro é invadido pelo interventor do Distrito Federal, que apreende de sua biblioteca ''As Aventuras de Tom Sawyer'', de Mark Twain, por considerá-lo comunista. O caso teve repercussão internacional e nacional. No seu artigo "A Última Aventura de Tom Sawyer", o acadêmico Austregésilo de Athayde lamenta que o ''New York Times'' tenha denunciado ao mundo que, no Brasil, o clássico americano fora retirado das prateleiras de uma biblioteca infantil por ser considerado "material subversivo".

Depois de invadido pela polícia, a prefeitura resolve fechar o Centro de Cultura Infantil e, em seu lugar, instala um posto de arrecadação fiscal.

Em poesia, Cecília Meireles é som, é ritmo e é sensibilidade à flor da pele.
.
Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


" Amor Perfeito "

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito ?

Longe, longe, atrás do oceano
que nos meus olhos se aleita,
entre pálpebras de areia...

Longe, longe... Deus te guarde
sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.


Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"


Soneto Antigo

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

Cecília Meireles
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Parabéns, Renata !


Rosas para Renata Esmeraldo Cavalcante . ( filha de Rosineide e sobrinha de J.Marni e Fátima).
Ela pertence à família CaririCaturas.

Tempero da Lua - José do Vale Feitosa


Tempero da lua,
Fluorescência que revela a mãe d´água.
Destaca o carrapicho na beira da estrada,
Como a solidão condimentada das madrugadas,
Nas trilhas de algum beco escuro do povo esquecido,
Ou nas veredas que ressoam os cascos da montaria.

O tempero da lua é secretado,
Nos limites das curvas do teu corpo nu,
Como partes superiores das dobras do lençol
Pérolas luminescentes da saliva de tantos beijos,
Gotículas de estrelas aos suspiros copulares.

Tem tempero da lua nos mares,
No silêncio da jangada em rumo do fogo guia,
Em cada gume afiado das palhas do coqueiro,
Na corrida de prata das nuvens passageiras,
A elevação iluminada das dunas sobre o mar

Tempero da lua,
Em porções homeopáticas sobre as cidades,
Num pequeno ângulo entre duas torres,
Se derramando inteiro sobre os parques,
E se deitando comigo e a janela para oeste.

Tempero da lua,
Antítese das marcas e vincas da vida,
Sobretudo depositando incertezas,
Nesta superfície tanto rugosa quanto lisa,
Entre os perfumes que as flores disseminam.

Tempero da lua,
Que o mundo me ofertou,
Logo que o primeiro ácido do dia terminou,
Suavizou o clima do meu olhar,
A vida como algo dual em desejo de outro.


José do Vale Feitosa
-Poema oferecido por José do Vale ao Madrigal. Tomei-o emprestado para trazê-lo de volta.

Pensamento para o Dia 07/08/2009


“Considerando o mundo material como a única realidade, o homem perde-se na busca de objetos materiais. Mas, se a verdade sobre esses objetos materiais for explorada completamente, a pessoa descobrirá que eles não possuem qualquer realidade. Eles são temporários e efêmeros, e não têm o selo da realidade permanente. Eles não concedem a bem-aventurança duradoura. Todo ser humano busca desfrutar da bem-aventurança. Para alcançar a bem-aventurança eterna, o homem deve fazer o esforço exigido. Ele deveria descobrir: ‘Quem sou eu?’. Quando ele tiver encontrado a resposta para essa pergunta, não haverá necessidade de entender o que é o Ser, a Consciência e a Bem-aventurança (Sath-Chith-Ananda). O homem perceberá que ele é a própria encarnação do Ser, da Consciência e da Bem-aventurança. ”
Sathya Sai Baba

Francisco José parece ser da Globo, mas na verdade é do Crato - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Existem nomes próprios adotados pela cultura. O mais interessante é que são nomes completos inclusive com sobrenome e este é o caso de Chico Brito (ou de). Por exemplo Wilson Batista e Afonso Teixeira compuseram um samba gravado entre outros por Chico Alves, Paulinho da Viola e até Lulu Santos: Lá vem o Chico Brito,/ Descendo o morro nas mãos do Peçanha, /É mais um processo! /É mais uma façanha! /Chico Brito fez do baralho seu melhor esporte, / É valente no morro,/Dizem que fuma uma erva do norte./Quando menino teve na escola,/Era aplicado, tinha religião,/Quando jogava bola era escolhido para capitão,/Mas, a vida tem os seus revezes,/Diz sempre Chico defendendo teses,/ Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou, /A culpa é da sociedade que o transformou./ Lá vem o Chico Brito,Descendo o morro nas mãos do Peçanha,/ É mais um processo! /É mais uma façanha!/

Um samba que discute a culpa entre o indivíduo e a sociedade. Bem ao estilo do Wilson Batista que se envolveu em famosa disputa com Noel Rosa. O outro é um tipo baião composto por Chico Anísio e Dolores Duran gravado por Elis Regina e por grande número de cantoras: Sou filha de Chico Brito, pai de oito filho maior /Nascida em Baturité, criada a carne de sol / Sete home e eu mulher, oito filho pra criar /Sete home pra mexer e a mulher pra... /Dos oito filho do velho, tem sete que se casou /Os home fez casamento e cinco já procriou / Só eu e que to sobrando, na certa Deus se enganou /Acabo me abilolando, /porque o meu caso é casar /E caso de quarqué jeito, caso inté, uh... /De tanto pisca os olho, já tô ficando zarolha /De tanto chama com a mão, na mão já tenho inté bolha /Já fiz duzenta novena, já me cansei de rezá /Meus cutuvelo ta inchada, de no portão debruça / Mas caso de quarqué jeito, caso inté, uh... /

Mas aí vem o nosso Crato que não se deixa ficar prá trás e tem seu próprio Chico de Brito. O coronel Francisco José de Brito de cuja ação como intendente da cidade foi austera, destemida e “sem conversa fiada”. Andou fora da lei fosse pobre, remediado ou rico sentia os efeitos da lei. Dizia o Coronel: “a lei é dura, mas é lei”. Daí se criou a expressão que todos ainda hoje repetem: “a Lei de Chico de Brito”.

Então é o repórter da TV Globo, Francisco José, filho do coronel Chico de Brito. Do seu segundo casamento com uma senhora muito bonita da família Libório Cavalcanti do distrito de Baixio do Facundo em Potengi. Por faltar-me o nome próprio, usarei o nome íntimo da família que a chamava Morena. Casou-se com o Coronel ainda muito jovem, contam que tinha longos cabelos pretos e desfilava em vistoso cavalo, usando calças compridas pelas ruas do Crato. Mesmo aquela Valquíria Morena encantando todo coração volúvel dos homens, não havia quem ousasse qualquer galanteio.

Francisco José tem exatamente o nome do pai e na infância era muito católico. Logo foi estudar no seminário São José. Idelides Libório, prima da Morena, ouviu desta a frase: Idelides eu não vou deixar herdeiro, Francisco José quer ser padre. O jovem mesmo nas férias ajudava missa nas imediações de sua casa. Depois foi para Recife e hoje quase ninguém do Crato tem contato com ele. Aliás, salvo engano ele não se faz muito presente na cidade.

O professor José do Vale e Manoel Baptista Vieira eram sócio na Livraria Católica. Além de livros, tinha serviços de vidraçaria. Um dos fornecedores dos dois era o Sr. Fernando um Português que tinha uma fábrica em Recife. Acontece que o fornecer ficou viúvo com mais de seis filhos. A maior parte mulheres. A mulheres dos anos sessenta que estudaram no Santa Teresa devem lembrar da Clélia, Cleide e Cláudia. Como se deu esta trama?

O professor José do Vale era, por laços de família, ligado aos Libórios e com isso amigo da Morena então viúva do Coronel Chico de Brito. Seu Fernando tornara-se grande amigo do professor e aí este, homem de enorme poder de união, funcionou como cupido. Morena casou-se e a família mudou-se para Recife. A Cleide era afilhada da minha mãe e do meu pai. Esta menina encantou meu coração de menino de tal modo que até hoje o tem como doce lembrança. Mas, para meu azar, soube de outros tantos apaixonados por ela, só falta o Nilo Sérgio ter namorado-a.

Música e História - Por Norma Hauer

Foto: Orlando Silva e Ary Barroso no meio de populares e jornalistas. Era o encontro entre um dos intérpretes mais populares do país e o compositor que havia rompido as fronteiras brasileiras e fazia sucesso nos Estados Unidos.



ORLANDO SILVA

Estão-se completando 31 anos que ele partiu.
Foi no dia 7 de agosto de 1978.
31 anos!!! Parece que foi "hontem". Como me lembro daquela tarde!
Na véspera,havia falecido o Papa Paulo VI e, como luto oficial, a bandeira que tremulava no alto do Morro do Pasmado estava a meio-pau. Parecia que homenageava Orlando Silva pois, acompanhando seu féretro, saído da sede do Flamengo, na Avenida Rui Barbosa, seus admiradores seguiam a pé ao Cemitério São João Batista.
Vendo aquela bandeira,ela parecia estar ali por causa de Orlando.
E vendo o Cristo, ao Corcovado, veio à minha mente a letra de

"CIDADE BRINQUEDO"

"O Cristo Redentor é uma medalha pequenina,
No rosário imenso da colina,
Bonecas delicadas quase todas moreninhas,
Adornam suas ruas,
Qual um bando de andorinhas"...

Assim foi a tarde de 7 de agosto de 1978. Orlando, desfilando pelas ruas de Botafogo,acompanhado por um grupo de admiradores, deixou em sua passagem um rastro de SAUDADE.

Orlando foi sepultado no Cemitério São João Batista, Quando se completam três anos de seu falecimento, seus restos foram transferidos para o Cemitério São Francisco Xavier, onde também se encontra sua esposa Lourdes.

Norma Hauer






quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Semana Mundial do Aleitamento Materno - de 01 a 07.08.2009


No início da semana , João Marni, Pediatra e poeta , postou um belíssimo texto : "Desmame".
Hoje, Samira Moreira e Pedro ( filha e neto de Zélia Moreira) fazem o poema.

HIROSHIMA - NAGASAKI - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Este texto foi construído em 09 de agosto de 2005. Pelos 60 anos da primeira bomba atômica sobre uma população humana.

"Você sempre vai matar pessoas inocentes ao mesmo tempo.
Nunca travamos uma guerra em que civis não morressem.
Gostaria que os jornais parassem com essa besteira de 'vocês
mataram tantos civis'...Eles tiveram o azar de estar lá."

General Paul Tibbets
Comandou o Enola Gay, o B-29 Superfortres,assim chamado
em homenagem à mãe e do qual lançou a bomba Little Boy
sobre a cidade de Hiroshima, matando imediatamente 140 mil das 350 mil pessoas.


De repente as vísceras derreteram, a pele se descamou em papel rasgado,
os olhos cegaram pelo brilho imediato, o conduto auditivo transbordou sangue,
ossos viraram carvão qual a madeira ao fogo, os pelos faiscaram instantâneo,
um tufão de vento carregou todas edificações, em volta se fez combustão fatal,
corpos dilacerados que no segundo estiveram vivos, mergulho da última vez,
pó, poeira, putrefação, pantomima de pedaços, patologia perene, pranto;
os desgraçados desorientados em ruínas, sem mais ruas, sem povo,
aos cantos soltando pedaços, andarilhos, curvando-se para morrer,
e do céu um temporal de chuva radioativa para matar a sede,
sobreviventes das primas horas incorporando morte lenta,
mães abortando fetos microcefálicos,
DNAs degenerados para sempre,
pelas veias circulam leucemias,
hormônios em câncer tireoideu,
o carcinoma pulmonar respira,
quelóides acabam casamentos,
párias para sempre,
Hiroshima riscada,
do mapa Nagasaki,
Little boy,
Fat man,
e tiveram o coração frio de dar nomes aos infernos criados em Los Alamos.


E que pensas tu?
Como eu à antiga foto da explosão atômica.
Que pensas de então?
Que pensas da destruição,
do horror imposto ao inimigo?


Que pensas de hoje?
As vítimas relembrando-se da dor que já dura 60 anos.
E nunca vai passar.


Nunca, pois não é do terror distante que falamos,
é da América, esta assassina que não pede perdão,
que multiplicou seus arsenais ao tamanho do planeta,
que jamais fez um gesto de boa vontade a respeito,
vangloria-se da segunda chance para seus pecados
e incendeia teus filhos apenas para te fazer sofrer.

É dos Estados Unidos da América e seus liberais do Leste,
dos cowboys de olhos miúdos, mãos ágeis e arrogância excedente,
películas que colorem ilusões e do centro dela surgem marines,
com a destruição na ponta da mira a laser, os fragmentos de mulheres,
pedaços de crianças, humilhação de doces que explodem balas,
é desse horror potencial que Hiroshima clama, Nagasaki chama,
e todos nós para não esquecer que a bomba é filha da ciência,
da técnica e da aberração que assim permanece pois não há quem lhes eduque.

Então nesta data dos 60 anos,
ao invés de falarmos das vítimas,
gritemos os nomes dos agressores:

Harry Truman
Robert Oppenheimer
Major Tibbets.

Americanos!
E neste segundo?

Hai Kai


Dia frio.

Toucas coloridas

Movem-se pela cidade

São cabeças quentes?

Anita D Cambuim

O bigodão do Sarney

Recentemente o sai-não-sai de José Sarney tem atapetado todas as páginas do noticiário. É o escândalo político do momento. Até que surja um outro – o que por aqui é facílimo de encontrar -- os “Marimbondos de Fogo” continuarão ferroando o persistente caudilho amapá-maranhense. Outros tantos já estiveram na berlinda e hoje se vêem perfeitamente anistiados ( ao menos pela mídia) : Renan Calheiros, Agaciel Maia, Jáder Barbalho, o deputado mineiro do castelo medieval, Roriz, Garotinho, Yeda Crusius ... A política brasileira é uma fábrica de esterco! Esta parece ser a conclusão mais óbvia para quem abre o jornal ou aperta o botão on-off da TV. Acredito que é importante cada um de nós perceber os detalhes que se encontram escondidos por trás do véu nada diáfano das manchetes.
Política no Brasil, amigos, é esta bandalheira que está aí mesmo e todo mundo sabe. Não há eleição sem caixa 2,3,4; quase ninguém se elege sem comprar votos. E pior, todo mundo neste país vende seu votinho, não é só o descamisado não! Varia o preço: uns por chinela, outros por tijolos, cimento, favores, outros por cargos e licitações. Pouquíssimos políticos nesse país resistiriam a uma investigação simples da evolução do seu patrimônio após ser eleito. Qualquer “drome-sujo” na rua sabe exatamente quanto custa a eleição a qualquer cargo público. Há candidatos, do interior do Ceará, que gastaram mais de dois milhões numa eleição para prefeito! Ponham isso em escala nacional, para todos os cargos, em todos os mais de 5000 municípios! E aí , vem a pergunta inevitável: se o que ganharão como salário é infinitamente menos daquilo que investem na campanha, por que o fazem? São todos santos, bem-intencionados, filantropos? E o nepotismo, isso é lá novidade? O nepotismo é uma herança monárquica neste país, faz parte da nossa cultura como a feijoada. Na carta de Pero Vaz de Caminha , sobre o descobrimento do Brasil, o escrivão já aproveitou para pedir um empreguinho a Del-Rey para um sobrinho!
Sei que nas rodinhas todos se mostram indignados, revoltados com a cara de pau de nossos políticos. Alguns, inclusive, apresentam soluções radicais: fechar a Câmara e o Senado, nunca mais votar para eleger nenhum FDP desses. O que eu falei pode até chocar e parecer um discurso comodista: “É assim mesmo, cambada, deixa prá lá!” Não é isso amigos, apenas acredito que pouquíssimos de nós têm o real direito da indignação. Simplesmente porque o brasileiro comum não é melhor nem pior dos que discursam em Brasília. Somos todos muito parecidos. O Congresso é o mero reflexo no espelho da sociedade que formamos. O brasileiro é assim mesmo: um corrupto incorrigível. Mudam as escalas e as nuances. O sujeito que se revolta diante da TV logo adiante tenta subornar o guarda de trânsito para livrar a multa ; o mais indignado bota gato em casa para livrar a continha da luz e um jacaré para burlar a SAAEC; o sujeitinho que vomita com o discurso do Sarney é o mesmo que compra recibos frios para sonegar o imposto de renda. Os comerciantes que dizem repugnar as coisas de Brasília recolhem o ICMS dos clientes, mas dão um jeitinho contábil de não repassar todo à Receita. Na maior parte das instituições públicas brasileiras, o esporte que mais se joga é aquele : Bola! No mais, dêem um cargo a qualquer brasileiro e vejam se não se repete exatamente aquilo que todos tanto criticam em Brasília : favorecimentos, nepotismo, notas frias, melhoria patrimonial, desvios e por aí vai... ponham uma lupa em qualquer um de nós e a imagem que aparecerá não é muito diferente da de Sarney, ACM, Jáder, Severino Cavalcante. E é sempre bom lembrar que todos eles foram eleitos com uma votação expressiva.E, mais, eles serão reeleitos quantas e quantas vezes assim o desejarem, independentemente de escândalos, denúncias e da falsa e hipócrita indignação do povo brasileiro.
Nenhuma instituição neste país ,pública, privada, religiosa, filantrópica, sindical resiste a uma CPI séria, nenhuma ! O Brasil, amigos, é esta ilha de corrupção cercada de hipocrisia por todos lados. Claro que o leitor pode imediatamente pensar: “Alto lá, meu pai era uma pessoa extremamente honesta e exemplar, não merece a acusação que este doido esta lançando a todos nós!”. Perfeito, amigos, cada um de nós conhece alguns Policarpos Quaresmas. No Congresso existem também, mas em ambos lados são raríssimos e deviam, inclusive , ser cadastrados pelo IBAMA, pois se encontram em franco risco de extinção. Neste país só existe uma coisa realmente organizada : O Tráfico de Drogas e de Influências.
E aí, não tem jeito? Estamos fadados eternamente à lama, ao pântano? Não, amigos, mas o que tem que mudar não são nossos políticos, mas o povo que os elege. Somos uma nação novinha. Passamos 300 anos como colônia, quase cem como monarquia e no último século perdemos quase que a metade em duas ditaduras. A Monarquia e a Escravidão acabaram praticamente ontem, há pouco mais de cem anos e não por mera coincidência evaporaram-se quase que ao mesmo tempo. Como mudamos ? Mudamos com educação política e isso demanda tempo e maturação. Se a gente olhar direitinho até que já andamos, é que o filme da transformação passa em slow-motion. Por enquanto é bom lembrar que quando olharmos nossa imagem no espelho talvez pensemos está contemplando o Dalai Lama, mas se nos detivermos nos detalhes veremos que no nosso retrato envergamos um colarinho branco e um bigodão igualzinho àquele do Sarney.

J. Flávio Vieira

O Crato e João Gilberto- Por Joaquim Pinheiro


Violeta Arraes















História já contada em um dos blogs do Crato, mas vale relembrar. Violeta Arraes, minha Tia e ex-reitora da URCA, quando apresentada ao compositor da Bossa Nova João Gilberto, foi surpreendida com a reação dele ao saber que ela era do Crato (por adoção). O cantor baiano falou da vontade de encontrar alguém da cidade e resgatar a música que a babá o ninava, da qual só lembrava o refrão. Tia Violeta ligou para o Crato e transferiu a incumbência a D. Benigna Arraes, minha avó. No mesmo dia ela conseguiu a letra com três pessoas, com pequenas diferenças entre elas. Por coincidência, Regina, que trabalhava na casa, foi uma delas e sabia a letra na íntegra. A babá, que era do Crato e morava em Juazeiro da Bahia na segunda metade da década de 30, chamava-se Antônia Peixoto. Será que alguém sabe mais sobre ela?

Abaixo mando letra da música e o site onde ela pode ser ouvida. A gravação é de 1926. O endereço me foi enviado por Zé do Vale, há algum tempo.

http://acervos.ims.uol.com.br/iah/custom/player.php?NSU=00024798&p=mediaplayer&dbpath=/home/ims/homolog/bases/iah/
CRATO – João Pernambucano

Crato, meu torrão adorado
Rosa, que saudades de ti.

Ia o sol descambando
No recorte da serra
Quando de minha terra
Triste me despedi.

Rosa ficou chorando
no oitão encostada
Da casinha sagrada
Onde um dia eu a vi.

Tanta gente no canto
Teus sorrisos e glória
É triste a minha história
Deste recanto aqui

Deus permita que eu volte
Num dia de saudade
Para a felicidade
Dos céus em que vivi.

Hei de sentir ainda
As cantigas de Rosa
Na casinha saudosa
Onde um dia eu a vi.
Joaquim Pinheiro

Para Claude Bloc


Bela, ah quantos anos!
Que fim levou?
Ainda estudante?
Voltei a trabalhar depois de aposentada.
Trabalho pra lembrar.
Ora no pé do fogão, ora pesquisando os amigos dispersos.
Tenho tido muita sorte. Tenho até recebido carta de uma delas.
Aquela que partiu, e deixou seu chinelo.
Guardei, ou melhor, ficou onde ela deixou. Sei que, mais dias menos dias, voltará para o seu pé, para os olhos da Chapada, e rirá de coisas leves, nas rodas dos reencontros.

.
Claude,

Falta-me coragem pra fazer mestrado, especializações. Dizem que a gente tem que entregar e apresentar monografias. Tô fora. Você que sabe não paga; eu que não sei, escuso-me a pagar.
Depois, ainda tenho a Poupança das letras, que consegui juntar, na época do *Ginásio com o prof. José Newton. Ele nos deu em demasia, mas o meu nível era ginasial. Nunca sai de lá.
Frequentei por quatro anos o curso de Biologia, na URCA. Conclui, mas não pus em prática.
Bem que a saudosa Ivone Pequeno tentou me capturar e estimular convidando para ministrar umas aulas. Foi o tempo do Banco do Brasil, e eu escapei do Crato pra ganhar novas fronteiras. A cigana baixou, e só voltou com a carta de aposentadoria.
Mas voltou. Pelos mesmos motivos das tuas saudades.

Achei a cidade diferente, mas guardando ainda, algumas das suas verdades interiores, dos seus cheiros e sabores.
As mesmas praças, nem sempre os mesmos prédios, a ausência de pessoas que nunca voltarão, mas povoam as nossas lembranças... E a minha geração dispersa, que faz uma força enorme pra não ficar velha. Só quer ser Jovem Guarda, ainda sonha com um grande amor, ou ainda vive a grandeza desse sentimento.
Revitalizam o MADRIGAL, brincam na Praça, e se prometem boas somas de felicidade.
Aqui é uma dessas esquinas de encontro, administrada na verdade pelo coletivo. Claude, Socorro, Rafael, Zé do Vale... São apenas os guarda - de trânsito ou guardas-noturnos, que vibram quando chegam um escritor, um poeta, um amigo,um curioso, um simples leitor, um historiador, um economista, um político, ou um artista... E a roda se estabelece, sem cafezinhos, sem biritas, apenas ao som das teclas.
A imaginação e o sentimento comum fazem a festa!
Existem várias maneiras de não sair de perto, e essas você conhece.

.
Um abraço da amiga,

.

* Antigo nome que se dava ao Ensino Fundamental.

Carta a Socorro Moreira - Por Claude Bloc

Teresina, 06 de agosto de 2009.

.... Socorro,

.... Não me cansa essa minha vida meio cigana. Um dia em Sobral, outro em Fortaleza, outro em Crato, outro em Teresina, sem esquecer Assaré onde estive em julho.
.... Estresses são normais para mim, e até me desafiam, me fazem agir positivamente. Me impulsionam a resolver os percalços do dia a dia sem a madorra do lamento conflituoso.
.... Pois é, amiga, estou mais uma vez em Teresina, costurando meu Mestrado. “Tecidos adiposos” vão impregnando as apostilas e os livros, estes cada vez mais densos. Mas a cabeça tem funcionado direitinho e, assim, vou agregando saberes a cada etapa.
.... A viagem me faz transbordar em vontades novas de vencer, de ultrapassar mais uma etapa, mais um módulo, mais um degrau nessa luta que se prolonga desde junho do ano passado. Sinto-me muitas vezes desanimada, não nego. Em finais de semestre as coisas se acumulam a ponto de dar nós na mente. Notas a entregar, passar pro sistema, trabalhos a revisar, e um artigo científico de apenas 20 ou 30 páginas para entregar numa mesma data... Ora, consigo fazer tudinho e não reclamo. Mas agradeço a Deus a cada etapa vencida e a cada alívio, depois de uma empreitada de noites mal dormidas.
.... Já descobri que minha terapia pra tudo isso se chama Crato. Sua casa, em especial, tem me acolhido de braços abertos e você entre sorrisos e risadas vai iluminando minhas estadias regadas com a simplicidade generosa que você tem.
.... O Crato, como você sabe, me renova e me apascenta. Não preciso de muito. Apenas de respirar esse ar, de ver essa gente querida. De poder sentir o Crato nas entrelinhas do presente, com a presença cheirosa e indissolúvel do passado. Basta-me perambular pelas ruas como você fez. Basta-me passar pelos recantos, colher um sorriso. Passar na Tipografia. Prosear com Maria Lúcia Maia e, através dela, voltar ao tempo do Pio X. Basta tomar um sorvete casual e me lembrar da sorveteria de Bantim. Basta dar uma volta lá em D. Telma e acompanhar com ela a galeria de fotos e trocar prosa com seu Edilson revivendo as lembranças dos meus pais... Tem tanta coisa mais que faço quando vou ao Crato! Mas a melhor alegria, pode-se dizer, são os reencontros. E não importa se faz apenas alguns dias, 20, 30 ou 40 anos que o tempo escorreu-se. Basta aquele sorriso, o abraço encabulado, os cumprimentos informais e tudo se encanta e se refaz na fração daquele segundo de pura felicidade.
.... E é assim, amiga, que hoje aqui em Teresina, perambulei pelo centro em busca de nada. Comprei umas havaianas, pois a minhas deixei na sua casa. Mas andar em Teresina é puro passatempo (no sentido amplo da palavra), porque o vazio continua e a saudade do Crato não me larga.
.... Enfim, estou cumprindo minha sina. Um dia cá outro lá. Gosto do vai e vem. Até que um dia eu me canse e pouse definitivamente em Crato.

.... Abraços saudosos (extensivos ao Victor e Aline)

........ Claude

Ronaldo Correia de Brito ganha o Prêmio SP de Literatura



04 de Agosto de 2009


Folha de S. Paulo
Altair Martins também levou R$ 200 mil




O escritor Ronaldo Correia de Brito foi o grande vencedor da segunda edição do Prêmio São Paulo de Literatura. Seu romance "Galileia" (Alfaguara) foi eleito melhor livro do ano. O gaúcho Altair Martins foi escolhido melhor autor estreante por "A Parede no Escuro" (Record). Cada um receberá R$ 200 mil, o maior valor pago a um prêmio literário no país.Concorriam na categoria melhor livro do ano dez autores, incluindo José Saramago ("A Viagem do Elefante"), o colunista da Folha Moacyr Scliar ("Manual da Paixão Solitária") e Milton Hatoum ("Órfãos do Eldorado"). Entre os dez finalistas em romance de estreia, estavam o colunista da Folha Contardo Calligaris ("O Conto do Amor") e Marcus Freitas ("Peixe Morto").Cearense radicado em Recife, o médico Correia de Brito, 58, é dramaturgo e autor das coletâneas de contos "Livro dos Homens" e "Faca" (ambas pela Cosac Naify) e "As Noites e os Dias". Disse à Folha que "desejava" o prêmio, mas não o esperava. "São Paulo é importante para mim, você nem imagina. É uma espécie de destino para todo nordestino."O escritor afirmou não saber o que fará com os R$ 200 mil. "Comprar sushi", brincou. "Galileia" narra a visita emocional de três primos ao sertão do Ceará (na Fazenda Galileia), onde comparecem para a festa de aniversário do patriarca e reavaliam suas infâncias.O estreante Altair Martins, 34, disse que ele e Correia de Brito apostaram durante o dia que, se um dos dois ganhasse, pagaria o jantar do outro. "Confiava no meu livro, mas sem expectativa. Sou autor de pouca visibilidade", disse Martins, que dá aulas de literatura em Porto Alegre e cujo romance, elaborado ao longo de sete anos, foi concluído em 2006 como dissertação de mestrado na UFRGS. O livro entrelaça as histórias de duas famílias que se veem sem a figura paterna.O governador José Serra (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que não compareceram à primeira edição, ressaltaram ontem os feitos do governo na área de cultura. Serra disse que o prêmio já está consolidado, "ao menos enquanto o [secretário de cultura João] Sayad estiver aqui e nós à frente do governo".O júri que selecionou os dois vencedores foi composto pelo escritor Cristovão Tezza (vencedor em 2008), pela professora Walnice Nogueira Galvão, pelo crítico Luis Antonio Giron, pelo livreiro Aldo Bocchini e por Claudiney Ferreira, representando os leitores.

Maria Alice de João Marni

Para Maria Alice ler, no laptop da sua inocência.





Maria Alice - Por João Marni

Ô coisinha linda, dona da minha vida.


Adoro quando reivindicam teus cabelos, teu narizinho, tua boquinha...


Olhando para ti, sem dizer nada, sei que só tens olhos para mim!


Que todos façam juras de amor por ti. Que bom!


Serei aquele sem afetação, porém, atento para que não tenhas preocupações maiores.


Serei o blasfemo, por não confiar em anjos da guarda.


Serei o mais feliz no jardim, rindo por tuas peripécias com as águas.


Logo mais te levarei à escola, a pedido dos teus ocupados pais. Que dia!

Na transição abissal de tua vida, direi mentindo que tua música é linda e que adoro teus modelitos.


Mais adiante, fingirei não ter visto que tua saia está ao contrário.


Serei o ultimo a bater á tua porta quando fizeres de clausura o teu quarto.


Pedirei docemente que dividas comigo tuas dores e direi também que sou teu avô, de mãos fortes além da fera, porém brandas para a chuva; que abras a porta para todos os teus amigos, que serão muitos.

Lembra-te de mim quando ouvires a música “Adiós Mariquita Linda” (adaptação):

“... bem vinda, coisinha da minha vida;
te adoro como nunca amei;
chega a mim,motivo da minha vida;
és o amor dos meus amores,
o perfume de mil flores,
a causa da minha alegria!..


P.S. Neto é um torrão de açúcar na boca dos avós.

FALE O SENTIMENTO

Querido amigo Roberto Jamacaru.

Comovido encerrei a leitura de sua crônica sobre os "meninos e meninas" do Madrigal Intercolegial do Crato em sua tão badalada quanto inesperada repercussão e sucesso. Suas palavras são um primor na revelaçao do sentimento. Somente o tendo também sentido para transforma-lo em verso e prosa. Uma narrativa ímpar para deleite dos seus leitores e dos quantos ali compareceram. O Cratim de Açucar (para os íntimos) é uma cidade sem igual, e gestou gerações sucessivas de "meninos(as) de ouro que são hoje o seu maior patrimônio em todos os seguimentos da atividade humana pofissional. Voce é um exemplo dessa "fraternidade" cultural e artística e de valores humanísticos sem par. Eu sei de cor os nomes de todos, uns aqui outros mais distantes (mas sempre presentes), todos trazendo a marca da nossaterra querida estampada nas suas mãos que escrevem e na sua mente brilhante que produz o sentimento único de nossa TRIBO KARIRI. Que bom que você faz parte desse iluminado e seleto grupo, aberto a novas adesões, revelados e revelando-se nos excelentes Blogs irmãos em nossa terra. Você amigo Roberto, tem assento na primeira fila do meu coração. Grato pelo privilégio de ser seu amigo.
Nilo Sérgio Monteiro

VOTORAN FEMININO - Por Edilma Rocha

Toda semana, as terças feiras era dia de aulas de Educação Física para as alunas do Colégio Santa Tereza. As 15:30 hs pontualmente estavam na quadra da escola as garotas do Crato nos anos 70. Ao término da disciplina, era hora de voltar para casa, mas um grupinho ia ficando e jogando uma bolinha para descontrair. Isso virou costume e foi aos poucos tendo uma pequena platéia que aguardava o futebol das meninas. Fãs dos jogos da quadra Bicentenária resolveram colocar o seu time em campo. O técnico Erasmo foi escolhido e este selecionou o time : Lindomar, Tereza Patrício, Edna, Fátima, Catarina, Regina, Marilac e Edilma. Os treinos eram freqüentes e foi formado o primeiro time de futebol feminino do Crato e da região do Cariri. As freiras não gostaram muito da idéia audaciosa das meninas e os treinos passaram a ser na quadra da igrejinha de São Francisco. Afinal meninas naquela época não deveriam por as pernas de fora e a farda da escola era saia de preguinhas presas na cintura, blusa de mangas, sapatos pretos e meias brancas. Shortinhos bem comportados só dentro dos muros do colégio. Qual era o problema exibir um belo par de pernas para os suspiros dos meninos do Diocesano? E fomos a luta, sem pudores ultrapassados e cheias de energia. Os treinos seguiram meses até o dia da esperada estréia das garotas do Crato. Shortinhos brancos, camisas nas cores, vermelho preto e branco, meias até altura do joelho e os famosos congas pretos. Tudo pronto! As arquibancadas lotadas de amigos, familiares, curiosos e amantes do esporte. O time adversário era o reserva para a primeira exibição neste estilo. Quando entramos em campo, aplausos, assobios e bravos se ouviam no ar. Se tinha algum namorado por lá, agüentou firme até o final da partida. A bola rolou e as meninas graciosas corriam sem perder a elegância e a graça. Catarina era a nossa goleira e pegava todas as bolas garantindo a nossa vitória, Tereza Patrício foi chamada peito de aço, pois matava todas as bolas. Edilma, ponto-esquerda, Fátima a artilheira, Marilac centroavante, Lindomar e Edna faziam a defesa. De vez em quando uma paradinha de Lindomar Para ajeitar os cabelos. E o time foi um sucesso num placar de 6x1.
A foto histórica foi clicada por Satisfeito e o time seguiu por um bom termo arrebentando os corações dos torcedores do Votoran e os suspiros dos rapazes.
Ficou a saudade de uma época de ouro em que tudo tinha um sabor sem igual. Saudade das amigas que a tanto tempo não encontro. Saudade dos olhares de admiração e censura de uma pequena cidade do interior. Mas que aqui revive as lembranças daquelas meninas que orgulhosamente exibiram o seu belo par de pernas com graça elegância e talento.

Edilma Rocha

Guerreiros do sol e donzelas da chuva (e a origem da palavra baitola)



Por Carlos Rafael Dias

Lampião, facínora e herói, súdito e rei, temido ao empunhar um Wincherster .44 ou punhal de três quinas, mais parecia uma donzela prendada quando empunhava, igualmente, uma singela maquininha Singer para bordar os seus bornais. Dizem as más línguas, que ele era chegado a uns cafunés de Arvoredo, um dos seus lugar-tenentes. Além de tudo, o famigerado bandido era dono de um ego continental, de onde sua imensa vaidade derivava. Segundo Frederico Pernambucano de Mello, na sua colossal obra Guerreiros do Sol: Violência e banditismo no Nordeste do Brasil, Lampião, quando esteve em Juazeiro do Norte, convocado que foi pelo Padre Cícero e Floro Bartolomeu para receber a incumbência de combater a Coluna Prestes, sussurrou para o fotógrafo que fez aquela que é considerada sua foto clássica: “Seu Lauro, bote meu olho baixo na sombra”. Esta foto do Rei do Cangaço é equivalente à fotografia clássica de Che, feita por Alberto Korda. Portanto, imagens antológicas de dois facínoras, dois heróis, dois mitos.

Ainda sobre a clássica obra de Frederico Pernambucano de Mello, cuja leitura apenas iniciei, o prefácio da primeira edição, de 1984, traz a pena competente de Gilberto Freyre, autor de uma tirada genial acerca do título do livro: “(...)ao sertanejo do Nordeste – região de muito sol, como que masculinizante – ter faltado maior convívio com a água: uma água como que feminilizante. Feminilizante da própria culinária, nos sertões, tão masculinamente ascética. E feminilizante, também, através de uma frequência de banho de rio, de ação, além de higiênica, recreativa, esportiva, refrescante e capaz, como há quem suponha ser o caso entre gentes árabes, de atuar psicologicamente sobre impulsos bravios, atenuando-os e até adoçando-os”.

Interessante, também, é a força do progresso na extinção do cangaço, a despeito de “um cangaço pós-lampiônico que repontará nos anos de 1950 e 60, em grupos reduzidos, a exemplo de Floro Gomes Novais, o capitão Floro da ribeira do Ipanema, com cinco homens, entre Alagoas e Pernambuco[1]”. Igualmente interessante que, mesmo contrariando a força do progresso dizimador do fenômeno, esses cangaceiros pós-lampiônicos ostentavam um item da modernidade, pois todos usavam óculos escuros para protegerem as vistas do sol causticante do sertão. Talvez, além do xaxado, ritmo “sincopado como um tiroteio[2]”, estes cangaceiros extemporâneos também dançassem ao som do iê-iê-iê recém-lançado, na época, por Elvis Presley e os Beatles. Dúvida à parte, o certo é que o cangaço exerceu um forte fascínio na rapaziada influenciada pelas ondas da contra-cultura que varreram, inclusive, até os mais distantes grotões do Nordeste brasileiro. Em Recife, temos, por exemplo, toda uma cena underground cujo ícone principal é Lampião, vide os estereótipos de Alceu Valença e do seu lugar-tenente, o guitarrista e arranjador Paulo “Lampião” Rafael. Na capa do antológico disco Espelho Cristalino, Alceu posa a la Lampião (é lamp, é lamp, é lamp!).

Mas voltando ao progresso que veio apressar, no mínimo, o fim da era lampiônica, Frederico Pernambucano de Mello escreve que “curiosamente, quando as estradas de ferro e de rodagem conseguiram devassar, em caráter definitivo, os domínios até então reservados à pata de burro dos almocreves – que, ao lado dos ciganos, eram quase que os únicos novidadeiros daquelas paragens – despejaram sobre as cabeças dos sertanejos serodiamente quinhentistas todos os avanços sedimentados em três séculos de vida litorânea relativamente dinâmica. Nas zonas rurais, ainda que nas escassas manchas urbanas sertanejas, isto se deu de modo acelerado e doloroso”.

Permitam-me, caríssimos leitores, dar uma guinada sobre o próprio corpo, visto que não desviarei o tema. O processo de modernização ocorrido no sertão nordestino fez parte da ação de dominação imperialista perpetrada pelos países industrializados no decurso da Segunda Revolução Industrial, no final do século XIX e início do século XX. Na América Latina, vigorou o chamado imperialismo informal, caracterizado pela ausência de dominação política sobre as áreas periféricas. Essas áreas conservam sua situação de países independentes, mas têm sua economia voltada para o mercado externo, produzindo as matérias-primas que interessam aos países industrializados, e caindo em uma verdadeira dependência econômica com relação a esses países centrais. Essa dependência é agravada pelos maciços investimentos de capital estrangeiro, visando a implantação de uma infra-estrutura viabilizadora de exportações (ferrovias, rodovias, postos, silos, usinas e instalações frigoríficas etc).

Portanto, no final da década de 1930, o Nordeste brasileiro, fruto dessa ação do capitalismo imperialista, estava relativamente modernizado, sendo o trem e as estradas de ferro os símbolos dessa nova era. O cangaço, bem como outras mazelas obsoletas, não se encaixava mais neste novo panorama. Precisava ser extirpado, e o foi, quase que totalmente.

Pra finalizar, visto que este texto está mais comprido do que a Estrada de Ferro de Baturité, peço vênia aos meus leitores para contar uma versão da origem da palavra baitola, expressão, pelo que consta, nascida por consta da espirituosa verve do sertanejo cearense. Por ocasião da construção da Estrada de Ferro de Baturité, sob os auspícios do capital inglês, havia um engenheiro, também inglês, que era cheio de trejeitos e frescuras. Por isso, os operários da obra nutriam uma certa antipatia pelo gringo; antipatia esta que chegava às raias da exasperação quando ele, autoritariamente, exigia maior empenho na condução da faina. Ele era, particularmente, insuportável quando, com sotaque carregadíssimo, orientava na fixação dos trilhos de acordo com a bitola estabelecida, gritando freneticamente: prestem atencion na baitola. Pronto. Surgiu então este corrosivo vocábulo, que até hoje serve para designar toda pessoa chata, arrogante, boçal e cheia de frescuras.

[1] Informação que consta na legenda da foto de Valderedo Ferreira (lugar-tenente), o chefe Floro e Faísca, publicada no citado livro de Frederico Pernambucano de Mello.
[2] Idem ibidem.

Eu vi Hiroshima - Kurihara Sadako



Nada se vê em Hiroshima.

Hiroshima: cidade de prédios e carros.

Casais de blue jeans cochilam
em bancos situados nos parques
uma criancinha corre atrás dos pombos sobre a relva.

O cogumelo atômico,
o cenotáfio -
São apenas gotas para instantâneos.

Não, isto é o que eu vi.
Pessoas sentadas em grupos como ascetas
sobre o meio-fio defronte ao cenotáfio.

Movendo-se lenta
e silenciosamente,
ligados em testes nucleares subterrâneos
no deserto de logínquos países
e no silencioso ruído das cinzas mortíferas
que explodem no ar,
gente que já viram o inferno atômico.

Pessoas sentadas no meio-fio
que conversam com mortos,
reunem-se aos mortos
para clamar pela paz.

Isto foi o que vi.
Gente em Hiroshima
sentados nos meio-fios
clamando pela paz.


Kurihara Sadako ( 1913 – 2005 Hiroshima - Japão ) Tradução de Emerson Teixeira

Kurihara Sadako, a poetisa hibajusha (vítima da bomba atômica) nascida na cidade infelicitada pelos homens, sobrevivente atômica.

Kurihara (1913-2005) é a poeta do pós-bomba, símbolo de um tempo novo e terrivelmente doloroso, ensaísta, ativista e líder do movimento antinuclear, que legou à posteridade 100 ensaios e 400 poemas sobre a experiência traumatizadora.

Sadako é um símbolo de amor à vida, representante de um povo que a perdeu imensamente em guerras. Apóstola da paz, por sua produção literária, mas não só por ela, observa:

“Hiroshima não é, de modo algum, algo que ocorreu no passado... Hiroshima é um lugar no futuro, onde podemos ver até onde pode nos levar o militarismo, a corrida armamentista, sua destinação; é o maior ponto cego da espécie humana, que serve como referência para o mundo”.

Tríade da Beleza : Telma, Edilma e Fáfa Saraiva ( mães e filhas , em gerações distintas) - Por Socorro Moreira


Fafá- ( filha de Edilma e neta de Telma Saraiva - foto pintura by Telma Saraiva)






Edilma Rocha - filha de Telma e mãe de Fafá -foto artística by Telma Saraiva



Telma Saraiva - mãe de Edilma e avó de Fafá - a estrela maior - Foto Júlio Saraiva - (pintado por ela).



O acervo fotográfico de Edilma Rocha é assustadoramente rico.Tenho a sensação de que sou o Tio Patinhas ( longe de ser avara), solta no seu cofre de moedas. Mas , recolho-me à minha insignificância , e assumo a falta do poder falar sobre a arte, beleza e poesia dessas mulheres de forma sucinta e bela.

Peço inspiração às nuvens, ao sol, e sinto-me uma folhinha branca , sem clorofila, vagando e pairando aqui e ali, com a boa vontade no peito e um sorriso na cara.

Como não ? A beleza emociona-me !
..." Arte é forma, forma é beleza, beleza é poesia"... (Adélia Prado)