Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Carmen Costa por Norma Hauer


Há dúvidas sobre a data de nascimento de Carmen Costa,alguns sites dão como nascida em 5 de janeiro e outros em 5 de julho de 1920. Sempre tive esta última data como sendo a real, inclusive Luiz Vieira, em seu programa "Minha Terra, Nossa Gente", transmitido de 2ª a 6ª feira na Rádio Carioca, tem como certa a data de 5 de julho.

Bom, mas se há dúvida, ela merece ser relembrada hoje e também em 5 de julho.

Ela nasceu com o nome de Carmelita Madriaga em Trajano de Moraes(RJ) de onde saiu com 15 anos, vindo para o Rio de Janeiro onde trabalhou como doméstica na casa do cantor Francisco Alves.
Na mesma época passou a se apresentar em programas de calouros, mas somente em 1937, quando conheceu o compositor Henricão, teve sua chance de se transformar na grande cantora que ficou conhecida com o nome de CARMEN COSTA, dado pelo compositor.
No ano seguinte, apresentou-se em um arraial do rancho fundo, em Juiz de Fora e em 1939 regressou ao Rio, apresentando-se na então Feira de Amostras que, anualmente, era montada no local onde hoje se encontram as Avenidas Churchill e Roosevelt, no Castelo.

Ali cantaram as irmãs Carmen e Aurora Miranda, bem como as Irmãs Pagãs, Carlos Galhardo e outros. Na Feira de Amostras era também montado um parque de diversões, conhecido como Parque Shangai.

Em 1942, com Henricão gravou seu primeiro disco , com o samba "Onde Está o Dinheiro?" e foi nesse mesmo ano que "estourou" com "Está Chegando a Hora", uma adaptação do mesmo Henricão para a melodia mexicana "Cielito Lindo". Esse foi seu carro-chefe e ela era sempre chamada a cantá-lo em qualquer parte onde se apresentava.

Separando-se de Henricão, em1945 foi para os Estados Unidos, onde se casou com um americano de nome Hans van Koehler (de ascendência holandesa) e se apresentou em vários "shows", em casas como o Teatro Triboro, em Nova York e em outras cidades, como Nova Jersey e Los Angeles.
Regressou ao Brasil em 1949, quando conheceu Mirabeau e gravou um de seus maiores sucessos, depois de "Está Chegando a Hora" : Cachaça

"Você pensa que cachaça é água,
Cachaça não é água não..."

Mas para "beber" essa cachaça toda foram necessários mais 3 co-autores: Heber Lobato ,Marinósio Silva e Lúcio dos Santos (nomes desconhecidos) e ainda precisou a participação de Colé na gravação.

No mesmo estilo de "Cachaça" gravou "Tem Nêgo Bebo Aí".

Mudou seu estilo em 1954, passando a cantar samba-canção, sendo o mais importante, de Mirabeau, "Eu Sou a Outra", também grande sucesso.

Em 1958 teve uma participação no filme "Vou Te Contá" e entre 1959 e 1963 excursionou por vários países da América do Sul.

Gravou, em 1961 a famosa marcha do "Cordão do Bola Preta"

"Quem não chora, não mama,
Segura meu bem a chupeta.
Lugar quente é na cama
Ou então no Bola Preta".

Em 1962 apresentou-se no Carnegie Hall de Ney York, cantando "bossa nova", com Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Em 1975 cantou no Outeiro da Glória músicas de ladainha, gravando um Lp com essas músicas.

Carmen Costa ainda se fez presente em vários LPs até1996 e, com Elymar Santos fez várias apresentações em 1999.

Em 2002 pssou a se apresentar no palco montado anualmente na Cinelãndia, durante o carnaval, até o ano de sua morte, 2007.

No mesmo ano de 2002 comemorou seus 82 anos de idade e 70 de carreira no Clube Recreativo Posto 6, em Copacabana e fez depoimento no Museu da Imagem e do Som.

E nos anos de 2003 e 2004 fez "Shows" no Centro Cultural da Justiça.

CARMEN COSTA faleceu em 25 de abril de 2007, aos 87 anos.
Norma Hauer

Um texto de Drummond- colaboração de Vera Barbosa


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente. Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. A esperança renovada. Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir. Todas as músicas que puder emocionar. Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida. Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente... Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, ao rumo da sua FELICIDADE!" (Drummond)

De Artur Gomes

o amor não é apenas um nome
que anda por sobre a pele
um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a flor da tua pele
consome a pele do meu nome

Artur Gomes
http://artur-gomes.blogspot

Poemas de Domingos Barroso

Ela

Quantas vezes já disse
que é hora do cafezinho quente

mas nunca sinto o mesmo gosto
nem entra pelas narinas o mesmo perfume.

Assim é a vida
dessa alma alheia

que se abrigou nos cachos
das minhas axilas

e agora ao levantar-me
eis ela, essa alma atenta

dentro do açucareiro,
pelas bordas da xícara.

O+

Ter um filho pequeno
de férias ao nosso lado

é como assoprar bolinhas de sabão
deitado:

ora espocam no braço,
ora nos cegam os olhos.

mas sempre coloridas
voláteis,
fugidias.

Quando vai embora o rebento
logo a saudade cresce
um monstro no peito

e não vejo graça
nas bolinhas de sabão
tristes dentro do tubinho de plástico.

Flor de Pequi

Nosso inimigo-mor
veste-se com nossa pele
espreita por trás das nossas retinas

anda glorioso sustentado
por nossos músculos e tendões
até finge nossas mãos na hora da escrita.

Nosso inimigo-decano
é traiçoeiro, cínico

espera a mente dúbia
para lhe forjar medos.

Chegado o tempo de fustigar o corpo:
abdominais, pesos, sobriedade.

Chamar para o duelo
esse humano cruel

esse palhaço
esse espantalho sem cabeça.

Amanhecer

Acordei com o braço marcado
por um batom vermelho
de muriçoca.

Seus lábios circulares
deixam a impressão do afeto
e da loucura por meu sangue.

Deve ter sido uma grande festa.
Além da marca vejo também
um leve inchaço.

Só não ouvi seu violino
de cordas rompidas.

Sinais

Sensação estranha
de quem começa a viver agora

sem sacrifícios
sem loucura aparente.

Até a mente perigosa
parece adolescente trêmula.

Sei que não é presente do além
nem trombetas de um novo ano.

Apenas sinto o vazio amplo
sentado na cama sem fumar

mas olhando a fumaça
esfregar-se no basculante.

Sobejos

Não importa o tamanho da montanha
que lhe caia sobre a cabeça

nem a gigantesca mordida do hipopótamo
arrancando-lhe as nádegas:

a vida maltrata bem
mas nem sempre sortilégios.

Embriague-se do cotidiano:
teclado, mouse, cafeteira, ventilador, escova de dente.

Poemas de Domingos Barroso

Lei

Bisões não têm ressaca.

Mas gralha quando bebe
amanhece péssima:

os olhos taciturnos
o bico emudecido,

dá dó.

Portanto,
gralha que sou
evito o primeiro copo.

Equilíbrio

Somente por hoje
perdoa-se a sombra

o fantasma
aquele inimigo distante.

Bebamos um pouco de vinho
para amolecer nosso espírito.

Não sejamos tão duros
quanto uma porta

tão teimosos
feito uma mula.

Basta girar o trinco.
Basta um afago nas ancas.

Somente por hoje
farei de conta
que a vida é bela:

ninguém precisa
um cuidar do outro.

Bastar trocar presentes.
Reatar laços.
Apertar nós.

Quem sabe no final da noite
surpresa boa:

uma namorada
inteligente

com muita carne
nas coxas.

Outro Olhar

Mesmo que os sorrisos das pessoas
digam-me o contrário.

Tragédia é depois dos abraços
quanto cinismo despertado
a cada taça de vinho.

O coração aumenta de tamanho
por novas mágoas até ontem esquecidas.

Mesmo que os sorrisos das pessoas
digam-me o contrário.

O desgosto é claro
no bocejo enfadonho
quando a festança acaba.

Dor nas costas,
mil louças na pia

ainda tem o ano novo,
vontade louca enforcar os parentes

também os penetras
e outros tantos vizinhos.

Mesmo que os sorrisos das pessoas
digam-me o contrário.

O Clima

I
Vejo gafanhotos
exibindo belos adornos
nas longas patas

minhocas acordam da terra fofa
com os olhos contentes

quem diria até o diabinho
encosta seu tridente

aceita tomar um cafezinho
em companhia da sua antiga vítima.

Quanta delicadeza entre os vizinhos
nunca se falaram sequer um bom dia

mas reina o clima natalino
abrem a guarda
dão-se trégua

até o anjinho perdoa aquele sujeito
do primeiro andar

místico descarado
um esquisitão confesso.

II
Vejo borboletas em paz
dentro do casulo

não precisam entrar pelas janelas
hoje é o poeta que bate à porta.

Por favor, nada de vinho
tampouco panetone

só quero mesmo
ver como fazem vocês
para pintar essas cores.

Estive tão ocupado
escrevendo versos

nunca lhes toquei as asas
nem o milagre vi de perto.

III
Vejo as bijuterias da minha irmã
balançando com o vento.

Atrás o sol me olha
na fachada do outro prédio.
Postado por Domingos Barroso às 09:53 0 comentários
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Humanidade

Às vezes escrevo um poema
que falta o fundamental:
a Poesia.

Leio, leio, leio
e nada acontece:

o morto não move os dedos,
a flor não desabrocha.

Apenas aquela sujeira comum
debaixo da geladeira.

Domingos Barroso

A poesia de Domingos Barroso

Silêncio

Tempo breve, matéria escassa, espaço limitado
mesmo assim recolho das sobras que posso
algo mágico:

uma infância tenra com ares enrugados
sob as sombras dos dedos.

Escrever versos
em folha branca
sem pauta

traz-me à tona
meu primeiro chocolate
minha primeira farofa de ovo.

Mesmo que amanhã eu morra
para meu conforto
as estrelas há mais tempo
morreram

e só agora
cegam-me os olhos.

Tempo breve, matéria escassa, espaço limitado
e tu entras dentro da minha mente

açoitas meu coração ingênuo
que te responde todos os dias -
mesmo quando não ouço.

Não hei de morrer
após este último vislumbre

como não foge
da minha alma o gosto

do primeiro chocolate
da primeira farofa de ovo.

As estrelas cadáveres
são fábulas.

As estrelas brilham
porque são cacos de vidro.

Decido então não morrer
após este último soluço.

Iconoclastia

Agora que estás lúcida,
diz-me:

quem ganhou minha alma no bingo?

Aposto que muitos gostariam de tê-la
às mãos.

Tem um abismo bem próximo da tua casa.

Na ceia,
antes e após a oração,
os convivas são santos.

Mas, sejamos justos:
meia dúzia adoraria
minha alma pegando fogo.

Triste a morte anunciada.

E os abutres já se debruçavam
sobre minhas costelas rasas
e meus olhos fundos.


Mansidão

Não me lembro
de um natal,
vejamos,
tão silencioso.

Só ouvi estourar um champanhe
lá pra meia noite

quando os dedos dos meus pés
já se acomodavam entrelaçados
aos mais próximos.

Assim, ambos os pés passam a madrugada
agasalhados, revesando, juntinhos
contra o vento monstro.

O ventilador faz um frio monstro.

Imagino os dedos
do Abominável
Homem
das Neves.


Domingos Barroso

Alguma coisa - por Rosa Guerrera


Alguma coisa ficou a ser dita.
Alguma coisa que nasceu repentinamente
E morreu antes de ser realizada.

Eu sei que alguma coisa ficou perdida
Num lago distante
Numa nuvem passageira
Num rio que secou
Num grito que morreu na garganta.

Alguma coisa que era pesada
Demais para um sonho,
E ingênua demais para a vida ...

Alguma coisa minha que até hoje
Não consegui encontrar .

rosa guerrera

No te Rindas

Mario Benedetti deixou atrás de si uma rica obra, na qual os mais de 80 romances, ensaios, contos e poemas escritos mostram o compromisso social e a coerência de alguém que acreditou “na vida e no amor, na ética e em todas essas coisas tão fora de moda”. “Ele sempre disse que se sentia mais poeta que outra coisa”, afirmou a biógrafa do escritor, Hortensia Campanella, quando apresentou, há alguns meses, o livro “Mario Benedetti. Un mito discretísimo”. Mario estava para o Uruguai assim como o seu homônimo Mario Quintana estava para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.
Aos amigos do Cariricaturas um dos belos poemas dele.
Marcelo Mourão

No te Rindas

No te rindas, aún estás a tiempo
De alcanzar y comenzar de nuevo,
Aceptar tus sombras,
Enterrar tus miedos,
Liberar el lastre,
Retomar el vuelo.
No te rindas que la vida es eso,
Continuar el viaje,
Perseguir tus sueños,
Destrabar el tiempo,
Correr los escombros,
Y destapar el cielo.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se esconda,
Y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma
Aún hay vida en tus sueños.
Porque la vida es tuya y tuyo también el deseo
Porque lo has querido y porque te quiero
Porque existe el vino y el amor, es cierto.
Porque no hay heridas que no cure el tiempo.
Abrir las puertas,
Quitar los cerrojos,
Abandonar las murallas que te protegieron,
Vivir la vida y aceptar el reto,
Recuperar la risa,
Ensayar un canto,
Bajar la guardia y extender las manos
Desplegar las alas
E intentar de nuevo,
Celebrar la vida y retomar los cielos.
No te rindas, por favor no cedas,
Aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero.
Mario Benedetti

Sem chão- por Socorro Moreira

Nem sequer um sonho
Sem projeto de saudades
Sem a dor nos intevalos

Entrei e sai
Me distanciei ,
e o mundo não sentiu

Volto pro novo cotidiano
Sem esperas , sem enganos
Sem ocupar a esperança

Abraço o tempo
que esquece
mas um pedaço de mim

Me deixei dispersa
sem amarras,
sem nós,
sem terra...

Mas precisava ver o mar,
sem ter visto o teu olhar.

Folclore Político do Cariri- Joaquim Pinheiro




Organizando minha estante deparei-me com livros de Sebastião Nery sobre folclore político, comprados em meados dos anos 70, quando morava em Brasília. Reli alguns casos do sul do Ceará e transcrevo para vocês:

a) Alencar era prefeito de Barbalha. O governador, Coronel Felipe Moreira Lima, mandou chamá-lo:
- Seu Alencar, eu não vi sua defesa.
- Que defesa?
- Os jornais estão dizendo que o Sr. gastou dinheiro da prefeitura nas eleições.
- Ora, governador, as eleições deste ano foram caríssimas. Gastei até do meu.

b) Martins Rodrigues, interventor, soube que o prefeito de Assaré estava roubando a prefeitura. Pegou o carro e foi até lá:
- Prefeito, precisamos conversar.
- Está bem, Dr. Martins, mas deixe para amanhã. Desapeie do carro, jante, durma aqui e amanhã eu mostro tudo ao senhor.
- Não posso. Tem que ser hoje.
- Mas, Dr. Martins, hoje aqui tem um boi (bumba-meu-boi) que vai dançar.
- E o que eu tenho com isso?
- É que o boi sou eu.
Foi bovinamente demitido.

c) Coronel Floro Bartolomeu, braço direito do Padre Cícero, lá no Juazeiro, tinha um afilhado muito preguiçoso. Ele sempre dando conselhos.
Um dia, o filho de um vizinho achou um pacote de dinheiro às 5horas da manhã. Coronel chamou o afilhado: menino, você está vendo. O Zeca só achou o dinheiro porque saiu às cinco.
- É padrinho Floro, mas quem perdeu saiu às quatro.

d) Filemon Teles, o Tio Filé, era presidente da Assembléia Legislativa. Virgílio Távora, governador, viajou para a reunião deliberativa da SUDENE e lhe passou o governo. Virgílio viajou ao meio dia, a reunião era à tarde e à noite Virgílio voltava. Mesmo assim, Tio Filé assumiu e ficou feliz da vida como governador meio-expediente.
Á tarde, o jornalista Lustosa da Costa vai ao palácio. Encontra Tio Filé na cadeira de governador, na cabeceira da mesa, olhando para as paredes. Não tinha nada para fazer. Ficam conversando. De repente, Lustosa lembrou-se de que havia um processo para ser despachado naquela tarde. Era licença para o jornalista Rangel Cavalcante, funcionário do Estado, colega e amigo de Lustosa, viajar ao Rio de Janeiro, participar de um congresso.
Tio Filé ficou feliz, mandou buscar o processo, foi folheando, alisando, lambendo aquele único, exclusivo e providencial ato de governo. O tempo passando, Lustosa com pressa, e Tio Filé lendo, lendo, sem assinar. Lustosa olha para o relógio. Faltam 5 minutos para as 18 horas. Pede o processo, abre na última página: assine logo, homem, senão seu governo acaba.
Assinou, o governo acabou.

e) O Deputado Filemon Teles recebeu pedido de um amigo, também deputado, da Paraíba, para amparar um criminoso que fugira de lá e estava chegando ao Ceará. O Filé encaminhou o paraibano para o Coronel Amâncio, poderoso chefe político no Cariri.
Algum tempo depois Tio Filé encontrou o Coronel Amâncio:
- Como é compadre, resolveu o problema do rapaz da Paraíba?
- Sim, está tudo certo. Já está trabalhando e é um homem de confiança, foi uma boa aquisição.
- E os documentos dele? Como é que fez?
- Muito normal. Fiz um atestado de óbito dele no cartório do Crato e mandei a certidão para a Paraíba. Aí, aquele homem acabou. Depois, fiz um registro novo para ele, no mesmo cartório, com outro nome. Aí ele virou um homem novo.
- E a mulher?
- Que mulher?
- A mulher dele.
- Ora, compadre, a viúva casou com o novo.
E o sertão do Cariri ganhou mais um homem d confiança para serviços de responsabilidade.

f) Virgílio Távora, governador, recebeu telegrama do prefeito do Crato:
“Sr. Governador, solicito V. Exa. recursos enfrentar seca município. Cordiais saudações”.
Virgílio responde: Senhor Prefeito, aguarde, 19 de março, passagem Equinócio. Cordiais saudações”.
Dia 20de março, o prefeito telegrafou de novo:
“Senhor Governador, apesar banquete e homenagem preparamos receber condignamente enviado V. Exa, até agora o Dr. Equinócio não apareceu. Cordiais Saudações”.

Luiz Gonzaga - Eterno Rei do Baião- Marcos Barreto de Melo




A identidade de Luiz Gonzaga com o Nordeste e, principalmente, com a terra que o viu nascer, o torna indubitavelmente o maior símbolo do sertão. Luiz Gonzaga é a expressão mais viva e autêntica do homem sertanejo, de sua vida e de seus costumes. A sua obra é um patrimônio que transcende as fronteiras de Exu, no sertão de Pernambuco, para atingir toda uma Nação, além de constituir-se num documento histórico de significado inconteste, no momento em que registra os sentimentos e a alma dessa gente simples e sofrida da terra nordestina. Luiz Gonzaga é o sertão em corpo e alma. Como já disse o renomado mestre e folclorista Luis da Câmara Cascudo, "Luiz Gonzaga é um documento da cultura popular. Autoridade da lembrança e idoneidade da convivência. A paisagem pernambucana, águas, matos, caminhos, silêncio, gente viva e morta. Tempos idos nas povoações sentimentais voltam a viver, cantar e sofrer quando ele põe os dedos no teclado da sanfona de feitiço e de recordação". Luiz é uma bandeira do sertão nordestino que tremula no Brasil inteiro, no momento em que ele faz gemer os 120 baixos de sua sanfona branca. Uma sanfona mágica, de esperanças e recordações.
Luiz Gonzaga é a imagem do retirante nordestino, que foge da terra seca e exaurida pelo sol causticante da caatinga, deixando para sempre o seu tão pobre e querido torrão natal. Do retirante que vende tudo o que tem, que joga a família em um pau-de-arara e parte rumo ao Sul na busca ilusória de melhores dias. Luiz é o sertanejo que planta, replanta e não perde as esperanças de um bom Inverno. É o nortista forte e valente, mas que, chegada a hora de partir, esquece a sua rudeza nativa e se deixa levar pela emoção. É o caboclo que chora, quando se sente condenado a deixar o seu pedaço de chão.
Luiz Gonzaga é o vaqueiro das caatingas do Nordeste, de chapéu de couro, gibão e perneiras, destemido e forte como uma aroeira, que anda no coice da boiada e corre no carrasco, no marmeleiro fechado ou entre espinhos de mandacaru no encalço de uma rês desgarrada. É o vaqueiro que laça, derruba e domina uma rês enfezada. É o vaqueiro afamado e bom de campo que arranca aplausos da multidão nas festas de vaquejada quando, ligeiro como um corisco, derruba o boi mandingueiro e cobre a pista de poeira. Que acorda antes do sol e sai para o campo ainda de madrugada, que almoça farinha com rapadura, que bebe da água represada nas lagoas e que toma cachaça no chocalho. Luiz Gonzaga é o vaqueiro que, no cansaço da luta, descansa à sombra de uma barriguda e que, no fim do dia, junta o gado, sacode o pó do marmeleiro e vai para junto do seu bem.
Luiz Gonzaga é o caboclo da roça, homem simples e trabalhador, que acredita no canto agourento da acauã chamando a seca, no canto triste do vim-vim e na profecia do pássaro carão, que quando solta o seu canto é sinal de muita chuva no sertão. É o caboclo esquecido, de mãos grossas e calejadas e que traz o rosto marcado pela vida árdua do campo. É o roceiro que faz experiências com as pedras de sal, que espera ansioso pela barra do sol no dia de Natal e que só se convence da seca quando vê passar sem chover o dia de São José, o santo de sua devoção.
Luiz Gonzaga é o sertanejo de fé, que reza por uma chuva e pede a Deus pra não ter seca, que faz promessa ao Padim Ciço pra se curar de uma doença e que vai para as missões pedir uma bênção a frei Damião. É o caboclo que nasceu na caatinga e que dali não quer sair, porque para ele não existe lugar melhor. É ali que está enterrado o seu umbigo e é neste mesmo chão que ele quer morrer. Ser enterrado à sombra de um velho umbuzeiro, vestido de vaqueiro e com uma cruz de madeira amarrada com cipó, no meio da caatinga onde tanto aboiou e onde, infelizmente, o seu grito de aboio ficará para sempre esquecido.
Luiz Gonzaga é o morador de pé-de-serra, que trabalha de sol a sol durante toda a semana, mas que não abre mão de um samba de latada com o chão de barro batido e a luz mortiça do candeeiro, onde triângulo, zabumba e uma sanfona de oito baixos comandam a alegria. Um forrozinho onde a cabroeira brinca, dança e se diverte, enquanto a poeira sobe e o tocador, animado, vai castigando a sua concertina.
É o caboclo reimoso, esperto, brincalhão e prosista, com muitas estórias engraçadas para nos contar, com aquela maneira que lhe é particular.
Luiz Gonzaga é o caminho que nos traz de volta aos pés-de-serra do sertão nordestino através de xotes, baiões e toadas que tão bem retratam a nossa terra. Luiz é a energia que mantém viva em cada retirante a lembrança do seu longínquo sertão e a esperança derradeira de um dia ainda voltar para ele.
Luiz Gonzaga é tudo aquilo que emana do sertão. É a expressão de uma terra pobre e sofrida, ora seca e triste, ora verde e alegre. De uma terra esquecida e castigada, mas infinitamente bonita pela pureza de sua gente.
Luiz Gonzaga é a Asa Branca que volta correndo para o sertão quando ouve o ronco das primeiras trovoadas; é o cheiro gostoso da terra molhada; é o juazeiro com o seu eterno verde esperança; a peitica que, na copa do umbuzeiro, canta alegre com a chegada do inverno; é o riacho que corre vorazmente, arrastando árvores com as águas da primeira chuva; é o açude que sangra após anos de seca; é um fole velho gemendo numa palhoça, alegrando o São João na roça; é a rama verde da gitirana que, quando nasce, faz renascer o sertão.
Luiz Gonzaga é o filho de Januário que nasceu em Exu, em pleno sertão pernambucano, nas terras dos Alencar, e que aprendeu com o pai a puxada da sanfona. Luiz é aquele moleque que fugiu de casa em 1930, para tornar-se, um dia, o grande e insuperável Rei do Baião. Luiz Gonzaga é o sanfoneiro do Riacho da Brígida, de rosto redondo e riso largo, que deixou o sertão do Araripe para ser o dono de um reinado que não tem fim, posto que, o seu canto é eterno.

Marcos Barreto de Melo

A reforma e a cadela - Anita

A casa da esquina está em reforma:

Põe e tira paredes...

Botaram a cadela na rua

"_ Até terminar a reforma"

A cadela passa fome,

Passa frio, foge da chuva,

Pede socorro, entra no cio...



A casa da esquina está em reforma...

A vizinha não se conforma -

Adota a cadela: lhe dá banho,

Tosa o pelo, cura seus traumas,

Lhe dá nome, casa, brinquedo e

Por esmero a leva ao Veterinário.



A casa da esquina está em reforma...

A cadela adaptada.

A antiga "dona" manda recado:

Quando terminar a reforma,

Quer a cadela que é dela...

Bolo fofo

Para o café da manhã um toque de simplicidade.


Ingredientes:

03 colheres (sopa) de margarina;
01 copo (americano) de leite;
01 copo (americano) de maizena;
02 copos (americano) de açucar;02 copos (americano) de farinha de trigo;
03 ovos01 colher (sopa) de fermento em pó


Preparo:


Bata a margarina até ficar esbranquiçada, acrescente o açucar, sempre batendo, depois as gemas e continue batendo até que a massa fique lisa.

Acrescente o leite, batendo, depois acrescente a farinha de trigo e a maizena. Bata bastante.

Acrescente as claras em neve, sem bater, apenas misture bem.

Finalmente acrescente o fermento.

Leve ao forno preaquecido em temperatura média e deixe assar por aproximadamente 25 minutos.

Pós do tempo
- Claude Bloc -
***

Lembranças vão se abrindo
Aos pós o tempo...
Ao silêncio da noite
Ao amanhecer que tarda.
Abres caminhos pelo meu espaço
E segues voando
Pelos vales
Pelos mares de então.


Abres tuas asas
Sobre as sombras
Da madrugada
Dourando meus sonhos
Pousando de leve
De manhã cedinho
Na inquietude do meu ser.


Claude Bloc

domingo, 10 de janeiro de 2010

Observando pássaros



Hoje foi um domingo muito especial para mim. Acordei as 4:30 da manhã. As 5:oo, estava no Encosta da Serra Hotel. Uma chuvinha fina me acompanhou da minha casa até o hotel, junto com um friozinho delicioso. Lá me juntei a Paulo Boute, um ornitólogo e guia turístico, e a Renata, uma paulista cliente do Paulo, amante da fotografia e observadora de pássaros. Saímos em direção à Chapada do Araripe as 5:30. Fomos pela estrada Crato-Exú. No meio da floresta o Paulo pega uma entrada a direita, onde vai dar na casa de um morador da serra, já seus amigos há um bom tempo. É lá onde o Paulo deixa o carro para, a partir dali, a pé, sair à procura de observar pássaros e registrar em fotografias. Foi a minha primeira incursão na prática, feito com um profissional e com equipamentos adequados.
Fiquei impressionado quão gostoso é a observação de pássaros livres na natureza, e mais o quanto temos de espécie na chapada que nem sequer imaginava. É uma sensação muito gostosa. O Paulo e a Renata me mostraram como é interessante fazer a chama dos pássaros, espera que venham, sentarem nas árvores ou arbustos, observarmos e registrar. É muito gratificante ver as suas belezas e melhor ainda saber que estão livres, para perpetuar a sua espécie. Vi aves raras e outras nem tanto, mas que, visto daquela forma e com equipamento adequado, um binóculo da marca "Leica" especial para a prática, nos dá a sensação maravilhosa de alegria, de liberdade, de conquista e de satisfação por estar aqui no Cariri, local tido como espetacular para a prática da observação de pássaros.
O Paulo Boute é um especialista na área. Ele vive trazendo grupos de observadores da Europa para fazer a observação das nossas aves, muitas delas exclusivas, como o Soldadinho do Araripe. Seu site, http://www.boute-expeditions.com/, é todo em inglês porque a grande maioria dos seus clientes são da Europa. Fiquei impressionado como ele tem intimidade com a Chapada do Araripe, com o Hotel, com o restaurante onde sempre come, enfim, como o Paulo já é caririense. Ele vem, faz seu trabalho de guia com os seus clientes, e vai embora.

Conheci o Paulo a cerca de um ano. Na realidade o nosso primeiro contato foi via e-mail. Ele de repente me mandou um e-mail, pois vira que eu trabalhava com elaboração de projetos na área cultural e turística e queria conversar comigo. Marcamos no Hotel Encosta da Serra e a partir daí criou-se uma amizade e o desejo de dar maior sentido às suas visitações aqui pelo Cariri. Ele me apresentou um projeto que tinha desenvolvido na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Fiquei encantado e com aquele projeto em mãos achamos que deveríamos fazer o mesmo aqui no Cariri.
Dessa vez ele veio com apenas uma cliente e ficou mais fácil de eu ir junto e sentir as maravilhas de observar pássaros. Então: agora estou com o projeto praticamente pronto e em breve o realizarei, para que essa prática se multiplique no Cariri, mas que observemos os nossos pássaros soltos, no seu habitat, livres de gaiolas, viveiros, alçapão ou qualquer outra armadilha para capturá-los.

Aproveitando o tempo chuvoso, pois logo que foi ficando um pouco mais tarde uma fina chuva em cima da serra nos impediu de continuar, resolvi levá-los para conhecer a Fundação Casa Grande, coisa que nunca nem ouviram falar. Aí foi unir a fome com a vontade comer. O Paulo e a Renata se encantaram com o projeto do Alemberg e Rosiany, como já é comum a quem vai à Nova Olinda, e dai já pintou também uma parceria onde em breve o Paulo virá ministrar uma palestra, ou mini-curso de observação de pássaros para as crianças da Casa Grande. Puxa, foi muito prazeroso ter um dia desses. Então, em breve nós vamos fazer esse evento aqui no Cariri e pretende-se, junto, fazer o lançamento de um livro com as espécies da nossa querida Chapada do Araripe.

Pretendo também levar o Paulo para fazer uma explanação do seu trabalho no nosso Fórum de Cultura e Turismo, para que todas as cidades do Cariri tomem conhecimento de como se faz a observação de pássaros e como curtir as suas belezas de plumagem e canto, mas soltos na natureza, assim como deve sempre ser.
.


FOTO DO SOLDADINHO:Ciro albano (Direitos reservados)

MINHA CALÇA TOPEKA por Marcos Barreto de Melo

(ao meu pai nos vinte anos de sua ausência)


Eu não tinha cinco anos
Vi o meu pai viajar
Apressado, na carreira
Saiu sem nos abraçar

Foi pra um lugar distante
Uma cidade crescida
Para se examinar
Com um doutor desse lugar

Eu criança, não sabia
O que de certo acontecia
Não queriam me dizer
Pra eu não entristecer

Mas o tempo foi passando
Vi meu pai se demorando
Resolvi a perguntar
Ninguém quis me responder

Fiz a ele uma carta
Dessas cartas de criança
Que a tia junta as palavras
Pra carta ser mais bonita

Como eu nada sabia
Já que ninguém me dizia
Pedi a ele um presente
Sem saber sua agonia

Pra trazer na sua bagagem
Quando de volta viesse
Pedi a ele uma calça
Dessas que só homem veste

Em pouco tempo chegou
O presente que eu pedia
Era uma calça topeka
Do jeitinho que eu queria

Eu fiquei muito contente
Com a minha primeira calça
Mas, não podia entender
Porque veio antes dele



Vestido com minha topeka
Me danei a passear
E com a minha tia Cristina
Fui ao grupo escolar

Mas, não era para estudar
Era só para brincar
Pra sorrir, me distrair
Pro tempo logo passar

Sentia uma coisa ruim
Não sabia explicar
Disse isso a minha mãe
Ela me disse: é saudade

Foi essa a primeira vez
Que a danada me pegou
Era uma dor incontida
No meu peito escondida

Depois de um certo tempo
Tudo foi se clareando
Meu coração se apertando
Com medo do que viria

Quando enfim ele voltou
Minha alegria ruiu
Nunca mais vesti a calça
Pois só queria de presente
Ver o meu pai novamente
Inteiro como saiu

Marcos Barreto de Melo

SSA, 2009

Destino do leitor - Rejane Gonçalves

Destino do leitor
Rejane Gonçalves

Que ao leitor jamais seja permitido curar-se. As palavras devem abrir uma ferida permanente na carne do leitor e tu cuidarás para que ela não sare. Há meios eficazes para isto. Pega-se um estilete de ponta muito fina, remove-se um pequeno pedaço da casca que se sobrepôs à pele e fechou o corte, criando um empecilho: a pedra na porta do túmulo. Não tenhas piedade, só um pouco de delicadeza, assim, mansamente, arranharás a superfície rosada que aparecerá por baixo daquela diminuta porção de casca que levantaste; daí espera-se que o sangue aflore, aperta-se um pouco a carne, se preciso, para que o sangue escorra, estanca-se com um chumaço de algodão o sangue, pois não é bom que o leitor fique debilitado e sob hipótese alguma que ele morra.

Novembro-2009

Dalva de Oliveira e o amor - por Eurídice Santana

Acabei de assistir ao último capítulo da estoria de DALVA DE OLIVEIRA...
Acompanhei todo o drama que "ambos",ela e o Herivelto passaram por um Amor obsessivo que tiveram...obviamente muito mais ela! Infelismente!
E aqui vou tentar expressar o que senti em todo esse desenrolar da vida de dois grandes artistas da época.
O que me pareceu foi que,a Dalva,estrela de primeirissima categoria,ao se envolver com o Herivelto,deixou desenvolver uma forma de AMOR DOENTIO...amor de submissao,obediencia...entrega sem limites...renuncias até no seu verdadeiro papel de mulher...a espera de um homem que "nunca" soube respeita-la como ser humano,nunca! Homem de orgias,que se achava o tal,humilhando-a de todas as formas,inclusive na sua maneira simples de se vestir,rebaixando-a,sem dar o devido valor a joia que possuia...e,tais desencontros levou a uma separaçao amargurada da parte de ambos.
Resumindo,Dalva viveu toda sua existencia com esse amor preso nas suas entranhas,por mais que tentasse recomeçar,tentasse AMAR novamente....o que nunca conseguiu!
E ele,por sua vez,por frustraçoes de fracassos profissionais,de nao ter conseguido seguir sua carreira de cantor e compositor como achava que podia,amargurou-se a tal ponto que,partiu para baixarias nas publicaçoes de materias em jornais da época...e,sem que em nenhum momento siquer pensasse nas consequencias desses atos,levando o juiz a tomar a guarda dos filhos pequenos de Dalva...e ela,com mais esse martirio,sucumbiu à bebida...e,ao seu declinio total...morrendo por um amor obsessivo,onde nada e nem ninguem poderia cura-la.
E,é lamentavel verificarmos que,ainda nesse mundao,existem muitas DALVAS DE OLIVEIRA por aí...sem parar para sua propria dignidade de mulher,gente,é lamentavel mesmo!
Que esse seriado tenha servido às mulheres assim...que ainda nao acordaram para suas realidades...
Que acordem para sua propria valorizaçao como ser humano,acordem!
Parabens aos filhos que tiveram a coragem de expor a verdadeira face de sua mae...seu sofrimento,sua alma...parabens..
Deixo aqui um instante de reflexao para todas vcs mulheres,que um dia amaram de forma incompreendida,e nao buscaram seus limites,sua dignidade,sua vida.

Euridice
SAUDADE
(Clarice Lispector)


“Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
Quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.”
.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Olhares, teares
- Claude Bloc -

*** Olhares
teares
presos até o fim do livro
presos até o cansaço
presos até o bater das asas
de um anjo de olhar castanho.
Café
cheiro de café
sons matutinos
névoa (in)distinta
e as palavras rodopiando
nos sentidos.

Palavras sussurradas
sustando a sinfonia
bocejavam alegres
quase infantis
e ela soletrava
a lembrança das notas
e ela se enfeitava
todas as manhãs
guardando as notas dos risos
e o tempo dos compassos
tempo de nenhures
tempo de viver o encontro
nesse preciso momento
ponto de sol brilhante
ponto diminuto
ponto.
**
Claude Bloc
*
Clarice por Clarice

Pedro Karp Vasquez

Ao mesmo tempo que ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, Clarice Lispector costumava evitar declarações excessivamente íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixou escapar de tempos em tempos confissões que, devidamente pinçadas, permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesma, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.



A descoberta do amor

“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Viver e escrever

“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.
O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
“Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”.

Viver plenamente

“Eu disse a uma amiga:
— A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
— Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.”


Ideal de vida

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

A síntese perfeita

“Sou tão misteriosa que não me entendo.”

Textos extraídos do livro Aprendendo a viver, Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.

Gabriela Mistral, A Alma Lírica do Chile.

10 de abril de 1889 - 10 de janeiro de 1957


Decálogo del Artista

I.Amarás la belleza que es la sombra de Dios sobre el Universo.

II.No hay arte ateo. Aunque no ames al Creador, lo afirmarás creando a su semejança.

III.No darás la belleza como cebo para los sentidos, sino el natural alimento del alma.

IV.No te será pretexto para la lujuria ni para la vanidad, sino ejercicio divino.

V.No la buscarás en las ferias, ni llevarás tu obra a ellas,porque la Belleza es virgen y la que está en las ferias no es Ella.

VI.Subirá de tu corazón a tu canto y te habrá purificado a ti el primero.

VII.Tu belleza se llamará también misericordia y consolará el corazón de los hombres.

VIII.Darás tu obra como se da un hijo : restando sangre de tu corazón.

IX.No te sera la belleza opio adormecedor, sino vino generoso, que te encienda para la acción, pués se deja de ser hombre o mujer, dejarás de ser artista.

X.De toda creación saldrás con verguenza, porque fué inferior a tu sueño e inferior a eses sueño maravilloso de Dios que es la Naturaleza.

*****


Nascida en Vicuña, Chile, a 10 de abril de 1889, filha de um professor rural, Gabriela Mistral, pseudônimo de Lucila Godoy Alcayaga,destacou-se como poetisa, educadora e diplomata.

Com precoce vocação para o magistério, chegou a ser diretora de várias escolas, como educadora, visitou o México, ( onde ajudou na reforma educacional ),os Estados Unidos e Europa, para estudar as escolas e os métodos educacionais desses países.Foi também professora convidada nas Universidades de Barnard,Middlebury e Puerto Rico.

Em seus versos ela abordava temas como o amor, a maternidade, a religião e a diversidade da cultura nacional, bem como dilemas morais que afligiam a escritora.

A condição feminina e a identidade latino-americana, no entanto, seriam a principal tônica de seus versos, pelos quais a poetisa foi consagrada, como a mais importante de seu país.Escrevendo em versos simples e diretos, sem grande ornamentação, à parte das influências modernistas de latinos-americanas.

A partir de 1933, durante 20 anos,recebeu o título de "Professora da Nação", e foi nomeada cônsul para representar o seu país em Nápoles, Madri, Nice, Los Ângeles e Lisboa.

Sua fama como poetisa, começou em 1914, logo que foi premiada por seus "Sonetos de La Muerte", inspirados no suicídio de seu grande amor, o jovem Romelio Ureta. Foi nesse concurso que se apresentou com o pseudônimo que a acompanharia por toda a vida.

Sua poesia foi publicada em vários idiomas : inglês, francês, italiano e sueco. Influenciou o trabalho de muitos escritores latinos-americanos,como Pablo Neruda e Octavio Paz.Seus diversos poemas para crianças são recitados e cantados em diversos países.

Em 1945, converteu-se no primeiro escritor latino-americano a receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Na citação do Prêmio Nobel, pode-se ler:

..." por sua poesia lírica, inspirada por emoções poderosas,fez seu nome se tornar um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano."

Posteriormente, em 1951, recebeu o Prêmio Nacional de Literatura, a mais importante premiação literária chilena.

Faleceu em Long Island, Estados Unidos em 10 de janeiro de 1957.


Fontes:

http://www.pco.org/conoticias/lermateria/php?www.biographyonline.net/poets/gabriela_mistral.html

http://poemasde.net/atardecer-gabriela-mistralwww.emol.com/especiales/mistral/poemas.htmGooglewww.emol.com/especiales/mistral/poemas.htm

Google Imagem


Youtube -Ausencia - Video Poema Gabriela Mistral com música de Angel Parra

"Nois quaje se arromba" - Por A. Morais


Assis Leandro, contava uma historia de um tio seu, morador na localidade Cana Brava, situada na divisa dos municípios de Várzea-Alegre com Granjeiro, que na seca de 1970, quando as dificuldades de pastagem, água para os animais e alimentos para os humanos chegaram ao limite do desespero, quando o gado começou a fraquejar e morreu a vaca de sua estimação, ele entrou em casa afobado, jogou a corda que trazia na mão num pé de parede e disse:
"vou vender todo gado, todos os animais, não vou esperar que morram como esses que já morreram. Vou embora para Goiás pra onde está compadre fulano de tal. Aqui não é lugar pra se viver."

A mãe dele, movimentando os bilros de sua almofada de rendas, disse:
- Meu filho se acalme, tenha paciencia, Deus esta no céu.
-É mãe, mas em 1958 ele estava também e nós “quaje” se arromba.
A. Morais

Qualidade da água no interior- colaboração Nívia Uchôa

Pesquisadoras avaliam qualidade da água no Interior e envolvem comunidades na preservação

Crato A água no Interior do Estado é desperdiçada e poluída. Esta é a avaliação parcial feita pelo projeto "Água Pra Que Te Quero", desenvolvido pelas ambientalistas Nivia Uchoa e Cris Vale nas bacias hidrográficas de Banabuiú, Salgado e Alto Jaguaribe. O foco central é uma documentação fotográfica da água e sua relação com o ser humano, no sentido de sensibilizar a sociedade sobre a preservação dos recursos hídricos para as futuras gerações.

Recentemente, elas estiveram no Crato com o objetivo de dar continuidade ao projeto, que será concluído em abril com a publicação de um documentário que será distribuído para órgãos ambientais e escolas. Começaram o trabalho pela poluição do Rio Batateira, que nasce no pé da serra e é contaminado pelos dejetos de Crato e Juazeiro, desembocando no Salgado.

De acordo com a coordenadora do projeto, Cris Vale, o trabalho pretende destacar práticas positivas e negativas do uso da água no cotidiano. Também estimula e difunde a fotografia como exercício de sensibilização, reflexão e estética através de ações de animação cultural. Neste contexto, estão sendo promovidas exposição fotográfica, conversa sobre fotografia e sua relação com a água, bem como caminhada fotográfica nos municípios participantes.

As fotos de Nivia Uchoa denunciam a riqueza da natureza e a pobreza de milhares de nordestinos que vivem miseravelmente. O homem, cercado por uma natureza exuberante, é dissolvido na lama dos rios e açudes poluídos. Uma das fotos mostra a cozinha e os utensílios domésticos de uma casa sertaneja ao lado de um sanitário. Outra foto denuncia o trabalho infantil num açude.

As ambientalistas mostram que a poluição é também resultante da pobreza extrema. O meio ambiente é analisado, sem dissociá-lo das questões humanos. Homem e rio se misturam, não se sabe onde um termina e o outro começa. Esta é a reflexão que elas pretendem despertar numa geração muito mais preocupada com o meio ambiente do que com as questões sociais.

O trabalho pretende envolver, além das prefeituras, as escolas e bibliotecas públicas, centros culturais, galerias de arte, secretarias municipais de educação, cultura, saúde e meio ambiente e Secretaria da Cultura do Estado (Secult). Além disso, os parceiros do projeto são convidados a difundir o projeto, como forma de informação e democratização do acesso às ações educacionais e culturais do projeto.

No Cariri, os municípios participantes são Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte e Brejo Santo. O projeto "Água Pra Que Te Quero" conta com o apoio cultural da Secult, através da Lei de Incentivo à Cultura, além do apoio institucional da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) e Expresso Guanabara. A consultoria é da Anima Cult e a colaboração das prefeituras dos municípios participantes. No Crato, o apoio da Prefeitura é através das secretarias da Cultura, Esporte e Juventude, além da Secretaria do Meio Ambiente.

Diário do Nordeste

Ano Novo, amigos velhos... - Foto de Heládio Teles Duarte


A importância de uma pessoa não se constata quando estamos com ela,
mas sim quando sentimos a sua falta.

O moço velho
(1973)

Composição: Sílvio César

Eu sou
Um livro aberto sem histórias
Um sonho incerto sem memórias
Do meu passado que ficou

Eu sou
Um porto amigo sem navios
Um mar, abrigo a muitos rios
Eu sou apenas o que sou

Eu sou um moço velho
Que já viveu muito
Que já sofreu tudo
E já morreu cedo

Eu sou um velho moço
Que não viveu cedo
Que não sofreu muito
Mas não morreu tudo

Eu sou alguém livre
Não sou escravo e nunca fui senhor
Eu simplesmente sou um homem
Que ainda crê no amor

Eu sou um moço velho
Que já viveu muito
Que já sofreu tudo
E já morreu cedo

Eu sou um velho, um velho moço
Que não viveu cedo
Que não sofreu muito
Mas não morreu tudo

Eu sou alguém livre
Não sou escravo e nunca fui senhor
Eu simplesmente sou um homem
Que ainda crê no amor


Música: O moço velho
Autoria: Sílvio César

Traço
- Claude Bloc -
****

O homem traçou um risco
sobre a tela
liso e febril:
era o autor
era a arte!

A mulher
dedilhou parábolas
e fábulas
escreveu poemas
enigmas
a mulher de vermelho
a mulher no espelho...
Depois desceu a rua
sorriu ao traço
cor de anil
e voltou
ao ponto zero
dessa loucura.
>

Voltou sobre os passos
Pelos atalhos
parou em frente à solidão
apagou o cigarro
bebeu o sereno da noite
em hi fi...

Claude Bloc

Esta é demais!!!

Pra você: Com Gal Costa
(Sílvio Cesar)

Olha - com Erasmo Carlos e Chico Buarque


Composição de Roberto e Erasmo Carlos

Nostalgia pura!

Wanderley Cardoso: Promessa
(Roberto & Erasmo Carlos)


****