Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Zélia Gattai



Zélia Gattai (1916 - 2008) foi uma escritora e fotógrafa brasileira, tendo também sido expoente da militância política durante quase toda a sua longa vida, da qual partilhou cinqüenta e seis anos casada com o também escritor Jorge Amado, até a morte deste.

Poucos escritores começam a escrever aos 63 anos, mas foi o que ocorreu a Zélia Gattai, esposa de Jorge Amado, que estreou em 1979 com o livro ‘Anarquistas, Graças a Deus’. Nele, ela narra a saga de sua família de imigrantes italianos chegados a São Paulo no início do século. A descrição do dia-a-dia de uma cidade em constante crescimento é o pano de fundo de uma narrativa que privilegia a viva memória pessoal à dos arquivos, propiciando um relato simples e saboroso tanto de acontecimentos cotidianos quanto daqueles repletos de riquíssimo conteúdo histórico.


Uma bela avó.


É assim que podemos dizer de Zélia Gattai. Mulher guerreira, inteligente, meiga, educada, refinada, cheirosa, amada amante…


Zélia Gattai era uma bela e linda avó de todos os grapiúnas das margens do Rio Cachoeira. Era o exemplo de mulher tipo superação. Ela tinha uma delicadeza real em gestos populares. Sabia falar sempre sorrindo e tinha nos seus atos, os calores mornos das mães.

Era a mulher do nosso admirador ilustre, o escritor Jorge Amado dos Ilhéus, bebedor de água de coco em Banco da Vitória e entusiasta das nossas paisagens.

"Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores".

Zélia Gattai

Zélia Gattai




Zélia Gattai Amado (São Paulo, 2 de julho de 1916 — Salvador, 17 de maio de 2008) foi uma escritora, fotógrafa e memorialista (como ela mesma preferia denominar-se) brasileira, tendo também sido expoente da militância política nacional durante quase toda a sua longa vida, da qual partilhou cinqüenta e seis anos casada com o também escritor Jorge Amado, até a morte deste.



Wikipédia

Hermann Hesse


Hermann Hesse (Calw, 2 de julho de 1877 — Montagnola, 9 de agosto de 1962) foi um escritor alemão, que em 1923 naturalizou-se suíço.

Nascido no seio de uma família muito religiosa, filho de pais missionários protestantes (pietistas, como é típico da Suábia) que tinham pregado o cristianismo na Índia. Estudou no seminário de Maulbronn, mas não seguiu a carreira de pastor como era da vontade de seus pais. Tendo recusado a religião, ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça em 1912, trabalhando como livreiro e operário. Acumula então sólida cultura autodidata e resolve dedicar-se à literatura.

Travou contato com a espiritualidade oriental a partir de uma viagem à índia em 1911 e com a psicanálise por meio de um discípulo de Carl Gustav Jung, em decorrência de uma crise emocional causada pela eclosão da Primeira Guerra Mundial. Estas duas influências seriam decisivas no posterior desenvolvimento da obra de Hesse.

Procurou construir sua própria filosofia, a partir de sua revolta pessoal (Peter Camenzind, 1904) e de sua interpretação pessoal das correntes filosóficas do Oriente (Sidarta), e em especial em O Lobo da Estepe (1927), que é também uma crítica contra o militarismo e o revanchismo vigente na sua terra natal depois da Primeira Guerra Mundial. Esta postura corajosa o fez bastante popular na Alemanha do pós-guerra, depois da desnazificação.

Em 1946 recebeu o Prêmio Goethe e, passados alguns meses, o Nobel de Literatura.

wikipédia


Ernest Miller Hemingway (Oak Park, 21 de Julho 1899 — Ketchum, 2 de Julho 1961) foi um escritor norte-americano que perdeu o pai Gustavo Manders e seu apelido era milernest.

Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola e a experiência inspirou uma de suas maiores obras, Por Quem os Sinos Dobram. Ao fim da Segunda Guerra Mundial se instalou em Cuba.

Una

Bem que o Conselheiro já nos havia antecipado: o Sertão vai virá mar ! Quem se deteve nas imagens dos noticiários televisivos da semana passada, descobriu que o visionário barbudo de Canudos tinha lá suas razões. Uma chuva inusitada banhou as cabeceiras do Rio Una, no Agreste pernambucano, e o fez inundar as cidades de Barreiros, Palmares, Cortês. Cortando como uma artéria pulsante o Agreste, de Oeste a Leste, deitando suas águas em São José da Coroa Grande, já na fronteira com Alagoas, o Una destruiu praticamente as cidades por onde passou. As imagens que se viram, pareciam arrancadas do Haiti, após o terremoto devastador. Quase uma centena de mortos e desaparecidos. Pessoas desesperadas, que já tinham tão pouco na vida, se punham a observar, sem planos, a terra dizimada, como Noé diante do dilúvio.
Este texto sai em meio à calamidade, arrancado da lama como um caranguejo. Talvez porque, como caririenses, sentimo-nos também pernambucanos e, depois, porque o Una, na sua fúria, atingiu uma cidadezinha que tem uma ligação umbilical com o Cariri : Água Preta, cujo nome talvez tenha sido profeticamente depreendido das barrentas águas do Rio Una. A cidadezinha ,hoje de pouco mais de trinta mil habitantes, até o final do Século XIX ,era mero distrito de Rio Formoso. A vila tem lá seu lado épico, foi o último reduto da Revolução Praeira e lá o Capitão Pedro Ivo se refugiou, após a derrota no Recife, e manteve uma guerrilha, até ser vencido definitivamente em 1848.
O que nos liga diretamente à Água Preta, no entanto, é um outro fato. Ali, na zona rural, nasceu em 1877, uma figura exponencial da história caririense : Manuel Soriano de Albuquerque. Brotou naquele oco de mundo, aquele que viria ser uma das figuras mais notáveis da intelectualidade nordestina. Soriano fez seus estudos preliminares em Olinda e Recife e ,em 1899, ali terminou o curso de direito. Fizera-se., então, tribuno respeitado e assíduo colaborador na imprensa pernambucana. Foi nesta época que os ágeis dedos do destino teceram os fios que atariam Soriano ao Crato. Ele se tornou amigo de um outro Manuel: o Belém de Figueiredo, filho do famoso Coronel Belém. Este precisava, justamente, de um substituto para o juiz Holanda Cavalcante. Sob a influência do amigo, Soriano foi nomeado, pelo Presidente Nogueira Acioly , juiz substituto desta cidade, aqui aportando, significativamente em janeiro de 1900, na aurora do novo Século.
O Crato nunca mais seria o mesmo. Soriano de Albuquerque , acostumado às noites recifenses, revolveu o município de seu mofo. Criou ,aqui , um dos Grupos seminais do Teatro Cearense ; “ Os Romeiros do Porvir”, onde foi dramaturgo, cenógrafo, diretor e ator. Nele estava inserida toda a intelectualidade cratense: Luiz Gonzaga, nosso primeiro fotógrafo e o introdutor dos primeiros rudimentos de cinema na região; Fantina Aires a primeira dama do teatro caririense; Miguel Lima Verde, um dos primeiros médicos do estado. Soriano fundou ainda o Colégio Leão XIII e os jornais : A Semana, A Cidade do Crato , Jornal do Cariri, Correio do Cariri, O Sul do Ceará e ainda a revista : Coração do Ceará, Em setembro de 1902, transferiu-se para Barbalha por conta das brigas políticas envolvendo os Coronéis Belém e Antonio Luiz. Para lá levou o Colégio Leão XIII e ali fundou a Sociedade Instrutiva José Marrocos e continuou seus trabalhos de dramaturgia. Em 1905 transferiu-se, definitivamente para Fortaleza, onde dirigiu uma das Seções da Revista do Ceará . Reiniciou, então, seus afazeres na área jurídica, tornando-se professor e fundador da Faculdade de Letras( 1913). Atuou prolificamente como crítico literário, ensaísta, jornalista, poeta, jurisconsulto, com um prestígio enorme em todo Nordeste. Não bastasse isso, Soriano mergulhou pioneiramente, numa nova área do conhecimento: A Sociologia, sendo o fundador da Revista Brasileira de Sociologia e um dos primeiros cientistas brasileiros a se dedicar à nova Ciência. Em 1912 foi eleito membro do Instituto do Ceará. Numa manhã de setembro de 1941, Soriano alçou vôo, placidamente, da sua cadeira de balanço. Tinha sessenta e quatro anos e vivia humildemente, plantara o seu tesouro à distância das traças e dos cupins: mais de 92 obras dos mais variados tons.
Soriano de Albuquerque era filho adotivo do Cariri. Casara com uma cratense, D. Júlia Milfont de Amorim, quando ela tinha apenas treze anos. Quem sabe terá sido a Chapada do Araripe a sua última visão no seu vôo de Ícaro? Se o Rio Una revolveu toda Água Preta nos dias atuais, nosso teatrólogo sacudiu, com força igual, todos os alicerces da nossa terra, num movimento sísmico diverso. Ao contrário do Una, empreendeu um hercúleo processo de construção e ergueu as sólidas paredes da nossa identidade cultural . Numa estranha geografia, o manso Rio Grangeiro tornou-se afluente do turbulento Rio Una.

J. Flávio Vieira

Por tua linda cabeleira - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os cabelos se tornaram objeto de desejo da indústria cosmética. Não por acaso. Isso vem de muito tempo. Em todos os povos, todas as culturas e civilizações os cabelos foram objeto de adoração e mitificação. Parte da transcendência do corpo como símbolo ocorre com os penteados, com os cortes a darem outra mensagem. Distinta a que uma determinada cultura se acostumara e agora pode se encontrar diante do inusitado só de um corte diferente do que esperava.

As Copas do Mundo se tornaram um centro destas diferenças. Desde Ronaldo com aquele corte a Príncipe Danilo na copa de 2002, até as inúmeras e coloridas desta atual copa africana. O que não se dizer dos desfiles fashion, das propagandas de shampoo, especialmente quando o objeto do desejo é sexual e ocorre nas volumosas cabeleiras femininas.

Não existe nada mais sedutor, mais universal no símbolo do desejo pela mulher do que seus cabelos e isso não é uma tara pessoal. Os Muçulmanos inteiros pensam assim, têm de cobrir as madeixas mundanas destes seres que desviam as almas maometanas da concentração em Deus.

Em Pernambuco, nos arredores de Recife, diz Câmara Cascudo, havia um “assassino, chefe de malta, ladrão, tornado famoso pela sua coragem e destemor. Forte, bonito, com uma extensa cabeleira que lhe deu o apelido, José Gomes, filho de Joaquim Gomes, com o pai e em companhia do mameluco Teodósio, espalhou o terror durante anos e anos, despovoando zonas inteiras e constituindo um pavor coletivo. Cantava-se, como ainda hoje, duzentos anos depois: “Fecha a porta, gente./ Cabeleira vem ai!/ Matando mulheres,/ Meninos também...”. E, para contrariar a assertiva do parágrafo anterior, se tratando de espécime masculino. Franklin Távora fez da vida deste homem um romance: O Cabeleira.

Quem não lembra daqueles cachinhos encastelados em metal, normalmente ouro, a servir de berloques para os pais daquela criança que um dia os perdera no primeiro corte. E as forças dos cabelos de Sansão a explicar a traição e a sedução? A clássica história de George Sand decepando sua linda cabeleira e a enviando a Musset como oferta de sua devoção sexual?

Nada mais trágico do que aparar rente uma linda cabeleira. Quem se esqueceu da atriz argentina, Irma Alvarez, nas páginas da Revista o Cruzeiro, em 1961, rapando a cabeça para estrelar no filme inacabado de Ruy Guerra: O Cavalo de Oxumaré? Do meu coração sangrando, eu lembro, quando Socorro, uma linda menina da Batateira, deixou rentes os cabelos que era uma majestosa e dourada cabeleira a balançar minhas fantasias universais.

Os cabelos são tão fundamentais que se tornam pagas de promessas aos santos. Na bruxaria, voltem no tempo muito mais do que estava, os cabelos eram peças chaves: segundo Câmara Cascudo pela lei da contigüidade simpática. (contigüidade simpática – bem resumido – se refere à similaridade entre a pessoa e os seus cabelos, pois em magia a contigüidade ocorre por similaridade entre as partes e o todo e esta só se transmite por simpatia através de infusões, toques etc. Segundo Claude Levy Strauss: Nos ritos de enfeitiçamento praticados sobre um fio de cabelo, este é o traço de união entre a destruição figurada e a vítima da destruição.). Em bruxaria, mais uma vez Câmara Cascudo, “os da cabeça enlouquecem ou matam. Os da partes pudendas anulam a virilidade.”

Sabem aquela trunfa do Elvis Presley que tanto “modernizou” a vida do pós-guerra? Era a velha expressão simbólica do arrojo pessoal e do destemor, assim como os longos e cacheados cabelos dos nossos lampiões do árido sertão. E, recordem, a filmografia mostrou isso à exaustão, uma referência o filme Cinco Mulheres Marcadas, de 1960, com Silvana Mangano, Jeanne Moreau, Vera Miles, entre outras atrizes, com as cabeças rapadas por terem sido amantes de militares alemães durante a ocupação da França na segunda guerra mundial. Isso era uma prática na península ibérica, rapar a cabeleira das mulheres como pena e pertencia ao Código Visigótico (portanto antes da dominação árabe).

Isso se aplicava aos homens rebeldes, quando os vassalos se insurgiam contra os senhores feudais, ou por falsidade ou covardia. Então, no feudalismo, os homens também eram descalvados e expulsos em grande humilhação. Até que os cabelos cresciam novamente e quem tivesse juízo aprendia um novo método de contrariar a ordem emanada pelos senhores ou perdiam o juízo e se sujeitavam com a cabeleira cheia de piolhos.

E existiam, como outra modalidade de pena, tendo os cabelos como fonte, a tosquia. O cabelo aparado dos recrutas não tem outro sentido do que a sujeição à cadeia de comando que lhes chega aos ouvidos com as diatribes de cabos e sargentos. Em religião, assim como os militares, a prática da tosquia e rapinagem é ampla e mundial, inclusive nas religiões orientais como no budismo.

Os cabelos de Socorro, soltos no panorama do canavial da Batateira era o que ocorria com as jovens, já o da minha avó, viúva, elam longos, mas rigorosamente presos em coque. E quando as minhas duas avós se deslocavam até a Missa, iam, igualmente, com as cabeleiras cobertas e com vestidos de tons escuros.

E, finalmente, à beira do rio Batateira, sereno e de águas translúcidas, a correr como meu sangue de adolescente fervente, via as mulheres lavando roupas e seduzindo minha alma enquanto ensaboavam as longas madeixas. E quando todos imaginam que eram fantasias apenas minha, elas diziam que os fios soltos que desciam com as águas se transformavam em cobras. Eu bem sei o que sentia.

Camarão à termidor




Ingredientes:
1 kg de carne de camarão
3 gemas de ovo
150 gr de queijo prato ralado
1 lata de creme de leite
1 vidro de champignon
Azeite
Tomate
Pimentão
Cebola
Cheiro-verde
2 1/2 xícaras de leite
3 colheres, das de sopa, de farinha de trigo
1 colher, das de sopa, cheia de manteiga
Pimenta-do-Reino em pó e Sal (a gosto)

Modo de Preparo:
Colocar a carne do camarão de molho com limão. Fazer um refogado com o camarão, azeite, tomate, pimentão, cebola e cheiro verde.
Enquanto cozinha, fazer um creme com o leite, a farinha de trigo e com a manteiga. Colocar a pimenta-do-reino em pó e provar o sal. Depois de engrossar, abaixe o fogo e deixe cozinhar durante 5 minutos. Retire do fogo e quando estiver morno coloque as gemas, o queijo prato ralado, o creme de leite e o champignon. Arrume num pirex untado o camarão, jogar o creme por cima, polvilhar com o queijo ralado. Leve ao forno para gratinar.

“Dizem que um homem...” - Postagem: José Nilton Mariano Saraiva

Aos "chorões" (e choronas) do Cariricaturas:

"Não acreditei quando vi você me dizendo adeus
Eu jamais pensei tanta ingratidão ver nos olhos seus
QUANDO O HOMEM FAZ
DO AMOR DE UMA MULHER
RAZÃO DA SUA VIDA
DE TUDO ELE É CAPAZ
PRÁ NÃO SOFRER JAMAIS
A DOR DA DESPEDIDA
Fica mais comigo, tente uma vez mais
Pensa no que fomos a algum tempo atrás
Eu ainda sou aquele mesmo estranho
Que ao te conhecer te amou demais
Dizem que um homem não deve chorar
Por uma mulher que não soube amar
Mas como eu não pude conter o meu pranto
Fechei os meus olhos, me pus a chorar..."

(Canção interpretada por Roberto Carlos)
Arco-íris
- Claude Bloc -



Tuas cores se derramam em minhas lembranças

em meus cabelos e ventas

soprando o arco-íris

pra dentro dos meus sonhos.

Tuas cores são tormentas viciantes

no meu olhar bicolor

brilho inclemente

onde me deleito sofregamente

ardentemente...

Claude Bloc

Um dia de partir - Emerson Monteiro

Em um sonho recente, me vi menino outra vez. Menino bem à época quando parti com minha família do sítio onde nascera, em Lavras da Mangabeira, e viemos viver na cidade, em Crato, na região do Cariri cearense. Sei explicar pouco daquilo tudo, via, no entanto, sacudido de emoções e movimento, a hora da mudança; caminhão, jipe, malas, cacarecos espalhados pela calçada, na casa que meu pai construíra próxima da capelinha do sítio, em colina que divisava lá longe a bagaceira do engenho, a casa grande em que moravam meus avós paternos, uma represa do açude velho e o engenho. Logo embaixo passava, e fazia curva, a estrada principal que levava aos outros sítios mais acima, Grossos, Caraíbas, Santa Catarina, outros mais.
Via-me entre tantas esperas de desconhecido como nunca antes. Eu, menino dos matos, de poucos carros, multidão nenhuma, ignorante de gelo, calçamento. O que sabia de pessoas aglomeradas coubera no terreiro da casa grande na noite em que minha avó promovera uma quermesse de leilão para arrecadar recursos e restaurar a capela. Muitas prendas foram postas numa mesa grande e chegou gente de tudo quanto foi canto, dos lugares em volta. Daí, arriscar sair para mais longe, de onde meu pai voltava todo final de semana e preparara as coisas a fim de irmos morar, seria tarefa das maiores, na cabeça de uma criança de quatro anos.
Mas não me consultaram se queria largar para trás vacas, bezerros, ovelhas, jumentos, galinhas, pássaros, brisa gostosa das paredes de açude, as nuvens, a máquina de costura de minha mãe a cantar que eu observava nas manhãs da varanda, as raposas que meu pai pegava nas armadilhas deixadas no quintal da casa em incursões perversas ao poleiro das galinhas. A casa que só tinha de cimento queimado alguns cômodos, enquanto os demais eram de tijolo rústico, quase chão batido, em que mijávamos na absoluta naturalidade pelo fundo da rede, nas noites frias do sertão.
Fui sendo arrastado naquela voragem esquisita. Minha mãe chorava inconsolavelmente; meu pai preocupado, no meio do povo, a dar ordens na arrumação dos trens; os outros irmãos, Everardo, Lydia, os mais velhos, e Sônia, a mais nova, se perdiam com facilidade em meio àquilo tudo de partida sem esperança de um dia retornar a não nas férias do meio do ano, que aos poucos foram perdendo a graças, na concorrência dos novos apegos da cidade, colégios, amigos, namoradas, filmes, revistas, sorvetes, chocolates, pão do reino, essas bugigangas embusteiras dos mundos industrializados.
Saía de jeito esquizofrênico, forçando a originalidade das coisas no coração da gente, sem ser perguntado se desejava ir, levado para fora do universo inocente onde fora posto também sem ser perguntado. Lembro de poucos detalhes daquela peça rigorosa pregada pelo destino. Uns pedaços de memória afloraram nessa hora de sonho, contudo em algum lugar habita ainda um forte sentimento de saudade particular de mim mesmo, bicho assustado de saudade encolhido no lugar misterioso do qual, vez em quando, resolve sair para pregar das suas e enfiar de com raiva as unhas nos molhes abandonados do tempo, nessas avenidas longas do inconsciente.

Pensamento para o Dia 30/06/2010


“Tudo neste mundo é efêmero, transitório; isso está aqui hoje, mas pode não estar amanhã. Então, se você deseja algo, busque o Senhor, que não tem declínio. Em vez disso, se você deseja descendência, riqueza e todos os confortos, você passará por enorme sofrimento quando for chamado a deixar tudo e partir. Nesse momento, você lamentará: ‘Ah, terei eu amado com tanta força para chorar tão alto?’ Nesta vida transitória, alegria e dor são também forçosamente transitórios. Não há nada aqui apto a ser adorado como eterno. Então, imergir nessa busca pelo evanescente e esquecer o Supremo e Eterno é realmente impróprio do homem.”
Sathya Sai Baba

Olhar de avó - por Ana Cecília S.Bastos


E por que esse retorno aflito

de terra e lugar ?


Não suporto essa agonia do presente.


Esse vazio, essa dor,

essa posse absoluta do efêmero.


Antes absoluto

esse desejo de raízes ...

Estrada, carro de boi,

pés descalços,

vozes,

tardes.


Antes fora eu reencontrada

nesse olhar de avó

que é lembrança tão doce.

Por Ernesto

1º de Julho de 1944

Tem início da Conferência de Bretton Woods, na cidade de New Hampshire (EUA). Um dos principais resultados desse encontro foi a criação do Fundo Monetário Internacional ( socorro! ).

Em 1944, a Segunda Guerra já caminhava para o fim e os países ocidentais preocupavam-se com as crises econômicas e as disputas entre nações pela soberania do comércio, fatos que levaram o mundo a duas grandes guerras.

A preocupação principal desse encontro era alcançar uma nova recomposição das relações de comércio no planeta, organizar os diversos câmbios, corrigir as distorções entre as várias moedas que circulam no planeta. E, além disso, era preciso criar um sistema que estabelecesse esta paridade das moedas. É estipulado, então, o “padrão ouro”.

O que é o “padrão ouro”? Até então, os países eram obrigados a manter em seus cofres uma quantidade em ouro que servisse de lastro para as suas moedas. A moeda de um país valia tanto quanto a quantidade de ouro que houvesse em seus cofres. Isto é, deveriam ter uma quantidade de ouro guardado correspondente ao total de dinheiro que emitisse. Com a adoção do “padrão ouro” isto não era mais necessário, pois o dólar estadunidense passava a ser a moeda mundial e todos os países teriam suas moedas atreladas a ele. Apenas o governo dos EUA passava a ter o compromisso de manter o lastro do dólar, em ouro. Vale destacar, ainda, que uma onça de ouro equivalia a 35 dólares. Mais tarde, em 1971, o governo dos EUA (Richard Nixon) acabou com este acordo em uma decisão unilateral. Isto causou uma tremenda crise internacional. 08:21 (1½ horas atrás) Ernesto
Mas só a criação do tal “padrão ouro” não seria suficiente para os problemas da época e foram criados outros mecanismos de regulação do mercado:

a - FMI (Fundo Monetário Internacional) - tem como principal finalidade estabilizar as moedas dos países para promover o crescimento do comércio internacional. Para receber essa ajuda do FMI, os países chamados “em desenvolvimento" devem se comprometer com uma receita econômica: redução dos gastos públicos, aumento dos impostos para crescer a arrecadação, equilíbrio dos balanços de paga¬mentos e uma política salarial severa para reduzir o consumo interno.

b - GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) - era o órgão da ONU que regulava e comandava 80% do comércio internacional. Através dele eram estabelecidos preços e tarifas dos produtos a serem comprados ou vendidos pelos países. (No inicio de 1994, 123 nações presentes ao Encontro de Marrakesh assinaram um protocolo transformando o GATT em um novo organismo com inicio de atividades em 01 de janeiro de 1995. O novo órgão, Organização Mundial do Comércio - OMC, passou então a coordenar negócios que atingem a cifra de US$ 13 trilhões).

c - BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) - mais conhecido como Banco Mundial, executa os projetos desenvolvidos para cada país através de empréstimos para empresas estatais e/ou privadas. Faz empréstimos com 5 anos de carência e prazo de até 15 anos, com taxas de juros de mercado. Seu Conselho Diretor (um presidente, um vice e 22 diretores) é integrado por cinco representantes dos maiores países acionistas e dezesseis eleitos pelos demais. Tem 156 países integrantes e sede em Washington.
d - UNCTAD (Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento) - é o principal órgão para assessoramento da Assembléia Geral da ONU. Sua tarefa é coordenar as questões ligadas à cooperação econômica internacional e promover ajustamentos nas estruturas produtivas dos países para expandir os mercados. É integrado por 186 países, com sede cm Genebra (Suíça).

Na prática, a Conferência de Breton Wood terminou em 1946, quando todos estes organismos se tornaram operacionais e estáveis.
Ernesto

Bom dia, Cariricaturas !

E Julho chegou , trazendo   festas e surpresas.Será um mês ligeiro : Copa, Expo, festa do Cariricaturas.( do dia 22/ 24).
Que Deus abençoe todos os dias ,deste mês ameno, com todas as alegrias que desejamos !

Informe aos  nossos colaboradores e leitores :
Restam 30 mesas pra festa  do dia 23 !
Reservas  através dos telefones: 35232867/88089685 ( Socorro Moreira)

Divulguem, compareçam ! A FESTA É NOSSA !

BISAFLOR CONTA HISTÓRIAS

A HISTÓRIA DO ÍNDIO QUE VIROU SOL

Antigamente, muito antigamente, no tempo em que vivia entre os Tucuna, o Sol era um moço forte e muito bonito.
Quando acontecia na aldeia a festa de Moça-Nova, o rapaz ajudava sua velha tia no preparo da tinta de urucu. Ia à mata e trazia uma madeira muito vermelha, chamada Muirapiranga. Cortava a lenha para o fogo onde a velha fervia o urucu para pintar os Tucuna.
A tia do moço era uma mulher muito mal humorada; estava sempre resmungando, reclamando e mandando que ele fosse buscar mais lenha.
Um dia o Sol trouxe muita muirapiranga. A velha tia resmungava insatisfeita e o jovem índio resolveu que acabaria com toda aquela trabalheira de uma vez por todas.
Olhou para o fogo que ardia soltando longe suas faíscas. Olhou para o urucu borbulhante, vermelho, quente. Desejou beber aquele líquido e pediu permissão à tia que consentiu, assim dizendo, muito zangada:
- Bebe! Bebe tudo e logo!
A velha tia achava, e desejava mesmo, que seu sobrinho morresse.
Mas, à medida que ia bebendo a tintura quente, o rapaz ia ficando cada vez mais vermelho, tal qual o urucu e a madeira muirapiranga. Depois, subindo para o céu, intrometeu-se entre as nuvens.
E desde então, passou a esquentar e a iluminar o mundo.

A Herança

Teria agora um momento e tanto
para escrever versos apaixonados.

Meus ombros dormentes.
O intestino triste.

Teria neste instante a cumplicidade
da madrugada e o silêncio dos vizinhos.

Poderia dizer "boa noite, amor."
Somente.

Sem conhecer teu rosto.
Se os olhos verdes
ou negros.

Se existe abismo
para procurar orquídeas.

Febre por morder tua orelha
tenho muita e incessante.

O delírio da alma
iniciaria pela carne.

Mas por infortúnio
e dádiva

tenho neste exato momento
apenas fome: de pão
e de um copo de leite.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Festa do Cariricaturas - Faltam 23 dias !

Programação

22.07- encontro de escritores - Fim de tarde no " pau d'arco"- entrega da quota de livros devida .

23.07- Festa no Crato Tênis Clube a partir da 20 h:
-Lançamento do livro "Cariricaturas em prosa e verso"
-Coquetel
-Baile ( 4 h dançantes com Hugo Linard e banda)

Mesas à venda por 40,00( 4 ingressos, com direito a um exemplar do livro)
Efetivem as suas reservas pelo e-mail:
sauska_8@hotmail.com ou pelos telefones :88- 35232867/
88089685 ( Socorro Moreira)

24.07- Almoço literário , no restaurante "4 Estações"-
preço por pessoa : 12,00( almoço, sobremesa , suco ou refrigerante)

Caros colaboradores e leitores, ajudem-nos a divulgar este evento !



Claude,Edilma,Socorro e Emerson( comissão organizadora)

O novo filme de Silvio Tendler - por José do Vale Pinheiro Feitosa























Tereza, José do Vale, Silvio Tendler

Meu primeiro contato com Silvio Tendler foi com sua obra: o filme “Jango” de 1984. Ainda estávamos na luta contra a ditadura militar e o filme de repente nos pôs em contato com aquela história que os militares tinham reprimido com o mito do “subversivo”. Lá, tomado de surpresa, vi o meu amigo Alberto Teles bem na frente de uma manifestação dos sargentos da marinha rebelados no Clube dos Fuzileiros Navais. Naquele filme ouvi uma das músicas mais belas dos anos 80, de Vagner Tiso: Coração de Estudante (e que passou adiante, com uso exaustivo da televisão, no enterro de Tancredo Neves).”


TRAILER DO FILME UTOPIA E BARBÁRIE

Somos aquilo que nos lembramos. Mas, além disso, eu costumo acrescentar que também somos aquilo que resolvemos esquecer (Ivan Izquierdo).

A memória é um espaço de luta política (Martim Almada).

Com muito sangue, com muitas lágrimas, aprendemos que o tempo da história não é o nosso tempo (Eduardo Galeano).

Cada um é a sua história, real e a imaginária (Ferreira Gullar).

A história é nossa e é feita pelos povos (Pablo Neruda).

Na revolução tudo tem que ser feito pelo povo (General Giap).

Se é o melhor para o povo, por que não agora, por que não já (Brizola no Comício das Diretas Já).

Eu acho que o verdadeiro cidadão não é aquele que vive em sociedade, mas é aquele que transforma a sociedade (Augusto Boal).

UM FILME DE MEMÓRIAS QUE TORNAM A HISTÓRIA VIVA E PRESENTE

Silvio Tendler, classificado no mundo do cinema como documentarista, tem a dimensão exata que todo historiador deveria ter. Nascido no ano de 1950 foi tudo o que o século XX criou em mudança e progresso. Na metade que o antecedeu, definiu-se o lastro do que veio a ser a sua vida. Da geração de 68, foi para o Chile, estudou cinema na França e fez dois filmes sobre os derrotados pela ditadura (Anos Jk e Jango) ainda na vigência dela, obtendo enorme bilheteria.”

O destino não está nas linhas das mãos, está nos desafios que enfrentamos (Eduardo Galeano).

O progresso é tudo aquilo que diminui o poder de um homem sobre outro homem (Gillo Pontecorvo).

Sob nenhuma condição participamos de guerras que tiram vidas de outros humanos (Mohamed Ali – Cassius Clay).

Não se deve confiar no imperialismo nem um tantinho assim (Che Guevara).

Bárbaros! As idéias não se matam.

SOBRE SONHOS QUE MOVERAM UMA GERAÇÃO. SONHOS DE GLÓRIAS E LIBERDADE.

Conheci Silvio Tendler na casa de um dos grandes personagens da política brasileira até 1965. Wilson Fadul, ministro da Saúde de Jango, Deputado Federal, líder do governo e quem acompanhou Jango até o exílio, sendo preso no retorno do Uruguai e depois cassado no AI 1. Fadul foi um dos fundadores da editora Paz e Terra, responsável por cadernos de divulgação do pensamento fundamental do século XX e um dos maiores intelectuais com a visão da práxis política com quem convivi. Nesta mesma noite tive a nítida prova que o Silvio era da mesma dimensão.”

Podemos dizer que a idéia de mudar o mundo era uma utopia, mas eu digo que era, antes de tudo, uma esperança (Bruno Muel).

Enquanto houver desesperados, nós tempos direito a construir a esperança (Leandro Konder).

O que é a utopia que se desejava fazer? (Dilma Roussef).

O direito de sonhar (Eduardo Galeano)

UTOPIAS BARBÁRIES UTOPIAS BARBÁRIES

Nós temos sempre que ter esperança. Temos sempre vontade de mudar (Apolônio de Carvalho)

UM FILME DE SILVIO TENDLER PARA SEMPRE EM NOSSAS VIDAS.

Todo brasileiro deveria, pelo menos uma vez na vida, ver toda a filmografia de Silvio Tendler.”

lá longe uma folha seca

Tudo que toca a alma
não tem peso.

Logo evapora.

Belo é o que cerca
e não funde.

Aproxima-se sem braços
e sem palavras.

Não sabemos ao certo
se viver é tão contagiante
quanto esta doçura.

Lampejos de futebol brasileiro - Por José de Arimatéa dos Santos

Ultimamente o selecionado brasileiro tem apresentado um futebol burocrático e sonolento. Quando afirmo isso é baseado nas apresentações do time canarinho desde a Copa da Itália em 1990. Apartir daquela Copa do Mundo o futebol da seleção mudou. Passou a praticar um futebol de resultados e de pouco brilho. Salvo ainda pela individualidade do jogador brasileiro que é insuperável. Ainda bem.
Não deixa de ser interessante do ponto de vista das conquistas. Passou-se 24 anos para o Brasil recuperar a hegemonia do futebol mundial com a conquista da Copa dos EUA, em 1994. E logo depois ganha a Copa Coreia/Japão, 2002. Mas para quem se acostumou a ver espetáculo, fica aquela coisa do quero mais e de placares elásticos. Do grande futebol brasileiro e de sua seleção mundialmente conhecida como "a seleção".
Mesmo assim a seleção brasileira de futebol é respeitada e sempre candidata ao título de qualquer competição seja no juvenil ou profissional. O futebol brasileiro é uma eterna fábrica de grandes jogadores. Ainda hoje é possível formar três seleções brasileiras brincando. Sei que os tempos são outros, mas assim mesmo vemos lampejos do grande futebol brasileiro na seleção do técnico Dunga.
Acredito na seleção brasileira e vejo uma evolução nesse modelo de futebol que o Brasil joga hoje. A seleção canarinha tem todas as condições de ir em frente e conquistar mais uma estrela para a camisa mais respeitada, admirada e campeã de todos os tempos. O brasileiro merece toda essa alegria que só a seleção brasileira nos proporciona. Orgulho de todos nós brasileiros.

Geraldo Junior - Mais Tarde, Mais Forte.avi

Combinação

Na minha fronte uma veia
arregaça as mangas.

Se contorce debaixo do meu chinelão
uma formiga vermelha.

Bem unidos
por opção poética

meu aneurisma
e a morte do inseto.

Não vejo diferença
entre a envergadura
desta veia que me percorre a testa
e a luta constante da formiga enlouquecida.

A formiga luta contra
a borracha do chinelão.

A veia do suposto aneurisma
dilata-se oculto dentro do cérebro.

No instante em que apago
a luz do quarto:

salva-se a formiga
por apatia do verdugo

recolhe-se o vaso sanguíneo
para tarde da noite.

A Casa da Filha - por Rejane Gonçalves




Um, mais um, depois outro, se não resolvesse, um outro; devia ser mesmo da inteira responsabilidade do vento e do frio a natureza do pedido. Cobririam, pois, os ombros da mãe e a levariam dali, duplicada pelo suéter, o xale, o casaco da amiga, o paletó do filho mais novo, por último os braços do filho mais velho.
Presa na carapaça, a tartaruga conseguiu erguer a cabeça, virá-la para trás e apertando os olhos procurou um melhor enquadramento da imagem, o lugar mostrou-se nítido, fixou-se como se não quisesse desaparecer nunca, depois o carro foi se afastando e o lugar não quis vir, distanciou-se, corria na direção oposta, numa velocidade bem maior, deveria ter desaparecido ao mesmo tempo em que o carro, desapareceu primeiro, sumiu numa elevação súbita da estrada. Presa nos agasalhos, a mãe desvirou a cabeça, os olhos miúdos da velha tartaruga olharam para frente.
Queria tanto ficar, só por essa noite, se eles permitissem. Lucinda também haveria de querer, quando muito em troca dos favores, a melhor amiga, bem dizer uma irmã, lhe devia favores, favores que dinheiro nenhum pagaria. Lucinda haveria de ficar agradecida, de que outra forma teria condição de pagar a dívida àquela mulher sepultada pelos casacos? Queria tanto não ter ido embora, pedira e fizeram de tudo para não ouvir; pedia insistentemente e ouviu que não seria possível, pediu que deixassem, de qualquer jeito, por mais um tempo, deixassem, era só por aquela noite, se temiam que ela ficasse sozinha, bastava chamar Lucinda que é da inteira confiança de todos, já conversara com ela, não dissera sim, nem se negara, bastaria insistir um pouco e a grande amiga que lhe devia o teto, a acolhida, a sobrevivência e, mais para diante, o pagamento de uma prestação atrasada da escola do neto, a roupa emprestada para a formatura da filha, até mesmo o dinheiro para algumas feiras – haveria de concordar. Nunca foi de fazer cobranças a ninguém, de nada; era de falar mal, zangar-se, sempre fora de falar muito mal dessas pessoas que prestavam favores e na hora da necessidade cobravam, dizia que elas não mereciam perdão.
Lucinda chegara no meio da noite e batera à porta da casa, de sua casa, não desta, daquela que ficava na rua principal, tinha escadaria, azulejos portugueses, quatro janelões que passavam o dia inteiro abertos, as cortinas levantando voo, telhado que se projetava para a calçada, amenizando a chuva e o sol. Todos muito pequenos, não devem mesmo ter guardado o acontecido, ela sim, vez por outra, contava a história da amiga, não para se vangloriar, para que servisse de exemplo; será que eles se esqueceram mesmo, não, tinha certeza, todos ainda jovens, é assim que se fala, a maioria na meia-idade, é certo, hoje em dia também se dizem jovens os de meia-idade, fulaninho morreu tão jovem e quando ela perguntava quantos anos tinha o tal fulaninho, cinquenta, até sessenta já ouvira; então, todos continuam jovens, não seria caso de esquecimento, a memória não está falhando, a dela estava e ela não se esquecia. Há menos de uma semana repetira para uma das netas que reclamava da vida, que nenhuma pessoa da família, nenhum deles, sabia direito o que era dificuldade, Lucinda, sim, esta sabia de sobra, quer maior sofrimento do que bater na porta dos outros de madrugada, com cinco crianças e outra na barriga, fugindo das gentes que dera cabo de seu marido e estava atrás dela, única testemunha, sabe o que é deixar casa, anos de trabalho e economias, fugir só com a roupa do corpo e pedir abrigo na casa da amiga de infância que tivera mais sorte que ela, casara com um homem rico, sim, porque na época teu avô tinha muito dinheiro, depois é que a riqueza foi minguando e quase ficamos tão pobres quanto Lucinda, mas os filhos estudaram, os meus e os dela, a riqueza não voltou, a pobreza também não, vivemos bem, nós, um tanto mais que ela, de que reclamava a neta? Tinha certeza de que Lucinda não se negaria, nem pôde falar com a amiga mais uma vez, não lhe deram tempo.
Teve o cuidado de seguir todos os conselhos que escutava sobre como encorpar uma criança, engordar a cria. Fez com que a filha tomasse o leite mais forte, misturado às massas mais nutritivas, engolisse os chás e provasse o amargor de todas as ervas consideradas milagreiras, só passou a responsabilidade para Deus depois que uma dessas receitas, ouvidas no converseiro das comadres, engordou de tal maneira o rosto de Maria das Graças que ela precisou ser internada às pressas, escapando por pouco de uma asfixia. Era o jeito aceitar a magrém da menina, a única solução, acostumar-se com o fio sem prumo que se metia em todos os esconderijos nas brincadeiras de esconde-esconde; saber que no lugar onde nenhum filho, de quem quer que fosse, caberia, ela, Alinha, como passou a ser chamada, caberia sem nenhum esforço. Talvez a folga fosse mesmo uma redoma a proteger Maria das Graças dos tombos, encontrões, ferimentos; tudo e todos existiam a uma distância respeitosa de sua pequena, feito se tivessem medo de quebrá-la, chegou a pensar nisso, depois viu que não, era a folga, o espaço não preenchido continuava ali, esperando o tempo em que o corpo de Alinha se decidisse.
Soube que viriam os amigos da filha, iam chegar, uma parte já havia chegado, outra estava a caminho, logo todos estariam presentes. Desejou que a outra parte se demorasse, ou se perdesse; enquanto esperam, mais tempo ficaria do lado da filha, cuidando para que não fosse violado o espaço vazio, a folga haveria de ser respeitada. É certo que a caixa de madeira, onde colocaram Maria das Graças, ajustava-se perfeitamente ao corpo da moça, um vestido de corte estreito a contorná-la da cabeça aos pés. Alinha sempre gostara de roupas largas, era um desrespeito.
A boneca com trajes típicos da Holanda, touca de organdi bem armada, tamancos pontudos e coloridos, ao recebê-la, a filha rasgou o papel de presente, colocou a caixa na vertical, depois a emborcou, virava de um lado para o outro, deixando até que ficasse de ponta-cabeça e a boneca de louça mal se mexia, os olhos azuis abriam e fechavam, dependendo da posição da caixa, as tranças louras dobravam-se em arcos sobre a cabeça, ou estiravam-se, ou vagavam para lá e para cá, um papel transparente, envolto na caixa vazada, exibia a boneca ao mundo e alguma presilha a mantinha fixa ao interior da caixa. Pensou que se fizesse o mesmo com Alinha, se ela ficaria presa, imantada ao corpo da caixa, ou cairia no chão, cheia de flores, emaranhada na transparência do tule branco que permitia a todo mundo olhar para Maria das Graças, quantas vezes quisesse; não, a boneca de louça viera numa caixa de papelão dourado, com tampa, fora um presente dado a ela, à mãe, não à filha, foi só retirar a tampa e pegar a boneca nos braços e depois fazê-la adormecer e guardar. Naquela noite, em cima do guarda-roupa onde poderia olhar para a caixa fechada e ver que ela não se movia, igual ainda estivesse na prateleira da loja, fez desse jeito na primeira noite porque tinha certeza de que a boneca precisava que ela a olhasse, vigiasse, estivesse acordada, velando o sono da criatura de louça; não era bom dormir sozinha na casa nova logo numa primeira noite, seria mais confortável para a boneca que dormisse assim, dentro da caixa, mas sabendo que a mãe, do lado de fora, não se descuidaria, pelo menos enquanto fosse nova a casa.
Era de madeira a caixa onde fora guardada a filha. Feita do mesmo material, a tampa permanecia à espera, escorada na parede, pacientemente, perpétua, um objeto deixado por engano no vazio daquelas paredes brancas, mas que de algum modo adequara-se ao ambiente, ficara à vontade, natural, integrado, sem esforço aparente, à decoração. Talvez já estivesse ali há muito tempo, ela e seu Cristo de bronze – crucificado na parte de cima, disposto de maneira a se estender sobre o peito de Maria das Graças – antes mesmo que o branco do quarto existisse. Não uma, nem duas vezes, várias, olhou para a tampa de madeira clara, quase bege e viu a filha como que reclinada, os pés bem apoiados no chão, um pouco afastados da parede, as pernas escondidas pela saia longa, uma mão conduzindo o cigarro à boca, a outra, nervosa, varrendo do corpo as últimas pétalas, livrando-se de vez do tule; não tinha mesmo necessidade, nem gostaria da transparência daquele pano, do acanhamento das florzinhas mal bordadas a enfear o contorno do véu; gostava dos véus baços, a filha, das volutas de fumaça que a encobriam. Esquecera-se, esquecera-se completamente, se a embalagem era tão parecida com a da pequena holandesa, podia retirar da caixa e voltar a colocar Maria das Graças dentro da caixa, sem que ninguém percebesse, igual fazia com a boneca de tranças louras.
O filho veio lhe dizer que teriam de fechar a caixa, a administração do lugar tinha limites, estava escurecendo, não fora possível convencê-los a esperar um pouco mais pelos atrasados, fizera de tudo; ela mesma não via que já escureceu, é de noite? Pegou as mãos dele, embrulhou-as nas suas, beijou-as várias vezes, misturadas às contas do terço que enroscara nos dedos e intercedeu pelos amigos de Alinha, disse que a filha não haveria de gostar que a família não tivesse esperado, e como iriam escapar da raiva daquela amiga, bem dizer uma irmã, a mesma que vez por outra falava umas verdades para Maria das Graças? Essa amiga estava entre os atrasados, além disso, a casa onde a filha passaria a morar, onde dormiria pelo resto da vida, encontrava-se tão perto dali, uns poucos passos e todos já estariam lá, que não se apressasse, por que tanta pressa se era noite de lua? Soltou as mãos do filho, deu-lhe as costas, envergonhada dos próprios pensamentos. Desejou que aqueles amigos não chegassem nunca, se perdessem pelas estradas, errassem a entrada da cidade, se extraviassem de vez por suas ruas e becos. A tampa continuaria encostada na parede e a boneca de rosto fino, pele esverdeada, nariz afilado, cabelos curtos e pretos, olhos cerrados, lábios entreabertos e roxos, continuaria eternamente à mostra.
Dizem que é para ela descansar. Não estava cansada. Dormir. Não tinha sono. Apenas uma grande preocupação. O que seria de Alinha, morando numa casa tão pequena, ela, a quem o espaço sempre reverenciara. Precisava, pelo menos até que a filha se acostumasse, estar plantada na frente daquela casa plana, rente ao chão, cuja porta não era uma porta; aqueles blocos de cimento colados uns nos outros e recobertos por uma camada de pequenas pedras brancas, desoladas, avessas a qualquer esperança de cor, nem de longe se assemelhavam à tampa de papelão dourado. Correra a vista para um lado e outro, paisagem árida, campo descolorido, casas todas iguais. Vê um sorriso chegando, expulsa-o como se esconjurasse uma assombração, dali em diante essas visitas seriam inoportunas, meu Deus, ela indigna-se, pede para que Ele lhe afaste dos pensamentos essa lembrança atrevida, não queria ouvir a voz do filho mais novo de Lucinda, o Senhor haveria de saber de quem se tratava, daquele, do que recebera o nome de José Maria, justo em homenagem a ela mesma e ao marido, pela acolhida na hora da precisão. O rapaz falava de um jeito tão engraçado da vila popular, do conjunto habitacional onde morava, dizia que se o morador da esquina vendesse a carcaça do carro amarelo que desde sempre vivia encostada no muro baixo, na parte de dentro, quase arranhando a frente da casa, ele, Zé Maria, quando saísse para comprar o pão era bem capaz de se perder, nunca mais que iria achar a entrada da rua de sua própria casa. Ela não corre esse risco, a casa da filha tem uma placa com nome e sobrenome, duas datas, com dia, mês e ano; a rua, faltava a rua, talvez devesse ter marcado a rua. As casas existem nas ruas, o afilhado tinha razão.
De madrugada, bateria à porta de Lucinda, diria que era somente pelo resto daquela noite, enquanto Alinha acostumasse os olhos ao escuro e o corpo ao vestido apertado, haveria de concordar que Maria das Graças acostumara-se por demais com a folga, o espaço livre e respeitoso, ao redor. A mãe de Alinha cobraria o favor, não era de seu feitio, mas não via outro jeito, Lucinda era mulher de bom coração, haveria de entender e até ficar feliz em pagar. Esquecera-se, novamente se esquecera, Lucinda é de gestos arrebatados, por natureza barulhenta, Maria das Graças dorme a sono solto pela primeira vez em todos esses dias, melhor deixar para amanhã, melhor recolher-se à carapaça e respeitar a quietude da filha, deixar que durma em paz.

por Rejane Gonçalves

Serena parte - (Matando as saudades da Corujinha Baiana)

SERENA PARTE


Vou no compasso
Descalça e confusa
Um passo na pedra,
na água, no chão.


Vou no caminho,
na estrada da vida
Na terra batida
no seixo do rio
Sou lava ou vulcão?


Vou como o sol
como a rocha
e a água
sou a serena parte
de um todo, sem fim.


Sou a profunda clareza
e a confusão
me encerro sem pressa
em infindáveis certezas
pois
sou o avesso
da noite e da vida
teu lado direito
o extremo do mínimo;
sou a menor parte
o oposto mutante
o amor constante...


Sou a pedra do rio
o sol e a lua
sou a tempestade,
da noite o clarão
e vou no compasso
descalça e cansada
um passo na pedra,
na água, no chão.

Corujinha Baiana

O Míope

Os óculos tenho que trocar urgentemente.

Estou a ver elefantes e gafanhotos
trocando olhares na tela do computador.

Não bebi mingau
nem comi raízes
alucinógenos.

São as lentes arranhadas.
Simples.

Uma floresta.

E Beethoven ??? Postagem: José Nilton Mariano Saraiva

Na sala de reunião de uma multinacional o diretor nervoso fala com sua equipe de gestores. Agita as mãos, mostra gráficos e, olhando nos olhos de cada um ameaça: "ninguém é insubstituível". A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao silêncio. Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça. Ninguém ousa falar nada. De repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar o atrevido:
- Alguma pergunta?
- Tenho sim. -E Beethoven ?
- Como? retruca o Diretor.
O funcionário encara o diretor confuso e complementa: -O senhor disse que ninguém é insubstituível; e quem substituiu Beethoven? Silêncio..... O funcionário fala então: - Ouvi essa estória esses dias contada por um profissional que conheço e achei muito pertinente falar sobre isso. Afinal as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas, no fundo continuam achando que os profissionais são peças dentro da organização e que, quando sai um, é só encontrar outro para por no lugar. Quem substituiu Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein? Picasso? etc... Todos esses talentos marcaram a história fazendo o que gostam e o que sabem fazer bem, ou seja, fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são sim insubstituíveis. Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa. Está na hora dos líderes das organizações reverem seus conceitos e começarem a pensar em como desenvolver o talento da sua equipe focando no brilho de seus pontos fortes e não utilizando energia em reparar seus 'erros/ deficiências' . Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo, se Picasso era instável, Caymmi preguiçoso, Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico ...
O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos. Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto. Se seu gerente/coordenador, ainda está focado em 'melhorar as fraquezas' de sua equipe corre o risco de ser aquele tipo de líder/técnico, que barraria Garrincha por ter as pernas tortas, Albert Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo. E na gestão dele o mundo teria perdido todos esses talentos. Seguindo este raciocínio, caso pudessem mudar o curso natural, os rios seriam retos, não haveria montanha, nem lagoas, nem cavernas, nem homens, nem mulheres, nem sexo, nem chefes, nem subordinados ... apenas peças. Nunca me esqueço de quando o Zacarias, dos Trapalhões, 'foi pra outras moradas'. Ao iniciar o programa seguinte, o Dedé entrou em cena e falou mais ou menos assim: "Estamos todos muito tristes com a 'partida' de nosso irmão Zacarias... e hoje, para substituí-lo, chamamos:... ninguém ... pois nosso Zaca é insubstituível".
Portanto nunca esqueça: Você é um talento único... com toda certeza ninguém te substituirá! "Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer alguma coisa. Por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer o pouco que posso". No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é... e outras que vão te odiar pelo mesmo motivo... acostume-se a isso... com muita paz de espírito. ..".
É bom para refletir e se valorizar!
Autor: desconhecido

Por Geraldo Lemos



HOMENAGEM POSTUMA A GARCIA
Velório. Tristeza. Alegria, nem se pensa. Em todos os presentes, existe a dor e a saudade.
Instintivamente, fecho os olhos e vejo um jovem cheio de saúde, sorriso largo e íntegro, ao volante dos carros da Sousa Cruz.
No comércio, era o homem de confiança de Thomaz Osterne de quem herdou a honestidade, moral e o bom trato com a clientela.
Como todos nós humanos aspiramos nossos próprios negócios, partiu para o comércio de bebida, sendo respeitado por todos que freqüentavam seu estabelecimento. Para tanto, precisava de um jovem já conhecido de todos, de bons princípios. Trouxe o aluno do grande "tarbeneiro', ALAGOANO. Passou a ser o Chico de Garcia. Aliás, muitos estão lhe dando pêsames.
O "Barzinho do Garcia", como era chamado, era freqüentado pela alta sociedade cratense. Os maiores comerciantes e empresários faziam de lá um verdadeiro escritório, onde grandes negócios eram tratados e resolvidos. Todos o respeitavam. Não havia palavrões. Doses na medida certa e no preço exato.
Fundador do "Caldinho de Feijão", de graça, com piqui, sempre o servia como tira gosto, gratuitamente.
Ao fechar as portas do comércio, exigiu que o SEU CHICO, continuasse a servi-lo o que já estava em projeto. Isto ele o faz.
Portanto, Garcia, juntamos agora nessas lágrimas a um pouco de feijão e as tomamos, como se fossem o seu eterno caldinho, ungindo, assim, nossos corações.
Receba, neste exato momento, toda sua família, um grande abraço saudoso, por intermédio do filho que só o teve na imaginação e coração, “O CHICO DE GARCIA”.

Geraldo Lemes

Amigo Motorista
Hoje é seu dia.
Você é tão simples que, talvez, não o saiba, mas, realmente, é o dia dedicado ao merecido MOTORISTA.
Não sei porque, mas sempre fui ligado a você.
Quantas vezes, no meu tempo de rapaz, andei "fiado" em seu carro, vindo da AABB e Tênis Club ... você nunca se negou a fazê-lo. E, nas horas de folga, quanta gargalhada se ouvia e se ouve, nos círculos de motoristas de praça que nem se lembram, nestas horas, do aumento da gasolina e do custo de vida. É um eterno transmissor de alegria e amizade. É sempre bem paquerado pelas garotas, mas respeitador e fiel a seus princípios e lar.
Você já pensou que sua responsabilidade é maior do que a de muitos profissionais de diploma em mãos? Você conduz vidas em seu carro, esposas e filhas de homens de responsabilidade. Quantas noites passou em claro esperando por "uma corrida" de poucos reais ... Isto vale. É a maior demonstração de responsabilidade.
Quisera eu que os que já se foram, desta para a melhor, estivessem aqui para abraçá-los. Infelizmente, não é possível. Desta forma, ajoelhado, rogo a Deus que os abrace, por mim, abraçando, como se fossem todos, um ídolo, amigo e "COLEGA" de todos os motoristas de praça, o inesquecível "BILLAR".

Geraldo Lemos

Praça Siqueira Campos - por Geraldo Lemos



Recordar o passado é vivê-lo, com mais experiência. Podemos fazer comparaçõe. no “modus vivendi” de gerações diversas.
Hoje, estou em plena Praça Siqueira Campos, outrora, palco político, dramático, com corações a pulsar de jovens. Era o ponto de convergência das diversas camadas sociais da cidade.
Coloco meus olhos no pensamento e volto àqueles tempos.
Vejo moças desfilando, com seus cabelos ondulados, à, custa de bobes, ou frisados a ferro quente e saias armadas com grude de goma. Tudo é bonito e o coração fala mais alto do que o sexo. Rapazes, verdadeira comissão julgadora, as avaliam pela cultura, beleza e curvas ocultas por roupas de estilo severo, nada provocante.
Um grupo de estudantes traça estratégias para as eleições da futura diretoria da UEC. Políticos defendem a UDN e outros o PSDB e PTB. O grupo Teatral de Amadores Cratenses ensaia, por falta de teatro, uma peça a ser exibida, no Cine Moderno.
O Cine Cassino abre suas portas, mostrando, logo na entrada o Botequim de Vicente Lemos, meu pai, com doces, bolos, picolé, bombons e cerveja. Diariamente, lembro-me, havia duas sessões cinematográficas à tarde e à noite, domingos, três.
Qual o aluno que não gazeou aulas para ir ao cassino? Fizemos muito, eu e Lincon, aulas de Pe. David (física, química e matemática), com a justificativa de que seriamos advogados.
Ali, está o café de Isabel Virginia, local de diálogos de torcedores e jogadores de futebol, políticos e intelectuais, todos com o objetivo de trocarem idéias e comerem o delicioso doce de leite de Isabel, como chamamos.
Deparo-me com a "Casa dos leões", assim denominada, por existir, em seus jardins dois leões, grandes e, para as crianças, perigosos. Era a residência de Mozart Roibim. Estão lotados o Bar Glória, Sinuca de Miguel Siebra e a engraxataria, local onde engraxamos sapatos FOX, comprados na Azteca, para dançarmos nas tertúlias da AABB e Tênis Clube.
Os motoristas, Seu Cordeiro, Audisio Brinzeno, Maru, Antônio Pajé, Menezes e outros estão a postos, junto aos carros.
No centro da Praça, estão Dr. Ribamar Cortês, Dr. José Ribeiro Dantas, Dr. Dárcio, Emidio, Dr. Borges, conversando, amigavelmente, após cirrados debates no Tribunal de Júri.
No Bar de Alagoano, na esquina, Alcides Peixoto, após cantar, com voz de tenor, canções em casteliano, pega uma queda de braços com Quintino._Cândido Figueiredo e Salgado desfilam com carros novos. Parado, está o modelo novo de José Ribeiro Dantas. Coló passa com um carro sem capota, com amigos e “amigas”. Belarmino encerra os trabalhos da Amplificadora Cariri. A Cratense acelera os corações com Cauby Peixoto cantando "A Perola e o Ruby". Logo após, o Hino Nacional e um; "Até amanhã, se Deus Quizer.
E hora de ir para casa. Dou uma última olhada e vejo o eterno grupo, coração da Siqueira Campos, Silvina, Luisa, Teresa, Antônio Luis, Dr. Caio e Telezito, sentados nos bancos que sempre foram deles.
Thomaz Osterne e Stuart apagam as luzes. A turma de Pedra Lavrada me espera. Passaremos, como sempre, pelo beco do Pe. Louro, para molharmos as calçadas, um complementando a molhada do outro, até chegarmos à esquina. O prêmio era um sapoti.
Hoje tenho em mãos, fotos preto e branco, dali tiradas, por Maia, com saudades coloridas.

Geraldo Lemos
Set/2009

Festa da Padroeira - por Geraldo Lemos


  1. 22 de agosto de 2008. Primeiro dia da festa da padroeira, N.S.da Penha.
Volto aos anos 60 e me vejo, em uma praça cheia de barracas, carrosséis e, completamente, lotada de fiéis.
Escuto a "Banda Furiosa" executando hinos e a voz eloqüente e sonora de Mons.
Rubens entoando o "TANTUM ERGO" e a ladainha de N. Senhora.
De repente, terminam os altos litúrgicos, e a praça se anima. Auto-falantes entram no ar, carrosséis giram. Tudo tem vida, é um clima de alegria e religiosidade. Barracas com bingos e alguém gritando: quem da mais? Era gostoso. Na calçada da igreja, havia uma banca com diversos quitutes e a "pesca" que nos atraía. Cada peixe valia um brinde. Não havia exploração. Os garotos se divertiam e, até mesmo, pescavam fiado para os pais pagarem depois. Todos eram conhecidos. Todos eram irmãos, filhos da padroeira. O Crato era uma família só, sem distinção de cor ou poder aquisitivo. Éramos Cratenses.
Esperávamos, durante o ano todo, a vinda do carrossel Maia, com os cavalinhos, roda gigante, aviões e as canoas, onda m, rinha e o carrossel com safona, pandeiro, triângulo e zabumba de Vicente Clemente.
Sob os olhos vigilantes das freiras, desfilavam as internas do Colégio Santa Teresa e Patronato Pe. Ibiapina, com suas fardas que faziam os adolescentes ficarem pasmos. Só havia flerte e, olhe lá, se a freira não o visse. Era gostoso. Eu flertei muito e, pegar na mão, nem pensar. Era pecado, só depois de um mês de namoro.
As amplificadoras, com um locutor melódico, anunciavam o que se passava nos corações dos apaixonados: "De um alguém para outro alguém, com muito amor e carinho De um alguém para outro alguém que está de saia azul, blusa branca e gigolete" na cabeça. De um alguém para outro alguém que está entre o céu e a terra (roda gigante) e mais declarações inocentes e amorosas.
Os leilões rendiam muito. Todos queriam cooperar com o sustento da paróquia. E as rainhas, atração dos jovens? Eram lindas. Partidos branco, azul e vermelho. Como eu queria comprar um lacinho!
Comíamos quebra queixo, tapioca com coco ralada, rolete de cana, algodão doce e tomávamos garapa e raspadinho de gelo com sabor de abacaxi, morango, cajá e outros sabores. Nada fazia mal a saúde e era barato, nem mesmo a tapioca com fígado de Canena.
A festa começava no comércio. Casa Abraão, com o cego Santino gritando: é queima, é queima e a lojas Azteca, sob o comando de Modesto e Aldemir, vendendo roupas e sapatos, respectivamente, para a tão sonhada indumentária da festa. Alfaiates e costureiras não dormiam. No dia primeiro de Setembro, seus trabalhos seriam exibidos na procissão da padroeira.
Havia salva, ao meio dia e às 05:00h da manhã. Quem a comandava era Zé de mão, com seu tabuleiro de fogos que mais parecia uma tábua de pirulitos. Se estivesse "com umas na cabeça", segurava o fogo e dizia: "A festa é aqui em baixo, não suba". A banda tocava até Frevo. Como era bom corrermos na disputa das varetas dos fogos!
Quem, naquela época, não recebeu um cartão do "grupo escolar", com quadrinhos, para marca-los, a cada 1 tostão, com um X? tínhamos um lápis e uma borracha, no bolso. De cada dez, ficávamos com um e apagávamos o X com a borracha.
Pois bem. Já divaguei muito. Meu coração já está oprimido. No entanto, escuto, ainda a banda Municipal, o som das amplificadoras dos carrosséis, o pipocar dos fogos, o repicar do sino da matriz e o pulsar dos corações dos que viveram, naqueles anos.

Geraldo Lemos