Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
.....................
claude_bloc@hotmail.com

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

MOMENTO DA POESIA Por Claude Bloc

Lua-Maré


Foto de 2010 - Vista para o Mucuripe ( Fortaleza - CE)


A lua, na maré cheia,
transborda
invade meu universo
e gira incansavelmente
 em torno do tempo da terra.
Patética, se volta,
para os sonhos, para a vida
 ... e revolta, desaba
ridiculamente nua
nas águas do mar.


Claude Bloc

Delírio

Retiro meu vestido branco
Dispo-me nua e crua
Deito as margens do infinito
Me acalentando com o silêncio
Nessa escuridão de pecado
O vento não enxuga meus olhos
Pois a noite é de prazer
Revelo a cor rubra do meu amor
Pra já mais me esquecer


Daniel Boris (Jacques)

Por uma pedagogia da calçada... — por Anair Holanda Cavalcante



    Quero falar um pouco sobre o final de semana, onde me encontrava em Limoeiro junto aos meus pais. A nossa casa se encontra em reforma, sendo adaptada ao atual ciclo de vida deles. Além da cozinha com uma mesa enorme adquirida para uma família de doze filhos, tem ainda seis quarto, quintal com cachorros, frutas e aves. Mas existe um espaço externo que confunde com o que é privativo à família e ao público: É a calçada que têm mosaicos lembrando o calçadão de Copacabana e árvores. No final da tarde, quando o vento Aracati sopra os nossos rostos, colocam-se cadeiras, onde meus pais ficam sentados e por alguns momentos, quase que imóveis. Com cabelos branquinhos, olhares perdidos e gestos muitos lentos sussurram alguma coisa que quase não entendo e que daqui a pouco a minha mãe pergunta: Já fizeram a janta do seu pai?

    Trabalhadores, jovens, folclóricos personagens da cidade e moradores de rua passam pela calçada. O volume de sons de carros e motos substituiu as tradicionais bicicletas. Aos poucos, as pessoas acomodam-se em cadeiras ou no batente do portão com a noite. Outros vizinhos se acolhem também, enquanto alguns apenas cumprimentam e seguem. Posso ainda ouvir as conversas sobre mais um dia de trabalho, o calor e a sensação de estranhamento diante das mudanças da casa pelos meus pais.
Mas a calçada continua do mesmo jeito sendo, ainda, um espaço, onde as principais decisões familiares são tomadas e discussões políticas são colocadas. Dias desses, quase que ficou vazia. A violência com chacinas e crimes de pistolagem assustou os meus pais e a vizinhança. O medo paralisou as conversas, os saberes e as crenças partilhadas ao longo da nossa história. Já não era permitido sentar, narrar e ouvir estórias que ensinam e experiências que despertam em partilhas na calçada. São bisavós, avós, homens, mulheres, crianças que se sentam, se olham em círculo e riem da própria vida. Às vezes, em silencio, sabendo que de alguma forma, palavras são ditas e escutadas nos pequenos gestos, nos movimentos dos corpos e no olhar.

    Assim, a calçada manifesta as narrativas, presenças e celebrações. No período eleitoral, é o lugar onde se defende o seu candidato escolhido, distribuem panfletos, ideias e pedem votos. As eleições no interior representam uma quebra do espaço público e privado. E as calçadas, o exercício do limite destes. Algum vizinho adversário já não cumprimenta, já não olha direito. Apenas colocam as suas decisões nos muros retratadas em cartazes e bandeiras coloridas de candidatos ou partidos. Em outros momentos, como final de ano, é grande o movimento e encontro na calçada com parentes e amigos distantes se reconhecendo no ciclo de vida transformado e transmutado, como um rito de passagem.  
 
 O conhecimento não tem tempo, nem espaço definido, nem sujeitos e objetos. Naquele instante, todo mundo aprende e ensina algo com alguém, como se as relações afetivas de vínculos e vizinhança materializasse diplomas de sabedoria retratada nas linhas de vida dos rostos dos meus pais e nos sorrisos e brincadeiras ainda inocentes das crianças.

Agostino Balmes Odísio, um civilizador no Cariri – por Armando Lopes Rafael

(1ª Parte)

   Tempos tranquilos e difíceis, aqueles do final da década 30 do século XX... Os dias corriam devagar, A inexistência dos meios de comunicação, como os existentes hoje, aliada à precariedade das estradas carroçáveis, contribuía para que as populações do hinterland cearense só tomar conhecimento dos acontecimentos, ocorridos alhures, vários dias depois da ocorrência.

   Os jornais de Fortaleza, por exemplo, chegavam ao Cariri com um atraso de dois dias, pois eram transportados nos barulhentos trens da Rede de Viação Cearense – puxados pela Maria Fumaça (assim denominado, por nossa população, o vagão da caldeira a vapor, alimentada por carvão ou lenha) – que faziam o percurso Fortaleza–Crato, e vice- versa, em dias alternados da semana.

   A edição do jornal “O Nordeste”, órgão oficial da Arquidiocese de Fortaleza, edição da terça-feira, 28 de novembro de 1939, chegou, certamente, atrasado a Crato. E desta veio trouxe um longa e pouco elucidativa manchete: “Imitando o Cardeal de Paris, no seu programa de “estaleiros” para Igrejas”. Logo abaixo da manchete, em letras menores, o complemento explicativo: “O grande surto renovador das matrizes da Diocese de Crato”. Ilustraram a matéria da primeira página, duas fotos: uma de Dom Francisco de Assis Pires, bispo diocesano de Crato, a outra, a fachada do novo Palácio Episcopal, recém-construído. Perdido na vasta matéria este pequeno trecho: “Graças ao espírito iluminado do virtuoso prelado que governa os destinos da Diocese de Crato, as velhas matrizes vêm se remodelado em belos e majestosos templos”. E depois de citar as igrejas dotadas de “embelezamento”, descrevendo as melhorias nela introduzidas, “O Nordeste” esclareceu: “Sua Excia. Revdma. o Sr. Dom Francisco e os Revdmos. Vigários encontraram na pessoa do professor Agostinho Balmes Odisio, o complexo de aptidões para a realização dos trabalhos acima descritos”.

   Tempos tranquilos, aqueles...

    Mas, quem seria esse Agostino Balmes Odísio, no qual os vigários encontraram um “complexo de aptidões"? Tratava-se, na verdade, de talentoso artista, nascido na Itália, escultor, arquiteto, autor de peças teatrais e que, nas horas vagas, gostava de escrever e fotografar. Agostino Balmes Odísio viveu apenas seis anos no Cariri, entre 1934 e 1940. Neste curto espaço de tempo produziu bom número de obras de arte, fincadas no Sul do Ceará, sendo a mais conhecida a Coluna da Hora, -- foto ao lado -- com 29 metros de altura, encimada pela estátua do Cristo Redentor, esta com 6 metros – totalizando 35 metros – localizados na Praça Francisco Sá (também projetada pelo escultor italiano), em Crato, ainda hoje considerado o ícone daquela cidade e o cartão-postal mais conhecido da Princesa do Cariri.

O Cariri da década 30

   Quando chegou ao Cariri, Agostino encontrou uma região promissora, embora atrasada “ano-luz” em relação ao Sudeste brasileiro, onde ele vivera os últimos vinte anos. Em Juazeiro do Norte, onde se fixou, a quase totalidade das casas não dispunha de energia elétrica, e a iluminação noturna, nas residências, era proporcionada por candeeiros com pavios, alimentados por querosene. Não havia água encanada nas casas. As famílias utilizavam grandes potes de barro para armazenar o líquido, que era transportado no lombo de jumentos. A maioria das residências era de taipa e chão batido. E mesmo as construídas com tijolo possuíam cômodos escuros, com pouca ventilação. Além disso, as residências eram destituídas de instalações sanitárias. As mais aquinhoadas possuíam, no quintal, uma “sentina”, a latrina, com um buraco aberto no chão para as necessidades fisiológicas dos seus habitantes. O mau cheiro dali exalado, vez por outra, invadia o ambiente domiciliar. Banhos? Só os “de cuia”, como eram conhecidos os asseios corporais, feitos com água contida numa lata de flandre, cujo líquido era tirado por meio de pequeno caneco de alumínio.

   Não existiam hospitais no Cariri. Além do mais, a região possuía um dos maiores focos de “tracoma” do Brasil, a doença da inflamação da conjuntiva (o revestimento delgado e resistente que reveste a parte posterior da pálpebra) causada por vírus e bactérias, penalizando com a cegueira a muita gente do Cariri.

    Tempos difíceis, aqueles...
(continua abaixo)


Agostino Balmes Odísio, um civilizador no Cariri -- por Armando Lopes Rafael

(2ª Parte)

A arte de Agostino
  
Pois foi neste cenário que Agostino construiu monumentos, reformou as igrejas, fez plantas modernas e estéticas para construções, fabricou e introduziu artísticos mosaicos de pisos, muitos, ainda hoje, embelezando os templos e residências do Sul do Ceará. Ele foi também pioneiro na introdução do marmorite no Cariri.

Em Crato, esse italiano foi autor de importantes projetos, como o Palácio Episcopal (foto ao lado, no aspecto atual com a escultura do Bom Pastor dominando a fachada do prédio) ; busto de Dom Quintino, na Praça da Sé; o altar-mor e o altar da capela do Sagrado Coração de Jesus da Catedral; gruta de Nossa Senhora de Lourdes e estátua de São Geraldo, no Colégio Santa Teresa de Jesus; altar-mor da capela do Seminário Diocesano São José, dentre outros.

    Em Juazeiro do Norte, ele trabalhou na reforma da Igreja-Matriz de Nossa Senhora das Dores (hoje Santuário Diocesano e Basílica Menor) onde projetou altares e esculpiu estátuas, medalhões e painéis, a maioria até hoje conservados naquele templo, um dos mais visitados do Nordeste brasileiro.

   Na sua arte, Agostino Balmes Odísio utilizava o estilo “Art Déco”, movimento das artes decorativas cultivado pela sociedade de massa que influenciou as artes plásticas e arquitetura. A “Art Déco” surgiu na década vinte do século XX e ganhou força nos anos 30, na Europa e Américas. O estilo arquitetônico mistura os princípios do cubismo como elementos clássicos. Edifícios, esculturas, joias, luminárias e móveis são geometrizados. Sem perder o requinte, os objetos adquirem decoração moderna. A “Art Déco” chegou ao Brasil em 1929, com a construção do edifício A Noite, em Copacabana, na Zona Sul carioca. Algumas obras feitas nesse estilo: o monumento do Cristo Redentor e a Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro; o Elevador Lacerda, em Salvador, e o Viaduto do Chá, em São Paulo.

Traços biográficos

   Nascido em 1881, em Turim, Norte da Itália, Agostinho Odísio formou-se pela Escola de Belas Artes daquela cidade. Na infância, foi aluno da Escola Profissional Domingos Sávio, mantida por São João Bosco. Uma curiosidade: Agostinho assistiu – com sete anos de idade – ao enterro de Dom Bosco, falecido em 31 de janeiro de 1888. Em 1912, ele esculpiu um busto do Rei da Itália, Vito Emanuel II, conquistando o 1º lugar numa disputa por uma bolsa de estudo em Paris. Na capital francesa, foi discípulo de August Rodin, considerado, ainda hoje, o maior escultor contemporâneo. Em 1913, com 32 anos de idade, Agostinho Odísio resolveu emigrar para a Argentina, onde residia um irmão seu. Entretanto, por motivos ignorados, desembarcou no Porto de Santos, em São Paulo. De lá seguiu para Minas Gerais, onde conheceu Dosolina Frateschi (filha de italianos) por quem se apaixonou e casou, decidindo ficar no Brasil.

   Durante 20 anos, produziu dezenas de obras de arte nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1934, devido a problemas de saúde, foi aconselhado a residir no Nordeste, por causa do clima quente da região. Por acaso, leu na imprensa sobre a morte do Padre Cícero, e, vislumbrando oportunidade de negócios – por conta da religiosidade da população daquela cidade – veio para Juazeiro do Norte, onde residiu até 1940. Transferiu-se, em seguida, para a capital cearense, onde veio a falecer, em 1948, deixando para a posteridade diversos trabalhos que imortalizam seu nome, em mais de trinta cidades do Ceará, dentre as quais: Fortaleza, Crato, Juazeiro do Norte, Lavras da Mangabeira, Missão Velha, Barbalha, Viçosa do Ceará, Acaraú, Sobral, Baturité, Ubajara, Canindé, Bela Cruz, Quixadá, Senador Pompeu, Várzea Alegre, Iguatu, Granja e Guaramiranga.

   Não padece dúvida de que, na sua passagem pelo Sul do Ceará, Agostinho Balmes Odisio desempenhou o papel de um civilizador, nesta vasta área do interior nordestino.

(Texto, foto e postagem de Armando Lopes Rafael)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Um tempo, uma prosa - por Claude Bloc


MINHA RUA ERA UM RIO



E lá volto eu ao tema da minha rua.  A rua Irineu Pinheiro onde morei, onde muitos moraram...

Lida a história assim de fora, talvez nem desperte a saudade de quem morou no Pimenta, em meio àquele mundo de crianças que se juntavam em suas brincadeiras, mas espero que compreendam que escrever sobre isto não é pieguice, mas prazer que a minha rua me dá compelindo-me falar dela.

A Irineu Pinheiro corre do poente para o nascente (e vice-versa). Nesta semana, um fim-de-semana prolongado, lembrei-me mais uma vez dela e da vida que hoje corre por ela alterando-lhe o aspecto, o movimento, a vivência.

Ontem era uma rua quase silenciosa, mas cheia de vida. Cheia de trinados de aves e gatos ronronando nos muros dos quintais, pontilhada, de onde em onde, por casas (remanescentes do meu tempo de criança), dialogando entre si.

Ontem também a via toda bordejada, nas margens, por carros adormecidos. Por entre as calçadas, quando chovia, corria um “rio” que descia lá do Sossego e desassossegava a vida da gente... Lá também passava nossa vidinha do dia-a-dia, nossas estripulias infantis.

Estranhamente, o silêncio da tarde tecido rua abaixo, descia pela minha alma tão aconchegante que nem as brincadeiras abandonadas pelas calçadas conseguiam romper a magia. Havia momentos para se estar só, para se adivinhar o que havia de ser amanhã: missa, cinema, passeio pelo Granjeiro, matinal no Tênis Clube...

Certos dias, depois da chuva, o Crato se iluminava. No ar eu sempre percebia o sussurro da luz e de bandos de pequenos, quase invisíveis, insetos flutuando nos raios de sol. Todos em suspensão, em estranhas danças... Tudo na minha rua tinha um ar de encantamento. Sentia-se a magia do tempo. Sentia-se os laços de amizade apertando-se. Sentia-se a vida deslizando plácida pela nossa janela.

Deslocava-me continuamente, por umas horas, a percorrê-la de forma total, pra lá e pra cá, em qualquer das suas margens. Sim, nas margens, pois é disso que se trata: a minha rua era um rio de sol, de luz que ainda se estende, desliza e corre, por onde se pode navegar como quem desliza num sonho dourado pela saudade.

Desse rio, sou apenas afluente, assim como todos que ali moraram nesses tempos idos. (Re)nasço no poente de minha vida e vago pelos pontos cardeais que só eu vejo. Insisto no verbo amar, onde tudo começou. Passo hoje pela Irineu Pinheiro e me revigoro. Semeio o dia.


Claude Bloc

Momento da Prosa - Por Claude Bloc


Amigos e Estradas



Em muitos episódios de nossa vida caminhamos incertos. Traçamos nossos rumos, mas nem sempre seguimos as rotas que queremos trilhar.  Essas estradas que percorremos são como amigos: alguns indispensáveis, simples como aquela estradinha de terra no interior, com nossos rastros marcados pelo chão. Subimos então no alto da serra e, lá de cima, podemos avistá-la inteirinha. É aí, então, que vislumbraremos nossos sonhos e saberemos para onde podemos ir e onde podemos chegar. São como amigos que consideramos límpidos e confiáveis.

Outros amigos, aqueles que acabaram de chegar, são como estradas que ainda não desbravamos: vamos nos aventurando sem saber muito bem os seus limites... é um caminho desconhecido, mas que sempre vale a pena trilhar.

Há amigos que parecem aquelas estradas periféricas, aquelas que pouco usamos, pouco vemos, mas sabemos que quando precisarmos, elas estarão lá. Que poderemos passar e cortar caminho, mesmo que distante... Essas sempre estão em nossa memória.

E existem ainda os amigos que são como aquelas estradas que não existem mais, mas que sempre fazem um elo entre a nossa emoção e uma imensa saudade. Saudade de uma paisagem, de um trecho de estrada, de um momento que deixou marcas profundas em nosso coração. Essas estradas se foram, mas ficaram impregnadas em nossa alma...

Então, nessa viagem que é a vida, podemos dizer que os amigos são mais do que simples estradas, são placas que indicam a direção, são o vento que nos traz alento, são o sol que nos faz viver e, naqueles momentos em que mais precisamos, são por vezes o nosso próprio chão.


Claude Bloc

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Já é carnaval! - Por José de Arimatéa dos Santos

Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Olinda o carnaval começa bem antes dos outros lugares do país. Festa que aqui no Brasil com a grande diversidade cultural se agigantou de tal maneira que tem alguns que falam que o ano só começa para valer na quarta feira de cinzas. Não deixa de ser exagero, mas de certa forma convenhamos que há uma pontinha de razão quem defende essa tese.
Como amante da cultura brasileira eu acho incrível como o carnaval tem a capacidade de juntar tanta gente na rua para a folia. Seja em São Paulo ou em Santa Luzia do Oeste, Rondônia ou Rio de Janeiro e Crato no Ceará. Com as devidas ressalvas é carnaval em qualquer ponto desse país verde e amarelo.
Alguns torcem a cara para a festa mais brasileira do mundo. Mas mesmo em casa, em retiros espirituais ou na rua todos nós não deixamos de ser foliões. É nessa época que o país fica mais alegre.
Até os grandes problemas nacionais entram em pauta quando os foliões se caracterizam nos personagens políticos da vida real. Há o protesto contra os poderosos da república e contra os corruptos de plantão dos mensalões, dinheiros na cueca e afins.
Lembro-me que quando criança brincávamos carnaval jogando água nos outros com tubos de desodorantes usados. Enchia de água e tome esguicho nos amigos. Sem falar nas máscaras que às vezes assustavam as criancinhas de colo. Ah! Mas esse tempo a rua era o local de encontro das brincadeiras de criança. Não existiam o vídeo game e muito menos o computador.
Tudo é carnaval nesse período que vai até terça feira. O importante é aproveitar da melhor maneira possível para descansar, ir para a folia e também para a reflexão espiritual. Isso é carnaval. Festa do colorido e também de muito cuidado com a violência. O que vale é a moderação em tudo para que na quarta feira de cinzas fique só a saudade da alegria e os ânimos renovados para a continuidade da vida. Paz e felicidade!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

As astúcias de um advogado – por Pedro Esmeraldo

Esta história foi contada por um parente e gostei da veracidade dos fatos o que passo a expor minuciosamente para conhecimento do leitor.

Doutor Marcílio Xavier, advogado, muito preparado, conhecedor das leis jurídicas, com entusiasmo fazia aparecer os ânimos de advogado com os bons momentos em suas causas ganhas.

Quando pequeno seu maior sonho era ser sacerdote da igreja católica. Estudou no Seminário do Crato, adquiriu conhecimentos profundos para expor com exatidão a doutrina de Cristo, mas antes de receber as ordens predestinadas para ser sacerdote, observou que não tinha vocação para exercer este ofício. Antes de tudo abandonou a sua proposição de ser padre e apresentou com suas palavras eloquentes o motivo da desistência e preferiu divulgar o conjunto de princípios morais com retidão e exercer as artes jurídicas.

Como adquiriu conhecimentos profundos, tornou-se um advogado fluente no seio da sociedade. Foi um exímio patrono e defensor dos princípios morais do direito do povo.

Tinha como lema uma palavra astuciosa que considerava o senhor elegante no estilo na propagação das leis jurídicas. O seu lema era: Contrate o Dr. Marcílio e considere a sua causa ganha. Com isso era determinado e conseguia bons clientes para exercer o comando de sua profissão.

Um dia, um comerciante de Juazeiro do Norte que tinha o hábito de viajar a cidade de São Paulo a fim de conseguir veículos novos e vender aos amigos moradores daquela cidade. Queixou-se ao Dr. Marcilio que tinha vendido um caminhão a um senhor morador da cidade de Iguatu e então não tinha efetuado o pagamento de suas duplicatas até aquele momento.

Então o Dr. Marcílio disse: contrate o Dr. Marcílio e considere a causa ganha. Após conversa prolongada efetuou-se o contrato de execução desse senhor morador de Iguatu.
Nessa época os meios de transportes eram deficitários, não havia transporte com facilidade, portanto tinha que partir de trem que saía do Crato às 11h 30min da manhã com destino a Iguatu. Lá chegando procuraram uma pensão mais ou menos qualificada e se hospedaram até o dia seguinte que seria o dia de apresentar queixa ao poder judiciário.

À noite, quando não havia diversão na cidade o pessoal ficava na calçada observando o movimento noturno. Em certo momento, apareceu um senhor forte, corpo atlético, dando murros em um cidadão quase sem defesa e que deixava todo mundo arrepiado de sua malvadeza. Por isso o advogado admirado perguntou ao cliente: você conhece esse cidadão perverso? Ao passo que o cliente respondeu: é aquele que vai entrar com queixa amanhã no juizado da cidade.

O advogado virou-se para o seu cliente, com medo de enfrentar a causa, retrucou: agora considere sua causa perdida. Vieram embora para o Juazeiro no dia seguinte. Nesse caso, o cliente revoltado com a fraqueza do seu advogado, indignado disse: “Era só o que faltava, mostrou arrufo e depois caiu com os burros n’água. Devia ser sincero e dizer a verdade de sua fraqueza. Seria melhor se ele deixasse o ofício”.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os vórtices da paixão humana - Emerson Monteiro

E quando o tempo fecha, vinda de dentro do coração na força descomunal dos rios cheios de arrancar as pedras, arrebentar e destruir, apertar o tórax a ponto de prender a respiração, faz nascerem os surtos maravilhosos dos planos imaginários do que se chamar paixão. Sem lugar de repouso, ímpetos de querer fugir lá para longe como objeto do desejo, e esquecer, no passado, as belas construções e a família, jogar fora os valores alimentados anos a fio, essa fome do impossível trava a boca do estômago, pedido surdo de espaço no território inexplorado das ilusões, os vórtices de paixões jamais experimentadas, que já invadem com farra a paz dos inocentes. Nisso a vontade incontida do sonho ciranda acelerada, de revirar o mundo e reconstruir as intenções pela vida afora, junto de quem chegou o momento fantástico da mudança.

Saber que possui os direitos da razão, eis missão das mais ingratas. Ninguém anda nos campos do coração, nem o próprio dono, livre de machucar, vez ou outra, os frágeis pés. Ali, aqui, sopram os ventos da ansiada liberdade recém adquirida nos bancos da Natureza. Dominar, no entanto, significa talento de sabedoria, inteligência maior de personalidade, gosto do equilíbrio em andar maneiro longe das destruições arriscadas da fria irresponsabilidade.

Contudo, ainda saíram até aqui só poucos professores neste assunto, formados na escola da experiência. Alguns poetas e romancistas trabalharam o tema, porém chegaram pouco no transmitir da certeza de controlar as batidas dos corações apaixonados. O cancioneiro popular talvez olhasse mais próximo, com suas modinhas doridas, marcas rumorosas das primas e dos bordões, a vibrar as madrugadas insones das curvas idolatradas do ser amado.

Bom, em matéria de sentimentos incontidos nas quatro linhas da razão restam fora de propósito quaisquer cogitações asseguradas na luz da consciência pura. Vira de lado, corre agitado, abandona o lar, o desespero parece querer tomar conta dos protagonistas presos nas garras de aço da paixão. Eis matéria viva das contradições humanas, circunscritas ao calendário das idades. Vem silenciosa, rasga o teto da tranquilidade na história pessoal e despeja os tonéis de tempestade no peito dos solidários boêmios da esperança e parceiros iluminados.

Houvesse justificativas nas tantas circunstâncias do inesperado, poucos achariam as jóias de explicar a dor da paixão nos pobres corações humanos. Respeitar, no entanto, a febre da paixão de todos cabe descobrir qual jeito de poder mora no íntimo do amor de cada ser.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

ANTONIO CONSELHEIRO



E o sertão virou mar... de sangueNa tomada de Canudos, o Exército matou pelo menos 25 mil rebeldes

Não consigo imaginar coincidências quando vemos que todas as iniciativas politicas partidas das classes populares, tratadas como se fossem contra os governos no Brasil, tiveram um fim trágico. A começar pelas insurreições, pela independência do Brasil, passando pelas revoluções de l930, Coluna Prestes, Caldeirão da Santa Cruz, Araguaia e por aí vai. Em todas elas, a força das armas literalmente matou ideias e ideais que podiam ser tomados como exemplo de cidadania.

Nada comparado às atrocidades cometidas pelos que são adestrados para “defender a pátria”, principalmente nas frentes de batalha dos movimentos situados nos lugares mais longínquos da sociedade urbana, como no caso de Canudos. E eu, francamente, não me canso de ler e reler histórias como a de Canudos, Caldeirão, Pau de Colher, Contestado, entre outras. Continuo a cada leitura, sem entender o motivo da ação covarde do poder dominante...

A mim, reações à intervenção urbana nestes movimentos são exemplos de uma rebeldia valente, objetiva, aguerrida, decidida. A mim, eles poderiam servir como exemplo para a promoção de avanços sociais. Avanços estes que dependem da inclusão de ideias simples, vinda de pessoas simples, que ao invés de optarem pela teoria (ora acadêmica, ora politica) preferiram tomar decisões baseadas na solução de problemas diretamente ligados às suas necessidades. Este foi o caso de Canudos.

Diziam que Conselheiro era um louco quando pregava o fim do mundo. Pregava como se fosse um alerta para as nossa obrigações religiosas. Quando perguntado sobre o fim do século, dizia Ele em seus sermões que...”em 1900 as luzes se apagariam e choveriam estrelas. Antes, porém, aconteceriam fatos extraordinários...Em 1896 mil rebanhos correriam da praia para o sertão e o mar se tornaria sertão e o sertão mar. Em 1897 o deserto se cobriria de pasto, pastores e rebanhos se misturariam e a partir de então haveria um só rebanho e um só pastor. Em 1898 aumentarias os chapéus e diminuiriam as cabeças, e em 1899 os rios ficariam vermelhos e um planeta novo cruzaria o espaço.(SIC)...(trecho do livro A GUERRA DO FIM DO MUNDO, Vargas Llosa)

Pelo que li, essa profecia também foi feita por Nostradamus para outra data, outros fatos, porém, de ideia semelhante. Só não compreendo por que Nostradamus é profeta e Conselheiro é “louco”. Mas isto é ideia para outra discussão.

Certo, é que Antônio Mendes Maciel, levou grande parte da sua vida sertões adentro, a aconselhar pessoas, principalmente no interior da Bahia, conclamando a todos a se voltarem pra Deus, ao trabalho e às orações. Conclamava o povo de sertão a recuperar e cuidar de igrejas católicas para, junto com eles, rezar e pedir a Deus a providencia divina para os sofrimentos de todos os sertanejos daquela sofrida região do Nordeste.

“Dava conselhos ao entardecer, quando os homens tinham voltado do campo e as mulheres terminado os afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Dava-os nos descampados desmatados e pedregosos que existem em todos os povoados do sertão...falava de coisas simples e importantes, sem olhar para ninguém em especial entre as pessoas que o cercavam, ou melhor, olhando, com olhos incandescentes, através através do ajuntamento de velhos, mulheres, homens e crianças, algo ou alguém que só ele podia ver...Os vaqueiros e os peões do interior escutavam-no em silêncio, intrigados, atemorizados, comovidos, e assim o escutavam os escravos libertos dos engenhos do litoral e as mulheres e os pais e os filhos de uns e de outras(idem)”.

Assim foi que Antônio Mendes Maciel ganhou a alcunha de “CONSELHEIRO”, passando a ser tratado como Antônio Conselheiro. A caminhar pelos sertões levando palavras de enlevo aos que lhe retribuíam com a atenção peculiar do sertanejo.

Um dia a sociedade urbana resolveu que era hora de acabar com a sua história. Conselheiro já tinha se fixado num parte de terra, fundado uma vila (arraial) chamada “CANUDOS. Os homens da cidade empenharam-lhe guerra. Exércitos foram mandados para liquidar com a sua historia. Os sertanejos que o seguiam, em defesa do arraial venceram três de quatro grandes expedições empreendidas. Tombaram na quarta investida, quando o exercito se utilizou da mais cruel e sangrenta tática de guerra, se utilizando inclusive de canhões.

Contam os pesquisadores que a ultima derrota do Beato deu-se por conta de uma disenteria aguda, quando Antônio Conselheiro morre no dia 22 de setembro. O cadáver não foi sepultado de imediato pois que, os seus seguidores, acreditavam que ele pudesse ressuscitar e continuar na luta. Só quando o corpo do beato começa a se deteriorar, já com a fedentina a atrair a sanha dos urubus, os sertanejos o enterram.
O cerco do Exército torna-se mais rigoroso. Passada uma semana, no dia 1º de outubro daquele ano, as tropas do governo empenham o ultimo e decisivo ataque, conseguindo por fim tomar a vila.
Em seu livro, Os Sertões, Euclides da Cunha descreve esse momento final da seguinte forma:
"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnando palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam, raivosamente, cindo mil soldados.(Euclides da Cunha, OS SERTÕES)”.
De inicio cerca de trezentas mulheres levando pelo braço um contingente de crianças se rendem ao exército, mas os homens continuam resistindo numa luta desigual, com as poucas armas que ainda restam, aí incluídas armas brancas, artesanais como foices, pedras e pedaços de pau. No dia cinco de outubro tombam os últimos sertanejos. Eram os quatro heróis falados por Euclides da Cunha.
Caiu o arraial a 5.No dia 6, acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5 200, cuidadosamente contadas."Depois da invasão, as ruínas da vila são destruídas e dinamitadas pelos militares. No final, de 25 mil a 35 mil rebeldes morreram nos combates. Entre os soldados, o total de baixas chegou a 5 mil. O corpo de Conselheiro foi desenterrado e sua cabeça foi levada como um troféu do Exército para Salvador, simbolizando o fim de Canudos(http://mundoestranho.abril.com.br)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

DELIRANDO DE FEBRE OU A FEBRE DOS COLETIVOS NO CARIRI - Por: Antonio Sávio


A manipulação da juventude caririense e a lavagem cerebral ideológica


Qualquer pessoa comum que debruce um olhar mais atento sobre a realidade pode achar que está ficando louco, ou, como comumente lhe passam, não tem “nível suficientemente alto” para entendê-la. Essa ideia de ter que ter um ingresso dado por uma escola ou universidade brasileira para entender a realidade é fruto de um culto ao leviatã ( O Estado) denunciado por Hobbes, que hoje se personifica em nosso sistema educacional, e isso nunca me entrou na cabeça.

A suposição que no ambiente universitário você encontrará mentes aptas a lhe esclarecer alguma coisa e daí, você possa ter uma visão mais crítica (perdoe-me pelo uso dessa palavra, mas é a que o pessoal mais usa) da realidade é de uma falta de senso do ridículo incomum. A realidade mostra-se ao ser humano de acordo com sua vontade e esforço de captá-la, e isto, definitivamente não está nas mãos dos atuais professores universitários, salvo, como sempre, alguma exceção.

A tolice institucionalizada pelas universidades brasileiras tem feito um estrago mortal ao país. Muita gente inocente, de mente deveras brilhante, empreendeu suas forças por causas realmente ridículas, levados por gente mais experiente em aliciar e distorcer a realidade dos fatos. O fenômeno merece atenção, não pela qualidade das ideias produzidas, coisa que a história é sempre implacável, e os renegará ao lixo das eras, mas, o efeito que as ideias têm tomado na cultura e política do país é algo que merece atenção imediata. Os moldes da nossa atual cultura superior está no rebaixamento à ideia de “intelectual coletivo” do Antonio Gramsci que, vendo que a revolução pode ser feita pela corrupção contínua de uma cultura, corrompendo, distorcendo fatos, ocultando obras, tudo fica bem mais fácil. Deste modo, poucos estudantes universitários dos cursos de ciências humanas, apesar do acesso a internet, tem se perguntado sobre o conteúdo que lhes estão sendo entregues dia a dia em sala de aula.

Não se trata aqui de nenhuma “teoria da conspiração”, a estratégia embora de fato tenha sido empreendida pelas esquerdas brasileiras que trabalham dia e noite na empreitada, ainda tem como vantagem a inexistência de uma direita, uma soma enorme de analfabetos e miseráveis onde o primeiro discurso é o bastante para manipulá-los. Ora, assim é vitória certa. A prova que nos falta à ideia do que seja um estudo ou cultura de qualidade que dificilmente encontraremos um estudante que não tenha entrado em contato com as obras de Marx na universidade de modo direito ou indireto, mas, sequer ouviram falar em nomes como Edmund Burke, Samuel Coleridge, Thomas Carlyle, Henry Maine, ou pelo menos em brasileiros como Meira Penna, Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior etc. É claro que, em tempos de supremo relativismo moral haverá quem diga: - Cada um segue o que quer! Mas a sentença aí só passa a ser verdadeira se puder existir apoditicamente a possibilidade de escolha, coisa que, é claro, que doutrinadores ideológicos não seriam inocentes de deixar.

O que vemos, portanto é uma série de acontecimentos que tem sim uma explicação histórica e filosófica. A propagação desse coletivismo é uma afronta à realidade. Não há nenhuma possibilidade de coletividade sem a existência individual. A própria constituição garante isso, porém, há quem ache que a nossa existência só pode ser vista de modo político-coletivo. Neste caso, você deixa de existir e passa a ter a ideia corrompida pelo grupo, pelo time de futebol, pelo partido, pelo coletivo. É claro que não é conveniente dizer que essa coletividade partidária ou não mataram por meio de suas ideologias mais de duzentos milhões de pessoas ao longo do século XX. As mesmas são frontalmente contra o que se desenvolveu filosoficamente na Grécia ou pelo pensamento medieval pelo fato de ambas professarem uma responsabilidade ao uno, ao indivíduo. Não há possibilidade de melhoria política da comunidade sem que antes a noção de responsabilidade sobre si seja tomada como prioridade.

A juventude como combustível.

Evidentemente que, a preparação dessas coletividades só se faz em bases frágeis ou inocentes, que facilmente cedem ao canto da sereia dada as suas carências. De um modo geral essas características podem ser vistas historicamente sobre os jovens. A necessidade de autoafirmação e pertencimento vem a ser o principal ingresso de jovens nas mais diversas ideologias, juntamente com a promessa de “fazer um mundo melhor”. É a supremacia do “intelectual orgânico” ou “intelectual coletivo” do Gramsci, citado acima. Uma vez que qualquer pessoa pode ser considerada intelectual para poder abranger toda uma massa de jovens que queira sua autoafirmação.

No Cariri, a propagação desses coletivos ideológicos tem sido difundida seguindo a regra a receita, de modo consciente ou não. É claro que muitos dos participantes dessa coletividade são pessoas idôneas que, em sua inocência aderiram à causa seja “por um mundo melhor”, “contra o imperialismo”, por um “mundo verde”, “ecologicamente correto” etc. Os jovens são incentivados as mais diversas ações sem nenhuma base de leitura política ou filosófica. A “preparação” é feita com base em leituras superficiais dos panfletos ideológicos com a intenção de por em atividade, o mais rápido possível, o jovem carente por elogio que, a partir daí receberá seus aplausos no fim do dia de modo garantido.

Enquanto isso na sala de justiça... Os responsáveis pelos grupos estão sempre muito ocupados. Se tiver um membro novo tem lá alguém que ver se o mesmo leu direitinho o manifesto comunista, se tem outros mais adiantados temos que ver quando será a próxima reunião, além de ter que receber os panfletos a serem distribuídos na próxima performance, além de uma infinidade de outras pseudo-ocupações que passam a impressionar os mais jovens.

Uma pergunta curiosa que eu faria caso estivesse em algum destes grupos é: - Como seguimos uma pessoa que professa uma doutrina que supostamente está acima do entendimento da maioria da população alienada, se ele mesmo, muito ocupado como percebemos, não tem tempo de abrir um só livro? E, supondo que a existência de tudo, haja uma dialética, como não pode ele estudar literalmente nada que seja contrário ao seu pensamento? Com que autoridade alguém que questiona o sistema capitalista pode fazê-lo se nunca leu nenhum economista, se não sabe o que é uma comparação de estados estacionários, nem uma taxa de poupança, nem um impacto de moeda corrente? Saberiam os revolucionários do Cariri quem são Covarrubias, Luis Saravia de la Calle, Pedro João de Olivi, Santo António de Florença e, principalmente, São Bernardino de Sena? Ou saberiam que essa ideia de concorrência (em latim, concurrentium) que eles tanto abominam já tinha sido dada no século XVI? Indo em direção as artes alguém pode imaginar que as maiores obras da cultura Ocidental foram feitas por um grupo? Da Vince, Michelangelo e Sandro Botticelli seriam “Coletivo Renascentista”, ou no barroco teríamos Caravaggio, Rembrandt e Geoges de La Tour como o “Coletivo Ave Maria”? Sabemos muito bem que o contexto histórico que vivemos é totalmente diferente, mas, como diria o Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito argumento, mas não me altere o samba tanto assim…”.

O que sabemos é que desde que o mundo é mundo, cada um pensa com sua própria cabeça, individualmente! Esta é a condição de existência do homem, que, de fato não lhe impede nenhuma caridade. Mas caridade e alienação política são diferentes. Uma parte da ordem exterior, de um comando ilegítimo a outra da própria consciência. É óbvio que o direito de expressão é algo garantido constitucionalmente. O que não garante nossa constituição é a qualidade do que será expresso, e nem a premissa que ele seja inquestionável.

Por: Antonio Sávio