Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

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terça-feira, 7 de setembro de 2010

A divisão dos trinta e cinco camelos - Por Malba Tahan

Encontramos próximo a um refúgio no deserto três homens discutindo ao pé de um lote de camelos. Por entre pragas e impropérios gritavam:
– Não pode ser
– Isto é um roubo.
– Não aceito!
O inteligente Beramiz procurou se informar do que se tratava.
– Somos três irmãos e recebemos de herança esses 35 camelos – Esclareceu o mais velho.
– Segundo a vontade expressa do meu pai, devo receber a metade, o meu irmão Hamed Namir uma terça parte e ao Harim, o mais moço, deve tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35 camelos e a cada partilha proposta segue a recusa dos outros dois, pois a metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça parte e a nona parte também não são exatas?
– É muito simples – atalhou o Homem que Calculava – Encarrego-me de fazer com justiça, essa divisão, se me permite que eu junte aos 35 camelos da herança este belo animal, que em boa hora, aqui me trouxe!

Nesse ponto, procurei intervir na questão:
– Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a viagem se ficássemos sem o camelo?
– Não te preocupes com o resultado, ó bagdali! – replicou-me em voz baixa Beremiz.
– Sei muito bem o que estou fazendo. Ceda-me o teu camelo e verás no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou que não tive dúvidas de entregar o meu belo jamal, que imediatamente, foi reunido aos 35 ali presentes, para serem repartidos pelos três herdeiros.
– Vou meus amigos, fazer a divisão justa e exata dos camelos que são agora, como vêem, em número de 36. – E, voltando-se para o mais velho dos irmãos assim falou:
– Deverias receber a metade de 35, isto é, 17 e meio. Receberás 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que saíste lucrando com esta divisão!
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
– E tu, Hamed Namir, deverás receber um terço de 35, isto 11 e pouco. Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também saíste com visível lucro na transação.
E disse, por fim, ao mais moço:
– E tu, jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma nona parte de 35, isto é, 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36, isto é 4. O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
– Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que todos os três saíram lucrando – couberam 18camelos ao primeiro, 12 camelos ao segundo e quatro ao terceiro, o que dá o resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos, sobram dois. Um pertence, como sabem, ao bagdali, meu amigo e companheiro. Outro toca por direito a mim, por ter resolvido, a contento de todos, o complicado problema da herança!
– Sois inteligente, ó estrangeiro! – Exclamou o mais velho dos três irmãos. – Aceitamos vossa partilha na certeza de que foi feita com justiça e equidade.

Extraído de “O Homem que calculava” - Malba Tahan – Record

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sem palavrões! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Na última visita que eu e Magali fizemos ao Crato, sentimos falta da Movelaria Irmãos Rola na Rua Ratisbona, bem próximo da Estação do Trem. Depois soubemos que o seu proprietário havia falecido. Os móveis ali fabricados eram de excelente qualidade.

A propósito dessa ótima movelaria que o Crato perdeu, juntamente com seu honesto proprietário, lembrei-me de uma pequena história que ouvi sobre os móveis fabricados por essa tradicional oficina da nossa terra.

Robertinho ia cursar o terceiro científico, atual “ensino médio” e, teve de ir estudar em Recife para tentar o vestibular no curso de engenharia. Rapaz de inteligência privilegiada, possuidor de extraordinária presença de espírito, bem valia o esforço que seus pais empreenderiam para que ele seguisse adiante nos estudos. Robertinho se reuniu com mais dois colegas de turma e juntos alugaram um apartamento confortável na Boa Vista, local onde o cratense que visita a capital pernambucana pode encontrar na certa, com vários universitários do Crato que por lá estudam.

Decorridos cerca de três meses de moradia em comum, a camaradagem dos três colegas cratenses aumentava cada vez mais de intensidade. E Robertinho era o mais brincalhão dos três, recitando a cada observação que fazia um sonoro palavrão. Mas isto até o dia em que dona Lurdinha, mãe de um colega do Robertinho foi visitar o filho, para saber como ele estava instalado, enfim, verificar se tudo ia bem, como ia de estudo, e mais uma porção de coisas que toda mãe se preocupa quando se trata do “bem estar” dos filhos.

A presença daquela senhora entre os três estudantes não inibiu Robertinho de pronunciar seus sonoros palavrões. Até que, dona Lurdinha, sentindo-se incomodada em ouvir tantos nomes feios, muito dos quais ela nem imaginava que existissem falou sério com ele: “Robertinho, você vai me fazer um grande favor! Vai me respeitar e enquanto eu estiver aqui não quero ouvir nenhum nome feio saindo da sua boca imunda!”

Claro que Robertinho se melindrou. Sempre que a dona Lurdinha estava em casa, ele se recolhia ao seu quarto, deixando para fazer suas refeições em outros horários ou quando não, se privando de algumas delas. E isto dona Lurdinha percebeu claramente.

Certo dia, ao atravessar o corredor do apartamento, dona Lurdinha viu a porta do quarto de Robertinho aberta e, ele estudando, apoiado numa bonita escrivaninha. Tentando quebrar o gelo, ela puxou conversa: “Que móveis lindos os seus, Robertinho! Onde você os comprou?” “No Crato!” Respondeu Robertinho. E dona Lurdinha quis saber mais: “No Crato? Em que lugar?” E encerrando a conversa, Robertinho acrescentou: “Naquela Movelaria cujo nome é um grande palavrão! E a senhora me proibiu de falar palavrão!”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
A história é verídica e os nomes dos personagens fictícios para preservar suas identidades.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Penas ao vento – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Por estes dias, não sem motivo algum, lembrei-me de uma pequena história que minha mãe me contou há muitos anos, quando eu era ainda uma criança.

Um mestre, que era muito sábio, possuía muitos discípulos. Certo dia, encontrou um dos seus discípulos numa animada roda de conversa com os amigos. Aproximou-se dele sem se fazer notar e sem querer, escutou que ele falava mal de um dos seus amigos, fazendo injúrias e o desqualificando com atributos dos quais aquele amigo não era possuidor. O mestre se aproximou do discípulo e lhe disse que estava na hora de receber a lição daquele dia.

Os dois andaram durante algum tempo em silêncio até chegarem defronte a uma torre muito alta. O mestre convidou o discípulo para juntos subirem até o mais alto daquela torre. Quando chegaram ao topo, havia alguns sacos desses que se colocam feijão para o transporte. Então o mestre ordenou ao discípulo que pegasse um daqueles sacos e jogasse todo seu conteúdo pela janela da torre ao chão. Este obedeceu, levantou o saco com as duas mãos, estranhando que seu peso fosse incrivelmente tão leve. Abriu o saco e viu que estava cheio de penas. Obedeceu à ordem do mestre e atirou fora todo o seu conteúdo. Ficou alguns minutos observando as penas voarem para longe, espalhando-se por toda a parte, ao sabor dos ventos. Depois que as penas voaram para os mais distantes lugares, sujando várias ruas e praças, o mestre ordenou: “Agora, meu filho, você vai descer e recolher todas aquelas penas e recolocá-las nesse saco.” “Mas mestre é impossível fazer isso! Não posso recolher todas aquelas penas, pois muitas voaram para longe.” E o mestre lhe disse: “Assim são as injúrias e calúnias que se faz contra um ser humano. Jamais poderão ser reparadas.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A Força da Fé! – por Carlos Eduardo Esmeraldo

A história que se segue, é mais uma das tantas que ficaram gravadas na minha memória. Eu a li há cerca de oito anos numa revistinha portuguesa deste novo milênio, porém escrita num estilo e grafia que, para nós brasileiros, eram parecidos com o que se escrevia por aqui cem anos atrás. Entretanto, ela nos revela a firmeza de caráter e a força do homem que tudo confia na providencia divina. E deste modo, encontra alento para superar os acontecimentos negativos que a vida nos reserva.

Há muitos e muitos anos, havia num certo país, um rei despótico que tinha um secretário muito temente a Deus. Para todo e qualquer acontecimento bom ou mal que sucedesse a esse secretário, ele sempre dizia:
– Se Deus permitiu isso, é porque foi para o meu bem!

O Rei já não agüentava esse seu secretário repetir essa cantilena o tempo todo, com tudo que acontecesse não somente a ele, mas aos outros também.

N
um lindo dia de verão, o rei e seus serviçais, incluindo o seu fiel secretário, foram a uma caçada. No meio da mata, surge de repente, um leão feroz que atacou o rei num local onde ele ficara sozinho. Quando os guardas ouviram o barulho, correram para salvar seu soberano, mas o leão já havia decepado um dos dedos da mão do rei.

O soberano ficou muito triste e revoltado com o que lhe sucedera. Blasfemava a todo instante por ter perdido um dedo. Do mais alto do seu orgulho, não aceitava reinar mutilado, como havia ficado. Então o seu bondoso secretário, desejando reanimá-lo, lhe disse:
– Senhor rei, se Deus permitiu isso é porque foi para o vosso bem!

O rei ficou muito indignado com esse seu servo e ordenou aos guardas que o colocassem na masmorra. E lá foi o leal secretário amargar resignado toda a humilhação que uma prisão reserva para qualquer ser humano.

Algum tempo depois, o rei que era viciado em caçadas e aventuras foi com um séquito de guardas a uma expedição numa região inexplorada. Como tinha por hábito afastar-se dos que lhe seguiam, caiu numa armadilha montada por canibais selvagens.

A tribo toda foi reunida para o ritual do sacrifício a que seria submetido aquele forasteiro, que se tornaria alimento, após a cerimônia. De nada valeu ele implorar que o soltassem, pois era um rei muito rico e poderoso. A tribo queria em poucos instantes deliciar-se com aquele manjar que os deuses mandaram de presente. O rei foi colocado num caldeirão de água, sobre quatro grandes pedras a lhe servirem de trempes. O fogo foi aceso e a água já amornada, iniciava a soltar pequenas bolhas. Homens e mulheres daquela tribo dançavam com grande euforia em volta do caldeirão, enquanto aguardavam o momento preciso da carne daquela vítima ficar pronta para o grande banquete. De repente o chefe da tribo ordenou:
– Parem o ritual! Este homem não pode ser sacrificado, pois está incompleto. Falta-lhe um dedo.
E assim o rei foi posto em liberdade, escapando por pouco de ser devorado.

Ao retornar ao seu palácio, o rei mandou trazer à sua presença, aquele secretário que mandara prender. Diante do servo, pediu-lhe mil desculpas. O secretário humildemente respondeu:
– Senhor rei, se Deus permitiu que eu ficasse preso foi para o meu bem!

Ao escutar essas palavras, o rei com muita surpresa, perguntou:
– Como ousas dizer isso? Fui muito injusto com você, um amigo de verdade, e você não ficou revoltado pelo que lhe fiz?
– Se Vossa Majestade não me tivesse mandado para a prisão, eu estaria ao lado do meu Senhor naquela caçada e, os canibais ao notar que eu estava inteiro, iriam me sacrificar, colocando-me no caldeirão de água fervendo para saborearem minha carne.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

domingo, 13 de dezembro de 2009

Premonição? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Naquela noite, inicio de dezembro de 1965, eu fui dormir pensando na viagem que faria ao Crato no dia seguinte. Um pouco de ansiedade me envolvia por completo. Primeiro pelas férias há tantos dias aguardadas. Depois pela viagem aérea que sempre me deixava um pouco tenso. Embalado por essa ânsia, adormeci e tive um sonho tão nítido quanto preocupante. Estávamos na nossa casa do São José e na sala de visitas havia um caixão de defunto. Um velório era acompanhado por muita gente do lugar. Cheio de curiosidade, olhei para ver quem era o morto. O velho Mamundo estava dentro do caixão completamente inerte. Uma tristeza invadiu minha alma, pois Mamundo era um personagem da minha infância. Ele era nosso vizinho de sítio, no São José e há muitos anos morava na nossa casa. Foi casado com uma prima de meus pais. Quando ele ficou viúvo, entrou num desespero de fazer pena, totalmente sem planos para enfrentar tamanha solidão. Meus pais convidaram Mamundo para passar alguns dias na nossa casa. E ele por lá ficou mais de trinta anos. Agora, num sonho estranho, ele jazia inerte naquele caixão. De repente uma das minhas irmãs disse: “Finalmente essa praga morreu!” Fiquei tão chocado com essa frase e mais ainda quando vi Mamundo levantar-se bruscamente do caixão e apontando o dedo para minha irmã disse: “Você está pensando que eu morri? Pois eu não morri, não! Quem vai morrer é seu pai!”

Acordei sobressaltado, olhei o relógio, três horas da madrugada. Não consegui mais dormir no restante daquela noite. Aquele sonho me deixou completamente preocupado, pois temia muito que meus pais morressem antes que eu concluísse meus estudos. A cada passagem do trem suburbano do outro lado da Ribeira, sentia-me no São José, com o tão familiar apito e o barulho dos rolantes dos trens. E um medo muito grande me encheu por completo. Aquele sonho mexeu comigo.

Durante o vôo não conseguia me livrar da preocupação que o sonho me trouxera. Bobagens, sonhos são apenas sonhos, talvez apenas projeções inconscientes dos nossos medos. Tentava desse modo me livrar daquele mau estar.
Quando o velho DC-3 pousou no Aeroporto de Fátima, de longe se avistava a pequena estação de passageiros. Tomei um susto porque não vi meu pai, que sempre costumava me esperar nessas viagens. Em seu lugar estavam dois irmãos. Mal desci do avião, perguntei a eles: “Por que papai não veio?” “Papai está doente. Apareceu um derrame abaixo das duas axilas.” Responderam. Novamente o sonho da noite anterior voltou a me incomodar.

Uma semana depois da minha chegada, um primo médico foi com meu pai ao Recife, onde na véspera do Natal daquele ano ele foi submetido a uma cirurgia para retirada dos gânglios sob suas axilas, tendo a biopsia constada que se tratava de melanoma, um dos tipos de câncer mais mortal. A previsão dos médicos era a de que ele teria no máximo três meses de sobrevida.

Meu pai viveu ainda seis meses. Durante esse tempo, ele tinha consciência do seu estado e enfrentou aqueles dias com muita serenidade e confiança, que somente a certeza dos que crêem na imortalidade da nossa alma podem ter. Nos seus últimos dias, nossa casa ficou repleta de familiares e de uma multidão de amigos, que a gente não imaginava que meu pai fosse tão querido.

Percebendo que suas forças estavam acabando, ele chamou os filhos para uma última conversa. Por ser o filho caçula, fui o último a ouvir suas palavras, quase num sussurro. Foi muita emoção! De imediato, eu não compreendi porque ele me agradeceu as alegrias que eu lhe havia proporcionado. Depois entendi que ele estava dizendo o que esperava de mim no futuro. E durante toda a minha vida, eu procurei norteá-la pelo exemplo de vida que meu pai deixou. Um homem honesto, correto, amigo de todos sem distinção e de uma postura moral irretocável. Agora, depois de quarenta e três anos daquela despedida, espero haver correspondido àquele agradecimento que, para mim foi um direcionamento para o futuro.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

De Crato a Assaré no início do Século Vinte - por Magali de Figueiredo Esmeraldo.


Hoje com estradas asfaltadas, com muita facilidade, saindo de Crato, chegaremos a Assaré com aproximadamente hora e meia de viagem. Entretanto, não foi assim no relato do meu tio José Alves de Figueiredo Filho. No seu segundo livro, “Meu Mundo é uma Farmácia” ele narra à aventura de uma viagem dele e de sua família aos sertões de Assaré, que tinham fama de clima saudável e abundância de leite. O objetivo dessa viagem era visitar a farmácia do seu tio Paulo Viana, em Assaré. Ele explica que esse seu tio, que era irmão da sua mãe Emília, minha avó, em plena adolescência teve que procurar lugares mais pobres para estabelecer-se com a sua farmácia.

Nessa viagem, além do tio José e do seu tio Paulo, participaram também os seus pais José Alves de Figueiredo e Emília Viana de Figueiredo, meus avós e Elisa Viana, irmã de sua mãe. Viajava junto também seu irmão Mário, que como ele, era ainda muito criança, um pouco mais velho. Esse irmão dele viria a falecer mais tarde, aos dezoito anos, de diabetes. Naquela época ainda não havia a insulina.

Além das pessoas citadas acima, acompanhavam essa viagem alguns trabalhadores da família, como arrieiros. Era época de inverno e as muitas chuvas contribuíram para que houvesse muitos atoleiros. Freqüentemente graças à perícia dos arrieiros os burros eram arrancados dos atoleiros.

Em conseqüência das chuvas torrenciais, ficaram acampados dois dias nas Guaribas, distante seis quilômetros do Crato. Somente depois que cessaram as chuvas eles seguiam viagem. As terras muito alagadas e com muita chuvas caindo obrigavam a caravana a parar de vez em quando.

O tio José narra com muito sentimento, o desconforto que ele e seu irmão sofreram durante a viagem, pois eles viajavam sentados em dois caixões, um de cada lado do burro. Além do mais, iam juntos com os jumentos que levavam a bagagem e os mantimentos e, por isso se sentiam muito humilhados. Esses caixões foram construídos pelo seu pai e eram cobertos por um toldo de lona para protegê-los do sol e da chuva. No meu entender, o meu avô teve a boa intenção de proteger os filhos que, por serem pequenos, não podiam viajar em cavalos. Só quem viajava a cavalo eram seus pais, o tio e a tia. No entanto, o meu tio José não justificava essa iniciativa de seu pai de construir tal caixão. Reclamava muito das dificuldades: sacolejos, atoleiros, unhas de gatos, galhos e espinhos que entravam pelas caçambas e os feriam, além dos chuviscos e orvalho que os ensopavam. E ainda se envergonhavam da maneira como viajavam, pois despertava a curiosidade da meninada.

Ao contar a história dessa aventura, tio José descreve a maneira como as mulheres montavam a cavalo. Sentavam de lado e não escanchadas, como os homens. A mãe dele tinha medo e, para vencer as dificuldades rezava com muita fé todas as jaculatórias que aprendera na adoração, sempre que o cavalo dava solavancos. Já a tia Elisa tinha muita coragem, mesmo sentada de banda, cavalgava bem, corria galopava e marchava no cavalo.

Ao meio dia era hora do descanso. A caravana se arranchava em velhas casas sertanejas alpendradas. Os arrieiros tiravam as cargas e selas e os animais iam pastar livres do peso. Os mantimentos eram tirados dos animais. Quem se encarregava de temperar os alimentos eram as mulheres e, quem cozinhava eram os arrieiros.

As redes eram armadas nos alpendres. Depois do almoço, todos descansavam e somente às duas horas da tarde davam prosseguimento à viagem. Depois de enfrentar todas as adversidades no percurso, sol quente e chuvas, ao entardecer paravam novamente em outra casa alpendrada. Era costume na época, qualquer viajante ter direito de abrigar-se à sombra da casa amiga e acolhedora. Tanto ricos como pobres eram bem recebidos. Ao construir casas alpendradas, o objetivo do sertanejo, além de se abrigar dos raios solares nordestino, era também acolher o transeunte.

A memória prodigiosa de José de Figueiredo Filho, o fez lembrar-se de toda essa aventura, incluindo os balanços na rede, cantando as cantigas da cultura cearense, na noite em que pernoitaram em Nova Olinda.

Aprendeu tais modinhas com Maria Carimbé que trabalhava para sua família. Anos depois ele recordava esses momentos, ouvindo nos programas radiofônicos a “Hora da Saudade” que tocava todas as cantigas daquela época.

Finalmente chegaram a Assaré em uma manhã nublada. Para entrarem naquela localidade, tiveram que passar por uma estreita parede de um açude. Quando entraram nas primeiras ruas, a garotada os seguiu com a curiosidade ainda mais aguçada, por ver os meninos viajando como se fossem carga. Não foram vaiados porque procediam de um local mais adiantado do que aquele, segundo conta tio José. Todos os atropelos e canseiras foram compensados pelas maravilhosas férias em Assaré.

Adaptado Por Magali de Figueiredo Esmeraldo de “Meu Mundo é uma Farmácia” de J. de Figueiredo Filho – Coleção Alagadiço Novo – UFC , 1996 - páginas 35-38

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Avidez humana! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Desculpem-me. Sei que muitos dos leitores por aqui não gostam de futebol. Mas o assunto que pretendo repartir com os amigos é sobre o desejo insaciável por lucros, vitórias e glória. Para isso, ignoram-se os sentimentos de afetividades que nutre e engrandece as relações de amor. Chega-se ao extremo de escravizar o homem, se possível. Que tem o futebol a ver com tudo isso?

Apesar das relações de trabalho de um jogador de futebol profissional terem evoluído para melhor nos últimos dez anos, houve época em que o atleta era um verdadeiro escravo. Preso definitivamente ao clube, não lhe era facultado o direito de livre transferência ou escolha da equipe em que gostaria de jogar. Submetia-se a dias seguidos de confinamento, sem contatos com a família e o mundo exterior, numa ociosidade a que ainda hoje os dirigentes de futebol teimam denominar de concentração.

Em 1946, D’Ávila era um esforçado jogador de meio de campo de uma das quatro grandes equipes de futebol do Rio de Janeiro. Não chegou a integrar a seleção brasileira, mas era muito importante para o esquema de jogo do seu time. Era um desses jogadores que desarmam os ataques da equipe adversária e ajudam a empurrar o seu time para frente. Geralmente esse tipo de jogador passa despercebido aos olhos da torcida.

O time de D’Ávila estava concentrado desde a segunda-feira à noite num casarão da zona sul da cidade do Rio de Janeiro, preparando-se para um jogo decisivo do campeonato. A mulher de D’Ávila fora hospitalizada naquele mesmo dia, com uma estranha doença. Mas os dirigentes do clube não consideraram esse fato um motivo justo para dispensá-lo da concentração. Não podiam prescindir daquele jogador na equipe.

Semana inteira de treinos à tarde e o restante do dia na mais completa ociosidade. Naquele confinamento desumano, a nenhum atleta era dado o direito de sair à rua, visitar a família, ou ao menos usar o telefone.

No domingo pela manhã, dia do jogo decisivo, uma freira que trabalhava no hospital onde estava internada a mulher de D’Ávila, telefonou para a concentração procurando falar com o jogador. Disseram-lhe que ele não podia atender. “Por favor, digam a ele que o estado de saúde de sua esposa se agravou e ela pede desesperadamente para falar com ele.” Insistia a irmãzinha reforçando a urgência da presença do jogador.

Os dirigentes da equipe acharam por bem nada comunicar ao seu atleta para que nenhuma preocupação viesse prejudicar seu rendimento no jogo. Afinal, iriam enfrentar um dos mais fortes rivais.

Na tarde daquele ensolarado domingo, D’Ávila se esforçou como sempre era seu costume, contribuindo para vitória do seu time num jogo decisivo.

Somente quando a partida terminou, entre tapinhas nas costas, os dirigentes comunicaram a D’Ávila para ir ao hospital com urgência, pois o estado de saúde da sua mulher havia se agravado. Ele imediatamente enxugou o suor do corpo com uma toalha, trocou de roupa, sem ao menos tomar banho e foi de taxi, o mais depressa possível, ao hospital.

Lá chegando, a irmãzinha lhe disse: “O senhor não tem coração? Telefonei várias vezes desde a manhã de hoje. Sua mulher passou o tempo todo querendo lhe falar e somente agora o senhor chega aqui?” “Mas eu vim assim que me disseram. Estava no jogo e vim o mais rápido possível.” Disse-lhe D’Ávila preocupado. “Agora é tarde! Sua mulher faleceu às três horas da tarde.” Respondeu a freira. Ao saber dessa notícia, D’Ávila desmaiou, voltando a si, somente algum tempo depois.

O desespero tomou conta de D’Ávila. Voltou ao casarão da concentração e não encontrou mais ninguém do clube, somente o caseiro e sua mulher. Então, munido de uma barra de ferro destruiu tudo que havia pela sua frente, não sobrando nem portas, nem janelas.

No dia seguinte, durante o enterro, diante de dirigentes do seu clube e dos colegas jogadores, D’Ávila desabafava, acariciando o rosto frio da sua amada: “Não me deixaram te dar um último beijo, mas você está vingada.”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
(Adaptado de "Os subterrâneos do Futebol" de João Saldanha, p. 60; José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1980)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mas que mancada!... Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Magali, minha mulher, costuma dizer que quando eu era criança bebi muito “água de chocalho”. Isto porque gosto de conversar com os amigos, contar os mais novos “causos”, enfim, jogar conversa fora. Principalmente quando ela deseja voltar para casa, após alguma reunião, ou mesmo na Igreja, terminada a missa. Com isto não me livro de pronunciar algumas besteiras, cometer algumas “gafes”, como diriam os mais grã-finos.

Há alguns dias, fomos convidados para jantar na casa do sogro de um dos meus filhos, que é caririense de Barbalha. A certa altura da conversa, o assunto enveredou sobre o famoso poeta cratense Zé de Matos, que no final do século XIX e inicio do século passado perambulava pelos pés de serra do Crato até Barbalha, bebendo cachaça e nos intervalos da bebedeira, trabalhando em tudo que era engenho de rapadura, pois era um dos melhores mestres do Cariri. Lembrei que meu pai, quando criança, conheceu Zé de Matos e sabia de cor muitos dos seus famosos diálogos versejados, como o que ele travou com o Quintiliano, acredito que no engenho de seu avô, o “Papai Zeco” dos Currais. Entre um verso e outro, relembrei um diálogo entre o famoso historiador cratense José Carvalho e Zé de Matos, contido em “O Matuto Cearense e Caboclo do Pará”. Quando passavam à cavalo pelo Sítio Brito, em Barbalha, o historiador era acompanhado por Zé de Matos. Ao avistarem uma bela casa na encosta da serra, o professor José Carvalho indagou: “De quem é aquela casa, tão bonita?” Então, eu declamei com voz um tanto quanto empostada, a resposta de Zé de Matos:

Você conhece os Coeios,
Proprietários do Brito,
Homens que são muito rico,
Mas são danados de feio?”

Essa casa é de um Coeio;
É do Coeio Vicente.
Que é de todos o mais feio
E tem um pézim doente!

Quando concluí, olhei para o meu anfitrião, e ele com muita serenidade, me respondeu: “Vicente Coelho era o meu avô.” Que mancada, havia esquecido que o homem era Coelho... Mordi a língua, como aconselhava minha mãe: “Quem muito abre a boca, termina mordendo a língua”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A MENINA E O DEDAL

A MENINA E O DEDAL

Episódio na feira do Crato - Memória de Infância de Jacinta Siebra de Brito

Ele era de plástico, verde-limão, todo furadinho e encaixou direitinho no meu dedo!
Estava misturado entre outros dedais de metal que eu já conhecia, desde não sei quando. A novidade é que aquele era colorido e de plástico. Que lindo!
Como sempre fazia todas as segundas à tarde, ia à feira, um dos meus passeios prediletos. Perambulava de banca em banca, em busca de encantamentos. Ficava feliz e animada!
No meu coração de menina de oito anos, aquilo era uma aventura perigosa, ir à feira apenas na companhia de uma amiguinha, e ficar passando pelas bancas sem nada comprar.
Certa vez, após termos parado na banca de filhós e gasto todas as moedinhas, mais adiante nos deparamos com outra banca cheia de novidades: miçangas coloridas e cintilantes. Aquilo brilhou diante dos meus olhos, pois eu jamais tinha visto tantas miudezas juntas: fivelas, marias-chiquinhas, broches, travessas, fitas de cetim de todos os tamanhos e cores, cianinhas, bicos, rococós, e dedais de todo tipo e cor, tão bonitos e diferentes!
Eu fiquei entusiasmada e parecia exaltar numa sensação de êxtase e desconforto.
O espelho não bastava para as duas amigas, uma ficava puxando da mão da outra, a provar tudo! Eu, na minha paixão por dedais, ficava a testar todos, chegando até a preencher todos os dedos das mãos e mostrando a amiga dizia:
- Olha que bonitinho! Acho que vou ser costureira.
A dona da banca, mulher simples, só olhava e deixava sair um breve e tímido sorriso, tanto quanto o meu, quando tentei tirar o dedal do polegar e não consegui. Em busca de um socorro, olhei para minha amiga, que nem se deu conta do meu vexame, pois estava muito ocupada a botar e tirar as miudezas. Pensei cá com meus botões... como é que uma pessoa com o nome de Socorro não percebe a minha aflição? Invadida por emoções fortes, eu não sabia o que fazer. Pedir para a amiga puxar o dedal na frente da dona da banquinha podia ser pior, pois se não saísse do dedo, como pagar se não tínhamos mais moedas? Entretanto, estava feliz e ao mesmo tempo assustada. O dedal colorido e brilhante não saiu do meu dedo. E agora?
- Como as moedas rendem pouco! Pensei indignada. Será que eu estava roubando? Não!
O dedal é que colou no meu polegar, e não queria mais se separar de mim.
No meu íntimo estava gostando daquele grude, apenas receava que a mulher percebesse o que eu estava levando na mão. Que situação! Passaria vergonha se fosse pega com o dedo colorido escondido por debaixo da prega da saia. E se tivesse um guarda ali, vendo tudo? Perguntava a mim mesma.
Olhei em volta e constatei que estava tudo bem. Que felicidade! Poderia voltar para casa sem ser vista. Nisso, aproveitando o momento que chegou uma mulher procurando elástico, dei um sinal de ir embora para a amiguinha, e nós saímos de fininho. Antes, disse encabulada para a mulher:
- A gente não vai comprar nada não, tá?
A mulher apenas abanou a cabeça consentindo. No caminho de casa fiquei olhando para todos os lados para ver se o guarda vinha E quando Socorrinho olhava pra mim com um “zoião” e perguntava: O quê que foi? ficava mais nervosa ainda e na minha fantasia o guarda já estava bem perto da gente; nisso eu enfiava cada vez mais a mão na prega da saia e sentia um conforto e gratidão por ela abrigar meu dedo. Não consegui responder nada pra minha amiga, estava confusa. Ao mesmo tempo desejava que o dedal não saísse do meu dedo, pois parecia um anel e imaginava que quando eu quisesse agradecer a alguém era só levantar o dedo, e surpresa...! Um dedo colorido.
Quando chegamos no cruzamento da rua Santos Dumont com a Bárbara de Alencar, Socorrinho avisa que vai subir pela Bárbara, pois ficava mais perto pra ela. Daí eu fui em frente com uma sensação de alívio, mas, ao mesmo tempo um medo de seguir sozinha, pensando agora que o guarda ia aproveitar para se aproximar.
Quando dobrei na esquina do bar de Cabral, para entrar na rua Pedro II, onde morava, esqueci o guarda e fiquei matutando o que ia dizer em casa. Estava emaranhada em meus sentimentos, uma mistura de alegria, medo e desconfiança.
Eu jamais tinha experimentado aquela sensação: um misto de contentamento com algo que ainda não conseguia entender.
- Que será isso que se passa comigo? Me perguntava confusa.
Quando cheguei em casa que vi minha mãe, senti que ela lia minha alma e resolvi desabafar:
- Ó mãe um “copinho” que a mulher me deu na feira!
Minha mãe pressentindo algo disse:
- Que história é essa? Porque uma mulher havia de dar um dedal a uma menina? Isso é um dedal que as costureiras usam para não furar o dedo com a agulha!
O comentário da minha mãe me trouxe à realidade. Claro que eu sabia, mas estava querendo enganar-me, pois já tinha visto aquele dito “copinho” nos dedos “das Costa”, as irmãs costureiras, que faziam meus vestidos para a festa da padroeira da cidade.
Como que acordando de um sonho, reconheci que não podia haver segredo entre nós! Tomei coragem e disse:
- Não, mãe, foi que eu fui experimentar e ficou preso no meu dedo.
Para mim parecia mais fácil e leve aceitar essa versão. Minha mãe, paciente, orientou-me a lavar as mãos com sabão para soltar o dedal e devolvê-lo imediatamente.
Pronto! Agora, sem ter o fiel dedal colado ao meu dedo, constrangida pensava: - que desculpa arranjar para a mulher das miçangas? Queria a companhia de uma amiguinha para me dar cobertura e segurança. Chamei algumas, mas nenhuma quis acompanhar-me.
E assim fui criando coragem de ir sozinha, pensando agora em como falar com a mulher.
No caminho de volta à feira, resolvi fazer um percurso mais longo pela rua detrás, prá dar tempo de pensar no que dizer. Ensaiei várias versões pra entregar o dedal, e antes mesmo de chegar lá já sabia como falar:
- Éi! Minha mãe disse que eu viesse devolver esse negócio que ficou agarrado no meu dedo!
A dona da banca apenas abanou a cabeça e resmungou:
- Huuum!
Fiquei admirada, pois a mulher não brigou comigo. Aliviada, percebi que meu erro tinha sido reparado. Mesmo assim, ainda sai olhando para trás com medo que a dona das miçangas chamasse o guarda.
No retorno para casa, ainda apreensiva, notei que soluçava muito e o coração batia rápido. Estava na espreita de uma surpresa, quem sabe o guarda poderia tocar no meu ombro...
Já nos arredores da feira, um pouco antes da esquina de Cabral, encontrei Helena, a namorada do meu irmão. Ela estava com um vestido azul celeste, decotado, que combinava e reluzia nos seus olhos verdes. Sorrindo alegre como sempre, Helena foi logo perguntando por Pedro. Tentei responder, mas não parava de soluçar.
Daí então, Helena soltou um disparate:
- Eu vi você roubando aquela caixinha de lápis de cor na feira!
Assustada exclamei:
- Euú!? E a outra retrucou: - Você mesma!
Nesse momento livrei-me do soluço e falei gaguejando:
- Mas... eu, eu, eu não, não... Eu tentava traçar uma desculpa, pois no meu pensamento a moça esperta havia assistido minha aventura e para não ser direta trocou o dedal por lápis de cores. Lembrei nesse instante que na banquinha tinha também material escolar.
Helena vendo a minha aflição disse:
- É brincadeira, menina! Foi só um susto prá passar teu soluço!

TRADIÇÃO ORAL - BISAFLOR CONTA HISTÓRIAS

No seu constante viajar de contadora de histórias, Bisaflor foi bater em Fortaleza. Walda, filha de Adalgisa, uma antiga amiga, a recebeu na sua casa e promoveu uma animada roda de contação de histórias. Vieram todas as crianças da redondeza e muitos adultos também, inclusive Magali e Carlos, com os netos. Bisaflor contou muitas histórias, e as crianças Lourenço, Vitória e Gabriel pediram que contasse “de novo” a da “vovó peluda”

VOVÓ OGRA TÃO PELUDA

Certa vez uma mãe mandou a filha ir à casa da avó pedir uma peneira emprestada. Após preparar a cestinha com a merenda (roscas e pão feito com óleo), a menina seguiu para a casa da avó. No caminho ela teria que atravessar o rio Jordão, e, lá chegando, pediu que o rio a deixasse passar.
- Deixo sim, se você me der as roscas da sua cestinha.
A menina já sabia que o rio Jordão adorava brincar com as rosquinhas, rodopiando-as nos seus redemoinhos. Deu-lhe todas as roscas da cesta.
O rio abriu-se e a menina passou. Andou, andou até chegar em frente à Porta Gradeada.
- Porta Gradeada, me deixa passar?
- Se você me der o pão com óleo, já está do outro lado.
A Porta Gradeada tinha um fraco por pão fritado no óleo, só porque o óleo untava suas dobradiças enferrujadas.
A menina deu-lhe o pão e a porta se abriu, deixando-a passar.
Quando chegou à casa da avó, encontrou a porta fechada. Chamou, pedindo que abrisse a porta. De dentro de casa veio a resposta:
- Estou acamada, não posso levantar-me, entre pela janela.
- É alta, não alcanço.
- Ah, entre pela gateira.
- Ora, não posso, vovó.
- Aguarde um pouco que vou jogar uma corda e te puxar pela janela.
Quando subiu, a menina achou o quarto escuro, mas, até então, não desconfiou de nada. Nem imaginava que era a Ogra quem estava na cama, muito menos que ela havia engolido sua avó, inteirinha, deixando apenas os dentes, que colocou pra cozinhar, e as orelhas que estavam sendo fritadas numa frigideira.
- Vovó, mamãe mandou buscar a peneira.
- Amanhã você leva, está tarde para voltar. Deite-se comigo.
- Mas tenho fome, vovó, que vou comer?
- Tem feijão cozinhando na panela.
A menina mexeu o conteúdo da panelinha, que eram os dentes da avó, e falou que estavam muito duros.
- Tem umas fritadas prontas. Sirva-se.
Na frigideira estavam as orelhas. A menina tocou-as com o garfo, não estavam no ponto.
- Vovó, a fritada não está crocante, não quero.
- Não há outra coisa para você comer, venha deitar-se.
A menina acomodou-se na cama, perto da avó. Admirou-se de suas mãos peludas:
- Nossa! Como suas mãos são peludas, vovó.
- Ah, isso é por causa do monte de anéis que eu usava nos dedos.
Tocou no peito da avó.
- E seu peito, vovó? Por que é tão peludo?
- Eu usava inúmeros colares no pescoço, com muitas contas, muitas correntes, aí ficou assim.
Tocou nos quadris da avó.
- Por que tem os quadris tão peludos, vovó?
- Passei muitos anos usando um espartilho muito apertado, o resultado foi esse que você está vendo.
A menina pegou em sua cauda, achou muito estranho, a avó jamais teria um rabo, podia até ser tão peluda, mas ter rabo já era demais. Matou a charada na mesma hora: aquela só podia ser a Ogra e não sua avó. Falou, então:
- Vovó, preciso fazer uma necessidade antes de dormir.
- Então vá até a estrebaria, eu lhe ajudo a descer pelo alçapão, depois que você fizer sua necessidade eu puxo a corda novamente.
Quando a menina chegou lá embaixo desamarrou-se e começou a prender uma cabra na corda. A avó perguntou se ela já tinha terminado.
- Espere só um pouquinho, vovó.
Ela precisava de um tempinho mais para prender a cabra bem firme.
- Pode me puxar agora, vovó.
Mal a Ogra começou a puxar a corda, a menina pôs-se a xingar:
- Ogra peluda! Ogra peluda!
Abriu a estrebaria e pernas pra que te quero! Enquanto isso a Ogra puxava a corda e quando avistou a cabra, pulou da cama e disparou em correria atrás da menina.
Ao avistar a Porta Gradeada, já de longe gritou:
- Porta Gradeada, não deixe essa menina passar.
- Não tenho motivos para isso, ela me deu pão com óleo.
Perto do rio Jordão, a Ogra voltou a gritar:
- Rio Jordão, não baixe suas águas, não deixe a menina passar.
- Claro que eu vou baixar minhas águas, ela me deu rosquinhas.
Quando a menina acabou sua travessia, as águas voltaram a subir, no mesmo momento em que a Ogra chegou à beira do rio. E como vinha em louca correria, atirou-se na água e foi arrastada pela correnteza.
Do outro lado do rio, a menina se divertia fazendo mungangas para ela.
- Bem feito Ogra peluda! Vai morrer afogada!
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

As Histórias dos Outros – I: O Fujão – por Carlos Eduardo Esmeraldo

Há alguns anos, comprei na Livraria Siciliano o livro “Minhas Histórias dos Outros”, do jornalista Zuenir Ventura. O título desse livro me deu a idéia de narrar, ao meu modo, as histórias dos outros que li e contei aos amigos em bate-papos informais. Inicio com a aventura de um ilustre cratense, acontecida há quase noventa anos.
***
Ano-novo de 1921 e o jovem Zezinho, aos 17 anos, fora mandado pelo pai à Fortaleza para tentar ingressar no curso de Farmácia. Até então levava uma vida de estudo, conciliada com muito trabalho na farmácia do pai. Tinha como diversão somente a escuta das conversas noturnas na botica de seu pai. Médicos, advogados, comerciantes e políticos do Crato ali se reuniam todas as noites para comentarem os assuntos da política, contarem “causos”, anedotas e falarem sobre literatura e outros assuntos da terra. Aquelas conversas eram instrutivas e inspiravam no jovem Zezinho o gosto pelos estudos e pela leitura.
Ao chegar a Fortaleza, Zezinho se extasiou com as opções de lazer que a capital oferecia, bem diferente daquela vidinha rotineira de um Crato, ainda província. Livre de qualquer censura passou a desfrutar de uma intensa vida social. Eram espetáculos teatrais, clubes de danças, serestas, bares e tantas outras coisas desconhecidas por ele. Não havia tempo para se preocupar com os estudos.
Certa vez, o senhor Pedro Pequeno, um rico comerciante cratense se hospedou com suas filhas na pensão em que Zezinho se alojara. Percebendo que o jovem cratense não freqüentava o curso preparatório e vivia se divertindo, segredou a um companheiro, sem perceber que o estudante, sentado numa mesa atrás, a tudo escutava: “Esse filho do nosso boticário não está estudando nada. É direto na farra! Quando chegar ao Crato eu vou contar tudo o que vi ao pai dele.” E o nosso Zezinho, admirador da beleza de uma das filhas daquele comerciante, transformado repentinamente em seu zeloso guardião, passou a achá-la feia e chata. “Quem diria que aquela moça magrinha e muito elegante viria a ser a minha esposa?” Indagava ele anos depois.
Zezinho estava consciente de que se voltasse ao Crato reprovado no vestibular seria severamente castigado pelo seu autoritário pai. Influenciado por Freitas, um colega de Recife, seu companheiro de pensão e festanças e, como ele, sem dar bolas para os estudos, resolveu partir para São Paulo em companhia do amigo, onde segundo pensavam, haveria emprego farto. Porém o dinheiro de que dispunha somente dava para a passagem de navio até a cidade de Recife. Mas o colega pernambucano lhe prometera que na sua cidade arranjaria com seus pais dinheiro suficiente para custear a despesa com a viagem dos dois até São Paulo. Assim sendo, tomaram o vapor “Acre” e zarparam do Mucuripe. À medida que o navio se afastava, Zezinho tinha a impressão que o farol piscava dando-lhe um saudoso adeus.
Ao chegarem a Recife, após dois dias de uma viagem na qual Zezinho passou a maior parte vomitando, ele se hospedou na pensão de um português. Estava fascinado pelos grandes sobrados, o movimento de veículos e as belas pontes daquela cidade. No dia seguinte, procurou Freitas, seu colega e companheiro de aventura. Este lhe comunicou que não mais iria seguir viagem, pois seus pais convenceram-no ficar em casa, e arranjaram para ele um bom emprego no jornal “Diário de Pernambuco”. Zezinho teve uma grande decepção. Estava sem dinheiro em terra estranha. Lembrou-se de Cavalcanti, um viajante, representante de medicamentos que frequentemente visitava a botica do seu pai. Contou-lhe sua situação e este o aconselhou a voltar para o Crato. Com a ajuda de Cavalcanti, Zezinho tentou arranjar emprego até juntar o suficiente para seu retorno ao Crato, como dizia a Cavalcanti. No íntimo, sabia que era outro seu objetivo. Acompanhado por Cavalcanti, visitaram várias farmácias do Recife, sem, contudo obterem êxito.
Após dois meses de tentativas frustradas, Zezinho não desistira de ir para São Paulo. Procurou então o Coronel Granja, abastado homem de negócios do Recife, que vivera muitos anos no Crato, onde se tornara amigo de seu pai. Contou ao coronel que desejava retornar à casa paterna, mas estava sem dinheiro. O coronel Granja, confiante na lisura do boticário cratense, ofereceu-lhe a quantia que ele precisava. Tão logo recebeu o dinheiro, Zezinho comprou passagem para São Paulo, embarcando no mesmo vapor Acre, que o trouxera de Fortaleza. Três dias depois, numa ensolarada tarde, aportaram em Salvador. O navio somente seguiria viagem pela madrugada e, os passageiros poderiam sair para conhecer a cidade. Zezinho andou de elevador, subiu e desceu o Plano Inclinado, visitou o Pelourinho, a Baixa dos Sapateiros, onde à noite assistiu a um espetáculo teatral no Cine-Teatro.
De volta ao navio, um jovem da polícia marítima encontrava-se à entrada. O comandante disse: “É esse aí!” Então o policial marítimo segurou Zezinho pelo braço e lhe disse: “Você não poderá seguir viagem. É menor, está desacompanhado e não tem autorização de seus pais.”
Aconteceu que no Recife, um jovem estudante cratense, que fora companheiro de infância de Zezinho, sabia dos planos do amigo e avisou ao Coronel Granja. Não haveria tempo para comunicar ao boticário do Crato. Então o coronel entrou em contato com a chefatura de polícia, que comunicou aos seus colegas da Bahia.
O jovem policial que o prendeu, viu nele apenas um jovem dominado pela aventura de viajar. Levou-o para passar o restante da noite em sua residência, próxima ao Largo Dois de Julho, onde Zezinho dormiu tranquilamente numa cadeira preguiçosa na sala de visitas. Ao despertar, surpreendeu a conversa do jovem policial com sua mãe, que o recriminava por ter levado um estranho à sua casa. Entretanto aquela recriminação da velhinha baiana não aborrecera Zezinho. Sentia-se com a sua viagem, participante de uma aventura de folhetim ou herói de fita de cinema. Na delegacia, o delegado tratou-o com muita cordialidade, como bem sabem fazer os baianos. Perguntaram-lhe se ele possuía algum parente ou conterrâneo em Salvador. Lembrou-se do doutor Dario Peixoto, um cratense ali residente, antigo amigo do seu pai. Este procurou o chefe de Polícia, o Conselheiro Seabra. Em seguida ficou quinze dias em Salvador, numa pensão cheia de estudantes, aguardando decisão de seu pai. No dia seguinte, os estudantes lhe mostraram as manchetes dos jornais, num deles, estava escrito, “Um menor fujão”; em outro, “Abandonou a casa paterna”, sugerindo que ele deveria ser recebido em casa com uma boa sova.
Em seguida, conforme determinação de sua casa, o fujão voltou para o Crato num trem até Juazeiro da Bahia e Petrolina. O restante da viagem foi feito em lombo de burro, em companhia do arrieiro Antonio Paixão. Oito dias, tempo de duração daquela enfadonha viagem. À medida que se aproximava do Crato, Zezinho não sentia alegria, mas a certeza de que uma grandiosa surra lhe aguardava. Tinha medo de prestar contas ao seu pai e mais ainda das lágrimas de sua mãe.
Chegando ao Crato, foi salvo por seu irmãozinho Aníbal, que acabara de nascer. Seu pai, conhecido em todo o Crato por Zuza da Botica, para não contrariar a mulher em seu “resguardo”, substituiu a surra que deveria ter aplicado no futuro farmacêutico, escritor e historiador cratense, J. de Figueiredo Filho, por dois anos de trabalho como operário na sua Farmácia Central.
(Adaptado por Carlos Eduardo Esmeraldo, do capítulo “Batendo Asas” do livro “Meu Mundo é uma Farmácia”, de J. de Figueiredo Filho, p. 61 a 71)