Criadores & Criaturas
"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata."
(Carlos Drummond de Andrade)
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sábado, 26 de dezembro de 2009
Secreto- por Ana Cecília S.Bastos

Chove sossegadamente na cidade.
Coração aquecido, reúne memórias de cidades quando chove.
Era menina e a cidade movia-se através da vidraça,
sossegada, porque chovia.
A doçura da grande cidade sobre a chuva ...
O silêncio, os olhares úmidos e limpos.
Como se a cidade fosse, na chuva, a revelação de um segredo.
(Ana Cecília)
A poesia de CACASO

Cacaso
(Antônio Carlos Ferreira de Brito)
Descartes
Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho
Fatalidade
A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
farão assembléias de emergência.
Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.
(Antônio Carlos Ferreira de Brito)
Descartes
Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho
Fatalidade
A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
farão assembléias de emergência.
Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.
Meio termo
Meio termo
(Lourenço Baêta e Cacaso)
Ah! como eu tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor
como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto
como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto
o sentimento mais breve
rola no ar e descreve a eterna cicatriz
mais uma vez,
mais de uma vez,
quase que fui feliz!
(Lourenço Baêta e Cacaso)
Ah! como eu tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor
como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto
como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto
o sentimento mais breve
rola no ar e descreve a eterna cicatriz
mais uma vez,
mais de uma vez,
quase que fui feliz!
Cacaso - Édma Cristina de Góes

Cacaso: poeta em eterno exílio
04.12.2004
“Minha pátria é minha infância/Por isso vivo no exílio”. Roberto Schwarcz talvez tenha sido quem melhor interpretou a figura de Cacaso, com suas complexidade e simplicidade revezando-se. Ensaísta, letrista, desenhista, principal articulador e teórico da poesia marginal, Cacaso era um menino, na leveza e busca exaustiva pela liberdade. Os poemas de “Na corda bamba”, agora reeditados pela Editora Bem-te-vi, são um tributo a esse espírito de menino, que mexe, inconforma-se, retruca e termina se rendendo, ao menos à poesia
Antônio Carlos Ferreira de Brito (1944-1987) é mineiríssimo de Uberaba. Aos doze anos, ganhou página inteira de jornal por causa de suas caricaturas de políticos. Isso antecipou o artista que viria a ser ou já o era. Mas a poesia terminou se antecipando aos traços e, antes dos vinte anos, ingressou na palavra escrita, através de letras de sambas com os amigos Elton Medeiros e Maurício Tapajós.
Seu primeiro livro, “A palavra cerzida”, foi lançado em 1967, mas, na avaliação da crítica Heloísa Buarque de Hollanda, ainda tímido e contido diante da profusão posterior vivida. Segundo ela, “dentro dos padrões literários do momento”. Seguiram-se “Grupo escolar” (1974), “Beijo na boca” (1975), um dos mais conhecidos, “Segunda classe” (1975), “Na corda bamba” originalmente lançado em 1978 e “Mar de mineiro” (1982).
Os poemas de Cacaso não só o revelaram uma das mais criativas vozes daqueles anos de ditadura e desbunde, como ajudaram a dar visibilidade e respeitabilidade ao fenômeno da “poesia marginal”, em que militavam, direta ou indiretamente, nomes como Francisco Alvim, Helena Buarque de Hollanda, Ana Cristina Cézar, Charles, Chacal, Geraldinho Carneiro, Zuca Sardhan e outros. No campo da música, os amigos e parceiros se multiplicavam na mesma proporção. Em 1985 a Editora Brasiliense publicou a antologia “Beijo na boca e outros poemas”. Em 1987, no dia 27 de dezembro, Cacaso foi embora, vitimado por um enfarto no miocárdio.
A crítica considera o quase anonimato de sua obra, por mais de quinze anos, indiferente diante da forte referência para os poetas da geração de 80 e 90. A edição de sua obra completa, “Lero-Lero”, foi a redescoberta do poeta mineiro. Ele foi único num momento em que a poesia foi eleita como forma de expressão predileta da geração que experimentou os anos de chumbo. Heloísa Buarque de Hollanda nos adverte: “pensar sua poesia sem pensar na sua vida é quase errado”.
Cacaso era um retrato de 68: cabeludo, óculos John Lennon, sandálias, meia soquete branca, paletó vestido em cima de camisa de meia, sacola de couro. E mesmo se o ambiente variava, ele continuava com esse ar, mineiro do interior, irônico por vocação, intelectual trajado de “porra-louca”.
No poema que dá nome ao livro, “Na corda bamba” Cacaso diz: “Poesia/ Eu não te escrevo/ Eu te/ Vivo/ E viva nós!”. Não se trata de um verso breve e inocente. É exatamente o contrário. Pulsivo e profundo, aparente gratuidade, marca da poesia marginal. Essa poesia surge no limite entre a vida e a obra, podendo a poesia desaparecer, por estar na corda bamba, efetivamente. Cacaso equilibra-se entre essas partes do todo. Enquanto os Outros se preocupavam com o concretismo e liam Ezra Pound, Cacaso preferiu Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Carlos Drummond. A familiaridade com a teorização levou o poeta, bacharel em Filosofia, a elaborar vários estudos críticos. No artigo “Alegria da Casa”, de 1980, diz: “O modernismo, para quem a criação é igual à realização, em ato, de um ideal, é portanto um esforço empenhado em prol da gratuidade, da autonomia das coisas e dos valores, um jeito de constranger para que a espontaneidade pudesse aflorar sem constrangimento, o que em si já configura um paradoxo”.
Mao Tsé-Tung - político e revolucionário chinês

A Revolução Cultural promovida por Mao perseguiu intelectuais e velhas lideranças do PC
Fundador da República Popular da China e um dos mais proeminentes teóricos do comunismo do século 20, Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong) desenvolveu idéias sobre revolução e guerrilha que influenciaram marxistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde o PC do B - então na clandestinidade e ligado à China - desenvolveu ações guerrilheiras durante a década de 1970.
Mao nasceu numa família de camponeses, mas recebeu uma educação esmerada. Desde jovem, porém, revoltou-se com a situação social opressiva de seu país e foi um dos fundadores do Partido Comunista Chinês. Durante os anos 1920, conjuntamente com o Kuomitang - ou Partido Nacionalista Chinês - organizou sindicatos e entidades de classe operárias e camponesas. Em 1927, ocorreu o rompimento entre os dois partidos e teve início o processo revolucionário chinês.
Durante os anos seguintes, após um levante fracassado em Hunan, Mao estabeleceu sovietes no interior do país e organizou o Exército vermelho. Em 1931, foi eleito presidente da República Soviética da China, com base na província rural de Jiangxi. Depois de diversos enfrentamentos com os nacionalistas, e quase derrotado, Mao conduziu o Exército vermelho pela chamada "Longa Marcha", percorrendo 10 mil quilômetros até a província de Shensi. Tornou-se assim o principal líder comunista do país.
Durante a Segunda Guerra Mundial, comunistas e nacionalistas continuaram guerreando entre si, mesmo combatendo os japoneses que invadiram o país. A guerra civil chinesa foi em frente após a derrota do Japão e resultou na tomada da China continental pelos comunistas, que forçaram os nacionalistas a se fixar em Formosa (Taiwan), criando uma divisão do país que permanece até os dias de hoje.
Em 1949, foi fundada a República Popular da China. Mao tornou-se seu presidente, assim como secretário-geral do Partido Comunista Chinês. No entanto, a China era um país atrasado em termos econômicos e industriais. Na tentativa de resolvê-los, usando como combustível a ideologia revolucionária, Mao lançou em 1958 a política que chamou de "Grande Salto para a Frente", com o intuito de industrializar o país.
Essa política revelou-se desastrosa. Não só não conseguiu a industrialização do país como matou de fome cerca de 20 milhões de chineses (estimativas mais recentes mencionam 70 milhões). Isso resultou também na ruptura com a União Soviética que cortou seu auxílio à China. Mao acusou os soviéticos de traidores do marxismo e de "revisionistas".
Após um breve período em plano secundário, Mao retornou ao poder promovendo o que chamou de Revolução Cultural (1966-1976). Através dela, mobilizou as massas contra as velhas lideranças do Partido Comunista Chinês, a quem acusava de burocratização ao estilo soviético. A criação de grupos armados de estudantes, que perseguiu intelectuais, professores e antigos membros do PC, acabou resultando num banho de sangue cujas mortes ainda não podem ser calculadas, dado ao fato de a ditadura comunista chinesa persistir e impedir as investigações.
Vale mencionar que, enquanto os massacres varriam a China, os intelectuais ocidentais garantiam que tudo não passava de propaganda anticomunista e filósofos do porte de Jean-Paul Sartre se proclamava maoísta, tecendo louvores à Revolução Cultural.
Em 1976, porém, com a morte de Mao, o processo se interrompeu. A viúva de Mao, Jiang Qing, que tentou sucedê-lo, não conseguiu se manter por mais de poucos meses no poder. Os oponentes de Mao que lhe haviam sobrevivido, liderados por Deng Xiaoping, deram um golpe de estado e imprimiram novos rumos à China - sem desviar da política ditatorial do partido único.
uoleducação
Henry Miller

Desejo dar uma volta por aquelas altas e áridas cordilheiras de montanhas onde se morre de sede e frio, por aquela história "extratemporal", aquele absoluto de tempo e espaço onde não existe homem, nem fera, nem vegetação, onde se fica louco de solidão, com linguagem que é de meras palavras, onde tudo é desengachado, desengrenado, sem articulação com os tempos. Desejo um mundo de homens e mulheres, de árvores que não falem (porque já existe conversa demais no mundo!) de rios que levem a gente a lugares, não rios que sejam lendas, mas rios que ponham a gente em contato com outros homens e mulheres, com arquitetura, religião, plantas, animais - rios que tenham barcos e nos quais os homens se afoguem, mas não se afoguem no mito e lenda e nos livros e poeira do passado, mas no tempo e no espaço e na história. Desejo rios que façam oceanos como Shakespeare e Dante, rios que não se sequem no vazio do passado. Oceanos sim! Tenhamos novos oceanos que apaguem o passado, oceanos que criem novas formações geológicas, novas vistas topográficas e continentes estranhos, aterrizadores, oceanos que destruam e preservem ao mesmo tempo, oceanos nos quais possamos navegar, partir para novas descobertas, novos horizontes. Tenhamos mais oceanos, mais convulsões, mais guerras, mais holocaustos. Tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucura, um mundo que produza extâse e não peidos secos. Creio hoje mais do que nunca é preciso procurar um livro ainda que de uma só grande página: precisamos procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, tudo quanto contenha minério, tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma.
Henry Miller
Janelas Para a Alma: Mandalas (Para Socorro Moreira)
Símbolos do psiquismo humano, as mandalas têm o poder de nos levar à introspecção e nos colocar em contato com os níveis mais profundos da nossa consciência.
Texto: Paulo Urban/Ilustrações: Mônica Facó- Todas as ilustrações deste artigo, com exceção da abertura (de Rogério Borges), são de Mônica Facó, que trabalha com artesanato gráfico, mandalas e cartões; Paulo Urban é médico psiquiatra, acupunturista e terapeuta junguiano
Mandala é um termo sânscrito, que se traduz por círculo mágico. Mas, na tradição hindu, seu conceito expressa muito mais do que as palavras que possam defini-lo. O dicionário de Aurélio Buarque de Holanda aceita o termo, registra-o como substantivo feminino e o explica como imagem do mundo e instrumento para a meditação. Em seu estado original a palavra é oxítona de gênero masculino, pronunciada abertamente: man-da-lá. Não somente designa um mantra, mas o vivifica por ser ela própria o movimento.
Mantras são sons vocálicos, puros ou combinados, passados dos mestres aos discípulos. Costumam ser verbalizações secretas de poder, transmitidas como fórmulas rituais particulares, usadas para fins iniciáticos; mas há mantras de domínio geral, aplicados à coletividade, especialmente devotados ao despertar psíquico, ou proferidos em prol da paz ou saúde do planeta.
Quando escritos, os mantras assumem a forma de seu equivalente gráfico, os iantras, figurações que tendem à simetria geométrica e se comportam também como raízes gráficas (chamadas mula-iantras) dos diferentes mantras e demais termos que deles se derivam. Os iantras nada mais são que o suporte, o arcabouço linear dos mantras. Mas estão muito além do conjunto correlato de letras que se combinam para criar vocábulos nos idiomas ocidentais, já que o hinduísmo considera que as palavras têm vida, que toda vogal é extensão das notas musicais da voz divina. Os mantras, portanto, são a alma dos iantras, o espírito por detrás da matéria que o Verbo cria e denomina.
Representações mandálicas são sublimes; suas formas representam a combinação perfeita entre os mantras e seus respectivos iantras. No tantrismo, prestam-se à meditação; comumente as vemos pintadas ou riscadas no chão, feitas de sementes ou grãos de areia, usadas para delimitar locais sagrados, como o altar dos templos, ou áreas destinadas a procedimentos ritualísticos específicos.
Assim como o fogo, as mandalas têm ainda a propriedade de nos prender a atenção, de nos convidar à introspecção, à percepção de seus aspectos, de seu arranjo harmônico, que se distribui num quatérnio espacial.
Tal como a água, deleitam-nos a ponto de nos fazer tranqüilos; propiciam à mente que se distancie dos problemas imediatos, induzindo-a ao exercício da contemplação. Efeito semelhante ocorre quando observamos peixes num aquário em seu vaivém constante, em sua dança circular que nos acalma. Mandalas são, portanto, todas as formas que nos permitem penetrar no jogo das vibrações que constituem o universo. São portas quânticas para outros níveis de consciência, verdadeiras bases de lançamento de nossas naves Enterprises, no seio das quais viajamos a lugares onde nenhum homem jamais esteve.
As mandalas selam o sacramento de nossa união com o cosmos. São veículos para o religamento de nossa consciência com a fonte absoluta de onde provimos. Na tradição tibetana, são guias imaginários e provisórios da alma; orientam-nos em nossa prática meditativa e transmitem o equilíbrio com que se distribui a essência divina, cuja ubiqüidade jamais permite que a capturemos em nossas mãos. Concordante é o pensamento do filósofo medieval Nicolau de Cusa (1400-1464): “Deus é uma esfera cujo centro está por toda parte, embora suas circunferências não O delimitem em parte alguma.”
Do círculo divino, forma absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais.
O círculo é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais. Comecemos pelo ponto, virtualidade sem a qual o mundo inteiro não estaria manifesto; de sua natureza se estende a cruz, segundo elemento, que, ao girar sobre si mesma, produz o círculo. Este, por ser perfeito, sem começo, meio ou fim, diz respeito ao mundo divino, ou à imagem de Deus quando quer que O representemos pelo oroboro (a cobra que morde o próprio rabo), a simbolizar a vida que, perenemente, se devora e se transforma. Do círculo divino, forma absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais, representando a Terra e todas as criaturas.
Ancorado sobre seus quatro lados, o quadrado tende à estabilidade, contrastando com o dinamismo da roda ou do círculo, que é puro movimento. Em oposição ao céu, o quadrado designa o plano terreno em que se manifestam todas as coisas criadas. Altares e templos comumente são quadrangulares ou retangulares; sob essas formas também se organizavam as cidades antigas, bem como as fortalezas e os acampamentos militares. No campo das religiões, observemos a Caaba, de Meca, templo máximo do islamismo. A pedra cúbica significa a divindade dando fundamento a toda a humanidade, ao mesmo tempo em que sustenta, feito pilar supremo, a abóbada celeste, outra representação da morada de Deus. Ademais, em época anterior ao Islã, Meca era chamada por Umm-al-Qura, ou “Mãe das Cidades” (Corão, 6, 92 e 42,5), sendo considerada, tal qual o templo apolíneo de Delfos, o Umbigo do Mundo.
Em outros casos, é o círculo que delimita lugares consagrados ao divino, como, por exemplo, o enigmático templo rochoso de Stonehenge, construído, entre 2600 e 1700 a.C., a partir de conhecimentos astronômicos de espantosa precisão. Curiosamente, a palavra inglesa usada para designar igreja, church, provém do escocês antigo kirk, que, além de templo, significa círculo.
Na verdade, toda forma circular, quadrangular ou qualquer outra que insinue a presença de um centro em torno do qual todo um complexo se organiza pode ser tida como uma forma mandálica. Não foge à regra a Távola do Rei Arthur, circular e orientada em torno do Graal, símbolo do ideal comum de integração e transcendência.
Mandalas podem ser consideradas sagradas por tudo isso. Ao sintetizarem os conceitos de mantra e iantra em todas as suas possíveis combinações, revelam, por imagens que nunca se repetem, a infinita variedade do potencial divino. Quando quer que meditemos incursos na harmonia de seus desenhos, mais prontamente nos alçamos em espiral, projetando-nos em torno do rabo da serpente e nas asas da espiritualidade.
A tradição alquímica propõe que os filósofos, mediante a pedra filosofal, ou por meio do elixir da longa vida, atinjam o fulcro do derradeiro mistério oculto na quadratura do círculo. Metaforicamente, “quadrar” o círculo é fazer caber no plano humano (o quadrado) toda a dimensão divina (o círculo).
Muito antes de os alquimistas medievais terem nascido, os pitagóricos (século 6 a.C.), herdeiros dos ritos órficos, viam na tetrakys, ou tétrade sagrada, a base de sua doutrina, que faz do 10 um número perfeito, resulta- do da soma do quatérnio básico (1+2+3+4=10), do qual emana toda e qualquer forma vivente. “O Universo é número”, dizia Pitágoras, que valorizava o 4 como alicerce da vida, e o 3 como a própria divindade. De seu produto (3x4) obtinha-se o número que revelava a totalidade do acerto entre homens e deuses: 12 é o número do todo.
Carl Gustav Jung viu nas mandalas o melhor dos exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica psíquica, cuja essência última resta sempre incapturável. Inspirado na máxima citada de Nicolau de Cusa, Jung chamou de selbst o centro organizador da psique, espécie de núcleo atômico psíquico. Traduzido para o inglês por self, o termo encontra em português expressão que muito melhor o representa, o si mesmo. A rigor, na psicologia junguiana, tal instância é o ponto central de todo o psiquismo, mas também sua esfera inteira, que abrange o mundo inconsciente bem como o consciente. O ego aqui é mero centro funcional de nossa consciência, a mesma que nos permite dar conta de nossa individualidade.
As mandalas revelam, por imagens que nunca se repetem,
a infinita variedade do potencial divino.
Como todo arquétipo, o si mesmo é essencialmente incognoscível. Dele sabemos apenas empiricamente e por vias indiretas. São nossos sonhos que nos contam de sua existência; o percebemos, nos mitos e contos de fada, sempre disfarçado por detrás dos símbolos da totalidade, como o círculo, a cruz e o quadrado; ou por meio de contrastes que expressem a coniunctio opositorum, isto é, a união dos opostos que também se complementam, como é o caso do dia e da noite, do bem e do mal, de yin e yang.
Às vezes, o si mesmo se esconde por detrás de personagens que dinamicamente se encarregam de desenvolver toda uma trama dialética, como ocorre com as duplas Fausto e Mefistófeles, Dom Quixote e Sancho Pança, Peter Pan e o Capitão Gancho, etc. Em outras ocasiões, ele está no personagem axial desses enredos mágicos, quer na figura de um rei, de um profeta, ou projetado sobre um avatar ou mesmo num herói qualquer que, enredado em sua missão lendária, busca vencer obstáculos intransponíveis pelos seres comuns, mediante o que ele reorganiza e salva o mundo onde vive seu drama.
Através dos séculos, a humanidade sempre se mostrou mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo. Entre os egípcios há o conceito Ba como instância além da alma comum, correspondente ao daimon dos gregos, aspecto que Sócrates admitia aconselhá-lo sempre, em suas horas mais difíceis. Em sociedades e culturas primitivas, a idéia está incutida ora num espírito protetor da natureza, ora sobre a imagem de algum animal, ou num sábio antepassado cuja função, depois de morto, é a de orientar sua tribo.
Jung viu nas mandalas o melhor dos exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica psíquica.
Segundo Jung, há duas razões principais pelas quais podemos perder contato com o si mesmo que nos regula e nos tempera, o que compromete a distribuição homogênea e espontânea da energia anímica por toda a mandala de um psiquismo saudável.
O primeiro obstáculo surge sempre que nos vemos tomados por impulsos instintivos emocionalmente fortes, que nos levam a reagir visceralmente. Até os animais comportam-se assim, quando, por exemplo, excitados sexualmente, esquecem-se até da fome, ou descuidam-se de suas defesas, em detrimento da conduta habitualmente tomada para sua segurança. São inúmeros os povos indígenas em que situações de perturbação mental, associadas ou não às doenças físicas, são interpretadas pelos xamãs como um quadro de “perda da alma” – nada mais, segundo a psicologia analítica, do que o resultado da unilateralidade do funcionamento psíquico, capaz de condensar demasiada energia em torno deste ou daquele aspecto num processo neurótico e gerador de complexos.
A humanidade sempre se mostrou mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo.
O segundo empecilho é propriamente uma condição oposta à primeira; advém da cristalização excessiva do ego, que adora se prender ao mundo da realidade objetiva e esquecer-se de todo o resto, dificultando a percepção dos estímulos inconscientes provenientes do centro psíquico interior. Claro, precisamos de um ego conscientemente voltado às tarefas habituais da vida. Mas ele deve ser bem disciplinado e nos levar às realizações pessoais sem cair no abismo de julgar que só a realidade objetiva possa locupletar as necessidades da alma. Por essa razão, muitas vezes acordamos ungidos pela bênção de certos sonhos significativos, cuja função é a de restaurar a receptividade cotidianamente perdida e restabelecer o diálogo necessário entre a consciência e o mundo psíquico mais profundo. Sempre que nos privamos prolongadamente desse intercâmbio entre o ego e o si mesmo, ainda que não o percebamos, adoecemos; e o surgimento de sintomas neuróticos ou psicóticos, mesmo doenças orgânicas das mais simples às incuráveis, passa a ser mera questão de tempo.
Nas paisagens de nossos sonhos, nas visões proféticas, a estrutura mandálica está sempre presente.
Jung elegeu a mandala por excelência adequada para simbolizar o psiquismo; isso porque nas representações mitológicas do si mesmo está presente, quase sem exceção, a estrutura quaternária como arcabouço nuclear da alma. Mandalas multiplicam-se pelo mundo. Todos os povos do planeta, de todas as épocas e lugares, expressam-nas em sua arte, bem como nos enredos de seus mitos.
No Oriente, elas são usadas para recompor o ego diante da majestade do eu interior. A contemplação dessas imagens homogêneas, organizadas em torno de um centro, tende a facilitar, por analogia, a emergência de processos inconscientes, capazes de permear de paz interior a mente que deseja vislumbrar a ordem subjacente no cosmos, ou que queira abstrair da contemplação algum significado para a existência ou para o milagre da vida.
Nas paisagens de nossos sonhos, nas visões proféticas, nos contos de fadas, a estrutura mandálica está sempre presente. Há exemplos por toda a parte. Nossa Via Láctea, galáxia espiralada com dois braços que se evolvem a partir de um núcleo, é uma assombrosa mandala. O Sistema Solar é núcleo da mandala que o circunda de planetas; do mesmo modo, elétrons viajam a 960 km/s “presos” a uma esfera mandálica atômica imaginária. Nossos olhos, globos mandálicos, enxergam o mundo por uma lente mandálica cristalina ovalada, coberta pela colorida e radiada mandala da íris. A Terra, aparentemente esférica, é mandala que orbita. O cérebro, composto por dois hemisférios mandálicos, com partes anterior e posterior, mantém o padrão. O mesmo podemos dizer do coração humano, palácio da alma descrito em quatro câmaras. Os pássaros costumam fazer ninhos circulares, e as aranhas tecem mandalas de extraordinário requinte nos cantos das cavernas.
Mandalas fazem isto: propiciam iluminação àquelas mentes que diante delas silenciam.
Mandalas estão abundantemente representadas no Ocidente principalmente desde a Idade Média. As rosáceas dos vitrais das catedrais de Chartres e Notre-Dame são mandalas translúcidas, inspiradoras da paz interior que deve estar presente nos campos religiosos da mente. Aliás, todas as cruzes, religiosas ou não, incluindo a suástica, são mandalas; a estrela de Davi com seis pontas idem, reforçando o mistério do cruzamento divino e humano pelo entrelaçado de seus dois triângulos equiláteros. Os tabuleiros dos milenares jogos esotéricos (xadrez, go, damas, gamão, etc.) são espaços mandálicos sobre os quais se reproduz o simulacro da dança da vida. Cartas de baralho são igualmente mandalas. No tarô, ela acha-se delineada em todos os arcanos, ressaltada nos maiores, principalmente no Mago, na Justiça, na Roda da Vida, no Enforcado, na Temperança, na Estrela (onde pela primeira vez surgem juntos os quatro elementos), no Julgamento e no Mundo. Na abóbada celeste, projetamos a mandala zodiacal. Nos mitos, as mandalas do destino humano. Um deles, o de Hermes, conta-nos que em torno de seu caduceu estão duas serpentes abraçadas, uma com a função de acompanhar as almas em sua viagem ao reino de Hades, mundo dos mortos; a outra com função psicagógica, a de reconduzir as almas mortas à luz da vida, quando devem renascer. Mandalas fazem isto: propiciam iluminação às mentes que diante delas silenciam e, a partir da pacificação dos indivíduos comuns, proporcionam paz ao mundo, tão carente dessa dádiva.
Texto: Paulo Urban/Ilustrações: Mônica Facó- Todas as ilustrações deste artigo, com exceção da abertura (de Rogério Borges), são de Mônica Facó, que trabalha com artesanato gráfico, mandalas e cartões; Paulo Urban é médico psiquiatra, acupunturista e terapeuta junguiano
Mandala é um termo sânscrito, que se traduz por círculo mágico. Mas, na tradição hindu, seu conceito expressa muito mais do que as palavras que possam defini-lo. O dicionário de Aurélio Buarque de Holanda aceita o termo, registra-o como substantivo feminino e o explica como imagem do mundo e instrumento para a meditação. Em seu estado original a palavra é oxítona de gênero masculino, pronunciada abertamente: man-da-lá. Não somente designa um mantra, mas o vivifica por ser ela própria o movimento.
Mantras são sons vocálicos, puros ou combinados, passados dos mestres aos discípulos. Costumam ser verbalizações secretas de poder, transmitidas como fórmulas rituais particulares, usadas para fins iniciáticos; mas há mantras de domínio geral, aplicados à coletividade, especialmente devotados ao despertar psíquico, ou proferidos em prol da paz ou saúde do planeta.
Quando escritos, os mantras assumem a forma de seu equivalente gráfico, os iantras, figurações que tendem à simetria geométrica e se comportam também como raízes gráficas (chamadas mula-iantras) dos diferentes mantras e demais termos que deles se derivam. Os iantras nada mais são que o suporte, o arcabouço linear dos mantras. Mas estão muito além do conjunto correlato de letras que se combinam para criar vocábulos nos idiomas ocidentais, já que o hinduísmo considera que as palavras têm vida, que toda vogal é extensão das notas musicais da voz divina. Os mantras, portanto, são a alma dos iantras, o espírito por detrás da matéria que o Verbo cria e denomina.
Representações mandálicas são sublimes; suas formas representam a combinação perfeita entre os mantras e seus respectivos iantras. No tantrismo, prestam-se à meditação; comumente as vemos pintadas ou riscadas no chão, feitas de sementes ou grãos de areia, usadas para delimitar locais sagrados, como o altar dos templos, ou áreas destinadas a procedimentos ritualísticos específicos.
Assim como o fogo, as mandalas têm ainda a propriedade de nos prender a atenção, de nos convidar à introspecção, à percepção de seus aspectos, de seu arranjo harmônico, que se distribui num quatérnio espacial.
Tal como a água, deleitam-nos a ponto de nos fazer tranqüilos; propiciam à mente que se distancie dos problemas imediatos, induzindo-a ao exercício da contemplação. Efeito semelhante ocorre quando observamos peixes num aquário em seu vaivém constante, em sua dança circular que nos acalma. Mandalas são, portanto, todas as formas que nos permitem penetrar no jogo das vibrações que constituem o universo. São portas quânticas para outros níveis de consciência, verdadeiras bases de lançamento de nossas naves Enterprises, no seio das quais viajamos a lugares onde nenhum homem jamais esteve.
As mandalas selam o sacramento de nossa união com o cosmos. São veículos para o religamento de nossa consciência com a fonte absoluta de onde provimos. Na tradição tibetana, são guias imaginários e provisórios da alma; orientam-nos em nossa prática meditativa e transmitem o equilíbrio com que se distribui a essência divina, cuja ubiqüidade jamais permite que a capturemos em nossas mãos. Concordante é o pensamento do filósofo medieval Nicolau de Cusa (1400-1464): “Deus é uma esfera cujo centro está por toda parte, embora suas circunferências não O delimitem em parte alguma.”
Do círculo divino, forma absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais.
O círculo é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais. Comecemos pelo ponto, virtualidade sem a qual o mundo inteiro não estaria manifesto; de sua natureza se estende a cruz, segundo elemento, que, ao girar sobre si mesma, produz o círculo. Este, por ser perfeito, sem começo, meio ou fim, diz respeito ao mundo divino, ou à imagem de Deus quando quer que O representemos pelo oroboro (a cobra que morde o próprio rabo), a simbolizar a vida que, perenemente, se devora e se transforma. Do círculo divino, forma absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais, representando a Terra e todas as criaturas.
Ancorado sobre seus quatro lados, o quadrado tende à estabilidade, contrastando com o dinamismo da roda ou do círculo, que é puro movimento. Em oposição ao céu, o quadrado designa o plano terreno em que se manifestam todas as coisas criadas. Altares e templos comumente são quadrangulares ou retangulares; sob essas formas também se organizavam as cidades antigas, bem como as fortalezas e os acampamentos militares. No campo das religiões, observemos a Caaba, de Meca, templo máximo do islamismo. A pedra cúbica significa a divindade dando fundamento a toda a humanidade, ao mesmo tempo em que sustenta, feito pilar supremo, a abóbada celeste, outra representação da morada de Deus. Ademais, em época anterior ao Islã, Meca era chamada por Umm-al-Qura, ou “Mãe das Cidades” (Corão, 6, 92 e 42,5), sendo considerada, tal qual o templo apolíneo de Delfos, o Umbigo do Mundo.
Em outros casos, é o círculo que delimita lugares consagrados ao divino, como, por exemplo, o enigmático templo rochoso de Stonehenge, construído, entre 2600 e 1700 a.C., a partir de conhecimentos astronômicos de espantosa precisão. Curiosamente, a palavra inglesa usada para designar igreja, church, provém do escocês antigo kirk, que, além de templo, significa círculo.
Na verdade, toda forma circular, quadrangular ou qualquer outra que insinue a presença de um centro em torno do qual todo um complexo se organiza pode ser tida como uma forma mandálica. Não foge à regra a Távola do Rei Arthur, circular e orientada em torno do Graal, símbolo do ideal comum de integração e transcendência.
Mandalas podem ser consideradas sagradas por tudo isso. Ao sintetizarem os conceitos de mantra e iantra em todas as suas possíveis combinações, revelam, por imagens que nunca se repetem, a infinita variedade do potencial divino. Quando quer que meditemos incursos na harmonia de seus desenhos, mais prontamente nos alçamos em espiral, projetando-nos em torno do rabo da serpente e nas asas da espiritualidade.
A tradição alquímica propõe que os filósofos, mediante a pedra filosofal, ou por meio do elixir da longa vida, atinjam o fulcro do derradeiro mistério oculto na quadratura do círculo. Metaforicamente, “quadrar” o círculo é fazer caber no plano humano (o quadrado) toda a dimensão divina (o círculo).
Muito antes de os alquimistas medievais terem nascido, os pitagóricos (século 6 a.C.), herdeiros dos ritos órficos, viam na tetrakys, ou tétrade sagrada, a base de sua doutrina, que faz do 10 um número perfeito, resulta- do da soma do quatérnio básico (1+2+3+4=10), do qual emana toda e qualquer forma vivente. “O Universo é número”, dizia Pitágoras, que valorizava o 4 como alicerce da vida, e o 3 como a própria divindade. De seu produto (3x4) obtinha-se o número que revelava a totalidade do acerto entre homens e deuses: 12 é o número do todo.
Carl Gustav Jung viu nas mandalas o melhor dos exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica psíquica, cuja essência última resta sempre incapturável. Inspirado na máxima citada de Nicolau de Cusa, Jung chamou de selbst o centro organizador da psique, espécie de núcleo atômico psíquico. Traduzido para o inglês por self, o termo encontra em português expressão que muito melhor o representa, o si mesmo. A rigor, na psicologia junguiana, tal instância é o ponto central de todo o psiquismo, mas também sua esfera inteira, que abrange o mundo inconsciente bem como o consciente. O ego aqui é mero centro funcional de nossa consciência, a mesma que nos permite dar conta de nossa individualidade.
As mandalas revelam, por imagens que nunca se repetem,
a infinita variedade do potencial divino.
Como todo arquétipo, o si mesmo é essencialmente incognoscível. Dele sabemos apenas empiricamente e por vias indiretas. São nossos sonhos que nos contam de sua existência; o percebemos, nos mitos e contos de fada, sempre disfarçado por detrás dos símbolos da totalidade, como o círculo, a cruz e o quadrado; ou por meio de contrastes que expressem a coniunctio opositorum, isto é, a união dos opostos que também se complementam, como é o caso do dia e da noite, do bem e do mal, de yin e yang.
Às vezes, o si mesmo se esconde por detrás de personagens que dinamicamente se encarregam de desenvolver toda uma trama dialética, como ocorre com as duplas Fausto e Mefistófeles, Dom Quixote e Sancho Pança, Peter Pan e o Capitão Gancho, etc. Em outras ocasiões, ele está no personagem axial desses enredos mágicos, quer na figura de um rei, de um profeta, ou projetado sobre um avatar ou mesmo num herói qualquer que, enredado em sua missão lendária, busca vencer obstáculos intransponíveis pelos seres comuns, mediante o que ele reorganiza e salva o mundo onde vive seu drama.
Através dos séculos, a humanidade sempre se mostrou mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo. Entre os egípcios há o conceito Ba como instância além da alma comum, correspondente ao daimon dos gregos, aspecto que Sócrates admitia aconselhá-lo sempre, em suas horas mais difíceis. Em sociedades e culturas primitivas, a idéia está incutida ora num espírito protetor da natureza, ora sobre a imagem de algum animal, ou num sábio antepassado cuja função, depois de morto, é a de orientar sua tribo.
Jung viu nas mandalas o melhor dos exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica psíquica.
Segundo Jung, há duas razões principais pelas quais podemos perder contato com o si mesmo que nos regula e nos tempera, o que compromete a distribuição homogênea e espontânea da energia anímica por toda a mandala de um psiquismo saudável.
O primeiro obstáculo surge sempre que nos vemos tomados por impulsos instintivos emocionalmente fortes, que nos levam a reagir visceralmente. Até os animais comportam-se assim, quando, por exemplo, excitados sexualmente, esquecem-se até da fome, ou descuidam-se de suas defesas, em detrimento da conduta habitualmente tomada para sua segurança. São inúmeros os povos indígenas em que situações de perturbação mental, associadas ou não às doenças físicas, são interpretadas pelos xamãs como um quadro de “perda da alma” – nada mais, segundo a psicologia analítica, do que o resultado da unilateralidade do funcionamento psíquico, capaz de condensar demasiada energia em torno deste ou daquele aspecto num processo neurótico e gerador de complexos.
A humanidade sempre se mostrou mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo.
O segundo empecilho é propriamente uma condição oposta à primeira; advém da cristalização excessiva do ego, que adora se prender ao mundo da realidade objetiva e esquecer-se de todo o resto, dificultando a percepção dos estímulos inconscientes provenientes do centro psíquico interior. Claro, precisamos de um ego conscientemente voltado às tarefas habituais da vida. Mas ele deve ser bem disciplinado e nos levar às realizações pessoais sem cair no abismo de julgar que só a realidade objetiva possa locupletar as necessidades da alma. Por essa razão, muitas vezes acordamos ungidos pela bênção de certos sonhos significativos, cuja função é a de restaurar a receptividade cotidianamente perdida e restabelecer o diálogo necessário entre a consciência e o mundo psíquico mais profundo. Sempre que nos privamos prolongadamente desse intercâmbio entre o ego e o si mesmo, ainda que não o percebamos, adoecemos; e o surgimento de sintomas neuróticos ou psicóticos, mesmo doenças orgânicas das mais simples às incuráveis, passa a ser mera questão de tempo.
Nas paisagens de nossos sonhos, nas visões proféticas, a estrutura mandálica está sempre presente.
Jung elegeu a mandala por excelência adequada para simbolizar o psiquismo; isso porque nas representações mitológicas do si mesmo está presente, quase sem exceção, a estrutura quaternária como arcabouço nuclear da alma. Mandalas multiplicam-se pelo mundo. Todos os povos do planeta, de todas as épocas e lugares, expressam-nas em sua arte, bem como nos enredos de seus mitos.
No Oriente, elas são usadas para recompor o ego diante da majestade do eu interior. A contemplação dessas imagens homogêneas, organizadas em torno de um centro, tende a facilitar, por analogia, a emergência de processos inconscientes, capazes de permear de paz interior a mente que deseja vislumbrar a ordem subjacente no cosmos, ou que queira abstrair da contemplação algum significado para a existência ou para o milagre da vida.
Nas paisagens de nossos sonhos, nas visões proféticas, nos contos de fadas, a estrutura mandálica está sempre presente. Há exemplos por toda a parte. Nossa Via Láctea, galáxia espiralada com dois braços que se evolvem a partir de um núcleo, é uma assombrosa mandala. O Sistema Solar é núcleo da mandala que o circunda de planetas; do mesmo modo, elétrons viajam a 960 km/s “presos” a uma esfera mandálica atômica imaginária. Nossos olhos, globos mandálicos, enxergam o mundo por uma lente mandálica cristalina ovalada, coberta pela colorida e radiada mandala da íris. A Terra, aparentemente esférica, é mandala que orbita. O cérebro, composto por dois hemisférios mandálicos, com partes anterior e posterior, mantém o padrão. O mesmo podemos dizer do coração humano, palácio da alma descrito em quatro câmaras. Os pássaros costumam fazer ninhos circulares, e as aranhas tecem mandalas de extraordinário requinte nos cantos das cavernas.
Mandalas fazem isto: propiciam iluminação àquelas mentes que diante delas silenciam.
Mandalas estão abundantemente representadas no Ocidente principalmente desde a Idade Média. As rosáceas dos vitrais das catedrais de Chartres e Notre-Dame são mandalas translúcidas, inspiradoras da paz interior que deve estar presente nos campos religiosos da mente. Aliás, todas as cruzes, religiosas ou não, incluindo a suástica, são mandalas; a estrela de Davi com seis pontas idem, reforçando o mistério do cruzamento divino e humano pelo entrelaçado de seus dois triângulos equiláteros. Os tabuleiros dos milenares jogos esotéricos (xadrez, go, damas, gamão, etc.) são espaços mandálicos sobre os quais se reproduz o simulacro da dança da vida. Cartas de baralho são igualmente mandalas. No tarô, ela acha-se delineada em todos os arcanos, ressaltada nos maiores, principalmente no Mago, na Justiça, na Roda da Vida, no Enforcado, na Temperança, na Estrela (onde pela primeira vez surgem juntos os quatro elementos), no Julgamento e no Mundo. Na abóbada celeste, projetamos a mandala zodiacal. Nos mitos, as mandalas do destino humano. Um deles, o de Hermes, conta-nos que em torno de seu caduceu estão duas serpentes abraçadas, uma com a função de acompanhar as almas em sua viagem ao reino de Hades, mundo dos mortos; a outra com função psicagógica, a de reconduzir as almas mortas à luz da vida, quando devem renascer. Mandalas fazem isto: propiciam iluminação às mentes que diante delas silenciam e, a partir da pacificação dos indivíduos comuns, proporcionam paz ao mundo, tão carente dessa dádiva.
Asas
.
- Por Claude Bloc -
.
Cortei minhas asas e as dei para ti, mesmo sabendo que não voltaria a voar.
Em pura busca deliberada de mim mesma ensinei-te a voar, mesmo sabendo que depois me esqueceria de como se voa.
As asas que me pertenceram sufocavam-me; perdi-me num espaço que não era meu. Subi bem alto e te deixei seguir teu rumo.
Pensei que nunca voarias sem mim, mas quando olhei para trás tu já tinhas saltado e abrias os céus com as asas que outrora foram minhas.
Deixaste atrás de ti um rastro de silêncio, irredutível drama de minh’alma...
Em pura busca deliberada de mim mesma ensinei-te a voar, mesmo sabendo que depois me esqueceria de como se voa.
As asas que me pertenceram sufocavam-me; perdi-me num espaço que não era meu. Subi bem alto e te deixei seguir teu rumo.
Pensei que nunca voarias sem mim, mas quando olhei para trás tu já tinhas saltado e abrias os céus com as asas que outrora foram minhas.
Deixaste atrás de ti um rastro de silêncio, irredutível drama de minh’alma...
Claude Bloc
Silêncio
- Por Claude Bloc -
.

Hoje o silêncio para mim tornou-se um vácuo. Esse silêncio que já não é normal ou bom em si próprio; mas que representa, sobretudo, a ausência dos sons em minh’alma, a ausência de qualquer vontade.
Meus gritos e delírios emergem desse silêncio, dessa falta que sinto de mim mesma nas horas tardias desta noite quente. Minhas dores então parecem maiores contra este fundo de silêncio porque, para interrompê-lo, é preciso ter alguma coisa para dizer e nada tenho pra falar neste momento.
Meus gritos e delírios emergem desse silêncio, dessa falta que sinto de mim mesma nas horas tardias desta noite quente. Minhas dores então parecem maiores contra este fundo de silêncio porque, para interrompê-lo, é preciso ter alguma coisa para dizer e nada tenho pra falar neste momento.
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Claude Bloc
.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Silêncio
Tempo breve, matéria escassa, espaço limitado
mesmo assim recolho das sobras que posso
algo mágico:
uma infância tenra com ares enrugados
sob as sombras dos dedos.
Escrever versos
em folha branca
sem pauta
traz-me à tona
meu primeiro chocolate
minha primeira farofa de ovo.
Mesmo que amanhã eu morra
para meu conforto
as estrelas há mais tempo
morreram
e só agora
cegam-me os olhos.
Tempo breve, matéria escassa, espaço limitado
e tu entras dentro da minha mente
açoitas meu coração ingênuo
que te responde todos os dias -
mesmo quando não ouço.
Não hei de morrer
após este último vislumbre
como não foge
da minha alma o gosto
do primeiro chocolate
da primeira farofa de ovo.
As estrelas cadáveres
são fábulas.
As estrelas brilham
porque são cacos de vidro.
Decido então não morrer
após este último soluço.
mesmo assim recolho das sobras que posso
algo mágico:
uma infância tenra com ares enrugados
sob as sombras dos dedos.
Escrever versos
em folha branca
sem pauta
traz-me à tona
meu primeiro chocolate
minha primeira farofa de ovo.
Mesmo que amanhã eu morra
para meu conforto
as estrelas há mais tempo
morreram
e só agora
cegam-me os olhos.
Tempo breve, matéria escassa, espaço limitado
e tu entras dentro da minha mente
açoitas meu coração ingênuo
que te responde todos os dias -
mesmo quando não ouço.
Não hei de morrer
após este último vislumbre
como não foge
da minha alma o gosto
do primeiro chocolate
da primeira farofa de ovo.
As estrelas cadáveres
são fábulas.
As estrelas brilham
porque são cacos de vidro.
Decido então não morrer
após este último soluço.
MOTOR TURBO 6.0, FUMAÇANDO por Joao Marni
Lembro-me dos meus aniversários em que havia no bolo menos de uma dúzia de velas e dos gritos agudos em torno da mesa, repleta de irmãos e amigos, do sopro forte apagando-as de uma vez, com o parabéns.
Aparentemente o tempo arrasta-se, mas é de fato meteórico: hoje seriam necessárias sessenta velas ocupando o cume do bolo, uma verdadeira favela de tantos dezembros... Por praticidade, porém, apenas duas - o seis e o zero - e não precisa entrar em apnéia de tanto soprar!
É chegada o momento em que o homem muda de fila e vê os umbrais da última fase da vida a convidá -lo para reflexões tantas, inclusive a coniência de que o vento deste sopro sobre as velas acaba de apagar sua juventude, num adeus ao pensamento da imortalidade e da inimputabilidade tão peculiar desse estágio. O que este cabelos
brancos me avisam e me pedem é que eu fique mais atento ás necessidades das
pessoas e que definitivamente eu quebre o espelho de Narciso. Magicamente, cruzando a lâmina dágua da cascata da vida, vislumbro agora a todos que não ajudei e que de alguama forma não soube compreender.
Peço-lhes perdão.
Propensa como é a mente humana a familiarizar-se com facilidade a qualquer mudança, desde que seja para melhor, sinto-me hoje muito à vontade e confiante para o que se convencionou chamar de terceira idade, pois afinal posso voltar a engatinhar, fazer caretas e mil piruetas sem que ninguém ache que enlouqueci, porque estarei a brincar com os netos... Quando lembro que sarampo, diarréia, remela, unha quebrada e cabeça raspada eram minha mazelas... Comparadas à minha saudade de papai e mamãe hoje, concluo que realmente a infância é a aurora da vida, com o barulho de asas em vôo ascendente num céu azul.
Dos sessenta anos de agora, quarenta têm sido com Fátima, desde fevereiro de 1969, com todos os humores da vida. Sinto-me responsável por cada cabelo branco dela porque contribuí para tingi-los assim. Ou de fato só o tempo é que nos desbota a todos numa nova aquarela? Nesta moldura vê-se cristalinamente que vossos olhares estavam convictos que seríamos mesmo um do outros: ''... esse seu olhar, quando encontra o meu... doce é sonhar e pensar que você gosta de mim e eu de você...''
O outono da vida é a idade em que deixamos de ser jovem. Já não tenho que agradar a todos, só àqueles que realmente me importam: a família e amigos de verdade, catados e cativados ao longo dos anos. Entro agora na ''prorrogação'' da vida, torcendo que o ''gol de ouro " demore a sair! Amanhã, posso até ficar cego, mas já tenho a minha paisagem na memória: vocês, o céu, morros e matas da cidade do Crato. Ao fundo, o arco-íris da minha remota infância.
Abrindo esta nova cortina, sinto que terei que ser bom, melhor e deliciosamente melhor, para que minha família e as pessoas em geral gostem de mim e que Deus venha a me querer. No meu julgamento, que meu coração não pese tanto e que o pai também tenha lapsos de memória!... Se perguntado pudesse eu viver minha vida novamente, diria que a viveria como vivi, podando alguns excessos, mas não todos os meus erros, afinal foram também eles que me compuseram e me trouxeram até aqui.
Concluo afirmando que hoje, nova etapa, sou um homem feliz e sex... sexagenário!
Crato, 21.12.2009
João Marni de Figueiredo
Aparentemente o tempo arrasta-se, mas é de fato meteórico: hoje seriam necessárias sessenta velas ocupando o cume do bolo, uma verdadeira favela de tantos dezembros... Por praticidade, porém, apenas duas - o seis e o zero - e não precisa entrar em apnéia de tanto soprar!
É chegada o momento em que o homem muda de fila e vê os umbrais da última fase da vida a convidá -lo para reflexões tantas, inclusive a coniência de que o vento deste sopro sobre as velas acaba de apagar sua juventude, num adeus ao pensamento da imortalidade e da inimputabilidade tão peculiar desse estágio. O que este cabelos
brancos me avisam e me pedem é que eu fique mais atento ás necessidades das
pessoas e que definitivamente eu quebre o espelho de Narciso. Magicamente, cruzando a lâmina dágua da cascata da vida, vislumbro agora a todos que não ajudei e que de alguama forma não soube compreender.
Peço-lhes perdão.
Propensa como é a mente humana a familiarizar-se com facilidade a qualquer mudança, desde que seja para melhor, sinto-me hoje muito à vontade e confiante para o que se convencionou chamar de terceira idade, pois afinal posso voltar a engatinhar, fazer caretas e mil piruetas sem que ninguém ache que enlouqueci, porque estarei a brincar com os netos... Quando lembro que sarampo, diarréia, remela, unha quebrada e cabeça raspada eram minha mazelas... Comparadas à minha saudade de papai e mamãe hoje, concluo que realmente a infância é a aurora da vida, com o barulho de asas em vôo ascendente num céu azul.
Dos sessenta anos de agora, quarenta têm sido com Fátima, desde fevereiro de 1969, com todos os humores da vida. Sinto-me responsável por cada cabelo branco dela porque contribuí para tingi-los assim. Ou de fato só o tempo é que nos desbota a todos numa nova aquarela? Nesta moldura vê-se cristalinamente que vossos olhares estavam convictos que seríamos mesmo um do outros: ''... esse seu olhar, quando encontra o meu... doce é sonhar e pensar que você gosta de mim e eu de você...''
O outono da vida é a idade em que deixamos de ser jovem. Já não tenho que agradar a todos, só àqueles que realmente me importam: a família e amigos de verdade, catados e cativados ao longo dos anos. Entro agora na ''prorrogação'' da vida, torcendo que o ''gol de ouro " demore a sair! Amanhã, posso até ficar cego, mas já tenho a minha paisagem na memória: vocês, o céu, morros e matas da cidade do Crato. Ao fundo, o arco-íris da minha remota infância.
Abrindo esta nova cortina, sinto que terei que ser bom, melhor e deliciosamente melhor, para que minha família e as pessoas em geral gostem de mim e que Deus venha a me querer. No meu julgamento, que meu coração não pese tanto e que o pai também tenha lapsos de memória!... Se perguntado pudesse eu viver minha vida novamente, diria que a viveria como vivi, podando alguns excessos, mas não todos os meus erros, afinal foram também eles que me compuseram e me trouxeram até aqui.
Concluo afirmando que hoje, nova etapa, sou um homem feliz e sex... sexagenário!
Crato, 21.12.2009
João Marni de Figueiredo
sete palavras
1.
um conselho, leitor de poesia,
não te fies assim no coração
mas prepara-te os dentes, pois é
tempo de chumbo nas palavras,
cada palavra-pedra que se pode
colher nesta cidade com suas linhas
azuis, tetos de ocre e ventania,
fiascos empalhados em sobrados,
mil dores espalhadas pelas sombras,
dias terrivelmente construídos
com influxos de sonhos e gravuras
maiores que teu peito de lirismos
2.
não estou certo, mas creio que a poesia
surgindo das arestas tem um gosto
típico de laranja podre e cheiro
de esgoto misturado com o suor
de todos esses homens que constroem
o dia odiado por mim, inútil
sonhador de presenças sem ferrugem
3.
quero voltar pra casa em silêncio
cansado dos acordos da política
no fundo dos porões, quero mulher
que me faça esquecer ratos com aspectos
angelicais e línguas de navalha
distribuindo engodos como flâmulas,
influências no centro do poder,
busca do verde vivo no papel,
uma por cima da outra, meu amigo
uma por cima da outra, sem moleza
4.
não confie nunca mais no coração
acostumado a versos sobre a lua
hoje é tempo de chuvas, enxurradas
dessas vozes melífluas e gasosas
cantos da casa escura, o barulho
hum! hum! tanto barulho de motores
rompendo sem milagres cada dobra
da noite com camadas de sentido
se esvaindo, mensagens por decifrar
5.
sombra da noite, fúria de mil pés
mil braços sem batalha aguardada
que o coração é um poço de enganos
e quem nele mergulhe parcialmente
seu rosto há de sair um pouco mais velho
desgastado, com voz rouca de quem
saltou do sono e foge do espelho
6.
poemas-guloseimas se repetem,
sabores que as palavras têm depois
de uma taça de vinho, nostalgia
sopro de lábios lívidos no ouvido
poesia sem ter rumo, vastidão
de ruas ensolaradas, gente estrela
cuspindo seus temores sobre as torres
7.
poesia agora é um pouco mais do que
esse açúcar na mesa eviscerada
também é mijo, pinga, pichação
de vitrines, calçadas com rancores,
a coreografia de homens nulos
um monte de palavras perfurando
os ouvidos, os olhos, o real
um conselho, leitor de poesia,
não te fies assim no coração
mas prepara-te os dentes, pois é
tempo de chumbo nas palavras,
cada palavra-pedra que se pode
colher nesta cidade com suas linhas
azuis, tetos de ocre e ventania,
fiascos empalhados em sobrados,
mil dores espalhadas pelas sombras,
dias terrivelmente construídos
com influxos de sonhos e gravuras
maiores que teu peito de lirismos
2.
não estou certo, mas creio que a poesia
surgindo das arestas tem um gosto
típico de laranja podre e cheiro
de esgoto misturado com o suor
de todos esses homens que constroem
o dia odiado por mim, inútil
sonhador de presenças sem ferrugem
3.
quero voltar pra casa em silêncio
cansado dos acordos da política
no fundo dos porões, quero mulher
que me faça esquecer ratos com aspectos
angelicais e línguas de navalha
distribuindo engodos como flâmulas,
influências no centro do poder,
busca do verde vivo no papel,
uma por cima da outra, meu amigo
uma por cima da outra, sem moleza
4.
não confie nunca mais no coração
acostumado a versos sobre a lua
hoje é tempo de chuvas, enxurradas
dessas vozes melífluas e gasosas
cantos da casa escura, o barulho
hum! hum! tanto barulho de motores
rompendo sem milagres cada dobra
da noite com camadas de sentido
se esvaindo, mensagens por decifrar
5.
sombra da noite, fúria de mil pés
mil braços sem batalha aguardada
que o coração é um poço de enganos
e quem nele mergulhe parcialmente
seu rosto há de sair um pouco mais velho
desgastado, com voz rouca de quem
saltou do sono e foge do espelho
6.
poemas-guloseimas se repetem,
sabores que as palavras têm depois
de uma taça de vinho, nostalgia
sopro de lábios lívidos no ouvido
poesia sem ter rumo, vastidão
de ruas ensolaradas, gente estrela
cuspindo seus temores sobre as torres
7.
poesia agora é um pouco mais do que
esse açúcar na mesa eviscerada
também é mijo, pinga, pichação
de vitrines, calçadas com rancores,
a coreografia de homens nulos
um monte de palavras perfurando
os ouvidos, os olhos, o real
Iconoclastia
Agora que estás lúcida,
diz-me:
quem ganhou minha alma no bingo?
Aposto que muitos gostariam de tê-la
às mãos.
Tem abismo bem próximo da tua casa.
Na ceia,
antes e após a oração,
os convivas são santos.
Mas, sejamos justos:
meia dúzia adoraria
minha alma pegando fogo.
Triste a morte anunciada.
E os abutres já se debruçavam
sobre minhas costelas rasas
e meus olhos fundos.
diz-me:
quem ganhou minha alma no bingo?
Aposto que muitos gostariam de tê-la
às mãos.
Tem abismo bem próximo da tua casa.
Na ceia,
antes e após a oração,
os convivas são santos.
Mas, sejamos justos:
meia dúzia adoraria
minha alma pegando fogo.
Triste a morte anunciada.
E os abutres já se debruçavam
sobre minhas costelas rasas
e meus olhos fundos.
No Espírito Santo

Rasgou os ciclos do mundo superior em prístina luz
e se projetou em essência sobre a luminosa criação
buscando sobre a Terra o motivo de sua bela alegria
encontrou em Jesus, a viva imagem de sua expressão.
Estando Jesus limpo de corpo e puro de mente
pelo iniciador João no batismo de água no Jordão,
em suave, esplendoroso e caudaloso véu desceu
o sublime Espírito convertido em Vinho e Pão.
Sentiu Jesus o profundo eflúvio cósmico dentro do seu Ser
e banhou de Luz, Vida e Amor a terra prometida de Israel
buscando a resposta certa em seu flamejante coração
da missão que Seu Sapiente Pai Nele depositou.
Espírito Santo, consciência de universal inteligência
que Te manifestas visível como um reino harmônico
expressando tuas energias em constantes vibrações
qual arco-íris derramado sobre o Teclado Cósmico.
Sublime emanação da Santa Trindade de Deus
Desliza um de Teus imaculados e sábios dardos
sobre esta impura personalidade do meu ser
e faz de mim, uma sentinela dos teus planos.
Não posso jurar ser fiel a Teus intuitivos mandamentos
porque as forças humanas são sempre cambiantes
apoiarei minhas esperanças em minha amada escola de conhecimentos
e submergirei minha ignorância em suas chamas purificantes.
Ao voltar os olhos sobre a senda de minha vida
tratando de reunir as experiências com um feito
sinto que tenho um botão de rosas em minhas mãos
e que nasceu uma pequena cruz rosada no meu peito.
A Vós Confio - F.R.C. R+C
GAROTO PROPAGANDA - Por Mundim do Vale
Fui autorizada por A. Morais a postar os textos de Mundim do Vale pescados no Sonharol.
Eu pessoalmente, adoro o bom humor e a matreirice de Mundim de quem me declarei fã incondicional. Apreciem comigo o bom humor, o ritmo e a agilidade mental do "rapaz ".
Eu pessoalmente, adoro o bom humor e a matreirice de Mundim de quem me declarei fã incondicional. Apreciem comigo o bom humor, o ritmo e a agilidade mental do "rapaz ".
Não ganhei nenhum presenteNa passagem do natal,
Porque Noel não é gente
É um boneco virtual.
Fui dormir na esperança
De ganhar uma lembrança
Mas perdi a minha fé.
Na hora que acordei,
Na meia só encontrei
O mal cheiro de chulé.
Fiquei mais contrariado
Porque um vizinho meu
Mostrou um carro importado
Que papai Noel lhe deu.
Será que o bom velhinho,
Enxergou só meu vizinho
Porque anda caducando?
Ou será por preconceito,
Que ele age desse jeito
Só de rico se lembrando?
Já perdi esperança
Nesse Noel trapaceiro
Que só visita criança
Se o pai tiver dinheiro.
Pois eu lhe digo, Noel:
- Eu tenho um pai lá no céu
Que não gosta, disso não.
Quando seu filho nasceu,
Foi pobre assim como eu
Mas deixou uma lição.
Você com o seu saco cheio
E a bengala na mão
Onde tiver aperreio
Não passa por perto não.
Não conhece favelado,
Filho de desempregado
Subproduto de gente.
Porém a casa bonita,
No natal você visita
Para deixar o presente.
Será se você existe
Ou não existe sou eu?
Eu tou aqui muito triste
Por conta do jeito seu.
Passou cantando: - Ou, ou, ou....
Mas comigo não deixou
Nem um pequeno peão.
Ficou seco, o saco seu,
Mas você encheu o meu
De revolta e exclusão.
Você só não sabe disto
Porque é um boneco mal
Mas é para Jesus Cristo
Toda festa de natal.
Você só gosta do cobre,
Não anda em casa de pobre
Porque a mídia não manda.
É uma peça do mercado,
Que foi muito bem treinado
Pra garoto propaganda...
SEMPRE A MINHA ESPERA por Rosa Guerrera

Tua voz chega sempre
onde me encontro
trazendo uma suave melodia
ao meu coração.
E é confortante a certeza
de que alguém
pensa em nós !
É como se nas borrascas
dos mares do meu destino
brilhasse de repente
uma tremula vela
numa jangada distante.
É assim que ouço o teu canto !
Convicta de que
nos senfins das minhas dores,
tua luz estivesse
sempre brilhante...
a minha espera .
onde me encontro
trazendo uma suave melodia
ao meu coração.
E é confortante a certeza
de que alguém
pensa em nós !
É como se nas borrascas
dos mares do meu destino
brilhasse de repente
uma tremula vela
numa jangada distante.
É assim que ouço o teu canto !
Convicta de que
nos senfins das minhas dores,
tua luz estivesse
sempre brilhante...
a minha espera .
Mansidão
Não me lembro
de um natal,
vejamos,
tão silencioso.
Só ouvi estourar um champanhe
lá pra meia noite
quando os dedos dos meus pés
já se acomodavam entrelaçados
aos mais próximos.
Assim, ambos os pés passam a madrugada
agasalhados, revesando, juntinhos
contra o vento monstro.
O ventilador faz um frio monstro.
Imagino os dedos
do Abominável
Homem
das Neves.
de um natal,
vejamos,
tão silencioso.
Só ouvi estourar um champanhe
lá pra meia noite
quando os dedos dos meus pés
já se acomodavam entrelaçados
aos mais próximos.
Assim, ambos os pés passam a madrugada
agasalhados, revesando, juntinhos
contra o vento monstro.
O ventilador faz um frio monstro.
Imagino os dedos
do Abominável
Homem
das Neves.
Lei - por Domingos Barroso
Bisões não têm ressaca.
Mas gralha quando bebe
amanhece péssima:
os olhos taciturnos
o bico emudecido
de dá dó.
Portanto,
gralha que sou
evito o primeiro copo.
Mas gralha quando bebe
amanhece péssima:
os olhos taciturnos
o bico emudecido
de dá dó.
Portanto,
gralha que sou
evito o primeiro copo.
Cardápio do almoço -Sugestão ! Por Socorro Moreira
Depois da noite de ontem com tantas guloseimas, tudo que eu quero é uma panela de baião - de dois , bem molhado de pequisada, e uma porção de paçoca. Coca bem geladinha, né?
E rapadura derretida pra melar um pedaço de queijo de manteiga, como sobremesa .
Tenham um excelente dia ! Eu vou botar o feijão no fogo !
Claude , Stela, Rosineide , Edilma, e todos os amigos daqui estão convidados ...
- Os que gostam de pequi !
Natal ! - por Socorro Moreira

A casa está vazia.
A rede desarmada
O varal sozinho
O fogão limpinho
Pingos do ontem...
Manchas no chão!
Existem momentos,
em que tudo fica mudo
Até o telefone...
Existem momentos
Em que o contato maior se faz
- Ele atende!
Traz amigos
Filhos
Netas
E até um amor...
O Cariricaturas é sua rena
Seu veículo.
Estou apartada de grandes afetos
Estou contigo
Na simplicidade de uma ceia
Regada a pão e leite!
E o coração transbordando amor
Deseja a todos
Um dia de paz
Eu tive natais inesquecíveis. Eles, se chamar, voltam correndo, nas lembranças. O mais marcante é o de hoje!
Em nenhum daqueles anteriores vivi a experiência, na essência, do verdadeiro natal.
E a palavra chave é SOLIDARIEDADE!
A nossa dor não é a maior de todas, nem a fura-bolo, nem a mindinha... A nossa dor é transformadora, e eu posso sentir o prazer de estar viva, e poder contribuir com sonhos , a partir de mim.
No nascimento de Jesus, Nossa Senhora sofreu as dores e as alegrias de uma mãe...
Eu tenho as dores e as alegrias; os mimos dos meus amigos... Eu tenho a vida, que teima em renascer, em forma de esperanças !
Página Branca
(- Por Claude Bloc -)

Se alguém perguntar quem sou,
diga apenas a verdade:
que sou poetisa
que falo do amor e do vento
que me esqueço do tempo.
Se alguém perguntar onde vivo,
diga que vivo aqui e ali
mas que estou sempre perto
de quem eu quero bem.
Se alguém perguntar por onde ando,
diga que me perdi na noite
e que me escondo na madrugada.
Se alguém perguntar onde estou,
diga que estou presa aos versos
soltando a poesia,
na página branca de minha saudade.
Se alguém perguntar se eu amo,
Diga que morri de amor.
diga apenas a verdade:
que sou poetisa
que falo do amor e do vento
que me esqueço do tempo.
Se alguém perguntar onde vivo,
diga que vivo aqui e ali
mas que estou sempre perto
de quem eu quero bem.
Se alguém perguntar por onde ando,
diga que me perdi na noite
e que me escondo na madrugada.
Se alguém perguntar onde estou,
diga que estou presa aos versos
soltando a poesia,
na página branca de minha saudade.
Se alguém perguntar se eu amo,
Diga que morri de amor.
***
Claude Bloc
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Soneto do Amigo - Vinícius de Moraes para Rosa Guerrera

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes
Perfil da nossa aniversaiante ...
Nasci em Recife num Natal hoje um pouco distante .Filha de pai italiano e mãe brasileira , trago também no sangue o índio da avó materna . E talvez essa mistura de raças me fez uma mulher com suor híbrido ...romântica , instável , apaixonada , emotiva, sentimental , meio criança , moleca e sonhadora. Deitei muito cedo nas asas da poesia e me deixei embalar até hoje nos acordes harmoniosos de um mundo talvez até utópico ( para alguns ), mas muito concreto para mim. Cursei Jornalismo e Relações Públicas. Fui notíciarista, repórter, produtora, colunista e apresentadora de programas em rádios, tvs e jornais.Hoje exerço assessoria de Imprensa numa Secretaria do Estado. Sou uma mulher simples. Não ambiciono outra coisa senão colaborar para um mundo mais fraterno e mais amor. Amo sem restrições nos ponteiros no relógio do tempo, e deito no papel em forma de crônicas e poemas, experiências, lágrimas, alegrias e paixões armazenadas no meu livro de vida !
( Rosa Maria Guerrera)
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