Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
.....................
claude_bloc@hotmail.com

sábado, 10 de julho de 2010

Cariricaturas, informa !

Hoje estivemos no programa de Wellington Costa : Emerson, eu e o Nicodemos.
Falamos sobre o próximo lançamento do livro "Cariricaturas em prosa e verso", referindo-nos  ao trabalho coletivo, de um blog coletivo !
Foi uma experiência nova, mas acho que no final, deu tudo certo. Não sei se haverá uma próxima vez, mas tenho que aprender a usar o microfone , e equilibrar as emoções ... ou não !
Na oportunidade, Nicodemos estreou  sua mais nova criação : A RABECA !
A bichinha é linda, e toca que é  uma beleza !
Voltamos pra casa felizes .
Agradecemos  ao  pessoal da produção, especialmente   ao gentil Wellington , que calorosamente nos recebeu .

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Escravo Romano

Tu queres que eu volte
a levantar peso,
meu bem?

Que eu fique admirando
meu tórax definido
e os antebraços?

A poesia não percebe
a minha aparência física.

Desvendei esse enigma
quando escrevi versos sombrios
com as panturrilhas anestesiadas.

Apesar de sentir uma onda de bem estar
circulando por vasos, tendões, músculos

minha alma prosseguia desregrada
em exílio próprio.

Os versos não mudam de faces.
Estranho, não?

Queres que eu volte
a malhar o corpo,
querida?

A tatuagem faço no final do ano.
Nas minhas férias.

O único estorvo e neurose
é que não te conheço tanto.

Ou melhor, não te conheço mesmo.
Nunca te vi os cílios mais pretos.

A boca mais gordurosa.
O andado mais requebrante.

Por via das dúvidas,
creio que em agosto
volto a levantar peso
a malhar o corpo
a comer com os olhos
as ninfas da academia.

É o que me resta.
Exposição do Crato
Quem sabe passo por lá,
no acarajé da baiana ?
Quem sabe procuro um pé de eucaliptus
pra recordar os amigos ?
Quem sabe  cruzo com alguns,
ou  fico  invisível,
numa festa estranha ...

Socorro moreira

Por Norma Hauer

A DEUSA DA MINHA RUA
Ele nasceu no dia 9 de julho de 1901, filho de pais libaneses, aqui no Rio e se tornou grande letrista de nossa música popular. Seu nome JORGE FARAJ.
Era aquele que tomava o trem das professoras como "um vagalume atrás dos astros", vindo da boemia.
Ele de fato fazia o que cantou em sua música "Professora" e a professora verdadeira, sabendo do caso, quis conhecê-lo, mas o achou feio e não se interessou por aquele poeta feio por fora, mas belo por dentro.
Despresou-o.
Hoje nem sabemos quem era ela, mas sabemos que Jorge Faraj foi um dos grandes letristas da MPB, compondo, ao lado de Newton Teixeira, "A Deusa da Minha Rua", onde uma "poça dágua era o espelho de sua mágoa"

Também cantou aquela que "era do morro a mais famosa flore que todo mundo cantava em seu louvor, todo mundo "Menos Eu".
Com Custódio Mesquita compôs "Preto Velho", cuja sombra passava e todo mundo fazia chalaça".
Com Benedito Lacerda compôs "É Quase a Felicidade" e ".. E a Saudade Ficou"... lâmpada triste..." Com Roberto Martins compôs "Último Beijo", a música que me fez "descobrir" Carlos Galhardo.
Jorge Faraj, como muitos de sua época,era um boêmio, que trocava o dia pela noite e acabou tuberculoso, mas para alguém que adquiriu essa terrível doença, viveu bastante: 62 anos.

Lembro-me que quando ele faleceu, apenas uma pequena nota saiu nos jornais, assim:"foi sepultado ontem, no Cemitério de Irajá, o compositor Jorge Faraj, autor de "Professora".
E nada mais!
Fosse ele "americano" daquele país ao norte do Equador, a notícia sairia com "letras garrafais".

Jorge Faraj faleceu em 11 de junho de 1963. como foi dito,aos 62 anos.

O Velhinho

Pela minha orelha grande
creio que viverei muito.

Se assim suceder,
serei um velhinho sátiro.

Amante dos traseiros belos
e dos peitinhos de mármore.

Não vigiarei o vizinho.
Com quem chega
ou se trai a esposa.

O mesmo digo
para a amiga.

Apenas da minha janela
observarei os enlaces carnais.
Espero nunca testemunhar um crime.

Um velhinho sátiro
ciente da flacidez
dos músculos
é o que serei
pelo resto da vida.

Na sala nunca.
Sempre estarei no quarto.

Lendo um livro.
A mão ao alcance
da xícara.

Mediante o barulho
encosto meus ouvidos
à parede.

Ainda com o velho copo
que guardo dentro do baú.

Um velhinho voyeur
o que serei conforme
ofereçam-me dádivas
os meus vizinhos.

Não sei se haverá lucidez
para escrever versos.

Em todo caso,
guardo os primeiros
escritos na olivetti 45

para que eu me lembre
daquela loucura santa.

Feliz.
Quem sabe.
Mas não espalha.

Os meus fantasmas
andam atentos.

Lembrando a programação da Expocrato.


E de repente apareceu um tal de Léo Magalhães. Ele vinha com muita harmonia no seu samba. Mandava muitas correspondências para a Caixa Postal 1022, para Ivete Sangalo que, com a sua saia rodada, dançou um calypso dentro da chicabana. Aí os dois tomaram um avião, esse do forró, e ficaram moídos, fizeram uns plays. Ela é realmente uma garota safada, ele tentando ser um magnífico Jammil. Pena que foi passado pra trás pelo Zezé Di Camargo que, junto com Luciano, pegaram o arreio de ouro e foram acabar, todos juntos, com a Expocrato.

Cariricaturas convida : Colaboradores ,Leitores e Amigos !

Dia 23.07- almoço literário no "4 Estações" - presença de todos os autores./colaboradores.
12,00 por pessoa.
Confirmem presença , e informem  número de pessoas.

Na oportunidade , começaremos a fazer a entrega  dos livros devidos a cada um.

Dia 24.07- Festa de lançamento do livro "Cariricaturas em prosa e verso", no Crato Ténis Clube -  a partir das 20 h.

Programação:

-cerimonial de lançamento

-performances poéticas

-coquetel (excluídos refrigerantes e bebidas alcoólicas).Facultado os pedidos ao bar da Associação).Música  ao vivo com João Nicodemos.

- baile com Hugo Linard e Banda ( 4 hs dançantes)

Mesas ainda disponíveis : 22

Façam  as reservas pelo telefone : 35232867 ( Socorro Moreira)
ou usem o e-mail: sauska_8@hotmail.com , para que possamos enviar o mapa .

Mesa 40,00 ( valendo 4 ingressos e um exemplar do livro)


Sorteio de brindes - presente especial de Elmano Rodrigues Pinheiro.
Maiores informações ? Estamos às ordens !

Claude,Socorro, Edilma e Emerson


9 de Julho - Por Norma Hauer

9 DE JULHO
Onde está o Ernesto que não veio falar um pouco sobre o 9 de julho?
Em São Paulo é feriado devido à Revolução constitucionalista.
Hoje é feriado, mas não foi sempre assim.

No tempo da ditadura de Getúlio era proibido festejar o 9 de julho e, quem tentasse fazê-lo seria preso.
É óbvio, afinal o 9 de julho foi um movimento contra Getúlio.

Como minha "praia" é o rádio e a música popular, venho lembrar que foi a Rádio Record de São Paulo que deu estímulo aos revolucionários e que o locutor e grande radialista César Ladeira, ao microfone daquela emissora, leu um manifesto convocando o povo paulista para tomar parte na revolução.

A voz forte, bem colocada e muito bonita de César Ladeira passou a ser a marca, através do rádio, daquele movimento.

Terminada a revolução (em outubro) obviamente vencida pelo Governo, César Ladeira e seus companheiros da Rádio Record foram presos.
Após ser libertado, César Ladeira veio para o Rio de Janeiro fazendo uma "revolução"
no rádio "morno" de então.
Em 1° de setembro de 1933 César Ladeira estreou na Rádio Myrink Veiga, transformando-a na mais avançada emissora de rádio da época.
Mas não vou falar de César Ladeira. Sua atuação no rádio merece um compêndio.

Ainda me referindo ao 9 de julho, lembrarei um samba de nome 'TREM BLINDADO".
Na época, os constitucionalistas adquiriram um trem blindado para seu movimento e o compositor popular (no caso Braguinha e Alberto Ribeiro) compuseram um "trem blindado" para Almirante gravar, constituindo em grande sucesso.

TREM BLINDADO
Meu bem pra me livrar da matrca
Da língua de uma sogra infernal
Eu comprei um trem blindado
P'ra poder sair no carnaval...

Mulata por teu encanto
Muito eu levei na cabeça
Porém agora eu duvido
Que isto outra vez aconteça
Do teu falado feitiço
Eu pouco caso hoje faço
Mandei fazer em São Paulo, mulata
Um capacete de aço.

Mulata quando eu te vi logo pedi anistia
Pois os teus olhos lançavam terrível fuzilaria
E p'ra niguém aderir
Ao nosso acordo amoroso
Botei na porta de casa, mulata
Um canhão misterioso.


Tanto o "capacete de aço", como o "canhão misterioso" diziam que foram usados em Sãoi Paulo durante a revolução constitucionalista.

Houve outra música,esta de Ary Kerner, também relativa a esse moivimento.
Seu nome "Na Serra da Mantiqueira", gravada por Gastão Formenti.

As composições lançadas nessas épocas de movimentos fazem as coisas se tornarem mais brandas.
Norma

Ajuda humanitária - Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

É bom saber que a humanidade, apesar de todos os problemas como violência, individualismo, fome, miséria, drogas e muitas outras mazelas, não está perdida. A esperança no ser humano nos anima a acreditar que o mundo pode ser transformado através do amor. A solidariedade das pessoas neste momento de grande sofrimento dos moradores das cidades de Alagoas e de Pernambuco, vítimas das enchentes, que perderam além de familiares, tudo que adquiriram durante toda uma vida de trabalho, é sinal da presença de Deus no coração humano. Deus está sempre presente na vida dos sofredores e oprimidos.

Quando um fariseu perguntou a Jesus qual era o maior mandamento da Lei, Jesus respondeu: “Ame ao Senhor seu Deus com todo seu coração, com toda a sua alma e com todo seu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos.” (Mt 22, 34-40). Os fariseus estavam questionando sobre leis, deveres e obrigações. Jesus respondeu falando de amor. Sabemos que o amor não é obrigação, é sentimento que nasce do coração e gera satisfação pessoal. Na época de Jesus, o povo judeu estava subjugado a mais de 600 leis, das quais 365 eram proibições. Era um fardo pesadíssimo que nem os próprios sacerdotes cumpriam. Jesus queria que os fariseus entendessem que o ser humano deve trocar a lei opressora pelo amor e em conseqüência a obrigação pela satisfação. Ele desejava que os fariseus compreendessem que além de amar e entregar a nossa vida a Deus, nós devemos amar ao próximo como a nós mesmo. Se amarmos a Deus com total entrega, também nos entregaremos àqueles que são a sua imagem e semelhança. É no momento dessa tragédia, que ocorreu com os moradores de algumas cidades de Alagoas e Pernambuco, que devemos refletir sobre o exercício da solidariedade, que é o amor que Jesus nos mostrou através desses dois mandamentos citados acima.

Muito me sensibilizei ao assistir o noticiário e ouvir uma menina de três anos nos braços do pai, dizendo ao repórter: “eu quero a minha casinha”. Sabemos que o governo já tomou as primeiras medidas para reconstruir as cidades e a vida daquelas pessoas, mas cada brasileiro pode fazer a sua parte.

É animador saber que todo o Brasil está se unindo para ajudar as pessoas desabrigadas por tão grande tragédia. Quando o ser humano se liberta do egoísmo, acontece o milagre da abundância. Ninguém morre de fome por ajudar a matar a fome de alguém. Ao contrário, a sabedoria popular diz que quando nos doamos a alguém, recebemos em dobro, embora não devamos fazer a caridade pensando em receber algo em troca. Como diz o Evangelho segundo Mateus: “Quanto a ti, ao dares esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a direita, a fim de que tua esmola fique no segredo; e teu pai, que vê no segredo te retribuirá.” (3,6-4).

Quando nos dispomos a ajudar alguém sentimos o nosso coração leve pela alegria de servir. Por isso vamos nos dirigir ao um posto de coleta da nossa cidade, e doar com o coração o que podermos partilhar. Não importa a quantidade, até um quilo de alimento serve. O importante é que a “união faz a força”, e o pouco se torna muito quando é ofertado com amor.

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo

A minha Homenagem ao Dia da Fotografia - Dihelson Mendonça



Cardo - Dihelson Mendonça


Crato - Igreja da Sé - Dihelson Mendonça



Estampa - Dihelson Mendonça



Busto - Dihelson Mendonça


A Fotografia eterniza momentos.
A Poesia eterniza sentimentos.
A Fotografia é a Poesia da imagem.
A Poesia é a fotografia das sensações.

( Autor desconhecido )

Fotografia: Dihelson Mendonça
Proibida a Reprodução e Utilização sem a Autorização do Autor

A "saunazinha" da Expocrato - Por: José Nilton Mariano Saraiva

Independentemente de se ser “expert” no trato da questão ou mesmo de uma providencial visitazinha básica ao “google”, todos temos a obrigação de saber que “museus” são espaços direcionados e convenientemente apropriados para a guarda de obras de arte ou antiguidades que retratem o legado, a cultura, os costumes e toda a história de um povo ou de uma nação; além do que, funcionam como valiosíssimas e imprescindíveis instituições permanentes, sem fins lucrativos, abertas à visitação pública, porquanto a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento. Normalmente, seu principal incentivador e mantenedor é o poder público, que trata de adquirir, preservar, exibir e conservar as evidências materiais dos povos e seu habitat natural, objetivando a apreciação, a pesquisa, o estudo, a educação.
Para tanto, no entanto (sem trocadilho), há que se oferecer e disponibilizar aos que os freqüentam, amplas condições de acesso, permanência e conforto internos, necessários e estimulantes ao embarque numa revigorante viagem no tempo; manuseando e estudando seu acervo num ambiente apropriado, habilitamo-nos à compreensão das nossas raízes, dos nossos ancestrais (quem já visitou o estupendo Museu do Louvre, em Paris, sabe bem do que estamos falando).
Trazendo aqui para nossa província, não há como não reconhecer das mais louváveis e meritórias a intenção da Prefeitura Municipal do Crato de, em mergulhando nas brumas do passado, buscar lá nos seus primórdios, nas suas lutas, nas suas origens, nas suas motivações e óbices, retratos emblemáticos do desenvolvimento da atual pujante “Expocrato”, através da criação e disponibilização do seu próprio "museu", a fim que, de forma pedagógica, aqueles que a freqüentam atualmente compreendam a dimensão da tenaz e hercúlea luta que foi construí-la, até se atingir a realidade momentânea.
Só que, talvez devido à pressa com que foi planejado, do pouco tempo disponibilizado em sua execução, da não localização em tempo hábil do seu rico e vasto acervo vídeo-áudio-fotográfico (certamente existente e dormindo em alguma gaveta de um burocrata qualquer) e, principalmente, devido à incompreensível ausência de um profissional “especialista” no mister (a fim de prestar a devida e competente orientação técnica de como deveria ser estruturado), o “Museu da Expocrato” acabou por transformar-se numa autentica decepção para aqueles que o adentraram.
Pra começo de conversa, é absolutamente injustificável que, com tanto espaço disponível no atual “parque de exposições” (cuja área construída e ocupada preenche apenas um terço da área total), o poder municipal tenha optado por abrigar tão importante instrumento público num único vão, uma espécie de “caixote” de tijolos, argamassa e cal, pessimamente localizado e de dimensão reduzidíssima; contando com apenas uma única abertura, que se presta para o acesso e saída dos visitantes, o item “segurança” fica seriamente comprometido, devido ao intenso fluxo de interessados em conhecê-lo, assim como na perspectiva de uma evacuação eventual; desprovido de janelas ou qualquer outra entrada de ar e sem contar com qualquer climatização artificial (ar condicionado ou simplórios ventiladores), a temperatura ambiente se situa nunca menos no patamar de 50 graus centígrados, tornando-o um ambiente sufocante, desconfortável, inadequado e desestimulante para qualquer tipo de atividade ou contemplação.
Com relação ao tímido, pobre e insuficiente acervo fotográfico disponibilizado, parece não ter havido - como seria recomendável - qualquer preocupação em catalogá-lo, organizá-lo e disponibilizá-lo, cronologicamente, de forma a que tivéssemos um encadeamento progressivo dos diversos eventos ao longo e através dos anos; além do que inexistem quaisquer legendas identificadoras das autoridades retratadas (somente os mais longevos tiveram condição de reconhecer um Wilson Gonçalves, Filemon Teles, Virgílio Távora, Dom Vicente, Alencar Araripe e outros).
Em resumo, o ambiente que inapropriadamente se resolveu cognominar de “Museu da Expocrato”, bem que teria uma definição muito mais apropriada e consentânea com a realidade se o houvéssemos batizado de “A Saunazinha da Expocrato”, propícia, aí sim, a desintoxicar e a curar a ressaca de qualquer um que exagere no exercício da atividade etílica, via levantamento de copo (algo recorrente em eventos da espécie).
No mais, a Prefeitura do Crato, à vista dos crassos erros protagonizados em 2009, bem que nesse 2010 poderia nos brindar com um autentico, respeitável e genuíno museu. Mas, um museu de verdade, digno da denominação e finalidade, e não um arremedo, não essa autentica "casa de horrores" que tivemos de inadvertidamente adentrar à busca de inolvidáveis recordações de um passado não tão distante.

Dialética - por Viniciíus de Moraes



É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...

Por Vinícius de Moraes


A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.


Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

9 de Julho de 1980, partia o poeta ....

Lembrando Carlos Pena



Carlos Pena Filho fez sua estreia na poesia em 1952 com O tempo da busca, volume de poemas magro e apropriado à sua condição de jovem poeta. Nascido no Recife, em 17 de maio de 1929, desde muito cedo se afirmou como personalidade singular de poeta em franca e rápida expansão. Ao absorver a experiência concreta com o mundo sensível na atividade de maior peso em sua vida e na qual conseguia suas melhores realizações e sucessos, a poesia, desenvolveu um lirismo emocionado e subjetivo. Com o apuramento de uma sensibilidade estética privilegiada, contrapôs a esse lirismo limpo e arrojado poemas de vertente social e popular. E serviu-se do mesmo cuidado tanto com as estruturas fixas e tradicionais ocorrentes no lírico, quanto com as formas livres presentes nos poemas de raiz mais nordestinada. Tais poemas constantes no bloco Nordesterro, e no poema longo que se desdobra em outros, Guia prático da cidade do Recife, exerceram também o papel de afastar certa noção de purismo requerida para Carlos Pena Filho por companheiros de geração.

A mudança de orientação diccional nos poemas de Nordesterro revela uma faceta poética social e radicalmente oposta ao maneirismo formalista neoparnasiano apreendido da geração de 1945, façanha até então inimaginável num poeta que se diferenciava pela realização lírica de sua poesia. E isso vai culminar numa poética urbana de rara eficácia, representada pelo Guia prático, poema com feitio de inventário da cidade solitária em meio a seus transeuntes, prédios e rios. Assumindo uma atitude desse tipo, rompia de modo corajoso as amarras políticas de seu próprio meio e convivência, de cunho liberal. Essa nova prática demonstrava que o poeta não estava impregnado apenas de sonetos líricos e subjetivistas, mas poderia ser capaz de trabalhar conteúdos de maior impureza, como os referentes ao sociopolítico, ao rural e ao urbano escritos em linguagem contundente e desabrida.

Carlos Pena destacou-se como um dos poetas mais vigorosos da década de 1950. Devido ao seu temperamento boêmio, as suas vivências pessoais seriam sublinhadas por uma vida literária e intelectual movimentada e enriquecida de muitas solicitações e atividades.

Não se teve notícia até agora de nenhum evento ou iniciativa de âmbito público ou privado para lembrar a passagem dos 50 anos da morte de Carlos Pena Filho, em 1º de julho deste ano. Da parte de entidades culturais e oficiais, o silêncio em torno do poeta que tanto cantou e amou o Recife é frio e majestático, restando o sentimento individual disperso dos que o leem e continuam a admirar a sua poesia. Não é de nenhum modo justo nem animador esse esquecimento a que vem sendo submetido em sua própria cidade, quando se pensa que ele tem a maioria de seus leitores distribuídos por aqui. Contudo, não é possível negar que existem também grandes leitores da poesia do Livro geral espalhados por todo o País, certamente porque a leitura de seus versos não suprime a fruição e o prazer provocados por uma conformação altamente fluente e musical que os reveste.

Todo o desempenho lírico e estético do poeta que viveu e escreveu como um dos mais autênticos e entusiasmados recifenses, realiza-se numa obra que, se não extensa numericamente, mostra-se competentemente elaborada e trabalhada no pequeno circuito de uma década e meia. Impiedoso e irônico com o lado superficial e obscuro da cidade, repudiava seus surtos conformistas e a banalização conservadora e padronizada de comportamentos e relações. Sem excluir a força dessa indignação, pode-se partilhar ainda da descoberta lúdica de um mundo solar e marinho, luminoso e desértico ao mesmo tempo, que permeia frações e núcleos significantes de sua poesia. Ao largo de seus versos e estrofes de construção impecável, notadamente naqueles poemas em que se sente a presença do poeta pleno e maduro, confirma-se o percurso exigente de uma poesia que sempre buscou, da adolescência à morte prematura, as melhores soluções e definições acompanhadas dos mais convincentes resultados estéticos.

(In: Jornal do Commercio, Opinião, Recife, 19 de junho de 2010.)

Acesse e divulgue o Blog de Luiz Carlos Monteiro
(http://omundocircundante.blogspot.com)


LISTA DOS AUTORES - "CARIRICATURAS‏ em verso e prosa"

01. Ana Cecília Bastos /
02. Armando Lopes Rafael /
03. Assis Lima /
04. Bernardo Melgaço
05. Carlos Esmeraldo
06. Carlos Rafael
07. Claude Bloc
08. Corujinha Baiana
09. Dimas de Castro
10. Domingos Barroso
11. Edilma Rocha
12. Edmar Lima Cordeiro
13. Emerson Monteiro
14. Everardo Norões
15. Isabela Pinheiro
16. J. Flávio Vieira
17. João Marni
18. João Nicodemos
19. Joaquim Pinheiro
20. José do Vale Feitosa
21. José Newton Alves de Sousa
22. José Nilton Mariano
23. Liduína Vilar
24. Magali Figueirêdo
25. Marcos Barreto
26. Olival Honor
27. Rejane Gonçalves
28. Roberto Jamacaru
29. Socorro Moreira
30. Stela Siebra Brito
31. Vera Barbosa
32. Wilton Dedê
33-Bruno Pedrosa


*Na impossibilidade das presenças, os nomes grifados receberão seus livros pelos Correios.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Faltam 16 dias para a festa de lançamento do nosso livro :"Cariricaturas em verso e prosa"

Triste por todos aqueles que não puderem comparecer  ao encontro.
Feliz  pela oportunidade do encontro, em todos os níveis !
Virtual e real já se confundem.

E lembrem-se :

Dia 23.07- almoço no " 4 estações" 


Dia 24.07- Festa  no Crato Tênis Clube 

20 h - cerimonial de lançamento

21 h- performances poéticas e coquetel.

22h- Baile , animado por Hugo Linard e Banda 


*Já foram reservadas quase todas as mesas ! 

Qualquer dúvida ou maiores informações , entrem em contato conosco !

Edilma, Claude, Socorro e Emerson.

Mercedes Sosa



Mercedes Sosa (San Miguel de Tucumán, 9 de julho de 1935 — Buenos Aires, 4 de outubro de 2009) foi uma cantora argentina de grande apelo popular na América Latina. Com raízes na música folclórica argentina, ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva canción. Apelidada de La Negra pelos fãs devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".

Pérola dos bastidores- por José do Vale Pinheiro Feitosa

E agora? O que será do vazio sem a lixa, os ferros e os martelos? 
Como serão as noites sem a solução do inacabado da tarde? 
E as manhãs acordadas para experimentar as soluções urdidas nas noites silenciosas?

Será uma outra arte? 
A de fazer a madeira ecoar as vibrações das cordas de aço? 
A rabeca revirar este mundo que se esconde na música dos astros?

Bucolismo

Talvez esse trem
nunca chegue.

Imaginação somente:
montanhas, sol, lago.

Já caiu o teto
da estação.

A erva daninha
fez dos bancos
almofadas.

E o magnífico tolo
com os olhos seguindo
os trilhos.

Posso me levantar agora.
Mudar de conceito sobre a vida.

Bifurcar minha língua
com o mesmo veneno
da sutil serpente.

Ou bem mais cínico
vestir-me com o fogo
dos olhos dos dragões.

Resolvo permanecer
estirado na cama.

Os olhos perdendo a vista.
Os óculos jogados fora.

O LIVRO DO CARIRICATURAS É DE TODOS - José do Vale Pinheiro Feitosa

Esta semana assistindo a uma entrevista com um dos melhores atores do atual cinema argentino, Ricardo Darin, vi uma informação que me chamou a atenção. Quando a produção argentina O Segredo dos Teus Olhos ganhou o Oscar, o povo argentino vibrou como se aquela vitória fosse de todos.

Seria assim que gostaria que o povo do Cariri, especialmente do Crato, sentisse em relação ao Livro de Cariricaturas, que está sendo lançado pelo blog do mesmo nome. Sentisse como parte deste livro, tenha ou não assinado algo do seu conteúdo.

Este livro é uma coisa muito maior do que imaginamos a uma primeira vista. Especialmente agora quando tudo é mobilizar, organizar, convocar e fazer acontecer o seu lançamento festivo. Mas já vou adiantar o dia seguinte.

O livro é o renascimento da região após a grande diáspora dos anos 60 quando a primeira grande geração (estou usando um conceito alargado para geração que envolve da metade dos anos 50 até o final dos anos 70) de universitários teve que ir ao litoral encontrar oportunidade. Pois bem, este livro é a desfeita daquele êxodo.

Por isso é que, materialmente, o livro está ligado à internet. Foi este instrumento de telecomunicação e processamento rápido que permitiu este reencontro. Que fez o território ser muito maior do que os que permanecem nele.

Pelo livro do Cariricaturas a região é um centro simbólico além das limitações do espaço e do esquecimento do tempo. Ele desnuda aquilo que suspeitavam estivesse encantado, mas na realidade é um encanto de sedução, pois tudo o mais está tão evidente a quem queira enxergar.
Em 24 de julho quando as páginas começarem a ser lidas, o orgulho de sermos um ente coletivo será maior do que a mera casualidade de ter ali a denominação de autor ou não. Seremos um ser múltiplo como desejam todas as nações.

Seremos um povo. Não uma tribo. Não esqueçamos que os cariris eram um povo. Que os portugueses eram um povo. E os africanos eram muitos, mas com um único cordão umbilical de se tornarem cearenses, caririenses, cratense.

CLIQUES PARA O DIA DA FOTOGRAFIA - Por Edilma Rocha

Fotografar as flores molhadas no jardim

O repousar das borboletas
suavemente


O amarelo feito luz do sol radiante
decorando os recantos do
jardim








O amigo de todas as horas sempre a nos esperar com carinho


A agua cristalina que nos refresca
nos dias quentes do verão






Apimentando o sabor do alimento
As mais simples imagens do nosso dia a dia se tornam nestas imagens
maravilhosamente belas pelo clique
da máquina fotgráfica
Homenagem a todos os fotografos
do CARIRICATURAS







I Copa do Mundo da Macusebe

Não se sabe bem quem teve a idéia de iniciar a terceira guerra mundial a partir de Matozinho. Aquilo parecia iniciativa do Hamas ou da Al- Qaeda , numa tentativa de desestabilizar de vez o Ocidente. Ao menos , debitou-se na conta Suetônio aquela que soava como a nova Jihad. O homem, dado ao carteado e ao lançamento de dominó no Bar do Giba, foi convocado pelo prefeito Salu Bandalheira como Secretário de Esportes de Matozinho. De início, Suetônio até que mostrou serviço, organizou o campeonato de Bila ao Burias, de empinamento de pipa e o de peteca que foram um verdadeiro sucesso. Elogiado por todos, nosso esportista pegou ar na bomba. Aspirando ventos soprados da África do Sul, resolveu promover a I Copa do Mundo de Futebol da Macusebe . O certame envolvia as seleções das cidades da grande Matozinho: Currais, Serrinha e Bertioga.
À primeira vista, Suetônio organizara um evento de suprema importância, integrando as cidades da região através do futebol. Eram tantas as fronteiras que separavam estas vilas, embebidas todas num profundo bairrismo, que a iniciativa parecia louvável. O grande problema só se percebeu às vésperas da abertura da Copa: o risco das partidas se transformarem, definitivamente, numa batalha de campo com muitos mortos e feridos. Os antecedentes não eram muito animadores. Jogadores da defesa gostavam de jogar de foice na mão e a torcida ao invés de bandeiras e faixas, normalmente, empunhava facões e bordunas. O pau ia comer no centro, fosse qual fosse o resultado. Como proporcionar segurança num evento de tamanha magnitude ? Matozinho , escolhida como primeira sede do evento, só tinha dois samangos: mais acostumados a cochilo de preguiçosa do que a investigação e campana. Só às vésperas do primeiro jogo de abertura da Macusebe Copa é que , num sonho, Suetônio despertou para a sinuca de bico em que estava metido.
Atônito, nosso Secretário fez uma reunião de emergência com os funcionários da sua pasta. Resolveram, então, tomar algumas medidas para amenizar o problema. Convenceram o Padre Nó Cego a ser juiz das partidas. Alemãozão de quase dois metros de altura, o homem de voz cavernosa, metia medo em qualquer cristão e era famoso por suas penitências pesadíssimas, que mais pareciam tarefas de gincana. O sacerdote rifugou , mas sob promessa de uma roça verdejante, para seu gado que, em pleno outubro, andava mais magro que o ferrolho da igreja, aceitou. O segundo passo foi convocar Severo e Moraes, os dois soldados municipais, como bandeirinhas. Depois, em carta oficial do prefeito, apelou-se ao espírito patriótico do Coronel Sinfrônio Arnaud, para organizar um exército que desse segurança suficiente às partidas, o que não lhe seria difícil, uma vez que só na fazenda possuía mais de cento e cinqüenta jagunços.
O certo é que na abertura da Copa já se tinha um mínimo esquema de segurança montado. As preocupações de Suetônio não foram de nenhuma maneira excessivas. A rivalidade entre as equipes, se já se mostrava grande nas prévias, se foi acentuando com o passar dos dias. E o pior é que a seleção de Matozinho começou perdendo a primeira partida, o que reacendeu antigas desavenças. A coisa pegou fogo. Alguns colocaram logo a culpa em Geracino, o maior sanfoneiro da região, que, coincidentemente, por uma três vezes, botou-se para torcer um time e ele sempre perdeu. No fim do primeiro turno, a seleção de Bertioga estava em primeiro lugar, para desespero de Matozinho e dos outros concorrentes. O técnico da seleção de Bertioga, Pedro Bãin de Cuia , começou, então a cagar-goma: O campeonato tava no papo, a região não tinha parelha para a sua seleção e por aí vai. Aposta vai, aposta vem, e Pedro jurou de pés juntos que ,se seu time não fosse campeão, ele tirava a roupa e dava uma volta, em pelo, na praça da matriz. Boca falou, cu pagou.
Iniciado o segundo turno, os ventos mudaram para Matozinho. Primeiro, porque já não havia um jogador titular em atividade. Jogavam apenas os reservas. Um pouco por conta da rigidez de Nó Cego que mandou prender uns dez infratores durante os jogos. Depois, em razão das medidas severas de Sinfrônio que já metera peia em mais de dez jogadores e cobrira no relho mais de cinqüenta torcedorezinhos mais rebeldes. Alguns dizem, também, que a recuperação da seleção Matozense deveu-se à reclusão no calabouço do pé-frio Geracino, até o fim do campeonato.
O certo é que a partida final foi emocionante. Naquele domingo , Matozinho e Bertioga se enfrentaram num jogo decisivo de vida ou morte. Zero a Zero até o último minuto quando Nó Cego apitou um pênalti contra Bertioga. O tempo fechou. Bate! Não Bate ! Se bater morre! O certo é que para resolver a questão, o Croronel Sinfrõnio Arnaud adentrou o campo e, arrodedo de jagunços, bateu a penalidade. O goleiro até que tentou pegar o tirozinho mincho do militar, mas foi impedido prontamente por dois cabras do coronel. Gol de Matozinho ! Campeão da Primeira Copa do Mundo do Macusebe.
No dia seguinte, “Bãin de Cuia” teve que cumprir a promessa. Magro que só um sibito com dengue, tirou as ceroulas e saiu correndo em volta da praça, sob os apupos gerais. Ao passar defronte a Igreja da venerada Santa Genoveva, levou um sabacu vindo do ventilador do braço de Nó Cego e desapareceu. Dizem as más línguas que o bicho foi desferido com tamanha peçonha que “Bãin de Cuia”, como um balão, não mais voltou : morreu de sede nos ares.

J. Flávio Vieira

Fronteiras

Se não houver coragem no lombo
e no lóbulo frontal
não se caminha
atento.

Os pássaros quando tombam
despencam na calçada.
Não têm outra chance.

Tu tens duas pernas.
Caminha, homem.

Segue teu dedo em riste.
Teus olhos vermelhos.
Tua boca torta.

Abraça o vento da manhã.
Mas deixa-o passar.

As plantinhas da varanda
já resmungam.

A cafeteira desligada
é um desânimo que dói
na alma.

Sempre em frente, seu moço.
Não pises com tanta força
sobre as folhas secas.

Debaixo delas
bostinha de poodle.

Tu andas de chinelão
com frequência
entre teus dedos
gravetos de oiticica.

Quando tu te deitas
(sinto dizer) apenas
teus pensamentos
te veem.

Então tu te enrolas todo
pensando coisas invisíveis.

Tu não dormes
graças a deus
nem roes
as unhas.

Antes névoas,
hoje janela aberta.

E se porventura
o céu escurece
e as nuvens
cospem na vidraça

é bom tirar as botas
do parapeito.

Entrevista a Marcelo Novaes


Entrevista a Marcelo Novaes:

http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/07/marcelo-conversa-com-jose-carlos-mendes.html

MN: Brandão, Tennessee Williams [um nome adotado, pois dificilmente encontraríamos tantas consoantes e vogais em sucessão num único nome] teve uma vida teatral e transformou isso em teatro. José Carlos Brandão, que faz bons poemas bucólicos, teve uma vida bucólica?


JCMB: Marcelo, não gosto da palavra “bucólica” para a minha poesia. Lembro-me de Marcus Acioly protestando por José Nêumane tê-la usado para falar de meu terceiro livro, “Presença da morte” (1991, Estação Liberdade & Fundação Nestlé de Cultura). O termo “bucólico” soa datado, o séc. XVIII e o Arcadismo – quando não havia um sentimento pastoril autêntico, mas uma poesia do fingimento. Fingia-se por princípio. Mesmo Fernando Pessoa / Caeiro fingia uma “poesia da natureza”.

Não vai nisso nenhum juízo de valor: quase ninguém nega (exceção: João Cabral) que Fernando Pessoa era um poeta enorme. E os Árcades também eram poetas de qualidade. Apenas sou diferente. Desculpe a correção, sei que a intenção sua e de todos que falam em bucolismo é altamente elogiosa. Nêumane, no mesmo parágrafo em que elogia o meu “bucolismo lúcido”, acertou em cheio numa frase simples: “A presença mais forte em seu livro é a da terra.”

Por isso dei o subtítulo “poemas telúricos” ao livro “Memória da terra”, que vou lançar no dia 22 de julho (Eu lhe enviarei um convite em tempo. Será uma honra e um prazer a sua presença. Infelizmente o lançamento será quase doméstico, restrito a minha aldeia, Bauru). São poemas da terra porque eu vivi meus primeiros oito anos na fazenda São José (lembre-se de que meu nome é José) do Matão, onde aprendi a amar a terra.

Não sei por que Manoel de Barros ou Drummond não usaram o termo “telúrico” para sua poesia. Usaram “rupestre”, com muita propriedade – Drummond, por vir de uma Minas rochosa, e Manoel de Barros por se referir a sua poesia como inscrições primitivas na pedra, de uma ingênua e sábia ancestralidade.

Miguel Torga usou o termo “telúrico” – e o que mais fez foi cantar a sua terra, o Marão, e o homem que a trabalha com o seu sangue. Note-se o caráter social, ao lado do telúrico, na obra de Torga.

Note-se ainda que “telúrico” refere-se especificamente ao planeta Terra, mas os poetas usam-na referindo-se ao seu rincão. Toda poesia telúrica que escrevo é uma tentativa de reinventar o Matão da minha infância.


MN: Você cita Tolstói e Miguel Torga para dizer, em outros, que "o cantor deve cantar a sua aldeia para cantar o mundo." Lao Tsé diz algo parecido - ou um "equivalente maior" desta máxima - dizendo que o sábio não precisa sair de casa para conhecer o mundo. De quantos metros quadrados precisa o homem para conhecer-se?


JCMB: O homem não conhece o próprio umbigo e quer explorar o universo infinito. É uma frase de efeito, mas não se pode negar a sua justeza. Para aliviar cito Santo Agostinho dizendo que o homem admira-se com a imensidão cósmica quando a maior maravilha a contemplar é o próprio homem.

Mas a ideia no contexto é que é mais fácil atingir o universal falando do que conhecemos, do nosso quintal, da nossa rua. Da nossa rua chega-se ao bairro, à cidade, ao país, ao mundo. É artificial todo conhecimento que não nos vem diretamente da vida. Pode ser importante o conhecimento livresco, mas sempre carregará essa pecha: “livresco”, com tudo que tem de negativo essa palavra. Vive, depois escreve – esse deve ser o primeiro conselho ao aspirante a escritor. Certo que existem exceções – mas justamente chamamo-las exceções.

“De quanto metros quadrados precisa o homem para conhecer-se?” Convenhamos que o homem nunca vai conhecer-se, portanto é melhor falar do pouco que ele conhece, com simplicidade, lavrando a palavra como o lavrador lavra a terra, sem nunca precisa alardear grandes conhecimentos.

MN: Sendo o seu lirismo essencialmente ligado à natureza [às vezes, bucólico-minimalista, talvez pela apreciação dos hai kais], o que você acha do lirismo-intelectual-urbano? Este lirismo, pra vc, existe, de fato? Ou é pouco mais [ou menos...] do que uma abstração?

Criei um heterônimo, Gregório Vaz, para expressar a revolta contra o que chamei então de “cidade podre”. Foi lá por 1980 - aparecem vários poemas dele no meu livro “Exílio” (1983, Massao Ohno Editor). Hoje parece-me descaracterizado, tentei ressuscitá-lo (http://gregoriovaz.blogspot.com), acho que infrutiferamente. Mas o fato de não ter dado certo comigo não invalida o lirismo urbano.

O mal, desculpe, é você colocar o “intelectual” no meio do vocábulo. Deu certo com Drummond, deu certo com Ferreira Gullar. Com muita experiência de vida e de poesia. O intelectualismo, quando acontece, atrapalha.


JCMB: Quando eu penso em lirismo urbano posso ir para outro aparente extremo, que é o de Germano Mathias, com seu jeito idiossincrático de sambar, seu amálgama e conhecimento dos sambas regionais deste Brasilzão. E quando se ouve Germano Mathias conversando, ele revela que suas leituras - e seu lazer intelectual - é a Metafísica e o Misticismo. Germano Mathias lê metafísicos e místicos e canta sambas de forma sincopada. Eis o lírico-urbano com humor: uma ilustração bastante boa de "paradoxo bem resolvido". Você preza o humor, a ponto de colocá-lo como um dos índices habituais de qualidade de bons escritores [apesar de quase não ver humor em Ferreira Gullar, por exemplo]. Quais são os escritores que ilustrariam este "paradoxo bem resolvido" na perspectiva de José Carlos Brandão?

Gullar se diz um “resmungão”, não sou eu que o vejo sem humor. É um poeta imenso. Resolve esse paradoxo com a lucidez da sua poesia. Nega a metafísica, dizendo-se materialista, mas a sua poesia ilumina – e a iluminação é uma forma de transcendência.

Murilo Mendes, Jorge de Lima, Cecília Meireles fizeram uma poesia com grande carga espiritual. Murilo Mendes sobretudo foi um poeta das coisas concretas – do mais concreto, da pedra, do diamante (veja-se o seu poema a São João da Cruz) chega-se ao transcendente. No caso de São João da Cruz, chega-se ao místico.

Em “O silêncio de Deus” (2009, Edição do autor) tenho um poema que diz: “Escrevo para entrar em êxtase, / Escrevo para ver Deus.” É muita pretensão, mas quem não fica extasiado com a beleza? A iluminação da poesia não transcende a matéria e, assim, nos leva a ver Deus? Os ateus negam Deus, mas falam em transcendência – e eu lembro que o sinônimo de transcendência é Deus.

MN: Você já comentou [em antigo grupo literário] certo apreço por escritores suicidas. Exemplifique um pouco deste apreço, explicando-nos para nós, leitores. E me diga: apreciar suicidas é flertar com a morte em segurança?

JCMB: Fiz um poema chamado “Os poetas suicidas” (que acabei renegando, não é bom) que dizia não só de “certo apreço”, mas de fascínio pelos suicidas. Não consigo entender esse fenômeno. Paul Celan matou-se. Georg Trakl matou-se. São dois dos poetas que mais admiro. É insuportável esse crime contra a vida. Não tem explicação, não tem justificativa. Amaram demais a vida. Como chegaram a extirpá-la?

A morte fascina-me. A porta do mistério. Quando o selo será rompido. A visão do esplendor, a visão sem os freios da matéria. Conhecer, enfim, o incognoscível. Mas não tem explicação o ato de tirar a própria vida. Posso compreender, como no caso de Celan, depois de viver os horrores dos campos de extermínio nazistas, carregando um mundo de horrores nos ombros, que um dia o homem sucumbe. Posso compreender, com a mínima misericórdia que Deus me dá, mas sempre a explicação será insuficiente.

Acho que os suicidas fascinam-me por seu desespero, por sua vontade consciente (?) de assumirem (?) esse ato extremo, pela carga de mistério que carregam quando entram no Mistério.

MN: Lendo um poema meu [você que procura Luz na poesia], se questionou porque tantos cegos seriam poetas. E essa "diatribe", tomando teu próprio termo, te ocorreu lendo meu texto "Clave de Chuva". Diga para nós, Brandão: como é o poema de um cego? É algo como Ray Charles ou Stevie Wonder tocando piano?


JCMB: Vou me repetir: poesia é iluminação. Mais: o poema é tão mais forte quanto mais sensorial. Os cegos, desprovidos de um sentido, têm apurados os outros – e o sensorial, neles, pode manifestar-se mais acuradamente. Veja que falo de grandes poetas: Borges, Homero, Milton. É poesia que ilumina, sem discussão.

“Sem olhos em Gaza” – Huxley sentiu a cegueira da humanidade, que caminhava para a 2ª Guerra Mundial. Huxley também não enxergava muito bem – por isso via mais?

Não sei como é o poema de um cego. Iluminados pela cegueira, os poetas iluminam o mundo. Talvez os poetas sejam cegos, todos eles. Ou nós. Por isso criamos imagens.


MN: Brandão, podemos "enxugar a escrita", desbatando-a até a simplicidade. Mas há trabalho [ou longa caminhada] por sob a simplicidade. Manoel de Barros só pôde/ pode entortar a sintaxe e ser aforístico ou minimalista, por sabê-la [e poder dela se utilizar] reta e caudalosa, se assim o desejar. Por isso [por ser um destrinchador do caudaloso e reto] pode nos apresentar seus "docinhos de coco" [forma curiosa de Guimarães Rosa elogiá-lo...]. Pensando na relação vida-e-obra, também há a árdua luta de Tolstói para adquirir coerência e despojar-se, pouco a pouco, dos seus títulos e excessos [inclusive de bens, para desgosto dos seus próximos...]. Fale um pouco do esforço [ou "caminhada longa e natural"] por detrás da "simplificação da escrita" de José Carlos Brandão.

JCMB: O primeiro livro de poesia que li foi “Os simples”, de Guerra Junqueiro. Imediatamente eu me disse algo como: “Também posso ser poeta. Se as coisas simples da vida, a gente e a terra que eu conheço podem ser matéria de poesia, se o poeta é gente como a gente e não uma abstração, eu também posso ser poeta.” E escrevi meu primeiro poema: “A figueira”. Eu tinha quinze anos de idade e sabia que o poema era primário, fraquíssimo. Não tinha importância, era o começo. Devagar eu aprenderia a técnica do verso.

Quando pensei ter aprendido um pouco de técnica, 35 anos depois, escrevi um poema em prosa sobre a figueira. Logo, um outro ainda em prosa. Pouco depois, um terceiro em forma de soneto, que está em “Memória da terra”.

Mas antes disso muita água rolou. Li os modernistas – Drummond, Bandeira, Murilo, Cecília, Fernando Pessoa. Fiz um curso de Letras, fiz especialização em Teoria da Literatura. Li Jorge de Lima e Mário Faustino, T. S. Eliot, Rilke e Valéry, Raul Bopp e García Lorca, e, enfim, João Cabral de Melo Neto. Aprendi consciência crítica com João Cabral. Foi o que ensinou a toda a poesia brasileira: consciência crítica.

Um parêntese: João Cabral acusa Fernando Pessoa de fazer uma poesia fácil demais, espontânea, como se nascesse sem esforço. Diz que ninguém fez tanto mal à poesia quanto Fernando Pessoa: todo mundo quer fazer poesia como quem respira, sem trabalhar o poema. Mas o oposto também se deu: o jovem passou a pensar que para fazer poesia tinha que ser cerebral como João Cabral, e os poetas passaram a fazer uma poesia dura, difícil de ler (como na “Oficina irritada”, de Drummond). O intelectualismo passou a ser uma marca de qualidade.

Em contrapartida, outros passaram a fazer uma poesia despojada, com o mínimo de recursos, como Oswald de Andrade. Uma poesia desbundada, como pedia o momento crítico que vivíamos, a ditadura militar.

A minha poesia deu de repente um salto de qualidade e dificuldade. O quanto ganhei em maturidade, ganhei também em hermetismo. A questão era exigir o máximo da linguagem, distendê-la a ponto de arrebentar. Era um sonho a naturalidade da linguagem, mas percorria o caminho inverso, com a linguagem em ponto de ebulição e as ideias (porque havia ideias, ao contrário de hoje, quando procuro fazer uma poesia só imagem) refletiam a minha inquietação existencial.

Premiado no Prêmio Estadual de Literatura, do então Estado da Guanabara, em 1974, animei-me a publicar o primeiro livro, “O emparedado”. Quando publiquei o segundo, “Exílio”, tinha conhecido os expressionistas alemães e suas imagens fortes, mas a minha poesia estava já mais descontraída. Cometo a imprudência de criar um heterônimo, e duas partes desse livro são de Gregório Vaz, “Os poemas da cidade podre” e “Sonetos em estado de graça”. A sua linguagem é propositalmente solta, desleixada, um grito de aversão causado pelos problemas da cidade grande (eu estava morando em Santos, mas queria referir-me a uma metrópole).

Em 1989, estava datilografando os poemas da primeira versão de “Memória da terra” para o concurso da V Bienal Nestlé de Literatura, quando deram mais um mês de prazo para a entrega dos originais. Nesse mês escrevi “Presença da morte”, que foi premiado e publicado pela Nestlé. A pressa deixou-o com esse nome horrível, que não leva o leitor a tomá-lo nas mãos como um livro de poemas telúricos, mas desagradavelmente dedicados à morte. Fizeram como capa (sem consultar o autor, lendo apenas o título do livro) uma pintura expressionista simbolizando a morte, horrível, sem nenhuma referência à minha poesia da terra. O que era um leitmotif, denotando a morte da terra, no entanto presente no sangue, tornou-se aparentemente o tema central.

Em 1999 publiquei “Poemas de amor”. Foi um tour de force. Como o poema social e o religioso, o de amor também resvala facilmente para o sentimentalismo, para o desabafo, para a não-poesia. Elegi um leitor ideal: Mário de Andrade. Pensei em Mário lendo os poemas de Manuel Bandeira. Escrevi para ele. O resultado foi o retorno à simplicidade, e o domínio da linguagem, a liberdade de criação.

Em 2009 reuni os poemas dos últimos trinta anos (mas a maioria são recentes) e publiquei numa edição limitadíssima “O silêncio de Deus”. A temática é complexa, a linguagem é despojada, simples.

Por fim, reuni os poemas telúricos dos últimos vinte anos e apresentei o projeto de publicá-los à Lei de Estímulo à Cultura, de Bauru. Com a demora burocrática do desenrolar do projeto, fiz poemas novos, quase todos, para os cem poemas previstos de “Memória da terra”. Parti de Jorge de Lima, que também fazia poesia telúrica, atendo-me à complexidade de seu “Livro de sonetos”e da “Invenção de Orfeu”, mas com Raul Bopp, “Cobra Norato” e “Mironga” cheguei à identificação com a terra. Conheci depois Manoel de Barros, quando tinha já atingido a tal “simplificação da escrita”.

8) Literatura social frequentemente resvala no panfleto. Literatura mística pode recender a homilia ou "sermão" [esqueçamos o Padre Vieira, que fazia o caminho inverso; afinal, ele era um sacerdote formalmente investido desta função...]. Que autores, segundo a sua percepção, foram felizes nas tentativas de evocar tais temas, sem caírem na armadilha da "depauperação da linguagem pelo engajamento" [material ou místico]?

Murilo Mendes é o mais forte poeta religioso brasileiro. Parte do concreto para criar suas imagens, sem nenhuma concessão ao pieguismo. Ao lado dele, Jorge de Lima, um poeta telúrico-religioso, mas cada vez mais preocupado com as possibilidades da forma. Atualmente temos Adélia Prado, poeta sem peias na língua, sem vergonha de sua fé, que expressa diretamente em seus versos tortos (é um elogio, a sua aproximação com Drummond). Ferreira Gullar ilumina o cotidiano com as faíscas da palavra, é um poeta que mostra grande sabedoria em muitos poemas (sabedoria não é elogio, mas quando a poesia veste os véus da sabedoria é quando chegou à excelência). Ledo Ivo persiste há mais de 50 anos na caminhada da poesia como iluminação. E enfim, o poeta de hoje que mais admiro: Alberto da Costa e Silva. Infelizmente publicou muito pouco, mas faz uma poesia límpida, em que consegue tornar perene o efêmero. Parte do telúrico, da recuperação da infância, para o eterno do amor, da comunhão humana.

MN: "Do metafísico ao bucólico, sem deixar de ser metafísico". Poderia ser esta uma das legendas de tua trajetória poética. Explique-nos, por favor, tal "rubrica" por mim apresentada, e que alguns dos teus leitores comentam, menos sucintamente, também observar. Esclareça a eles, também, este não-paradoxo.

JCMB: Procuro não trabalhar com ideias, mas deixar que as imagens iluminem a realidade do poema. Toda iluminação leva ao metafísico. Toda poesia, para ser poesia, é iluminação – e a iluminação é metafísica. É exagero dizer que toda poesia é metafísica? O fim da poesia é transcender a realidade, portanto, é metafísica.

MN: "Escrevo porque vou morrer", é um lema esclarecedor que você adota, e que foi comentado numa entrevista anterior, dada pelo Édson Bueno de Camargo, um dos apreciadores do teu trabalho. Você já escreveu o suficiente para partir em Paz, quando a hora chegar? A fala [não pelo que diz aos outros, mas pelo que faz ao próprio "dizente"] ajuda a atravessar a opacidade do mundo e alcançar a transcendência?

JCMB: O Edson citou de memória meu poemeto “Motivo”: “Faço poesia / porque vou morrer.” Acho que já expliquei, acima, essa ideia. E você também: o fim da poesia é a transcendência.

A consciência da morte dá grandeza ao homem, em lugar de limitá-lo. Saber do mergulho no mistério. Não escrever “o suficiente para partir em Paz, quando a hora chegar”, mas escrever porque se está vivo. A realidade é muito pouca, é preciso transcendê-la. É preciso dar o testemunho de que se está vivo. Da grandeza humana diante da pequenez do cotidiano. Eu escrevi num poema: “Escrever é um testemunho da alegria” – da alegria de estar vivo, de participar da beleza da Criação.

A essência da poesia é a falta de sentido do universo, da palavra, da vida e da morte. O poeta precisa gravar a lápide porque sabe que aquele instante não vai sobreviver. Precisa organizar o mundo para a morte. O êxtase da vida é desorganizado pela morte. O poeta escreve para gravar esse êxtase.

MN: Obrigado, Brandão!

JCMB: Obrigado, Marcelo!

É com imensa alegria que informo aos amigos que concluí a criação de minha nova rabeca.
Feita de Cedro, Imburana, Imbuia, Pau d'arco (ypê) e Amarelão.
Foram 12 dias de trabalho intenso, tempo integral, inclusive sonhando as soluções durante as noites... Valeu o trabalho!!! Seu som é muito bom, e melhora com o uso e o tempo...
A Perfeição humana é continuar buscando...
Gratidão aos amigos que me apoiaram!

COISAS DA VIDA - Por Edilma Rocha

Era tempo de complô entre os empregados que se uniram e bateram em retirada deixando-me sozinha para assumir a rotina da casa em que vivia. A moça simples do interior, filha única, prendada e que se dizia artista precisava esquecer tudo e partir para os trabalhos domésticos na limpeza da casa, na cozinha e ainda cumprir o seu papel na maternidade. Meu mundo era extenso demais em afazeres que começavam ao amanhecer o dia e terminavam a noite , estafada num sono profundo. E ia tocando a vida como poderia ser... Viva e eléctrica mais parecia um brinquedo que alguém deu corda e soltou pelo mundo. Começava o dia preparando os meninos para a escola, limpos, fardados, alimentados, prontos e com a lancheira debaixo dos braços, para depois deixa-los no Andreas Educativo. Retornava e ficando sozinha, teria que dar água e comida aos pássaros e animais que eram muitos num mine zoológico. Depois limpar a casa e preparar a comida entre uma corrida do tanque de roupas ao telefone sem deixar queimar as panelas no fogão. E logo já estava na hora de pegar os meninos de volta da escola para depois limpar tudo na cozinha, ajudar nas tarefas de casa, aguar o jardim e retirar as folhas da piscina. E nem promessa de conseguir alguém para me ajudar... Morava afastada da cidade, sozinha com os filhos em uma terra estranha e quente e os parentes estavam a mais ou menos 800 quilómetros dali. Não tinha para quem recorrer. Tinha que correr mesmo era para dar conta dos trabalhos em casa.
Muito longe dali num projecto agro pecuário perdido entre matas distantes de qualquer cidade, aconteceu um acidente grave com um funcionário. O tractor da fazenda passou por cima de um rapaz quebrando-lhe a bacia e as duas pernas. Pediram auxílio pelo rádio e um avião foi enviado imediatamente para socorrer a vítima. O meu esposo era o piloto. Chegando ao hospital cuidaram de engessa-lo da cintura para baixo e o colocaram numa maca no corredor para ir para casa.
_ Mas que casa ? Se não conhecia uma só pessoa naquela cidade da capital ? Só sabia mesmo o nome do comandante do avião que o deixara ali e nada mais...
Pelo nome, o hospital localizou o telefone e ligou para mandar buscar o doente pois assinou como responsável na ficha médica.
Coisas que a vida nos trás... Saí de casa e fui buscar o rapaz imobilizado, sozinho, a mercê da sorte para dar abrigo e cuidados especiais. Ele era jovem, 22 anos, um negro forte e musculoso, estatura média e cheio de pudores com uma expressão estampada no rosto puxando a camisa para lhe cobrir as partes intimas a mostra. Nunca imaginou que seria uma mulher sozinha que iria apanha-lo, mas mesmo assim sentindo-se desprotegido, deixou revelar num grande sorriso os lindos dentes brancos e perfeitos, em alegria. Pelo caminho fui conversando e explicando a situação em que me encontrava mas que não iria deixa-lo sem protecção, pois o comandante passava dias fora de casa fazendo os seus voos de táxi aéreo e eu ajudaria no que fosse necessário.
A vida tem o poder de colocar coisas e pessoas diante de nós repentinamente. Aquele rapaz chegou no local certo e na hora errada. Eu poderia ter me negado a aceita-lo na minha casa alegando muitos motivos para isso. Mas não o fiz! Era contra a minha natureza virar as costas a alguém naquela situação. Seria dificel, mas mais dificel era o estado em que se encontrava . Ficar na casa de estranhos a espera da caridade alheia... E me disponibilizei a fazer todos os sacrifícios para ajudar na sua recuperação.
Chegando em casa recorri a um vizinho para ajudar a coloca-l0 na cama do quartinho e daí para frente passei a cuidar de um hóspede num dos momentos mais complicados de uma dona de casa. Só podia ir ao quartinho nas horas das alimentações e limpezas pois a casa me absorvia demais... O calor era insuportável e eu tinha muita dó dele entregue a sua sorte, sozinho entre quatro paredes quentes sem poder mover-se. Sempre que eu aparecia se irradiava no seu rosto aquele sorriso bonito e agradecido. Só mudava a expressão quando eu o ajudava discretamente no manuseio da aparadeira e no coletor de urina, mas me retirava rapidamente deixando-o a vontade.
O tempo foi passando e fui me acostumando com o hóspede do quartinho, o seu sorriso era tão bonito que me dava forças para continuar firme naquele momento dificel da minha vida. Os meninos passaram a gostar dele e todas as tardes ficavam por lá ouvindo as suas histórias da vida no interior, as caçadas no mato e os banhos no açude e eu sem conseguir ninguém para me ajudar... Passados 3 meses o seu patrão enviou um carro para leva-lo de volta a fazenda e eu vi que ficou aliviado por mim. Envolto no lençol branco foi colocado no banco de trás, acomodou-se e se despediu de uma situação, de uma cidade, de uma casa, dos meninos e de mim. Segurou a minha mão e deu um beijo agradecido. Esboçou o seu último sorriso antes de partir e disse-me...
_ Que Deus lhe pague !
_ Nunca esquecerei o brilho dos seus olhos !
Edilma Rocha