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| Ceni (bebê) |
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| Ceni (aos 9 anos) |
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| Ceni (aos 9 anos) |
Na madrugada daquele domingo, pela contagem dos judeus, o terceiro dia após a morte de Jesus, duas mulheres se dirigiram ao túmulo onde o haviam sepultado. Pretendiam perfumar o corpo dele. Ao se aproximarem, houve um grande tremor de terra. Perceberam que a pedra que fechava o sepulcro estava retirada e um ser de luminosidade intensa e radiante estava sentado sobre a pedra. Era um anjo, um mensageiro enviado por Deus! Os guardas que vigiavam o sepulcro, tremendo de medo, ficaram como que paralisados, como se estivessem mortos. As duas mulheres também ficaram amedrontadas. Mas o anjo lhes disse: “Não tenham medo, o Jesus que vocês procuram está vivo, ressuscitou, conforme havia anunciado!” Elas saíram correndo para comunicar aos demais discípulos o que havia acontecido e que o mestre não estava mais no túmulo. De repente, Jesus ressuscitado apareceu a elas duas dizendo que fossem para a Galiléia e avisassem aos discípulos que ele iria se encontrar com eles. (Cf. Mt 28, 1–10).
Diagramação e Fotos: Dihelson Mendonça ( com participações de Pachelly , Roberto Jamacaru, Wilson bernardo e Claude Bloc )
Não, não transparecia cansaço nem fastio, embora a cena se repetisse há tantos e tantos anos. Apenas uma leve asa de indignação ruflava ao seu derredor. Como um moderno Prometeu acorrentado, fazia-se eterno pasto à águia do cristianismo. Parece até que ganhara a maldição da imortalidade. Ressuscitavam-no todo ano, em meio às velas, ao vinho e ao roxo da Semana Santa. No seu curto e sub-reptício reinado, fazia-se, rapidamente, senhor de uma quinta , ganhava roupas esfarrapadas, mas modernas, metia-se a cavaleiro. Metamorfoseava-se de uma personalidade qualquer escolhida entre os sempre novos e fartos Judas da humanidade e partia, no Domingo da Ressurreição, para o seu calvário particular.Até um testamento lhe seria providenciado, ele que não deixara sobre a terra nenhum legado que fosse além da pura e cristalina infâmia. Até os 30 dinheiros, levara ao santuário antes do pêndulo do corpo e do final balanço da corda.
Suas memórias, se escritas, seriam um farto material para o estudo do inconsciente coletivo. Havia, com certeza, algo de sanguinário, de sádico e tribal naquela malhação.A simples encenação daquela selvageria, no fundo, contradizia-se frontalmente com as lições de amor, de solidariedade e compreensão que terminaram por permear todo o Novo Testamento. A primeira pedra que ninguém ousara lançar sobre Madalena , agora fariseus multiplicados aos montes atiravam nele com sanha animalesca, sem nenhum remorso, sem nenhum pejo.
Neste ano, ali estava novamente no cadafalso, aguardando o desenlace tão previsível. Enquanto observava a faísca zigzagueante do estopim, teve , por fim uma clara visão do mundo que um dia abandonara pensando em se livrar dos seus demônios e fantasmas. Na verdade a turba não malhava ao Judas, mas tentava destruir as imperfeições pessoais que via nele refletidas. É como se diante do espelho, o quebrassem, por temerem a imagem horrorosa mas verdadeira que se revelaria na superfície cristalina. Nada mudara em tantos anos! Bastava fitar a multidão para ver claramente presente e cristalizado em todos os corações o veneno um dia inoculado no Gêtsemani: a indecisão de Pilatos, a tríplice negação de Pedro, a parcialidade de julgamento de Caifás, a eterna opção dos eleitores por Barrabás. Parecia claro para ele agora que não foram os filhos do Pai que povoaram o mundo, mas sim a raça de Judas. Sim, seus filhos tinham prosperado como nunca sobre a face da terra . Estavam muitos ali familiarmente reunidos, com suas fraquezas, suas indecisões e seus vícios bem à mostra : lábios preparados para o beijo fatídico, mãos entreabertas esperando, sofregamente, os trinta dinheiros...
J. Flávio Vieira




