Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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Colaboração:Claude Bloc


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domingo, 2 de janeiro de 2011

O Brasil e a educação - Por José de Arimatéa dos Santos

Observei o discurso de posse da Presidenta Dilma Rousseff e fiquei impressionado quando ela comparou o professor a uma autoridade. É necessário e urgente um outro olhar dos governos para os professores e a educação em geral. Defendo que a autoridade do professor seja no estilo de respeito que o aluno e a comunidade devem ter com o mestre. Porque sabemos o quanto o trabalhador em educação está sem o devido respeito e o professor é o que mais sofre devido principalmente a carga de trabalho imposta nas costas do mesmo além da grande responsabilidade que muitos pais passam para o mestre. Muitas das vezes alguns pais acham que o professor é que deve educar seu filho no aspecto da boa educação no respeito aos mais velhos, autoridades e símbolos nacionais. Acredito que quando o aluno chega a escola com a educação da família(berço) nossos filhos aprenderão os conhecimentos tão necessários para a formação deles e para o desenvolvimento do Brasil. A escola desenvolverá seus projetos educacionais de forma consistente e com poucos conflitos que sem sombra de dúvidas atrapalham o bom andamento do trabalho educacional.
Mais do que necessário reforçar que o professor é uma autoridade. Sempre foi. Hoje a autoridade do mestre está um pouco arranhada devido ao descaso dos governos para esse vital setor do país. Sempre falo que o magistério é a profissão do futuro porque só pela educação o Brasil terá condições de crescer economicamente e almejar ficar entre as cinco maiores potências do mundo. É só o país crescer um pouco mais e várias oportunidades de trabalho não são preenchidas por falta de mão de obra qualificada. Investir no ensino fundamental, médio e universitário, além do ensino técnico, mas de uma forma planejada e observando onde se falta mais profissionais de determinada área.
Então foi muito auspicioso o discurso da Presidenta Dilma em relação a educação quando falou que o respeito ao professor é necessário e apartir daí é possível um outro olhar para o ensino brasileiro. Defendo melhor remuneração, treinamento e condições de trabalho para o mestre. E que as escolas passem a ser o local em que o aluno vá com prazer e mais interessado na aprendizagem e com perspectivas de um futuro brilhante. Uma educação em que a comunidade escolar possa ter vez, voto e autonomia. Assim já será um bom começo para a Presidenta Dilma, governadores e prefeitos. A meu ver ela começou bem. Agora é esperar que o discurso saia do papel e as realizações cheguem a escola.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O caso de um herói

Por , quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cleber Nunes leciona seus filhos Davi e JonatasNeste fim de semana, no I Seminário de Escola Austríaca no Brasil, ocorrido em Porto Alegre, tivemos o imenso privilégio de assistir à palestra de Cleber Nunes, pequeno empreendedor mineiro, agora residindo numa cidadezinha interiorana, que retirou seus filhos da escola para aplicar o método de homeschooling, ou ensino domiciliar. O ensino domiciliar é um tradicional e incomparável método nos EUA, porém considerado crime por esta terra avessa à liberdade e tão necessitada da tutela oficial do estado em praticamente todas as esferas da vida. A tragédia da educação no Brasil praticamente não altera nossa concepção.
O sucesso do homeschooling nos EUA em relação ao ensino transmitido nas escolas regulares (sejam públicas ou privadas) tem tornado esta prática cada vez mais popular em todo território americano. A principal razão disso é a vertiginosa queda na qualidade do ensino daquele país, que se acentua à medida que ele se torna cada vez mais controlado pelo Ministério da Educação.
Mas, voltando ao Brasil, o caso dos garotos Davi e Jonatas, hoje com 16 e 17 anos, é emblemático. Durante uma conversa antes de sua palestra, Cleber relatou que ele e sua esposa foram condenados pelos magistrados por cometerem crime de abandono intelectual (Estatuto da Criança e do Adolescente). Detalhou que, nas entrevistas que seus filhos prestaram ao promotor na presença dos membros do Conselho Tutelar, o magistrado frequentemente pressionava-os psicologicamente, insistindo em perguntar se os pais lhes coagiam a estudar em casa e a não frequentar a escola. Insatisfeitos pela tranquilidade e maturidade com que os garotos respondiam as questões - reafirmando a disposição voluntária e realçando todas as vantagens comparativas no ensino domiciliar - as autoridades apropriadamente resolveram aplicar uma prova para testar os conhecimentos dos garotos, já há dois anos fora da escola.
Então, recentemente, o Ministério Público encomendou da Secretaria da Educação uma bateria de provas que versava desde a análise de uma obra de arte de Da Vinci até questões teóricas de educação física, além das disciplinas tradicionais do ensino. Para espanto das autoridades, segundo relata Cleber: os meninos "detonaram".
Infelizmente os burocratas são insaciáveis. Além de apelarem para insinuações de que os pais eram desequilibrados e coisas do gênero, o veredicto condenou os pais dos garotos por um crime que nem existe na Constituição Brasileira, apenas no ECA - acredite se quiser.
Ora, nitidamente tal crime atenta contra a sensibilidade paternal do estado, esta entidade tão inclinada e competente para proteger e educar nossas crianças - muito mais competente que os pais, evidentemente. Claro que o excelente resultado que Jonatas e Davi obtiveram nas provas foi um vexame para as autoridades estatais. Vergonhoso porque expõe - também deste ângulo - o fracasso do monopólio do Estado em controlar a educação. Com todas as linhas, os garotos mostraram que não apenas é possível, mas muito superior o ensino domiciliar não submetido ao cabresto da burocracia educacional.
Não posso deixar de mencionar que Cleber Nunes e sua esposa têm sofrido muita pressão de familiares e amigos, sem falar da própria sociedade. Todavia, sustentou que seus filhos não estão dispostos a voltar para a escola, e ele tampouco os obriga a isso. Ao contrário, encoraja-os fornecendo todo apoio para estudarem em casa e desenvolverem proveitosamente suas habilidades que seriam tolhidas no ambiente escolar.
Só pra constar, conheci Jonatas e Davi. Pasmem, os garotos não me pareceram como ETs. Ao contrário, são simpáticos e muito espontâneos. Possuem amigos como qualquer garoto da sua idade, com quem gostam de andar de skate nos horários de folga dos estudos. Entretanto, quero enfatizar que não acho que a falta de simpatia e de espontaneidade, ou mesmo a preferência por estudos ao invés esportes, tenham em si alguma relevância que possa impugnar o ensino domiciliar. É que é comum os inimigos da liberdade fazerem tal apelo, como que zelando pela importância insubstituível da escola convencional em favorecer o convívio social e a tessitura do caráter moral do indivíduo. Não nego, porém, que possa haver vantagens relativas nas escolas, mas, francamente, acho que se houver são próximas de nula. Se, entretanto, admitirmos que possa haver, estas de modo algum chegam a se sobrepor às vantagens do ensino domiciliar ao ponto de as autoridades terem motivos para criminalizarem esta prática.
Convenhamos: o que está em jogo é a transferência de poder - das famílias e indivíduos para o estado. Num mundo em que os indivíduos são tratados pelo estado cada vez mais como mentecaptos incapazes de fazerem escolhas (para escolher políticos, todavia, somos sábios desde os 16 anos) torna-se inadmissível que os pais ensinem seus próprios filhos. Por isso o teor despropositado do veredicto.
A família de Cleber está travando uma luta admirável e que merece todo o nosso apoio. Talvez poderíamos começar por pedir que nosso Presidente da República realizasse as provas a que Jonatas e Davi foram submetidos. Que tal?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Prontos para o Século XIX

Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de "incentivar a cidadania", incutem ideologias anacrônicas e preconceitos esquerdistas nos alunos.

Monica Weinberg e Camila Pereira

Tema para reflexão: vale a pena usar chocadeiras artificiais para acelerar a produção de frango? Deu-se com isso o início de uma das aulas de geografia no Colégio Ateneu Salesiano Dom Bosco, de Goiânia, escola particular que aparece entre as melhores do país em rankings oficiais. Da platéia, formada por alunos às vésperas do vestibular, alguém diz: "Com as chocadeiras, o homem altera o ritmo da vida pelo lucro". O professor Márcio Santos vibra. "Você disse tudo! O homem se perdeu na necessidade de fazer negócio, ter lucro, exportar." E põe-se a cantar freneticamente Homem Primata / Capitalismo Selvagem / Ôôô (dos Titãs), no que é acompanhado por um enérgico coro de estudantes. Cena muito parecida teve lugar em uma classe do Colégio Anchieta, de Porto Alegre, outro que figura entre os melhores do país. Lá, a aula de história era animada por um jogral. No comando, o professor Paulo Fiovaranti. Ele pergunta: "Quem provoca o desemprego dos trabalhadores, gurizada?". Respondem os alunos: "A máquina". Indaga, mais uma vez, o professor: "Quem são os donos das máquinas?" E os estudantes: "Os empresários!". É a deixa para Fiovaranti encerrar com a lição de casa: "Então, quem tem pai empresário aqui deve questionar se ele está fazendo isso". Fim de aula.

Os dois episódios, ambos presenciados por VEJA, não são raridade nas escolas brasileiras. Ao contrário. Eles exemplificam uma tendência prevalente entre os professores brasileiros de esquerdizar a cabeça das crianças. Parece bobagem, uma curiosidade até pitoresca num mundo em que a empregabilidade e o sucesso na vida profissional dependem cada vez mais do desempenho técnico, do rigor intelectual, da atualização do pensamento e do conhecimento. Não é bobagem. A doutrinação esquerdista é predominante em todo o sistema escolar privado e particular. É algo que os professores levam mais a sério do que o ensino das matérias em classe, conforme revela a pesquisa CNT/Sensus encomendada por VEJA. Pobres alunos.

Eles estão sendo preparados para viver no fim do século XIX, quando o marxismo surgiu como uma ideologia modernizante, capaz não apenas de explicar mas de mudar o mundo para melhor, acelerando a marcha da história rumo a uma sociedade sem classes. Bem, estamos no século XXI, o comunismo destruiu a si próprio em miséria, assassinatos e injustiças durante suas experiências reais no século passado. É embaraçoso que o marxismo-leninismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aula de escolas brasileiras. As chocadeiras produzem os frangos vendidos a menos de 5 reais nos supermercados brasileiros, e isso propicia a dose mínima de proteína a famílias que, de outra forma, estariam mal nutridas. A realidade não interessa nas aulas como a do professor Márcio Santos. O que interessa? Passar a idéia de que as máquinas tiram empregos. Elas tiram? Tiraram no começo dos processos de robotização e automação de fábricas nos anos 90. Hoje, sem robôs e máquinas, os empregos nem sequer seriam criados. Mas dizer isso pode desagradar ao espírito do velho barbudo enterrado no novo Cemitério de Highgate, em Londres. Os professores esquerdistas veneram muito aquele senhor que viveu à custa de um amigo industrial, fez um filho na empregada da casa e, atacado pela furunculose, sofreu como um mártir boa parte da existência. Gostam muito dele, fariam tudo por ele, menos, é claro, lê-lo – pois Karl Marx é um autor rigoroso, complexo, profundo que, mesmo tendo apenas uma de suas idéias ainda levada a sério hoje – a Teoria da Alienação –, exige muito esforço para ser compreendido. "A salada ideológica resulta da leitura de resumos dos grandes pensadores", diz o filósofo Roberto Romano. Gente que vê maldade em chocadeiras e mal em empresários que usam máquinas em suas fábricas no século XXI não pode ter lido Karl Marx. É de supor que não tenham lido muito, quase nada. Mas são esses senhores que ensinam nossos filhos nas melhores escolas brasileiras – sem, diga-se, que os pais se incomodem com isso.

A pesquisa CNT/Sensus ouviu 3 000 pessoas de 24 estados brasileiros, entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares. Sua conclusão nesse particular é espantosa. Os pais (61%) sabem que os professores fazem discursos politicamente engajados em sala de aula e acham isso normal. Os professores, em maior proporção, reconhecem que doutrinam mesmo as crianças e acham que isso é sua missão principal – algo muito mais vital do que ensinar a interpretar um texto ou ser um bamba em matemática. Para 78% dos professores, o discurso engajado faz sentido, uma vez que atribuem à escola, antes de tudo, a função de "formar cidadãos" – à frente de "ensinar a matéria" ou "preparar as crianças para o futuro". Muito bonito se não estivessem nesse processo preparando os alunos para um mundo que acabou e diminuindo suas chances de enfrentar a realidade da vida depois que saírem do ambiente escolar. Para atacar um problema, o primeiro passo é reconhecer sua existência. Esse é o mérito da pesquisa CNT/Sensus.

Adversária do exercício intelectual, a ideologização do ensino pode ser resultado em parte também do despreparo dos professores para o desempenho da função. No ensino básico, 52% lecionam matérias para as quais não receberam formação específica – 22% deles nunca freqüentaram faculdade. Para esses, os chavões de esquerda servem como uma espécie de muleta, um recurso a que se recorre na falta de informação. "Repetir meia dúzia de slogans é muito mais fácil do que estudar e ler grandes obras. Por isso, a ideologização é mais comum onde impera a ignorância", diz o historiador Marco Antonio Villa. A questão não é exatamente nova na educação. Meio século atrás, a filósofa alemã Hannah Arendt já alertava para o equívoco de fazer das aulas um lugar para a doutrinação ideológica, qualquer que fosse o matiz. Em A Crise na Educação, ela dizia: "Em vez de (o professor) juntar-se a seus iguais, assumindo o esforço da persuasão e correndo o risco do fracasso, há a intervenção ditatorial, baseada na absoluta superioridade do adulto". Ao refletirem sobre o atual cenário, os especialistas concordam com a idéia central da filósofa. Está claro, e a própria experiência mostra isso, que o viés político retira da escola aquilo que deveria, afinal, ser seu atributo número 1: ensinar a pensar – verbo cuja origem, do latim, significa justamente pesar. Diz o sociólogo Simon Schwartzman: "O verdadeiro exercício intelectual se faz ao colocar as idéias e os juízos numa balança, algo que só é possível com uma ampla liberdade de investigação e de crítica."

Não é o caso na maioria das salas de aula. Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado.

Entre as figuras históricas e da atualidade mais citadas em classe está, como não poderia deixar de ser, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As referências a Lula são contidas. O presidente brasileiro obtém aprovação menor entre os professores, segundo relatam os estudantes, do que aquela com que a sociedade brasileira em geral o brinda. Ele tem 70% de avaliação positiva dos brasileiros, mas na boca dos professores esse índice cai para 30% – com 27% de citações negativas e 43% de neutras. Ressalte-se aqui que é um ponto louvável para os mestres o fato de, como mostram os números relativos a Lula, eles não fazerem proselitismo eleitoral em classe – mesmo que seja preciso relevar o fato de o ditador venezuelano Hugo Chávez ter merecido 51% de citações positivas. A neutralidade e o comedimento em relação a Lula desautorizam a interpretação de que os professores tentam direcionar o voto dos alunos, o que seria desastroso. É sinal de que sua pregação, mesmo equivocada, se mantém no nível das idéias – o que é excelente.

"Eu e todos os meus colegas professores temos, sim, uma visão de esquerda – e seria impossível isso não aparecer em nossos livros. Faço esforço para mostrar o outro lado", diz a geógrafa Sonia Castellar, que há vinte anos dá aulas na faculdade de pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) e escreveu Geografia, um dos best-sellers nas escolas particulares (livro que tem dois de seus trechos comentados por VEJA na reportagem seguinte). "Reconheço o viés esquerdista nos livros e apostilas, fruto da formação marxista dos professores. Mas não temos nenhuma intenção de formar uma geração de jovens socialistas", diz Miguel Cerezo, responsável pelo conteúdo publicado nas apostilas do COC (de onde foram extraídos quatro trechos comentados pela revista). À luz de outra pesquisa em profundidade feita pelo Ibope em colaboração com a revista Nova Escola, editada pela Fundação Victor Civita, os professores da rede pública revelam que, para eles, o principal problema da sala de aula é, de longe (77%), a ausência dos pais no processo educativo. Repousam na colaboração entre pais e professores a correção dos rumos do ensino no país e a aceleração da curva de melhora de desempenho que começa a se desenhar. A questão do excesso de ideologização é um desses problemas que podem ser abordados em conjunto por pais e professores. Demanda para o diálogo existe. O advogado Miguel Nagib fundou, há quatro anos, em Brasília, a ONG Escola Sem Partido, com o objetivo de chamar atenção para a ideologização do ensino na sala de aula. Nagib se incomodou com os sinais do problema na escola particular de sua filha, então com 15 anos, onde o professor de história gostava de comparar Che Guevara a São Francisco de Assis. Foi ao colégio reclamar. Diz Nagib: "As escolas precisam ficar sabendo que muitos pais não concordam com essa visão".

Veja, edição 2074, 20.08.2008
http://veja.abril.uol.com.br/200808/p_076.shtml

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Os "educados"! A caminhada em direção ao abismo.

Ultimamente deram para perguntar-me algumas coisas. Acho graça. Depois que comprei duas camisas novas passaram a dar-me mais atenção. Chego em alguns lugares que até notam minha existência. Também há o fato de engordar seis quilos. Isso muda muito a percepção das pessoas a respeito de você. É como seu eu emergisse da minha magreza sepulcral e acendesse a sua estética de homens romanos. Eu acho graça dessas coisas. Você passa e recebe de súbito o elogio tolo:
- Nossa. Como você está bem. Está mais forte.
A vontade controlada – controlada, por isso que sou um canalha, pois não era para por freios em certas vontades – e imperceptível de dizer-lhes:
- Estou me tornando o mesmo porco que vocês! Vê como me esforço?
Mas não, o canalha aqui ainda tem lá sua educação contaminada pela agradabilidade. É nisso que se resume a nossa educação. A agradabilidade. Você tem que ser sobretudo agradável, não dar vexames, não falar alto, beber moderadamente. Moderadamente uma merda! Que se dane essa educação caduca. Aqui, nesta cidade de pessoas “agradáveis” tudo é feito com esse ar de porcelana chinesa. As meninas são assim, de porcelana com seu ar de complacência com aquela beleza mortal. Haaa como aquela beleza tola judia comigo. Judia porque eu não posso tê-las sem me submeter aqueles trejeitos horríveis. Judia porque ela não vai sair daquele fosso de lama regado a whisky. Onde quer que você vá não tem como não de deparar com essa beleza de porcelana. Mas o mal está aí. Você já viu uma parede branca com manchas de merda? Não lembro que documentário que eu vi em que alguns presos políticos faziam isso. Manchavam as paredes de merda. É assim que vejo as porcelanas. Aquela coisa linda manchada de merda. É a merda da futilidade, da tolice, da ignorância. Ainda tem essa. Você tem que ser um educado calado. É assim que eles me querem, calado, mudo, com aquele ar de lord inglês, a mesma valsa maldita de trejeitos. A educação não está para o encontro do homem, muito menos para a busca da verdade. Está para o ensaio do trejeito hipócrita-social. Haa mas isso é que é ascensão. O budismo é uma tolice, a filosofia é um peido para essa gente! Um peido fedidíssimo! Você tem que ascender, sair do vestíbulo do mal vestido para a glória suprema do bem vestido. Sair da ante-sala do rum para a glória do whisky. Aí sua mãe lhe diz:
- Meu filho, fale baixo. Você me mata de vergonha.
Aí sua professora lhe diz:
- Não fale assim de modo grosseiro. Isso é feio.
A grosseria sua tola! É muitas vezes a única saída para idiotas como vocês serem tocadas! A grosseria é um berrante em sua direção cuspindo estas palavras:- Eu sou o caminho a verdade e vida!
Tolice é achar que essa gente vai entender alguma coisa como essa. Não há a mais remota possibilidade. Mais eu ainda tenho a esperança que a palavra forte como um tapa fará acordar essa gente. Essa gente é que faz esse país, é quem ocupa as colunas sociais, é quem escreve as colunas sociais, é quem tem a obrigação de elogiar um ao outro. Há isso entre eles. A necessidade do elogio mútuo, do tapinha no ombro, do riso falso. Por mim, eu faria uma auditoria do sorriso:
- Explica de onde saiu esse sorriso. O que te toca para você ser agradável assim, risonho assim, gentil assim?
É disso que falo. Meu melhor amigo, quando por vezes falo uma besteira ele me cospe na cara sem rodeios:
- Não é assim seu idiota!
E disso não passa. Não há aí a ofensa, o choro como facilmente você observaria em outros locais. Há a simples necessidade de se fazer entender sem tolher seus sentimentos. Há uma constante nessa gente que é tratar seus sentimentos que muitas vezes são ferozes – lembra do Chico Buarque, muito feliz quando disse: - Que bichos ferozes são seus cabelos que a noite você solta? – regado a essa educação chula! Eis a palavra magna! Chula! Quando vejo essas menininhas saindo de suas escolas, esses rapazes com seus vade mecum debaixo do braço tenho ímpetos de louco. Tem feras dentro de mim que muitas vezes me assuntam. Me vejo colocando-as dentro de um avião e mandando-as para o Zaire, a Zâmbia, Butão, Angola ou seja lá onde for, com passagem só de ida, sem um tostão no bolso. Haa como seria magnífico isso, confessem. Não venham me chamar de recalcado ou psicopata. Me chamem de algo mais nobre, de canalha, de patife por exemplo, mas mesmo assim não abriria mão dessa cena maravilhosa. Os vade mecuns jogados ao chão e o sujeito na situação forçada a extrair de seu cerne um resto de humildade que Deus deu-lhe. Seria sua salvação. Mas não posso fazer isso, nem falar isso eu posso. Eu, acreditem, fui professor de história da arte por três anos. Mas não poderia dizer isso porque isso era uma grosseria. Infelizmente minha educação foi e é feita as avessas. Minha educação é a busca exatamente do contrário, do foco do conflito. Só se acha a solução de certas coisas indo ao cerne do conflito, muitas vezes provocando-o. Eu não gosto dessa arte de: - Vamos evitar... Vamos nada! Não vamos evitar coisa alguma! Ou melhor, vamos evitar essa mania dessa educação comportadinha. Vamos evitar esse ar de complacência de quem entende das coisas.
Aí você observa os pais desse povo. Por incrível que pareça eu só consigo ver um boiadeiro. A nossa elite foi educada por vaqueiros. Não estou aqui depreciando o nobre ofício desse povo sofrido e batalhador, mas é assim que foram, ou fomos educados. Como gado! Os pais pagam caro para seus filhos serem essa lata de merda que são hoje. Eu tenho vergonha, profunda vergonha de ser jovem nos dias de hoje. Que Deus gentilmente apresse meu tempo e me deixe envelhecer logo. Você paga por uma educação que faz sua filha uma tola que passa horas batendo foto para colocar na merda do Orkut. Acho que se tivesse Orkut quando eu tinha doze anos e eu fizesse isso meu avô me surrava. A educação verdadeira não anda de mãos dadas com a futilidade, mas a nossa educação não só anda de mãos dadas com a futilidade como já fez mais coisas. A futilidade é uma regra para você entrar na escola. Ou você é fútil ou não entra. Há – eu juro que vejo isso – na porta de cada escola um sujeito perguntando:
- Você está com ar muito reflexivo. Que seriedade é essa? Sorria.Aí o infeliz que se por acaso estivesse pensando alguma coisa séria é convidado a ficar de quatro e caminhar como as outras cabeças de gado que já estão lá dentro. Você não pode ser assim sério, ou reflexivo. Você tem que ser aquele tolo batendo foto em frente ao espelho. Aí você que é pai ou mãe de um sujeito desses acham que é...: - Normal. É coisa da idade! É, normal mesmo. Anormal seria flagrá-lo refletindo poemas de Augusto dos Anjos sendo educado desse modo. E com mais idade certamente ela vai conseguir vôos mais altos como uma play boy ou coisa do tipo. Veja que ascensão! Sair da escola direto para revistas. Ou passar em um concurso!
- Fulano está bem. É concursado.
Que pode significar também:
- Esse boi tem pasto garantido.
Com pasto garantido a coisa fica realmente mais fácil. Você é um tolo que pode falar também. Porque tolos todos somos. Não vamos discutir o óbvio. Mas nem todo tolo tem voz. Você tem que chegar ao nível dessa gente. Veja que ridículo. Você se esforçar para se submeter a isso. “Estudar” para chegar lá! Lá onde caralho? De que merda é essa que vocês estão falando? No dia que você realmente estudar essas vitórias de selvagens será a última coisa que você vai querer fazer em vida. Mas não!
- Não diga isso. Isso é uma blasfêmia contra nossa sociedade culta que tanto preza para o desenvolvimento da nossa cidade.
Eu não tenho cidade meu caro. Eu tenho o mundo e duas penas magras o bastante para levitar sobre ele, ferindo a terra com meus passos sem temer os calos que certamente virão. Haa, mas essa gente canalha não vão roubar os sóis que me esperam ao longo da estrada. Não mesmo! Vou voltar a usar as velhas camisas antes que me corrompam.