Criadores & Criaturas



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Estão paralisados, mas não há desespero,
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"

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Homens que você deveria conhecer: Mário Ferreira dos Santos




Publicado por Shâmtia Ayômide em 21.5.2010 às 02:56 em Mundo e Sociedade

Filósofo brasileiro, nasceu em Tietê, São Paulo, em 1907.

Na primeira vez que ouvi esse nome, eu pensei comigo mesmo: “Mais um brasileiro”. Ignorante, permeado pelo vitimismo típico de brasileiro, imaginava que filósofos eram só estrangeiros.

Curioso como sou, não resisti e decidi investigar a respeito, ao ler sobre a vida deste autor fiquei assustado. Não no aspecto negativo, mas no positivo, do tipo de susto que resulta em admiração. Dividirei com vocês as minhas impressões.

Antes do perfil, porém, uma pequena história.

DEBATES

Mário Ferreira dos Santos demoliu com maestria vários modismos intelectuais da época, com destaque ao vexame imposto a Caio Prado Júnior, um intelectual comunista muito prestigiado. Na ocasião, foi convidado para um debate, onde estariam figuras conhecidas como Luis Carlos Prestes. Após Caio Prado terminar sua apresentação, Mário se levantou e disse mais ou menos o seguinte:

“Me desculpe, mas creio que o comunismo tem elementos mais fortes que esses que expôs. Vou refazer sua exposição e assim depois farei a minha. Aqui está presente o secretário do partido comunista, e ele poderá averiguar se errarei em algo.”

Mário então refez a exposição de Caio de tal modo que alguns de seus amigos presentes, espantados, colocavam a mão na cabeça dizendo: “Meu Deus! O professor virou comunista!”. Depois que terminou a apresentação, Mário começou a sua própria exposição e refutou a si mesmo.

Tais demonstrações de força intelectual não eram raras na vida do filósofo.

Uma obra que nós levaríamos 500 anos para produzir

Quantidade nunca foi um critério bom para se avaliar a qualidade de um autor. Tratando-se de Mário Ferreira dos Santos, o volume de suas publicações – não só físico, mas também intelectual – é impressionante: cerca de 50 publicações formaram sua coleção Enciclopédia de Ciências Filosóficas. Sem contar outros ensaios e traduções diretas do grego, latim, alemão e francês.

É o único filosofo brasileiro a ter um verbete de uma página inteira numa enciclopédia de filosofia europeia, no caso a italiana, que o define como um filósofo de pensamento universal.

Ele trouxe Nietzsche para o idioma português, traduziu diretamente do alemão as obras Vontade de Potência (Der Wille zur Macht), Além do Bem e do Mal (Jenseits von Gut und Bose), Aurora (Morgenröthe) e o clássico Assim falava Zaratrusta (Also sprach Zarathustra).

Pensador fértil, em seus escritos ia de Nietzsche a São Tomas de Aquino, de Pitágoras a Proudhon. Ler Mário Ferreira é ao mesmo tempo entrar nas portas que ele abre para dezenas de outros pensadores. Como todo homem sábio, foi um tipo inclassificável, meio gnóstico pitagórico ou cristão tomista – no campo econômico era anarquista proudhoniano. Seu primeiro ensaio filosófico foi Se a Esfinge falasse, usando o pseudônimo de Dan Andersen, também usado na tradução do fabuloso Saudação ao Mundo, de Walt Whitman “Os narcisistas tendem para a política”

Ele é um dos raros bons introdutores de Nietzsche. Na sua obra As Filosofias da Afirmação e da Negação, Mário Ferreira diagnostica o fenômeno do niilismo moderno profetizado por Nietzsche, contudo um pensador de envergadura de Mário Ferreira nunca se limita a somente a problematizar. Ele aponta a cura e a solução. Na obra A Invasão Vertical dos Bárbaros, denuncia a decadência cultural brasileira, outra análise com o mesmo teor de denúncia encontramos em A Filosofia da Crise.

A universalidade de seu pensamento não se limita somente à filosofia em si. Escreveu também Análise de Temas Sociais (3 volumes), Tratado de Psicologia e Tradado de Economia (2 Volumes). O auge do seu pensamento é a majestosa Filosofia Concreta, que utiliza um método criado pelo próprio Mário Ferreira: a decadialética.

Deixou para quem desejar iniciar nos estudos filosóficos: História da Filosofia e da Cultura (3 volumes), o fantástico Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. Uma lida em alguns verbetes deste dicionário como (“Homem”, por exemplo) é o suficiente para perceber ai distância gritante entre Mário Ferreira e os pensadores da moda.

Filósofo e empreendedor

Mário era filho de um cineasta, sua juventude e infância decorreram no Rio Grande do Sul, onde se formou em Direito e Ciências Sociais. Depois, com cerca de 30 anos, retornou a São Paulo para ajudar o pai nas suas indústrias de filmagens. Antes, em Porto Alegre, ainda fez vários trabalhos como comentarista político e escrevendo artigos para jornais e revistas.

Era um tipo empreendedor, contrariando a imagem clichê que os brasileiros atuais têm de que filósofos são monges intelectualizados longe da vida prática. Com dificuldades em publicar seus livros, fundou suas próprias editoras, a Logos S.A. e a Matese S.A. Como todo bom brasileiro, não perdia uma partida de futebol. E às vezes colocava suas filhas para ajudá-lo nas suas traduções.

Foi pioneiro no sistema de venda de livro a crédito, vendidos de porta em porta. Ainda arranjava tempo para responder cartas de pessoas com problemas que procuravam sua sabedoria. Aliás, foi com o intuito de ajudar as pessoas que ele escreveu os ensaios de auto-ajuda Curso de Oratória e Retórica, Curso de Integração Pessoal e Convite a Psicologia Prática, todos tiveram sucesso entre empresários e outras pessoas notáveis da época.

Segundo suas diversas biografias, ele nunca foi à universidade para ensinar, exceto no seu último ano de vida, convidado por um amigo e admirador, justo na época em que seu problema cardíaco avançava – daí a curta duração das aulas.

Ele faleceu em casa, com os familiares presentes, seus únicos e verdadeiros aliados. Ao sentir que o suspiro final estava próximo, pediu para que fosse colocado de pé, pois considerava indigno que um homem morresse deitado. Sua luz se encerrou com ele pé rezando o “Pai Nosso”.

Um legado para as traças?

A Filosofia Concreta não deixou escolas ou discípulos. Não sei os motivos certos, mas é fato que a maioria dos brasileiros desconhece Mário Ferreira dos Santos (pois é, os leitores PapodeHomem são privilegiados). Seus livros ainda estão entregues as traças em sebos, apesar de serem de fácil leitura devido à didática de Mário e estarem sendo relançados por iniciativa dos familiares.

A tragédia cultural brasileira só não é pior graças à Internet. Atualmente leitores de Mário Ferreira se reúnem numa simplória comunidade do Orkut, onde trocam ideias a respeito de suas obras.

Mário Ferreira deixa aos brasileiros uma grande lição de vida. Em seu livro Filosofia Concreta, exorta os brasileiros a terem coragem de ousar. Poderíamos começar, no mínimo, ousando ler um de seus escritos, não?

Fonte: http://papodehomem.com.br/

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Conclamo à juventude que estude"

Desde já peço desculpas pelo tamanho do post, mas não pude me furtar a necessidade de tentar divulgar a matéria e a obra de um dos maiores filósofos da humanidade, que por incrível que pareça é brasileiro.

Estas palavras, proferidas por Mário Ferreira dos Santos no ápice do seu periódico discurso em uma de suas aulas nos anos 60, contém em si mesmas um significado universal. Elas transpõem aquela sala de aula, elas atravessam a cidade de São Paulo, escapam ao país, dirigem-se ao mundo e atingem outras fronteiras que nem na ordem geográfica se há de contar. É uma oração simples e imperativa que vem das mais profundas aspirações do seu espírito, ao mesmo tempo tão angustiado pela realidade que testemunha e tão esperançoso nas possibilidades que talvez só ele entreveja. Mário estava explicando o porquê das pessoas do seu tempo levarem tão a sério filosofias que ele julga já estarem refutadas com antecedência de séculos. O que começara como uma breve resposta a uma pergunta de um aluno acabou se estendendo para uma exortação. Percebe-se claramente que a voz do professor vai se alterando, ganhando dissonância. Não há nervosismo, não há exaltação, não há ódio, não há rancor, mas uma convicção assustadora pela forma com que se contém em sua própria grandiosidade. Há um desparelhamento entre a formalidade da aula e a causa final que subjaz o espírito daquele filósofo. Algumas palavras saem com certa dificuldade, como que premidas pelo vigor de quem deseja inundar o mundo inteiro com suas respostas. Mário já estava a poucos anos de sua morte; cada novo livro lançado, cada aula, cada investida em uma idéia de filosofia brasileira exalava como um sopro final. Mas ele opera uma síntese que abrigará todo o sentido que deseja impor: “...e é por isso que eu conclamo...” Dirige-se à platéia da aula, mas a sua voz quer se dirigir ao mundo, empregando o substantivo universal das mudanças culturais, “...conclamo à juventude...”, como se a própria força da palavra exigisse uma repercussão imediata. Ele faz uma pequena pausa; parece tomar fôlego para uma investida ainda mais cataclísmica. Finalmente, despeja aquela que é sua maior esperança: uma “juventude que estude”. O verbo retumba no estampido da segunda sílaba, provavelmente o ponto mais alto do volume naquela gravação, como um disparo seco da realidade. Mas a sua alma prossegue inabalável, reta, porque convicta. “...e é por isso que eu conclamo à juventude que estude para que...” e o resto se nos torna inaudível, como se nada mais depois daquilo fosse ter importância. O silêncio então nos diz: pare aqui, você já ouviu o suficiente, vá estudar e não se entregue às modas e às contingências. Mais do que tudo, não se deixe levar pela modorra, pela prostração intelectual, pelos comodismos que o mundo hoje tanto nos oferece. A conclamação de Mário à época, 40 anos atrás, já era mais do que pertinente, que dirá hoje em dia. Não se trata de uma ordem assoberbada, mas de uma imposição que vem desde a própria verdade. Se algo da verdade não se deixou falar pelas palavras de Mário Ferreira dos Santos, resta-nos mesmo o agnosticismo. E não penso que a exortação de Mário se dirigisse somente aos jovens das escolas, das faculdades, dos comícios, mas aos jovens de intelecto, aos homens entregues a uma compreensão equivocada do mundo, aos homens cujas inteligências ainda não atingiram uma maturidade suficiente para de fato formar juízos que fundamentem o seu agir. Como podem estes jovens do mundo moderno bradarem aos quatro ventos a sua independência se não possuem nem mesmo uma independência intelectual? Entenda-se independência intelectual não em seu sentido grosseiro, de alguém dedicado a construir toda uma cosmovisão a partir do próprio umbigo, mas de alguém cuja mente pense por si mesma, buscando a verdade nos seus mais distintos recônditos, estudando com honestidade os problemas do pensamento humano sem jamais se desvincular daqueles homens que deixaram as grandes respostas.
E Mário Ferreira dos Santos, meus amigos, foi um destes homens.
"A luta toda se resume em impor uma escala de valores. Por exemplo, a juventude brasileira por qual escala de valores vai lutar? Ela precisa saber. Vai pela utilitária? Pela nobre? Ou pela sagrada? Ela tem que saber, ela tem que escolher uma escala de valores pela qual vai lutar, já que tem no Brasil um papel importante, porque o Brasil é um país sem elite e a juventude universitária é a elite. (...) O Brasil não deve se preocupar com os pseudos valores, quer dizer com aqueles valores que não são genuinamente nossos, e este é um tema que merece ser estudado".

Trechos de palestra no Centro Convivium, em 1967

A mínima maturidade que o jovem precisa possuir é aquela que o convença a estudar. A essência humana não se constrói sem uma caminhada filosófica, sem uma dedicação ao melhor entendimento da verdade. A única vantagem da “juventude de espírito” é o seu vigor, e só neste sentido é que o homem deveria permanecer jovem por toda sua vida.
Foi este vigor que nos impeliu a idealizar a revista eletrônica Filosofia Concreta. Foi esta nossa juventude de espírito que nos fez entender que algo deve ser feito para resgatar o pensamento desse grande filósofo, que nos ajudará também a resgatar o respeito pela verdade e pelo estudo.
O abandono a que Mário foi relegado nos últimos 30, 40 anos a nós parece um fenômeno aterrador da natureza, como um milagre virado do avesso. Por que sumir com um homem de tamanha erudição e temperança, dedicado a aproveitar os fachos de verdade existentes em cada filosofia estudada, sem jamais romper com toda a potencialidade do pensamento humano? Por que esquecer um filósofo tão sábio em seu ecletismo, capaz de unir satisfatoriamente Pitágoras a Hegel, Aquino a Nietzsche, Suárez a Proudhon? Por que negligenciar uma obra que conta com mais de 60 títulos, abarcando temas como Ontologia, Gnoseologia, Lógica, Teologia, Simbólica, Psicologia, Sociologia, Economia e até Oratória? Como se reduz a quase nada a importância de um empreendimento como a Filosofia Concreta? Talvez estas perguntas sejam só mais umas entre as tantas cujas respostas só o estudo dedicado nos forneça. Atendendo à conclamação de Mário, apresentaremos aqui alguns dos frutos de nossos estudos. O espaço é dedicado à exposição e investigação dos temas que o pensador brasileiro propôs, mas o nosso grande objetivo é mesmo alimentar o prazer pela investigação filosófica em si, esta que é a mais nobre atividade do intelecto humano, e sem a qual não pode haver resgate de coisa alguma. Convidamos a todos para participarem de tal empreitada.

Renan Santos, 15 de novembro de 2009

Fonte: http://filosofiaconcreta.mercaba.com.br/

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Os "educados"! A caminhada em direção ao abismo.

Ultimamente deram para perguntar-me algumas coisas. Acho graça. Depois que comprei duas camisas novas passaram a dar-me mais atenção. Chego em alguns lugares que até notam minha existência. Também há o fato de engordar seis quilos. Isso muda muito a percepção das pessoas a respeito de você. É como seu eu emergisse da minha magreza sepulcral e acendesse a sua estética de homens romanos. Eu acho graça dessas coisas. Você passa e recebe de súbito o elogio tolo:
- Nossa. Como você está bem. Está mais forte.
A vontade controlada – controlada, por isso que sou um canalha, pois não era para por freios em certas vontades – e imperceptível de dizer-lhes:
- Estou me tornando o mesmo porco que vocês! Vê como me esforço?
Mas não, o canalha aqui ainda tem lá sua educação contaminada pela agradabilidade. É nisso que se resume a nossa educação. A agradabilidade. Você tem que ser sobretudo agradável, não dar vexames, não falar alto, beber moderadamente. Moderadamente uma merda! Que se dane essa educação caduca. Aqui, nesta cidade de pessoas “agradáveis” tudo é feito com esse ar de porcelana chinesa. As meninas são assim, de porcelana com seu ar de complacência com aquela beleza mortal. Haaa como aquela beleza tola judia comigo. Judia porque eu não posso tê-las sem me submeter aqueles trejeitos horríveis. Judia porque ela não vai sair daquele fosso de lama regado a whisky. Onde quer que você vá não tem como não de deparar com essa beleza de porcelana. Mas o mal está aí. Você já viu uma parede branca com manchas de merda? Não lembro que documentário que eu vi em que alguns presos políticos faziam isso. Manchavam as paredes de merda. É assim que vejo as porcelanas. Aquela coisa linda manchada de merda. É a merda da futilidade, da tolice, da ignorância. Ainda tem essa. Você tem que ser um educado calado. É assim que eles me querem, calado, mudo, com aquele ar de lord inglês, a mesma valsa maldita de trejeitos. A educação não está para o encontro do homem, muito menos para a busca da verdade. Está para o ensaio do trejeito hipócrita-social. Haa mas isso é que é ascensão. O budismo é uma tolice, a filosofia é um peido para essa gente! Um peido fedidíssimo! Você tem que ascender, sair do vestíbulo do mal vestido para a glória suprema do bem vestido. Sair da ante-sala do rum para a glória do whisky. Aí sua mãe lhe diz:
- Meu filho, fale baixo. Você me mata de vergonha.
Aí sua professora lhe diz:
- Não fale assim de modo grosseiro. Isso é feio.
A grosseria sua tola! É muitas vezes a única saída para idiotas como vocês serem tocadas! A grosseria é um berrante em sua direção cuspindo estas palavras:- Eu sou o caminho a verdade e vida!
Tolice é achar que essa gente vai entender alguma coisa como essa. Não há a mais remota possibilidade. Mais eu ainda tenho a esperança que a palavra forte como um tapa fará acordar essa gente. Essa gente é que faz esse país, é quem ocupa as colunas sociais, é quem escreve as colunas sociais, é quem tem a obrigação de elogiar um ao outro. Há isso entre eles. A necessidade do elogio mútuo, do tapinha no ombro, do riso falso. Por mim, eu faria uma auditoria do sorriso:
- Explica de onde saiu esse sorriso. O que te toca para você ser agradável assim, risonho assim, gentil assim?
É disso que falo. Meu melhor amigo, quando por vezes falo uma besteira ele me cospe na cara sem rodeios:
- Não é assim seu idiota!
E disso não passa. Não há aí a ofensa, o choro como facilmente você observaria em outros locais. Há a simples necessidade de se fazer entender sem tolher seus sentimentos. Há uma constante nessa gente que é tratar seus sentimentos que muitas vezes são ferozes – lembra do Chico Buarque, muito feliz quando disse: - Que bichos ferozes são seus cabelos que a noite você solta? – regado a essa educação chula! Eis a palavra magna! Chula! Quando vejo essas menininhas saindo de suas escolas, esses rapazes com seus vade mecum debaixo do braço tenho ímpetos de louco. Tem feras dentro de mim que muitas vezes me assuntam. Me vejo colocando-as dentro de um avião e mandando-as para o Zaire, a Zâmbia, Butão, Angola ou seja lá onde for, com passagem só de ida, sem um tostão no bolso. Haa como seria magnífico isso, confessem. Não venham me chamar de recalcado ou psicopata. Me chamem de algo mais nobre, de canalha, de patife por exemplo, mas mesmo assim não abriria mão dessa cena maravilhosa. Os vade mecuns jogados ao chão e o sujeito na situação forçada a extrair de seu cerne um resto de humildade que Deus deu-lhe. Seria sua salvação. Mas não posso fazer isso, nem falar isso eu posso. Eu, acreditem, fui professor de história da arte por três anos. Mas não poderia dizer isso porque isso era uma grosseria. Infelizmente minha educação foi e é feita as avessas. Minha educação é a busca exatamente do contrário, do foco do conflito. Só se acha a solução de certas coisas indo ao cerne do conflito, muitas vezes provocando-o. Eu não gosto dessa arte de: - Vamos evitar... Vamos nada! Não vamos evitar coisa alguma! Ou melhor, vamos evitar essa mania dessa educação comportadinha. Vamos evitar esse ar de complacência de quem entende das coisas.
Aí você observa os pais desse povo. Por incrível que pareça eu só consigo ver um boiadeiro. A nossa elite foi educada por vaqueiros. Não estou aqui depreciando o nobre ofício desse povo sofrido e batalhador, mas é assim que foram, ou fomos educados. Como gado! Os pais pagam caro para seus filhos serem essa lata de merda que são hoje. Eu tenho vergonha, profunda vergonha de ser jovem nos dias de hoje. Que Deus gentilmente apresse meu tempo e me deixe envelhecer logo. Você paga por uma educação que faz sua filha uma tola que passa horas batendo foto para colocar na merda do Orkut. Acho que se tivesse Orkut quando eu tinha doze anos e eu fizesse isso meu avô me surrava. A educação verdadeira não anda de mãos dadas com a futilidade, mas a nossa educação não só anda de mãos dadas com a futilidade como já fez mais coisas. A futilidade é uma regra para você entrar na escola. Ou você é fútil ou não entra. Há – eu juro que vejo isso – na porta de cada escola um sujeito perguntando:
- Você está com ar muito reflexivo. Que seriedade é essa? Sorria.Aí o infeliz que se por acaso estivesse pensando alguma coisa séria é convidado a ficar de quatro e caminhar como as outras cabeças de gado que já estão lá dentro. Você não pode ser assim sério, ou reflexivo. Você tem que ser aquele tolo batendo foto em frente ao espelho. Aí você que é pai ou mãe de um sujeito desses acham que é...: - Normal. É coisa da idade! É, normal mesmo. Anormal seria flagrá-lo refletindo poemas de Augusto dos Anjos sendo educado desse modo. E com mais idade certamente ela vai conseguir vôos mais altos como uma play boy ou coisa do tipo. Veja que ascensão! Sair da escola direto para revistas. Ou passar em um concurso!
- Fulano está bem. É concursado.
Que pode significar também:
- Esse boi tem pasto garantido.
Com pasto garantido a coisa fica realmente mais fácil. Você é um tolo que pode falar também. Porque tolos todos somos. Não vamos discutir o óbvio. Mas nem todo tolo tem voz. Você tem que chegar ao nível dessa gente. Veja que ridículo. Você se esforçar para se submeter a isso. “Estudar” para chegar lá! Lá onde caralho? De que merda é essa que vocês estão falando? No dia que você realmente estudar essas vitórias de selvagens será a última coisa que você vai querer fazer em vida. Mas não!
- Não diga isso. Isso é uma blasfêmia contra nossa sociedade culta que tanto preza para o desenvolvimento da nossa cidade.
Eu não tenho cidade meu caro. Eu tenho o mundo e duas penas magras o bastante para levitar sobre ele, ferindo a terra com meus passos sem temer os calos que certamente virão. Haa, mas essa gente canalha não vão roubar os sóis que me esperam ao longo da estrada. Não mesmo! Vou voltar a usar as velhas camisas antes que me corrompam.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cidade da cultura, papai noel, velho do saco e outras lendas.

Há dois tipos comuns hoje em dia em nossa sociedade. É o jovem gênio e o outro o jovem ingênuo. Hoje falarei apenas do primeiro caso. O primeiro tipo filho bem nascido da (pretensa) alta sociedade do Cariri (ou de outros locais que o mandam para fazer sua genialidade cá junto de nós) tem todos os atributos do gênio mesmo. O que recebe o Nobel, o que ganha a Palma de Ouro em Cannes, ou menos, o que recebe medalha no colégio (que é o mais comum). Só que a genialidade no Cariri hoje em dia ela é fácil, ela é criada assim, como o parto em um conto surrealista com a necessidade urgente de tapar um buraco psicológico dos seus pais e até de si mesmo. O gênio do cariri nasce antes da obra. Ele é um primo-irmão do Macunaíma.
Para tanto, o mesmo tem que estar entre os grandes da medicina ou do direito. Sabemos que sempre tais profissões tiveram seu devido valor na sociedade ao longo dos séculos, principalmente no interior do Brasil, onde assolado pela ignorância, os tais médicos e “aDevogados” tomavam ares de salvadores da pátria ( e muitas vezes eram mesmo), uma simbiose de Maomé com faraó, representantes de Deus na terra. Até hoje, no meio das brenhas, becos, avenidas ou vielas nunca se ouviu falar no gênio sociólogo, antropólogo ou historiador por aqui. Eram todos, meros zumbis destinados ao ofício do professorado. É no meio desse contexto que imporá o jovem gênio tolo que hoje desbrava a sociedade do Cariri. Ele quem rege os hábitos, quem dita o que se come, o que se bebe, e quando se bebe, o que se escuta, o que se (não) lê.
Bem vestido, munido de uma garrafa de whiski, um carro e um som, alto o bastante para mostrar sua tendência asnática, com sua plena (falta de...) compostura, “chega chegando” como se diz por aí. Passa pelas ruas como um cometa, deixando um resto de notas sonoras confusas (sorte quando são confusas, pois se você perceber algo ali certamente será alguma palavra do tipo: rapariga, cabaré, cachaça ou algo que equivalha o nível do ouvinte dono do possante). A vida então se resume a nada mais do que isso. Esse é o auge do gênio. Aí você poderá perguntar: - O quê? Mas é só isso? Só isso e nada mais! O gênio do Cariri, certamente o futuro de nossa sociedade, os pais que guiarão seus filhos daqui a uns anos são compostos disso. Mas daí surge outra pergunta: - E como se pede ter chegado a tal nível? Não estudam? Não são pessoas “bem nascidas”? A resposta dessa vez é um pouco mais complexa. O estado de coisas está assim justamente pela sustentabilidade numa falsa educação. Um bojo de conhecimentos técnicos postos em prática para o puro e simples deleite (ou segurança) econômico(a). Não se pode dizer aqui que a juventude não seja esforçada. São certamente. Tem impulsos de ganhar a vida, o mundo, e para isso estudam e muito. Mas, o que estudam?
O que se vê é uma massa de jovens onde noventa por cento não pensa em outra coisa a não ser um emprego. Em casa, a educação se baseia nisso. Em “estudar para ser gente”, e é do próprio berço que o caririense sabe que não passa de um animal abjeto. Um pote de moedas é sua educação. Quem junta mais é mais educado. Nisso, sua cultura está em se travestir de uma pretensa elite, copiando trejeitos dos mais banais, superficiais, ridículos e tolos(que souber dizer: bom dia, boa tarde e boa noite é educado). O vestir é uma segunda essência. Está acima de (quase) tudo. O charme baseado em sei lá o quê é sustentado psicologicamente como numa tragicomédia de extremo mau gosto. Isso pode ser visto em ambos os gêneros. Há o charme do vestir, do whisky falso, do carro, do som do carro, dos rodões do carro (aliás, tudo que gravita em torno do carro vale como parte essencial do seu âmago). Há aqui que se falar que o carro, objeto que aqui toma ares de oferenda dos Deuses. No nosso Cariri o carro diz muito não só sobre seu presente, mas, sobretudo sobre seu futuro (sexual), sua respeitabilidade. Por meio dele há uma valsa estranha onde homens regem a dança e boa parte das moças “bem nascidas”, avaliando mui bem o vestir, o beber, o carro...assim são escolhido seus pares.
As jovens (“bem nascidas”) tolas de Paris do século XVII e XVIII eram tolas que tocavam piano, liam romances, sabiam diferenciar um bom vinho, conheciam boa parte da história da arte, freqüentavam teatros etc. Vê o quanto avançamos! As nossas bem nascidas, com os mesmos trejeitos esnobes chegaram quase lá, recitam versos ilustres: Dinheiro na mão calcinha no chão, forró do Chico rola, quem vai comer a minha piriquita, aos largos goles do bom e falso whiski, com o varão ao lado, de copo na mão, como se tivesse ganho o Nobel e exibisse ao público. Hão de falar que o contexto é outro, e é claro que é! Não é por falta de esforço que chegamos a tal ponto. Tem que se querer descer ao inferno, e por ele ainda tirar uma onda com Dante: - Êeee carcamano! Tá com nada! Nós vamos mais fundo que vocês! E o pior é que vamos mesmo.
Culturalmente estamos num pântano sem a menor perspectiva de sairmos dele. Tem que veja o Crato como cidade da cultura dado ao notável número de artistas de boa qualidade que temos aqui e isso é algo que não podemos negar, porém, culturalmente sua arte não é percebida, ficando fechada a um pequeno ciclo que a percebe, e outro que faz de conta perceber. A verdadeira arte aqui não estabelece sua função social que era formar um ser humano melhor, desenvolvendo-o em sua percepção estética e filosófica (totalmente utópico na cidade da cultura).
A educação aqui, reflexo escravo do que se é tido como modelo de educação dos grandes centros, passa por essa prova. Não é capaz de formar cidadão algum, e é direcionada apenas para um futuro empregatício. É desumanizar demasiadamente o que se foi construído através de séculos de esforço na cultura ocidental achando que o único fim do aprimoramento humano através de seus estudos seja ter um emprego como finalidade. São com esses intuitos, desprezando o que seja a pintura, suas possibilidades de introspecção, de autoconhecimento, é rejeitando a música como arte nobre, capaz de formar um ser humano melhor, é fazendo troça do teatro, da filosofia e de tudo que possa trazer qualquer tipo de introspecção. É assim que vamos. E o pior, há quem pague (e não são poucos) por essa educação. A cultura de uma sociedade é algo que bem mais complexo do que apenas a existência da economia e do comércio. Aqui, é só o que existe. Uma cultura manca, mas muito bem vestida e galopante a passos largos em direção ao fosso. Há que diga que em alguma parte do que escrevi acima haja algum preconceito, algum recalque nas entrelinhas, mas resta a cada um o direito de ver o que quer de acordo com suas (im)possibilidades. Paciência.