Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mostra Sesc Cariri: programação de hoje, dia 17/11




Música da Macedônia e peça com bonecos

A Mostra Sesc Cariri de Cultura continua e, nesta terça-feira (17), traz uma atração musical bem curiosa. São os cariocas do Brasov, que lançam o CD “Uma Noite em Tuktoyaktuk”. Em seu show, eles tocam desde música cigana Macedônia até um cover da Gretchen, passando por uma canção do Leste Europeu. A apresentação acontece a partir das 20h30, no Terreiro de Mestra Margarida, no Sesc Juazeiro.

Um pouco antes, às 20h, na RFFSA, em Crato, a Companhia Amok de Teatro, do Rio de Janeiro, encena o espetáculo “O Dragão”. A peça, a partir de depoimentos reais, trata da guerra entre palestinos e israelenses, mostrando que atrás de toda a violência e crueldade há espaço para uma real humanidade.

Na cidade de Nova Olinda, às 20h30, acontece o show dos paulistas do Mamelo Sound System, que tocam - no Armazém do Som na Praça - um ritmo musical denominado por eles próprios como “hip-hop afro-futurista brasileiro”. Em Barbalha, no Teatro Neroly, a Companhia PeQuod de Teatro, do Rio, apresenta a peça de bonecos “O Velho da Horta”, baseado na obra do escritor Gil Vicente.

Um cortejo da Cultura Popular nas ruas de Juazeiro do Norte acontece na tarde de hoje, na principal via da cidade, a partir das 15 horas, com concentração no SESC. O evento promove uma integração entre os artistas e a população, nessa grande festa que tem sido a Mostra SESC de Arte e Cultura.

Em Juazeiro, nos locais como Marquise Branca, Marcus Jussier, no Pirajá, e Casa da Rua da Cultura, na rua do Cruzeiro estão sendo realizadas várias apresentações.

Agenda do dia 17 de novembro

>Juazeiro do Norte:

. Memorial Padre Cícero
- 20h30: Madre Couraje (Mérida Urquia-Cuba).
. Largo do Memorial
- 17h: Reprise (La Mínima-SP).

. Marcus Jussier (Pirajá)
- 17h: O Hipnotizador de Jacarés (Circo Girassol-RS).

. Quadra do Sesc Juazeiro
- 18h: Rito de Passagem (Índio.Com Cia de Dança-AM).

. Teatro Marquise Branca
- 18h: Esparrela (Teatro Bigorna-PB).

. Conexão Brasil CCBNB
- 19h: Merci (Ana Barroso-RJ).

. Teatro Patativa do Assaré
- 23h: Ele Precisa Começar (Felipe Rocha-RJ).

. Terreiro de Mestra Margarida e Armazém do Som
- 18h: Segunda Toada para João e Maria (Núcleo Dois-SP).
- 20h30: Uma Noite em Tuktoyaktuk (Brasov-RJ).

. Casa da Rua da Cultura
- 22h: Residência da Casa da Rua da Cultura (Cia de Teatro Stultífera Navis-SE).
- 22h: O Abajur Lilás (Grupo Imagens-CE).

. Programação Especial (Sesc Juazeiro)
- 14h: Seminário Arte & Pensamento – A Reinvenção do Nordeste. Dr. Luizan Pinheiro: “Ontologia do Cariri: a cidade atravessada por múltiplos olhares”.
- 15h15: Seminário Arte & Pensamento – A Reinvenção do Nordeste. Dr. Luís Manoel Lopes: “Barbaramente estéreis; maravilhosamente exuberantes: os sertões em variações”.
- 18h: Laboratório de Troca de Afagos – LATA (Conversas Gravadas na UFC). Entrevistas com Ricardo Guilherme.

>Crato:

. Teatro Municipal
- 20h: O Dragão (Cia Amok de Teatro-RJ).

. Praça da Sé
- 16h: Lançamentos e performance dos Cordelistas Mauditos.
- 17h: Performance do poeta CHACAL.

. Terreiradas
- 16h: Terreiro de Mestre Aldenir – Bairro Vila Lobo. Coco da Mestra Marinês/Banda Cabaçal São João Batista/Reisado Congo do Assentamento Olho D’Água.

. Mostra nos Bairros- Bairro Populares
- 17h: O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado (Cia São Jorge de Variedades-SP).
- 18h30: Soldadinho do Araripe (Aquasis-CE).

. RFFSA
- 17h: Silêncio Total (Cia Riso da Terra-PB).
- 18h: Viagem Instrumental (Mandrágora-DF).

. Sesc Crato
- 22h: Santiago do Chile, 1973(Grupo de Dois-RJ).

. Galpão das Artes
- 23h: Encantrago (Ver de Rosa um Ser Tão Expressões Humanas / Teatro Vitrine-CE).

. Crato Tênis Clube
- 22h: Mangiare (Grupo Pedras-RJ).
- 23h: Lenynha Vas (CE).
- 01h: Fóssil, Cabaça: Reggae Cariri (Liberdade & Raiz-CE).

>Nova Olinda:

. Teatro Violeta Arraes
- 19h: Inventário (Roda Gigante-RJ).

. Armazém do Som na Praça
- 20h30:Mamelo Sound System-SP.

. Artes Visuais
- 14h: Exposição Pina Bausch (Fotografia Dada Petrole).

>Barbalha:

. Praça Central
- 17h:Ciclopes (Cia Mystério e Novidades-RJ).

. Teatro Neroly
- 19h: O Velho da Horta (Cia Pequod de Teatro-RJ).

. Escola de Artes Reitora Violeta Arraes Gervaiseau – URCA
- 21h: O Hospício (Matulão de Artes Cênicas-CE).
Enviado por Elizângela Santos (AC Comunicação)

"Conclamo à juventude que estude"

Desde já peço desculpas pelo tamanho do post, mas não pude me furtar a necessidade de tentar divulgar a matéria e a obra de um dos maiores filósofos da humanidade, que por incrível que pareça é brasileiro.

Estas palavras, proferidas por Mário Ferreira dos Santos no ápice do seu periódico discurso em uma de suas aulas nos anos 60, contém em si mesmas um significado universal. Elas transpõem aquela sala de aula, elas atravessam a cidade de São Paulo, escapam ao país, dirigem-se ao mundo e atingem outras fronteiras que nem na ordem geográfica se há de contar. É uma oração simples e imperativa que vem das mais profundas aspirações do seu espírito, ao mesmo tempo tão angustiado pela realidade que testemunha e tão esperançoso nas possibilidades que talvez só ele entreveja. Mário estava explicando o porquê das pessoas do seu tempo levarem tão a sério filosofias que ele julga já estarem refutadas com antecedência de séculos. O que começara como uma breve resposta a uma pergunta de um aluno acabou se estendendo para uma exortação. Percebe-se claramente que a voz do professor vai se alterando, ganhando dissonância. Não há nervosismo, não há exaltação, não há ódio, não há rancor, mas uma convicção assustadora pela forma com que se contém em sua própria grandiosidade. Há um desparelhamento entre a formalidade da aula e a causa final que subjaz o espírito daquele filósofo. Algumas palavras saem com certa dificuldade, como que premidas pelo vigor de quem deseja inundar o mundo inteiro com suas respostas. Mário já estava a poucos anos de sua morte; cada novo livro lançado, cada aula, cada investida em uma idéia de filosofia brasileira exalava como um sopro final. Mas ele opera uma síntese que abrigará todo o sentido que deseja impor: “...e é por isso que eu conclamo...” Dirige-se à platéia da aula, mas a sua voz quer se dirigir ao mundo, empregando o substantivo universal das mudanças culturais, “...conclamo à juventude...”, como se a própria força da palavra exigisse uma repercussão imediata. Ele faz uma pequena pausa; parece tomar fôlego para uma investida ainda mais cataclísmica. Finalmente, despeja aquela que é sua maior esperança: uma “juventude que estude”. O verbo retumba no estampido da segunda sílaba, provavelmente o ponto mais alto do volume naquela gravação, como um disparo seco da realidade. Mas a sua alma prossegue inabalável, reta, porque convicta. “...e é por isso que eu conclamo à juventude que estude para que...” e o resto se nos torna inaudível, como se nada mais depois daquilo fosse ter importância. O silêncio então nos diz: pare aqui, você já ouviu o suficiente, vá estudar e não se entregue às modas e às contingências. Mais do que tudo, não se deixe levar pela modorra, pela prostração intelectual, pelos comodismos que o mundo hoje tanto nos oferece. A conclamação de Mário à época, 40 anos atrás, já era mais do que pertinente, que dirá hoje em dia. Não se trata de uma ordem assoberbada, mas de uma imposição que vem desde a própria verdade. Se algo da verdade não se deixou falar pelas palavras de Mário Ferreira dos Santos, resta-nos mesmo o agnosticismo. E não penso que a exortação de Mário se dirigisse somente aos jovens das escolas, das faculdades, dos comícios, mas aos jovens de intelecto, aos homens entregues a uma compreensão equivocada do mundo, aos homens cujas inteligências ainda não atingiram uma maturidade suficiente para de fato formar juízos que fundamentem o seu agir. Como podem estes jovens do mundo moderno bradarem aos quatro ventos a sua independência se não possuem nem mesmo uma independência intelectual? Entenda-se independência intelectual não em seu sentido grosseiro, de alguém dedicado a construir toda uma cosmovisão a partir do próprio umbigo, mas de alguém cuja mente pense por si mesma, buscando a verdade nos seus mais distintos recônditos, estudando com honestidade os problemas do pensamento humano sem jamais se desvincular daqueles homens que deixaram as grandes respostas.
E Mário Ferreira dos Santos, meus amigos, foi um destes homens.
"A luta toda se resume em impor uma escala de valores. Por exemplo, a juventude brasileira por qual escala de valores vai lutar? Ela precisa saber. Vai pela utilitária? Pela nobre? Ou pela sagrada? Ela tem que saber, ela tem que escolher uma escala de valores pela qual vai lutar, já que tem no Brasil um papel importante, porque o Brasil é um país sem elite e a juventude universitária é a elite. (...) O Brasil não deve se preocupar com os pseudos valores, quer dizer com aqueles valores que não são genuinamente nossos, e este é um tema que merece ser estudado".

Trechos de palestra no Centro Convivium, em 1967

A mínima maturidade que o jovem precisa possuir é aquela que o convença a estudar. A essência humana não se constrói sem uma caminhada filosófica, sem uma dedicação ao melhor entendimento da verdade. A única vantagem da “juventude de espírito” é o seu vigor, e só neste sentido é que o homem deveria permanecer jovem por toda sua vida.
Foi este vigor que nos impeliu a idealizar a revista eletrônica Filosofia Concreta. Foi esta nossa juventude de espírito que nos fez entender que algo deve ser feito para resgatar o pensamento desse grande filósofo, que nos ajudará também a resgatar o respeito pela verdade e pelo estudo.
O abandono a que Mário foi relegado nos últimos 30, 40 anos a nós parece um fenômeno aterrador da natureza, como um milagre virado do avesso. Por que sumir com um homem de tamanha erudição e temperança, dedicado a aproveitar os fachos de verdade existentes em cada filosofia estudada, sem jamais romper com toda a potencialidade do pensamento humano? Por que esquecer um filósofo tão sábio em seu ecletismo, capaz de unir satisfatoriamente Pitágoras a Hegel, Aquino a Nietzsche, Suárez a Proudhon? Por que negligenciar uma obra que conta com mais de 60 títulos, abarcando temas como Ontologia, Gnoseologia, Lógica, Teologia, Simbólica, Psicologia, Sociologia, Economia e até Oratória? Como se reduz a quase nada a importância de um empreendimento como a Filosofia Concreta? Talvez estas perguntas sejam só mais umas entre as tantas cujas respostas só o estudo dedicado nos forneça. Atendendo à conclamação de Mário, apresentaremos aqui alguns dos frutos de nossos estudos. O espaço é dedicado à exposição e investigação dos temas que o pensador brasileiro propôs, mas o nosso grande objetivo é mesmo alimentar o prazer pela investigação filosófica em si, esta que é a mais nobre atividade do intelecto humano, e sem a qual não pode haver resgate de coisa alguma. Convidamos a todos para participarem de tal empreitada.

Renan Santos, 15 de novembro de 2009

Fonte: http://filosofiaconcreta.mercaba.com.br/

duas palavras

duas palavras no bolso
para que servem?
não seria melhor um canivete?

talvez uma marreta
tivesse maior serventia
para arrebentar o muro
de cristal entre os olhos

desencontro de nossas mãos frias
cabeças de vento
cheias de paisagens danificadas

isso de ser sozinho no metrô
acaba com a gente
de estação em estação
silêncio estagnado
na palma da mão

duas palavras no bolso
não valem um vintém

a praça se mostra um crime
não obstante a catedral
com todas as promessas de salvação

duas palavras que não cabem numa reza
duas palavras que sujeitam
às regras do dia: rapidez e medo

duas palavras que não se combinam
nem podem ser trocadas
contrariando o destino

Semibreve

por Vera Barbosa

Decidi me enclausurar. Quero viver dos discos, livros, filmes e nada mais. E isso não é, de todo, ruim. Vou viver de mim por uns tempos. Ando cansada da noite e do vazio que as pessoas me trazem.

Vou vasculhar as possibilidades que há em mim, quero me desdobrar. Não é egocentrimo, tampouco prepotência, mas tem sido entediante sair por aí e ver tanta gente parecida, voltada para o próprio umbigo e para aquilo que se convencionou ser atrante ou interessante. Vou me embriagar da minha casa e digladiar com meus fantasmas, conviver com minhas indagações, explorar meu universo. Revirar minhas gavetas, me transfigurar nas personagens todas que me habitam e gritam, desesperadamente, que eu me rebele.

Quero ser outra. Muitas. Diversamente ambígua.

Arrogante,
atrevida,
misteriosa,
dramática,
nostálgica,
estúpida,
louca,
exagerada,
ríspida.

Ah, chame do que quiser chamar!

Nomeie!
Defina!
Rotule!

Rótulo por rótulo, nada vai se alterar, "mero incidente corriqueiro ser mulher a vida inteira".

Tenho direito de fazer acontecer o que eu quiser. Sem mais, vejo você amanhã, depois do temporal...
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SemibreveOrigem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Semibreve é o nome da Nota musical de maior duração na notação musical padrão. Por ser a nota mais longa em uso (só é mais curta que a breve, arcaica), ela é usada como referência para as durações relativas de todas as demais notas. Quando dividida em duas, quatro, oito, dezesseis, trinta e duas ou sessenta e quatro partes, obtemos, respectivamente, a mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa e semifusa.

A semibreve também é a nota usada como referência para a duração do compasso (música). O denominador da fórmula de compasso indica em quantas partes uma semibreve é dividida para obter a unidade de tempo da composição. Por exemplo, um compasso 4/4 indica que a semibreve foi dividida em quatro partes e que a unidade de tempo é a nota com duração de 1/4 da semibreve. (ou seja, a semínima)

Focinho atento - Domingos Barroso

O rio por qual passas
ilusão as águas mansas,

a um palmo
debaixo dos teus pés -

areia movediça,
buraco negro.

Não te enganes,
o livre-arbítrio
é mão dupla -

menos se espera
surge bêbado um cavalo alado
atravessando o caminho,

e o abismo continua
nostálgico,

plantado entre orquídeas
e ervas daninhas.

Brandura - Domingos Barroso

Absolutamente nada desejo -
grana, mulher, as sete virtudes.

A felicidade percebo
é esse sobrado aberto -

sem nuvens no alto,
sem folhas secas pisadas.

Basta meu cafezinho quente
e o riso do meu filho
antes de ir à escola.

O dedo no nariz,
uma melequinha aprazível.

O meu anjo da guarda me diz
que não é de todo seguro
essa túnica transparente

enquanto meu lado sombrio
rói as unhas neurótico.

Agora sou eu
quem limpa o nariz
e sorri de soslaio.

Também não desejo
essa falta de querência
por eternidade.

O Perfume - Maria Amélia Pinheiro de Castro

Aproveitando o texto do Prof. Carlos Pinheiro, lanço um desafio para os amigos do blog.Quem se lembra dos perfumes do tempo das tertúlias, da Siqueira Campos, dos baile do Crato Tenis Clube.Vamos colocar nossos olfatos para trabalhar.Lancaster, Paris e assim vai.


O PERFUME


Desde os primórdios da humanidade que a procura de aromas diferentes e agradáveis, e a conseqüente utilização de essências de plantas, faz parte da história da civilização.

Pensa-se que a arte da perfumaria se terá iniciado ainda na Pré-História, quando o homem primitivo aprendeu a fazer o fogo e descobriu que certas plantas libertavam fragrâncias agradáveis quando queimadas. Os primeiros perfumes terão pois surgido sob a forma de fumo, o que é aliás confirmado pelo próprio étimo "Perfume", que deriva do latim "Per fumum" ou "pro fumum", significando "através do fumo".

A queima de plantas raras e resinas aromáticas estava em geral associada a cerimônias religiosas, sobretudo aos sacrifícios rituais de animais, em que serviria para disfarçar os odores incomodativos do animal morto. Com este objetivo eram utilizados o sândalo, a casca de canela, as raízes de cálamo, bem como substâncias resinosas como mirra, incenso, benjoim e cedro do Líbano.

Na civilização mesopotâmica, o ato de perfumar era tido como um ritual de purificação. Por esse motivo, os homens tinham a obrigação de oferecer perfumes às mulheres durante toda a vida.

Os Hebreus também utilizavam o perfume na vida quotidiana e no culto. Uma das suas fórmulas está registrada na Bíblia, no livro do Êxodo, capítulo 30. A composição utilizava quatro ingredientes naturais, muito empregados nos dias de hoje, mas de forma mais refinada: mirra, cinamomo, junco odorífero, cássia e óleo de cálamo aromático.

Requintes

Os Egípcios foram o primeiro povo a fazer uma utilização sistemática do perfume. O seu fabrico era considerado uma graça de Deus, sendo por isso confiado aos sacerdotes, que utilizavam os perfumes diariamente no culto ao deus-sol.
Mas começa também a generalizar-se a utilização pessoal do perfume, tendo para isso os Egípcios criado um original sistema, pequenas caixas que se usavam atadas na cabeça e que continham uma fragrância que se dissolvia lentamente perfumando o rosto. Tinha também a função de afastar os insetos.
A rainha Cleópatra, ela própria autora de um tratado de cosmética infelizmente perdido, untava as suas mãos com óleo de rosas, açafrão e violetas - o kiafi - e perfumava os pés com uma loção feita à base de extratos de amêndoa, mel, canela, flor de laranjeira e alfena.
Até os mortos, durante o processo de embalsamamento, eram ungidos com essas misturas. Quando o túmulo do rei Tutankámon foi aberto, encontraram-se no seu interior maravilhosos vasos de alabastro que conservavam ainda a essência perfumada que havia sido colocada neles há cerca de 5 mil anos.

A refinada civilização grega importava perfumes de diferentes partes do mundo, sendo os mais apreciados e caros os oriundos do Egito. Mas também criaram uma técnica própria de perfumaria, chamada maceração, em que o óleo vegetal ou a gordura animal eram deixados durante algumas semanas em repouso juntamente com flores, para lhe absorver os óleos essenciais.
Há 2400 anos, certos escritos gregos recomendavam hortelã-pimenta para perfumar braços e axilas, canela para o peito, óleo de amêndoa para mãos e pés, e extrato de manjerona para o cabelo e as sobrancelhas.
O uso do perfume foi levado a um tal extremo pelos jovens que o legislador Sólon chegou a proibir a venda de óleos fragrantes.
Tal como os gregos, os Romanos eram grandes apreciadores de perfume, usando-o nas mais diversas situações. Como resultado das suas conquistas militares, os Romanos foram assimilando não só novos territórios, mas também novas fragrâncias, procedentes das suas campanhas em terras distantes e exóticas, aromas desconhecidos até então, como a glicínia, a baunilha, o lilás ou o cravo. Também adotaram o costume grego de preparar óleos perfumados à base de limão, tangerinas e laranjas.
Esta paixão pelo perfume esteve na origem do aparecimento do poderoso grêmio dos perfumistas, os famosos e influentes ungüentarii, que fabricavam três tipos de ungüentos: sólidos, cujo aroma contava com um único ingrediente de cada vez, como a amêndoa ou o marmelo; os líquidos, elaborados com flores, especiarias e resinas trituradas, num suporte oleoso; e perfumes em pó, feitos com pétalas de flores que depois se pulverizava e aos quais se juntavam certas especiarias.
Os nobres romanos possuíam inclusivamente escravos para os massagearem e untarem com essências perfumadas e era costume os soldados perfumarem-se antes de entrar em combate.
Conta-se que Nero, no século I d. C., na organização de uma festa, gastou mais de 150 mil euros, em valores atuais, em essências para si mesmo e para os convidados. E, no enterro de sua mulher Pompéia, gastou o perfume que os perfumistas árabes eram capazes de produzir num ano. Chegou ao extremo de perfumar até as suas mulas.

Também a tradição cristã está na sua origem associada ao perfume. Lembremos que uma das oferendas que os reis magos trouxeram ao menino Jesus foi o incenso.

Prof. Carlos Pinheiro

Pensamento para o Dia 17/11/2009



“Nesta vida mundana o amor se manifesta de várias formas, como o amor entre mãe e filho, marido e esposa e entre parentes. Esse amor baseado em relações físicas provém de motivos egoístas e de interesse próprio. Mas o amor pelo Divino é destituído de qualquer traço de egoísmo. É o amor somente por causa do amor. Isso é chamado devoção (Bhakti). Uma característica desse amor é dar e não receber. Em segundo lugar, o amor não reconhece qualquer medo. Em terceiro lugar, é somente por causa do amor e não por um motivo egoísta. Todos esses três ângulos do amor significam, em conjunto, Rendição (Prapatthi). Quando alguém se deleita nessa atitude de Rendição, ele experimenta a bem-aventurança do Divino.”
Sathya Sai Baba

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“O sândalo libera cada vez mais fragrância à medida que é continuamente moído. A cana-de-açúcar libera o suco à medida que é mais e mais mastigada. O ouro fica puro quando é derretido no fogo. Do mesmo modo, um verdadeiro devoto não vacilará em seu amor por Deus mesmo quando enfrenta problemas e obstáculos em sua vida. Deus testa Seus devotos somente para levá-los a um nível mais elevado na escada espiritual.”
Sathya Sai Baba

Na Semana da Música ... " Qualquer Música "


"Qualquer Música".

"Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma !

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!"


( Fernando Pessoa - Ortônimo )

O prazer da gastronomia - por Socorro Moreira

Mary, Rosa e Berta ( foto by Socorro)
Eu e Berta ( foto by Rosa)



Nunca fui de comer demais. Depois da diabetes tornei-me voraz!
Recife saciou-me , em todos os sentidos. Como se não bastasse a presença dos amigos , ainda deliciaram-me com quitutes de paladar inconfundível !
Primeiro foi no aniversário de Stela, justo no dia da minha chegada. Gente , nem tinha explicação. Mal terminávamos de petiscar um prato, ela já trazia na bandeja uma outra novidade ... Cada uma mais gostosa que a outra. Pensei logo : vou fazer um laboratório culinário na fonte desses quitutes.
Dia seguinte almoçei na casa de Rosa Guerrera , e surpreendi-me com os dotes culinários de MARY. A danada cozinha , infinitamente melhor do que eu. Apresentou-nos umas panquecas ao molho de tomate com manjericão , afora outros pratos. Não resisti ! Pedi-lhe a receita de imediato , e lá vem a minha nova amiguinha com a receita anotada numa folhinha de papel, com a letra das pessoas ternas e generosas. Claro que vou passá-la pra vocês !
A casa de Rosineide é habitada por poucos ( ela, e um casal de filhos). Todos lindos, sarados ,saudáveis! Mas nem entendo como aquele povo mantém a forma. Por toda parte da geladeira e armários , a gente encontra guloseimas.
E quando Rosineide diz ...: vou fazer uma tapioquinha, uma carninha moída, um risoto de carne-de-sol , um suquinho especial ? Ai, meu Deus do Céu... É pra gente comer gemendo ou ajoelhada !
Por todas essas lembranças , vai a minha sugestão para o almoço dessa terça-feira :
Panquecas da Mary recheadas com a carne moída de Rosineide.
Panquecas da Mary ( receita da massa)
1 1/2 de leite
2 ovos inteiros
1/2 xícara de maisena
1 1/2 de farinha de trigo
2 colheres de óleo
sal a gosto
Método : bater todos os ingredientes no liquidificador , e deixar a massa descansar por 10 minutos.
Recheio ( carne moída da Rosineide)
1/2 kg de carne moída ( sem gordura)
1 colher de sopa do tempero Regina
1 cebola grande picadinha
1 pimentão verde
1 tomate
1 tablete de caldo knor
cheiro verde
colorau, pimenta de cheiro
2 colhers de óleo.
Temperar bem a carne , levar ao fogo (brando) , até ficar enxuta.
Molho de tomate com manjericão e orégano
Azeite, 4 dentes de alho laminados, 1/2 kg de tomates maduros, sal à gosto, uma pitada de orégano , e folhinhas de manjericão batidas. . Deixar desmanchar os tomates , e passar no liquidificador.Retornar à panela , e deixar dar mais uma ferfura. Picar, na finalização,pedaços de mussarela . Cobrir as panquecas já enroladas e recheadas , e polvilhar com queijo ralado.
Agradeço o carinho dos meus amigos : Stela, Pedro, Jacinta, Rejane, Berta, Ofélia, Alexandre, Fernanda , Rosineide, Nilo Sérgio, Giovani, Rosa , Ana Lúcia , Dona Zélia , Mary, Joaquim e Renata.
Espero recebê-los em breve, no nosso Cratinho.
Abraços saudosos,
Socorro Moreira

Off-road nas trilhas serranas do Cariri - foto de Heládio Teles Duarte



Médicos ,no exemplo contra o sedentarismo , e pelo visto , bem que é divertido !

Irreverência - por João Nicodemos


Enfim ... por João Nicodemos


Nas quebradas ... por João Nicodemos


Convivência - por João Nicodemos


Memorando- por João Nicodemos

Ainda não sei nada ... - por Rosa Guerrera

Aprendi muita coisa nessa caminhada pela vida. Aprendi que não se deve mergulhar de cabeça quando o mar aparenta águas tranqüilas,pois correntes marinhas pode nos levar a um afogamento. Aprendi que não se pode medir o abraço pela força dos braços que nos enlaça, mas pela ternura que emana do coração. Aprendi que os nossos defeitos começam aflorar para a pessoa amada, quando somos olhados como um ser humano ,capaz também de erros e acertos. Aprendi que o silêncio quando escutado com o coração , fala muito mais que mil palavras . Aprendi que ninguém É , mas que todo mundo ESTÁ no seu devido lugar de acordo com as mutáveis leis que regem os destinos. E pensando ter aprendido de tudo na vida , eu aprendi que até hoje estou engatinhando nas passadas da minha existência , e que a verdade nua e crua é que AINDA NÃO SEI NADA...


por rosa guerrera

Heitor Vila-Lobos -


"Sim sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que transporto instintivamente para tudo que escrevo". Este é Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro de música erudita de todos os tempos.

Deixou um acervo com mais de 1500 obras. Morreu aos 72 anos, em 17 de novembro de 1959, no Rio de Janeiro.



Auguste Rodin

Auguste Rodin (Paris, 12 de novembro de 1840 - Meudon, 17 de novembro de 1917), foi um escultor francês.

"A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma.

Auguste Rodin

O espírito esboça, mas é o coração que modela.

O mundo não será feliz a não ser quando todos os homens tiverem alma de artista, isto é, quando todos tirarem prazer do seu trabalho.

Auguste Rodin

Hoje é aniversário de Jane Duboc

Telha de Vidro - Raquel de Queiroz

Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...

A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...

Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.

Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!

Rachel de Queiroz

"Eu sou o Cego Aderaldo" - Livro apresentado por Raquel de Queiroz





APRESENTAÇÃO
DO LIVRO "EU SOU O CEGO ADERALDO"
ED. MALTESE, 1994

É como ele se assina: Cego Aderaldo. Creio até que registrou a marca, pois é como “Cego Aderaldo” que o povo o conhece e ama.

O último dos grandes cantadores – hoje já não se conhecem cantadores como ele foi e como ele é. Ou se os há de inspiração idêntica, as novas gerações, distraídas com a música comercializada do rádio, com os cantores enlatados, já não os idêntica, as novas gerações, distraídas com a música comercializada do rádio, com os cantores enlatados, já não os identificam nem lhes conferem esse halo de glória que nimbava os famosos cantadores do passado.

Hoje, o prestígio da profissão de cantar improvisado, á rebeca ou á viola, e cantar e, desafio, vai diminuindo, em vias de desaparecer. Só maldo como causa a música dos rádios, que, através dos transistores, chega até aos lugares mais escondidos do sertão.

Onde nunca chegou trem, ou ainda não chegou automóvel nem avião, o rádio já chega. E fica, e grita, e enerva. E porque não tem mais esperança de fama, os moços de inspiração não se dedicam a cantar, não estimulam a veia poética nem se apuram na escola dos desafios.

Nessa decadência geral do oficio de cantador, cego Aderaldo mantém, contudo, o seu prestígio intacto. O povo o adora, o cerca e o festeja onde quer que ele vá. Quando chega a uma fazenda, venha embora o cego sozinho com seu guia, é como se com ele houvesse começado a novena, os foguetes e o leilão.

Aderaldo sentar-se e começa a cantar e até comove ver como a gente o cerca, e ri com ele, e lhe bebe as palavras.

Não aplaudem porque sertanejo não está habituado aplaudir: o artista tem que pressentir, no silencio emocionado que se segue ao se trabalho, o grau de aprovação que suscitou.

Aderaldo é hoje um velho de mais de oitenta anos, espigados, rijo, fala sonora de homem habituado a dominar auditórios.

Tem o riso muito fácil – é um cego alegre. Seu repertório, porque os cantadores não apenas improvisam, mas também cantam versos de lavra alheia, especialmente os da musa popular - seu repertório, com poucas exceções, é bem humorado, quase humorístico.

Isso se verá, aliás, nas páginas adiante, onde o Cego Aderaldo conta a sua vida e dá uma mostra de sua poesia.

Sei que é muito difícil por num caderno de lembranças essa coisa ilusiva e perecível que é a arte de um cantador.

A palavra impressa, coisa de medida, de premeditação e efeito calculado, não conseguirá transmitir ao leitor o impacto produzido pela ação de presença, pela mágica do improviso, pela música do acompanhamento, pelo embalo da cantoria; mas ao menos registrar um pouco, para não perder tudo.

Pelo menos isso – memória da vida, fragmentos de desafios e romances – nos guardado de tudo que ele espalhou por aí em mais de sessenta anos de cantoria. É um documento da sua passagem, uma referencia para futuros estudiosos, e uma pre texto de aproximação e reconhecimento para o povo que o ama e que, quando um dia o perder, gostará de conservar ao menos uma parte dos tesouros lançados ao vento dos desafios, aos pequenos auditórios longínquos e memória, ao caso, das peregrinações do violeiro e cantor.


CONTRACAPA DO LIVRO
EU SOU O CEGO ADERALDO
ED. MALTESE, 1994

Aderaldo Ferreira de Araújo é uma legenda de cantoria nordestina. Cego, tradição de um Homero ou de um Tirésias, cumpriria o destino traçado pelos deuses de ser privado da visão para ser apenas voz. Mas que conheceu a luz e a cor até aos 18 anos.
É a permanência da oralidade que está em foco.
Seu cantar flui, interminável, como uma litania sertaneja.
Ele está sempre apto para a peleja. Maneja voz e viola como armas, com uma destreza de mestre.
O sertão inteiro repete, ainda, de cor, o seu improviso e sabe histórias de repentes com a marca do gênio.
Os grandes nomes da cantoria cantam com ele. Até mesmo pegas que nunca existiram ganharam transmissão oral ou foram transcritos para folhetos de cordel.

Um cego andarilho, que não vendia histórias, papel reservado a eles na tradição européia, mas que ganhava a vida como um “performer” medieval.

O importante não era apenas o que ele dizia, mas como dizia, a eloqüência da voz, ao artifícios da retórica, a verve de quem sempre tinha um argumento a mais para exibir no ultimo instante e fazer calar o rival.

O Cego Aderaldo foi o maior jogral que o Nordeste já teve. E este livro é um esforço de registrar o que se perderia no eco das palavras ou que se transformaria em sementes na recriação deste canto que é de homem e ao mesmo tempo de todas as vozes sertanejas. Um livro para ser lido em voz alta.
Nos mercados, nos patamares das igrejas em tempo de festas, nos terreiros das fazendas, ainda se faz ouvir o tom plangente de sua viola e o matraquear de sua poética.
Aderaldo está cada vez mais vivo no coração e na lembrança de todos os que sabem puxar os fios e tecer essa histórias feita de mil-e-uma noites de rimas, ritmo e agilidade. É um saber tradicional que se cristaliza e se torna monumento feito de palavras e sons.

Dedicado a você - por Zizi Pozzi - (para aqueles que amam)

Vale a pena ouvir !!!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ecos - Por Claude Bloc


conte-me
conte-me, sim
das sementes que brotaram,
das flores que se abriram,
dos frutos que caíram,
na terra fofa e molhada...
dos rios e dos fios d’água
que descem pelas encostas
da serra que conhecemos
dos sonhos e das loucuras
que cruzam a nossa terra
chão lanhado pelo tempo.

conte-me
conte-me, sim
desse brilho em seus olhos
desse sentimento rouco
dessa chuva, do calor
dos ecos de minha terra.
.
Texto e foto por Claude Bloc

Paroles - para Corujinha Baiana

Indizível - por Corujinha Baiana

O que dizer
dos sonhos não realizados
dos versos não declamados
do silêncio que era meu ?

O que dizer
das ofensas recebidas
das lágrimas não percebidas
da alegria que morreu ?

O que dizer
das lições não aprendidas
das emoções tão contidas
do riso que não se deu ?

O que dizer
da música nunca entoada
da beleza não contemplada
de tudo que se perdeu ?

Como perdoar o imperdoável ?
Como esquecer o inesquecível ?
Como evitar o inevitável ?
Como dizer o indizível ?

“ Paroles... Paroles...Paroles...”

( Corujinha Baiana - 16 de novembro de 2009 )

Alderico de Paula Damasceno - um dos grandes ícones da cultura cratense


Em 1966 , cursava o primeiro ano científico, no Colégio Dom Bosco . Alderico era o meu professor de História. Intimidava com a sua voz em tom maior; impressionava com sua forma persuasiva de contar a verdade dos fatos , omitidas nos livros. Falava do pensamento político, filosófico e ideológico... Criava-nos uma consciência crítica. Por dois anos seguidos fui sua aluna. Depois nos tornamos colegas de magistério, no Colégio Estadual. Gostava de escutá-lo. Admirava-lhe a vitalidade , conhecimento e sabedoria. Pensei muitas vezes : não existe velhice , nem tempo, nem morte que derrubem esse homem. Mas o tempo não tem dó ... É implacável !
Aos 90 anos , nosso mestre e amigo foi chamado para o andar superior, para o encontro de outros nunca esquecidos.
Fecho os olhos e escuto a sua voz, outrora vibrante, já cansada, fugidia , silenciosa ...Chegou a hora !
socorro moreira

Óvulos Mágicos - por Domingos Barroso




O poeta tão semelhante
à mulher -

ao mês sangra

e em noite de lua cheia
diferente corre o sangue.

Mas há mulheres cansadas
de tanto vinho debaixo das saias

e poetas bissextos
alcançam a menopausa
quando escrevem versos.

Mulheres engravidam
e por alguns meses

as calcinhas engomadas
sempre secas

enquanto poetas enlouquecidos
sofrem avc -

partem para o além divididos
entre uma alma delicada
e dedos frios.



domingos barroso

Versos incautos - por Socorro Moreira para Domingos Barroso


Existe um móvel no quarto
que guarda a ausência das tuas roupas
Existe um móvel no quarto
que guarda a ausência do teu corpo.


-----------------------------------
Por favor,
toque fogo ,
no vício do amor.
Inflame !

Nas cinzas da exaustão,
a gente se encontra !

-----------------------------------

Meu coração tem liberdade absoluta
Tem asas, tem véus, e sabe nadar
por sonhos mirabolantes .
Paladino incansável ,
lembra o susto de prazer
do primeiro e do último beijo.
Hálito hals
Tosse , respiração cansada
de quem fumou pra beijar.

------------------------------------
Será mal de quem versa
não saber nadar?
Será mal de quem versa
odiar dirigir , estacionar?
Será mal de quem versa
não correr riscos,
pedalando a bicicleta,
guardada na infância?
Será mal de quem versa
juntar rimas, rabiscar páginas,
e teclar o amanhecer ,
em tons de rosa-ternura ?


socorro moreira

Cotidiano poético - Domingos Barroso

Lar

Esse prato sobre a pia
esquecido após ser lavado

compartilha com seu olhar distante
o frescor da ausência.

Esse simples objeto
quem diria lhe comove as lágrimas.

Apesar de tanto tempo
em diária convivência
só agora percebe
a textura,
os contornos.

Esse prato sobre a pia
há muito lavado e enxuto
é a sua alma contemplativa.

Assim todos os objetos domésticos
resguardados em inanimado mistério:
à espera.



um espinho atravessado

Tudo que for
vício em você
queimarei -

seu cigarro fraco,
sua cocaína bruxa

seu álcool inferno,
sua lata fuligem.

Serei seu inimigo
número um

sempre que abrir um olho
e, descuidado, fechar o outro.

Não me peça clemência
trégua, só um tempinho -

não terei dó da sua carcaça,
dos seus caprichos

das suas manhas,
dos seus erros.

Tudo que for
vício em você
lançarei ao fogo -

seu egoísmo automático,
sua vaidade inveterada

sua arte em matar o próximo
e a si mesmo.

Não me jure abstinência,
pureza de alma -

eu não acredito
e lhe digo:

ao buraco levarei
todos os seus vícios.

A sobra sobre a mesa
cabe-lhe:

banquete
ou migalhas.

É o seu fim.

Domingos Barroso