Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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domingo, 30 de maio de 2010

Começou a festa de Barbalha !


Sou aversa aos aglomerados. Até hoje não tive coragem de encarar a festa do pau da bandeira de Sto Antonio. Lasquinha do pau, pra casar mais uma vez? Nem em sonhos !

Gaby, minha amiga italiana , acabou de interrogar-me , sobre o pau e o pão de Sto Antonio, qualificando a festa , no conteúdo pagão e religioso. Melhor é poder curtir a mítica e o Santo !

Pesquisei até uma receita do pão-de-santo antonio, e entrego a quem possa interessar.

Segundo Bernadete Cabral, com quem converso prazeirosamente sobre a vida dos santos da Igreja Católica , o lado romântico desse santinho é deveras interessante !

De família nobre e riquíssima, entregou sua fortuna aos pobres, inclusive às moças impedidas de casar por falta de um dote.
A partir de amanhã, e por treze noites seguidas , começa a festa de Barbalha. Momento de vivenciar as quermesses, e petiscar aquelas comidinhas típicas do Cariri. Sem dúvidas é a mais animada das festas profana /religiosa dos nossos arredores.
Até o dia 13 de Junho , vamos curti-la, cada um do jeito que gosta !
"A história do pão de Sto Antônio remonta a um fato curioso que é assim narrado: Antônio comovia-se tanto com a pobreza que, certa vez, distribuiu aos pobres todo o pão do convento em que vivia. O frade padeiro ficou em apuros quando, na hora da refeição, percebeu que os frades não tinham o que comer: os pães tinham sido "roubados". O frade padeiro foi contar ao santo o ocorrido. Este mandou que verificasse melhor o lugar onde os tinha deixado. O Irmão padeiro voltou estupefato e alegre: os cestos transbordavam de pão, tanto que foram distribuídos aos frades e aos pobres do convento. O pãozinho de Santo Antônio é, por tradição, colocado pelos fiéis nos sacos de farinha, com a fé de que, assim, nunca lhes faltará o que comer. "

http://www.jangadabrasil.com.br/junho/al100600.htm


Ingredientes


2 copos e 1/2 de água morna

2 colheres de sopa de açúcar

1 colher de sal

1 ovo

1 copo de óleo

1 kg de farinha de trigo

50 g de fermento de padaria


Modo de Preparo


Misturar o fermento de padaria na água morna .Levar ao liquidificador: o açúcar, o óleo, o sal, o açúcar, o ovo e a água com o fermento .Bater por alguns minutos .Colocar em uma bacia grande esta mistura e acrescentar o trigo aos poucos, misturando com as mãos (a quantidade de trigo suficiente se dá quando a massa não grudar em suas mãos)
Deixar crescer por 1 hora
Dividir a massa em partes e enrolar os pães
Deixar crescer novamente por 40 minutos
Levar para assar por mais ou menos 30 minutos

Colaboração de Nívia Uchôa

CARTA A GILVAN LUIZ

Gilvan Luiz, ser humano,
Receba um abraço meu
Pois longe do Juazeiro
Soube do que lhe ocorreu
E fiquei indignada
Aflita e petrificada
Ante o que se sucedeu

Quando li na internet
Que você foi sequestrado
Numa atitude covarde
Sendo também torturado
Eu exclamei: Deus do Céu!
Ainda há coronel
No meu Cariri amado!

Vi seu rosto ensanguentado
E a cabeça golpeada
As chamadas e manchetes
Sendo muito comentadas
Meus colegas jornalistas
-dentre eles, dois petistas-
Falando em emboscada

Aí eu fiquei maluca
Querendo compreender
Já que estando em Juazeiro
Na rua encontrei você
Que já falava em ameaça
Ali pertinho da Praça
Quando eu brinquei a dizer:

“Gilvan, você merecia
Era ser vereador
Pois junto com Fábio Souza
Nos presta um grande favor
Fiscalizando o poder
Sem um tostão receber
Do bolso do eleitor”

E disse também, sorrindo:
“Você parece Santana
Que, quando vereador,
Fazia uma zuada insana
Cobrando da prefeitura
Transparência e lisura
Para gerir nossa grana”


Aí você retrucou
Dizendo: “tu tá por fora
Tu só vive viajando
Não sabe nada de agora
Por causa dum doutorado
Deixou teu torrão amado
Bateu asa e foi embora”

Então eu te cutuquei
Falando: já fiz demais
Tu é a bola da vez
Não vamos olhar pra trás
Se cuide e siga em frente
Nadamos contra a corrente
Assim a história se faz...

Depois deste breve papo
Você me deu um jornal
Que eu li atentamente
Como se fora um sinal
Do que estava por vir
Pois tu relatava ali
Bastante coisa ilegal

E quanto mais eu me lembro
Menos quero acreditar
Pois temos a mesma idade
E um jeito de falar
Do que nos parece errado
E damos nosso recado
Pra muito caro pagar

Você como jornalista
Na sua função real
E eu como cordelista
No campo ficcional
Ambos na mesma pisada
Sujeito a trapaceada
Do cânon oficial

Você no jornal Sem Nome
Eu no verso nominado
Se ficar o bicho come
Se correr é rastreado
Uma coisa é semelhante:
Ameaça a todo instante
No seu caso, consumado!

Hoje lembrei de Tim Lopes
De Chico Alves também
Depois Wladimir Herzog
E lá se vão mais de cem
Que em face da função
Sofreram perseguição
De gente dita do bem

Tentei saber mais notícia
Nos blogs da região
E para minha surpresa
Só no Miséria, então
Falam deste ato vil
Que a imprensa do Rio
Divulga até de montão

Por isso eu me pergunto
Cadê nossos jornalistas?
E outros profissionais?
Que vivem de dar notícia
Mas lembrei na mesma hora
Tem mídia que ignora
O que lhe salta à vista

Ademais também pensei
Nem todos são corajosos
Os jornais que tem um nome
Têm donos mui poderosos
Uns que estão no poder
Outro tão querendo ser
E assim vão... perigosos

Restamos nós, militantes
Dos tais direitos humanos
Ante um crime tão gritante
Praticado por insanos
Temos que repudiar
Discutir e divulgar
Por muitos e muitos anos

Não deixemos que este fato
Caia no esquecimento
Que seja feito um ato
Um grandioso evento
Como foi recentemente
Quando mataram um parente
De alguém que tem bom assento


Seja quem for implicado
Como mandante ou autor
Que venha a ser processado
E punido com rigor
Para que tenhamos paz
E não ocorra jamais
Algo de mesmo teor

Não estou assinalando
Quem fez isto com você
Até porque se soubesse
Não temeria dizer
Mas penso que já é hora
De dar um basta a história
De que só vence o poder

No caso que me ocorreu
Não pude acompanhar
Pois o doutorado meu
Não é feito pra constar
Me faltou ubiquidade
Para estar na faculdade
E um processo acompanhar

Além do mais 'meus amigos'
Não me foram solidários
Alguns são 'bons inimigos'
Pois vale mais seus salários
Mas eu creio, do meu jeito
Noutro tipo de Direito
Que nasce dos relicários

Aqui meus novos colegas
Não param de me indagar
Querem entender porquê
Alguem tentou lhe matar
Mas a sua explicação
- Apesar da emoção -
Deixa uma questão no ar:

Você entende que o fato
Tem a ver com seu jornal...
Os temas veiculados...
O poder municipal...
Se, de fato, for assim
(Pra você, como pra mim)
Já sabemos o final...

É como eu disse aos Chilangos
Sobre o Brasil refletindo:
A liberdade de imprensa
Se assemelha a um bingo
Para uns é proibida
Para outros consentida
Depende muito do ''limbo''

Diz a Constituição
Da qual sou pesquisadora
Que a manifestação
Do pensar é promissora
Mas liberdade de imprensa
Não passa de uma crença
Da qual sou devoradora

Nos porões da ditadura
Muitas vozes se calaram
Era tempo de censura
Contra os que discordaram
Lula disse para o mundo
- E eu não cri um segundo-
Que os anos ''duros'' passaram!

Mas como Voltaire dizia:
Eu posso não concordar
Com uma única palavra
Do que você quer falar
Mas luto até a morte
Se pouca for minha sorte
Pra ver você se expressar!

Salete Maria

Festa de Santo Antonio, padroeiro da cidade vizinha de Barbalha-Ce



Dizem que santo de casa não faz milagre, mas esse parece que consegue resolver algumas pendências ou mesmo um problemão, quando se está louca para arranjar marido.

Ao contrário do que muita gente imagina Santo Antônio não é italiano, mas sim português.


Conhecido pela sua alegria e fé, Antônio encantava a todos quando difundia o Evangelho pelo seu vasto conhecimento das escrituras.

Depois de percorrer vários castelos, campos e aldeias, ele passa os últimos dia da vida em Pádua e Arcella (Itália) e morre no dia 13 de junho de 1231, com 36 anos. Após doze meses já é canonizado pelo Papa Gregório IX.

No seu dia, ele não é apenas lembrado pelas famosas simpatias para arrumar casamento. Muitas paróquias também distribuem o seu famoso pãozinho, que são bentos pelos padres. Para ter abundância em comida, guarde o pãozinho dentro da lata de arroz o ano inteiro. E se você também quiser aproveitar para tentar ganhar um marido, basta apenas receber o pão de alguém da família ou de um amigo ou amiga amanhã.

Por Juliana Lopes

Cesta Básica da Cultura e do Conhecimento - Ensinamento Editora. por Elmano Rodrigues Pinheiro






A “cultura e o conhecimento” devem participar da cesta básica de alimentos do cidadão. A Cesta Básica da Cultura e do Conhecimento confere à cesta básica de alimentos o caráter abrangente da cidadania. Afinal, a melhoria de qualidade de vida do homem e a sua valorização exigem cultura e conhecimento. Estimulemos o hábito da leitura, que descortina os horizontes da pessoa. “Um País se faz com homens e livros” – nos orienta Monteiro Lobato.

Literatura de cordel
A literatura de cordel entrou na cena cultural do país para não mais sair, Sertaneja e imediatista, vinda do além-mar aportou também na intelectualidade, e nela fez escola. Se antes era somente o jeito que os poetas tinham para cantar a beleza de uma “Donzela Teodora”, de um “Pavão Mysteriozo”...mesclando realidade e ficção, também registra fatos históricos e políticos,de interesse comum. De modo lúdico vestiu-se de cores e hoje se alia à fantasia da literatura infanto-juvenil.
Cordel não é somente a crônica ou o registro de uma época; é também a fonte onde muitos poetas embriagam-se de poesia. Apesar do requinte editorial de diversos folhetos, ainda há muitos que trabalham com a xilogravura em pequenas tipografias de fundo de quintal...

“Uma boa idéia para que a nossa Secretaria de Cultura do Crato, aproveitando os bons nomes da nossa Academia dos Cordelistas do Crato, promova a inclusão de alguns títulos nessa coleção, que até o final de junho já ultrapassa os trinta volumes, e promete ser um marco na história da literatura de cordel”.

email para contato: ensinamento@ensinamentoeditora.com.br

SAÚDE MENTAL – por Martha Medeiros


IMAGEM RECEBIDA PELA INTERNET

(Texto retirado da Revista O Globo – 30 de maio de 2010)

“Acabo de saber da existência de um filósofo grego chamado Alcméon, que viveu no século VI a.C., e que, certa vez, disse que saúde é o equilíbrio de forças contraditórias.

O psicanalista Paulo Sergio Guedes, nosso contemporâneo, reforça a mesma teoria em seu novo livro (“A Paixão, Caminhos & Descaminhos”, em que ele discute os fundamentos da psicanálise). “A saúde constitui sempre um estado de equilíbrio instável de forças, enquanto a doença traz em si a ilusória sensação de estabilidade e permanência”.

Não sei se entendi direito, mas me pareceu coerente. O sujeito de boa cuca não é aquele que pensa de forma militarizada. Não é o que nunca se contradiz. Não é o que nunca se contradiz. Não é o cara regido apenas pela lógica e que se agarra firmemente em suas verdades imutáveis. Esse, claro é o doente.

Do nascimento à morte, há uma longa estrada a ser percorrida. Para atravessá-la, recebemos uma certa munição no reduto familiar, mas nem sempre é a munição que precisávamos: em vez nos darem conhecimento, nos deram regras rígidas. Em vez de nos ofertarem arte, nos deram apenas futebol e novela. Em vez de nos estimularem a reverenciar a paixão e o encantamento, nos adestraram para ter medo. E lá vamos nós, vestidos com essa camisa de força emocional, encarar os dias em total estado de insegurança, desprotegidos para uma guerra que começa já dentro da própria cabeça.

Armados até os dentes contra qualquer instabilidade, como gozar a vida?

A paz que tanto procuramos não está na previsibilidade e na constância, e sim no reconhecimento de que ambas inexistem: nada é previsível nem constante. E isso enlouquece a maioria das pessoas. Quer dizer que não temos poder nenhum? Pois, é nenhum.

É um choque. Mas o segredo está em acostumar-se com a idéia. Só então é que se consegue relaxar e se divertir.

Ou seja, a pessoa de mente saudável é aquela que, sabedora da sua impotência contra as adversidades, não as camufla, e sim as enfrenta, assume a dor que sente, sofre e se reconstrói, e assim ganha experiência para novos embates, sentindo-se protegido apenas pela consciência que tem de si mesmo e do que a cerca – o universo todo, incerto e mágico.

Acho que é isso. Espero que seja isso, pois me parece perfeitamente curável, basta a coragem de se desarmar. O sujeito com a mente confusa é um cara assustado, que se algemou em suas próprias convicções e tenta, sem sucesso, se equilibrar em um pensamento único, sem se movimentar.

Já o sadio baila sobre o precipício.

E-mail: martha.medeiros@oglobo.com.br” (p.30)

Entrevista com Bruno Pedrosa - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Para quem bebe a vida em Paracuru, nasceu num sítio, na periferia da cidade de Crato, que cabe, inteirinha, sem sobras, no meu ser, entre os shoppings do Rio de Janeiro, prefere o “Downtown”, na Barra da Tijuca. Com suas ruas a céu aberto, bares e lojas. No centro existe um prédio enorme, acima do qual estão 13 cinemas – invólucros modernos do Moderno, Educadora e Radio Araripe. Neste mesmo prédio um Café Crato, é do Armazém, mas fiquemos com o primeiro nome. Tudo por quê?

Estou aqui numa mesa de varando do Café. À frente a figura profética de Bruno Pedrosa. Com sua voz mansa e o conteúdo telúrico. Severo, de olhares para os vendilhões do templo. A arte, especialmente as artes plásticas. Bruno tem o orgulho dos bem sucedidos cearenses na vida. Se a frase não se compuser da toponímia cearense, perde todo o sentido. O sucesso de cearense é aquele dos primeiros pingos de água quando a seca tudo devastara. Bruno Pedrosa faz seu caminho circular, como Abrahão, e foi “chamado” por Deus para imolar seu filho na demonstração extrema de amor ao pai ou de desrespeito aos seus ordenamentos.

Bruno Pedrosa não faz nem uma e nem outra coisa. Tanto se encontra nos Torrões como igual aos pés do monte Grappa. É a mais radical solução, fez aquilo que Abrahão passivamente esperou de Deus. Imolou o filho e não imolou. É algo que, radicalmente, se encontra no Riacho do Machado ou em qualquer vírgula de uma sentença escrita. Entre nós e os outros. Aliás, Bruno Pedrosa seria literalmente o que a escrita em castelhano tem para o significado nós, Bruno é um “nosotros”. Nós-outros.

Então, dois cearenses neste desterrado mundo, pleno de raízes e satisfações a tomar, começamos um jogo de perguntas e respostas as primeiras comigo e as segundas com ele.

Bruno, começando pelo começo. O quê é o Crato para você?

(Rindo e, por incrível que pareça, até rindo tem sotaque de cearense) Você me pergunta isso por começo com zelo de sua terra natal. Eu tenho um ponto exato, como o centro de uma circunferência que são as terras dos meus antepassados, num limiar entre Cedro e Lavras. Mas o Crato que é tanto para você é muito para mim. Foi a minha ruptura, do coletivo que era no Riacho do Machado. Lá conheci a vida urbana, os personagens instáveis desde mundo fluido. Estudei, noutra forma de aprendizado através do papel e do discurso formal. Muito diferente do ensino circunstancial do dia-a-dia com meus pais, avós, tios e moradores. Até mesmo daquele ensino estrutural das longas conversas no alpendre de casa.
O Crato tem um acervo de gente que está aqui em mim e que nunca se apartará. A Claude, Dominique, toda a história fantástica de seus pais, e irmãos. A Azeneth, filha de Luizinha e Derval Peixoto, Telma Saraiva e a querida Edilma família das imersões pictóricas, nos meus sonhos de artista. Lembro de tanta gente que não preciso dizer nesta conversa, que mesmo não citando como a faço a Ronaldo Brito, Zé Flávio e Socorro Moreira, são por demais minhas e jamais as esqueceria.

Bruno o que você diria da impossibilidade de um artista que ficou no interior e sem a visibilidade dos grandes centros, ricos que podem pagar a arte, vivem num isolamento transformado em frustração e perdas?

Bastaria apenas lembrar um único artista cearense que é universal e viveu a plenitude do que é arte tirando o sustento do solo deste chão. Que não explodiu em letreiros luminosos, não freqüentou a lista dos mais lidos dos jornais e revistas do Sul Maravilha. Que teve a sua primeira impressão em livro produzida ali mesmo, numa esquina do Crato. Que já tinha a idade do avô quando atravessa a classe média letrada e ilumina os salões literários. Eu falo de Patativa do Assaré, um artista completo, profundo e transformador.
Então o que explica na prática um grande artista?

Perseverança, dedicação, total e exclusiva a uma arte.

Mas o nosso Patativa nunca viveu da própria arte. Dependia da safra dos seus legumes, da cria dos seus animais para se vestir, beber e comer. A si e a sua família.
A poesia de Patativa só é grande porque brotada das intenções e dos frutos do mundo. Cada ciclo de fertilidade era uma esfera poética. Cada desastre social era uma trova sobre a perplexidade da humanidade. Cada maldade política era um amor pela vítima e feroz crítica ao agressor. Patativa misturava poesia com a limpa do mato, a colheita do feijão, o milho das galinhas.
Mas Bruno tudo pode ser apenas poesia nossa neste ambiente agradável se não considerar a questão da educação do artista. A formação para perfeito uso das técnicas de expressão de seu talento.
Nem sempre a técnica. Seguramente não é a trilha que me leva, mas os meus pés. A maior prática nas artes plásticas é a utilização lúdica dos materiais. Lúdica e criativa. Que, aliás, são inseparáveis: a ludicidade é a alegria de criar. Não é o jogo em si como sugere a palavra, mas o jogo no condicional: a alegria de jogá-lo. E por não ser apenas o jogo e suas regras, é a alegria despachada dos cânones que formam aqueles pilares inúteis.
Bruno as artes são tantas, tão vasto é o mundo dos materiais, tão variantes são as estéticas e as escolas, que é impossível ao comum das pessoas, fazer o que o artista faz: a ludicidade do contato com a obra exposta. Por isso é comum se dizer gostei e não gostei. Numa simplicidade que parece estimular a passagem rápida para outro objeto de arte. Uma fuga daquilo que não compreendo.

Nesta situação é melhor mesmo é fugir dos sentimentos classificatórios. Gostar e não gostar é mais da culinária, é do sabor, não cabe em outras artes, especialmente as plásticas. Aí o que mais aproximaria a pessoa da obra é se compreende ou não compreende a arte. Esta simples conclusão lhe abre a porta para coisas vulgares ou invulgares. Para a percepção entre a arte única e o produto em escala.

E os consumidores de arte? Especialmente aqueles que compram caro uma obra famosa?

Estamos falando aí de duas coisas que parecem juntas, mas não são: a formação do valor de uma obra de arte e a decisão de aplicar milhões na compra dela. A formação tem componentes históricos, políticos e econômicos. Já a decisão, em que pese ocorrer numa prática comercial, tem dois veios principais: aquele que decide apenas para ter status, alçar posições no alpinismo social e o que decide por afinidade com a obra, busca sua integração à própria materialidade do mundo que o cerca. Ambas, como espero ter deixado claro, pertence ao campo puro do materialismo.
Bruno quando dizemos artes plásticas, falamos de uma produção artística de expressão mundial, que tem conhecimentos específicos e dependem de aprendizado da população para compreendê-las melhor. Como você pensa isso?

Olhemos o Crato e Juazeiro. Começando pelo primeiro. Juazeiro é a confluência da cultura nordestina em suas diversas manifestações, a escola está na romaria, no mercado, na estátua, no artesanato, nos objetos que sobem e descem os ônibus e paus de arara. Já agora se volte para o Crato sem o Museu Vicente Leite. E mesmo para Juazeiro sem igual instituição. Então, as pessoas necessitam de educação artística nas escolas do ensino fundamental, precisam de acervos com os quais possam interagir, é preciso que se façam exposições, manifestações para que se forme um público compreensivo.

Bruno vou provocá-lo. Levá-lo a um constrangimento. O que você pensa de certas manifestações estéticas que visavam “escandalizar” a burguesia de salão e os preconceitos da pequena burguesia? Por exemplo, como você considera os desconfortos provocados por Marcel Duchamp?
O fio da navalha em que tais manifestações se encontram. Primeiro o fio que data as manifestações, após o qual já é uma arte datada, localizada num passado, sem força, apenas referência. O segundo fio é o do espaço da manifestação, não é aquele de pequenos grupos, dependem de grandes públicos como Bienais e animam o tédio destas programações que se repetem apenas para cumprir calendário. Talvez eu tenha problema de compreender esta arte de instalações. Quem sabe um dia compreenda e até possa me encontrar nela. Mas apenas um último pensamento: como é feito para aluir os valores arraigados de uma classe social, considere, inclusive a possibilidade de apenas ser um blefe.

Bruno e como você classificaria o artista de vanguarda e o de instalação?
O artista de instalações tem seu papel, pois se vive cada vez mais nos espaços urbanos e eles são vivos, mutantes, precisam expressar aquilo que cada geração, cada ciclo da história dizem. Já o artista de vanguarda é mais um fenômeno histórico, limitado pela história. Não existe sempre uma vanguarda revolucionária. Existem períodos mais estáveis no mundo em que a natureza da criação é mais longa, pois, é maior e mais vasta, aquela estética que representa tal período da história. Vanguarda é apenas tática de guerra.
E você? Como foi teu percurso de formação?

Sou um artista brasileiro, formado na realidade do país e em escola daqui. No começo tive que mergulhar na arte que vinha lá de trás até chegar na minha geração. Começamos pela arte acadêmica, dominando os conceitos e compreendendo tanto a estética como sua evolução histórica. A minha arte inicialmente era figurativa, depois evoluiu para a arte abstrata, um abstracionismo lírico, expressionista, que avança com o domínio dos cânones acadêmicos, até para negá-los.
Quando você diz que não compreende a arte de instalações, quer dizer que não a pratica por certo?
O meu trabalho não é no preenchimento do espaço aberto ou circunscrito. Eu crio no volume, transformo o volume, ele se expressa como a criação de sua transformação. Eu e muitos artistas, a maioria diria, mas não esqueça que a palavra mais arquetípica da minha vida é “Torrões” (a fazenda onde se criou). São estes os objetos oriundos de uma “construção” maior e anterior. Minha arte vai ao antes das coisas como se apresentam no mundo.
Bruno quais seus planos para os próximos anos?

O museu de Lucca vai comemorar sessenta anos como simbologia de idade, quarenta anos da primeira exposição fora do Brasil e 20 anos de residência na Itália com uma série de exposições em museus, com uma série de trabalho dos últimos dois anos. São 100 quadros a óleo de dimensões média e grandes, 25 esculturas e 25 desenhos a pastel seco.
Estas exposições começarão pelo Brasil no museu de arte do Paraná, Curitiba, em agosto de 2011. Depois no Rio de Janeiro entre o Museu Nacional de Belas Artes e o Museu de Arte Moderna de Niterói e seguida vai para o museu de Arte Moderna de São Paulo. Cada amostra terá no mínimo 40 dias e no máximo 60 dias. Saindo do Brasil vai para a Fundação Pablo Atchugarry em Montevideo, depois para a Fundação Borges em Buenos Aires. Depois retorna para a Europa, entrando pela Holanda em Haia, em seguida Bélgica, Paris, Lisboa e Lucca.
Acompanhando as mostras irá um livro dos quarenta anos do trabalho, em quatro línguas, distribuição na Europa e EUA, editado pela Editora Campanoto.


Bruno e quando o artística larga o cinzel e o pincel e pega novamente a vara de pescar no Riacho da Barra?


Nunca. A criação artística não é um trabalho, é uma necessidade espiritual. Como o espírito nunca morre, por sob o cinzel e o pincel, corre o Riacho da Barra.


Transferência - Por Liduina Vilar.

"...NA VERDADE, OS QUE SÃO CAPAZES DE AMAR PASSAM AVIDA NUM IMENSO LABIRINTO, EM QUE OS AMORES MAIORES E MENORES, PRESENTES OU PASSADOS,ATUAIS E POSSÍVEIS ( OU JUSTAMENTE IMPOSSÍVEIS ) SE DESDOBRAM INFINITAMENTE. ASSIM, NÃO RARO, MUITOS AMORES (OU ÓDIOS) SÃO DESLOCADOS PARA NOVAS PESSOAS, QUE PASSAM A SER VISTAS COMO PERSONAGENS DE HISTÓRIAS ANTERIORES" FREUD.Transferência é um fenômeno oriundo das relaçoes psicanalíticas ou psicoterapêuticas, onde se observa que o inconsciente do analisante projeta no psicanalista ou psicólogo seus pensamentos, sentimentos, fantasias, demandas de amor, e também conteúdos negativos de raiva e de ódio. A tranferência acontece principalmente porque uma pessoa, ao estar sofrendo e procura ajuda, supõe-se que a pessoa que a atende sabe tudo sobre seu sofrimento, sobre o que se passa na sua mente e até mesmo vai dar um conselho que porá fim à sua angústia. É como se a pessoa que está escutando tivesse o que falta a quem está sendo escutado (relação simbiótica). Então, para falarmos de transferência, teremos que falar do conceito de falta, esta falta estrutural a todo ser humano. Apesar de ser um fenômeno básico nas relações psicanalíticas ou psicoterapêuticas, estudos posteriores constataram que a transferência, todavia, não é um fenômeno observável apenas entre o paciente e o analista, mas também entre paciente e médico, aluno e professor, entre amigos, ou seja, em toda relação de ajuda.

A DOR MORAL DA CRUZ DE VERDADE - DIALOGANDO COM DEUS!



Um dia em meu quarto solitário e triste roguei ao Senhor Deus:

Ó Senhor sinto-me cansado de lutar contra minhas próprias criações! Dai-me senhor a clareza de Espírito para resolver todos os problemas que me afligem. A dor moral é imensa. As vezes tenho vontade de recuar. Em outras vezes sinto necessidade de ir até o final para que se cumpra a justiça. Senhor rogo a Ti para me dar forças e inspirações do caminho que devo seguir. Cansado eu estou, mas com Sua fé sinto-me novamente renovado e fortalecido. Senhor, guia-me para não errar no mundo das suas leis Divinas. Por favor, mostra-me a verdade. Por que Senhor, o mundo não quer deixar de acumular? Não quer dividir a terra. Não quer repartir o pão. E esconde a verdadeira e boa mão. Quando se doa é para depois cobrar o lucro contabilizado pela segunda imperfeita mão. Poucos conseguem dar de coração. A maioria prefere a lógica da "caridade" do lucro da razão. Senhor, guia-me para que eu não precise ficar doente pelo contato nessa relação. Senhor, livra-me da queda. Prefiro a perda de todos os bens materiais do que cair do lugar existencial de SUA consciência. Dai-me a SUA Paz na compreensão dos meus erros e dos meus acertos. Dai-me o equilíbrio no discernimento da SUA Ação em mim. Dai-me a luz da SUA sabedoria. Dai-me a verdade da SUA visão.

Então uma doce voz interior me disse com paciência:

_ Ó criatura vejo que sentes muita dor. Mas, também sei que tu tens que continuar a caminhar. A cruz está pesada. O sangue escorre pelos seus vários cantos do corpo. A dor moral é imensa. Ainda resta muito que caminhar. A estrada de sacrifícios é longa. Seus olhos estão banhados de suor da testa. Suas mãos estão banhadas de sangue das feridas existenciais. Estais cansado, mas nem por isso podes deixar de cumprir a Minha vontade. Os indivíduos inimigos te olham com um olhar de condenação. Aqueles que te traíram estão satisfeitos pelo dinheiro recebido e pela oferta aos cães humanos. Seus pés pisam descalços pedras duras pontiagudas. Ó criatura a sua dor não é assim tão maior que a Minha fé, por isso ainda não sucumbirá a tentação da queda, da queixa e da reclamação! Seus ombros sentem o peso insuportável dessa cruz de verdade. Seu coração reclama o sangue perdido na perfuração das lanças inimigas. Seus pulmões pedem o ar da sua pouca respiração. A cruz de verdade é pesada. Ela foi feita com madeira-de-verdade para que cada um carregue na estrada da vida de sacrifícios das inverdades desse mundo. Ninguém pode deixar de carregar a sua própria cruz de verdade. A coragem de caminhar tem que ser superior ao medo da morte e da incompreensão. A cruz não pode cair. E nem escorregar de suas mãos. E muito menos passada para o outro ao lado que sente compaixão. A cruz precisa ser conduzida com fé e muita devoção. Essa cruz de verdade é o lugar onde todos os pecados serão sacrificados e assim a humanidade será redimida de suas fraquezas. A humanidade das preocupações, das expectativas, das incertezas, das criações ilusórias, das fantasias imaginárias, das hipocrisias, das injustiças, etc. Ó criatura aceite esse desafio de viver e de morrer por uma verdade maior! No último dia-existencial preso a essa cruz verás a Minha glória. A dor se transformará em Bem-aventurança. O caminho deixará de se grudar aos seus pés. O peso da verdade deixará o seu ombro. E assim livre da cruz e do caminho da inverdade poderás dizer: eu sou a raiz, eu sou a árvore, eu sou a madeira, eu sou o sol, eu sou a cruz,
EU SOU LUZ, EU SOU EU, EU SOU FILHO DE DEUS!


Bernardo Melgaço da Silva
Prof. e Pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre Ciência, Espiritualidade e Filosofia – NECEF/URCA

Pensamento para o Dia 30/05/2010


“As pessoas atualmente se tornaram mais violentas e cruéis que nunca. Elas utilizam a sua inteligência e habilidades para se entregarem à crueldade. As pessoas apreciam e deleitam-se em infligir dor aos outros de um modo tão amplo que a história revela que aproximadamente 15 mil guerras foram travadas nos últimos 5.500 anos. A guerra atômica iminente ameaça destruir toda a raça humana. Qual é exatamente a causa de toda essa ansiedade e medo? É claro que a fera no ser humano ainda é predominante e ainda não foi superada. Só quando isso for alcançado o nosso país pode alcançar a paz e contentamento.”
Sathya Sai Baba

A Oca e A revista virtual CaririCult, ,na CELEBRAÇÃO DO ENCANTAMENTO, CONCEDEM HONRA AO MÉRITO ARTÍSTICO E CULTURAL AO BLOGUE CARIRICATURAS !

Foi uma noite especial para todos : presentes e ausentes. Reencontrei o mesmo clima dos antigos salões de Outubro , tão festejados na década de 80. Maravilhosa a parceria OCA X CaririCult, representados pelas figuras sintonizadas com a nossa cultura de Luiz Carlos Salatiel e Carlos Rafael. Muitos foram os chamados- Todos os escolhidos !
Senti-me honrada com o reconhecimento do nosso Blogue, e repasso o mérito aos nossos colaboradores e leitores !
Representei os fundadores : Salatiel, Claude, Edilma, Carlos Rafael e José do Vale Feitosa , e guardei por todos, o Diploma , carinhosamente entregue, e encantadamente acolhido !
ESTÍMULO AO NOSSO INVESTIMENTO CULTURAL, PRA QUE A GENTE SE CONGREGUE E SE RENOVE,SEMPRE !
Estranho silêncio de agora
- Claude Bloc -






Amanhece ....
Sinto o cheiro da terra orvalhada
inundando-me
saboreando a manhã que chega.
Não sei se estou feliz ou triste
sei apenas
que sobrevivi...


Quando a noite chega
o sol desmaia
a luz desmaia
e já não sei mais o que ri em mim
ou o que chora,
na calada da noite
no último badalar do dia
no amargo (in)finito desta hora
no estranho silêncio de agora...

Claude Bloc

Noite de lua cheia - por Heládio Teles Duarte


Aproveitem a fonte inspiradora ... !

sábado, 29 de maio de 2010

O CHÃO DA GALINHA OU O CÉU DA ÁGUIA: CADA UM DECIDE O QUE SABER-FAZER-TRANSCENDER EM SI MESMO!


IMAGEM RECEBIDA PELA INTERNET - A GALÁXIA DO CHAPÉU, OU A M 104. FICA À DISTÂNCIA DE UNS 28 MILHÔES DE ANOS-LUZ

Creio que no mundo em que vivemos onde as exigências da vida material nos obriga fixarmos nossas atenções e focarmos nossas energias na construção de um mundo cada vez mais individualista e materialista, nos sobra muito pouco tempo para refletirmos sobre o caminho que estamos realizando de fato. Faz-se necessário, portanto, dedicarmos algum tempo, ou seja, energia e atenção concentrada para outros caminhos alternativos possíveis no sentido de provocarmos uma mudança radical (um novo paradigma) e profunda em nossas convicções e produções de valores humanos.

Já faz alguns anos que o teólogo Leonardo Boff lançou um livro A ÁGUIA E A GALINHA onde procurou mostrar a vida limitada e condicionada que a maioria de nós acredita e segue sem perceber as possibilidades de um poder latente e transcendente no seu interior. Segundo esse autor, podemos viver ciscando e jogando terra para trás (que acaba atingindo os olhos do outro irmão – resultado: confusão!) - limitados e presos ao chão da sobrevivência-razão (o modo de ser GALINHA – segundo Boff) ou se libertar desse chão voando na imensidão da existência em direção ao sol da vida-amor pleno e infinito (o modo de ser ÁGUIA - idem).

A decisão de escolha é de cada um. Ninguém muda e conquista nada se sua maneira de ver o mundo e a si mesmo também não sofrerem uma transformação ontológica radical POSITIVA. Mas, para que isso ocorra de fato, o primeiro passo terá que ser dado saindo da inércia e do comodismo psíquico de acreditar que não existe mais nada a se descobrir ou revelar em si mesmo.

Faz-se necessário, romper com a gravidade e o condicionamento energético racional-instintivo que nos força a vivermos como GALINHAS ciscando e pulando de um lado para o outro na luta pela necessidade da sobrevivência de contínuas conquistas unilaterais materiais efêmeras. A transformação de identidade positiva transcendental (de GALINHA para ÁGUIA) não acontece por acaso, mas porque decidimos com vontade realizar a façanha mais espetacular de todos os tempos que é a autosuperação, ou seja, a superação da identidade de si mesmo: quem sou eu de fato? Águia ou galinha?

Ao animal foi dada a condição de viver preso ao seu instinto (no chão), mas ao homem foi “dado” a oportunidade de usar o seu poder interior para transcender (no “céu”) tanto a sua instintividade (animal) quanto a sua racionalidade (humana). Esse poder é um saber e uma perene filosofia e ciência holística. E sem esse saber maior o homem vive preso a sua condição que é a produção ou replicação de conhecimento inferior, até que movido pelo impulso da força forte interior do Espírito ele se supere para poder-saber-viver uma nova e inédita vida de realização cósmica superior universal. Em outras palavras, não existe conquista maior sem o mérito da persistência na disciplina interior de saber-fazer-transcender (ou saber-agir de forma ascética – práxis) que os hindus denominam de SADHANA. Jesus Cristo foi um mestre dessa ciência maior espiritual. Sai Baba atualmente, na índia, segue essa mesma corrente de sabedoria interior, universal e perene.

Bernardo Melgaço da Silva
Prof. e Pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre Ciência, Espiritualidade e Filosofia – NECEF/URCA
"O Zé do Vale tem uma propriedade fantástica que o diferencia dos demais pugilistas do mercado. Ele consegue dar um soco nas pessoas, com uma bala de canhão revestida com uma camada de espuma, para que não deixe marcas no corpo do adversário morto." – Dihelson brincando com meu estilo nos blogs do Cariri


“Todos os homens são mortais” um problema existencial sem solução no romance de Simone Beauvoir. A imortalidade de apenas um quando todos os outros morrem. Sem que o imortal pudesse completar o ciclo de cada geração. Sem os seres que amam: vindo e indo, nenhuma possibilidade de viver como eles, por eles e igual a eles. A imortalidade é o supremo tédio de uma estrela morta, de um buraco negro da astrofísica.

Mesmo que espuma usasse nas balas de canhões, a solidão a que os mortos me levariam, seria um horror maior do que nunca ter vivido. Nascido bem pertinho do leito do Rio Batateira, lambuzado o bucho de garapa e ter sofrido todos os óleos de rícino com os quais as lombrigas retornavam ao solo de onde seus ovos me contaminaram. Não poderia ter as cicatrizes das pedras de baladeira que alguns, só por puro desafio, me criaram.

Jamais ter visto os olhares que derretiam a cratera do meu vulcão interior. Olhares tão intensos e dissimulados, na Praça Siqueira Campos. Elas se recolhiam à proteção de seus pais e eu secava todo o magma da força do amor, sem interrupção de dias e noites, frio e calor, chuvas e guarda-chuvas.

Oh! Meus queridos leitores destas plagas dos Cariris, não quero a morte, não quero a solidão, quero a vida até daquele de mais duvidoso comportamento. Sei que mesmo que assim imagine, resta para ele a dúvida sobre a qualidade da minha classificação, que bem pode estar errada. Eu não sou nada sem que estejam brotando e pulsando cada minuto da vida como desejam a vida para si.

Se vivesse para tocar fogo no rastilho do canhão, iria desejar que a fundição nunca houvesse existido ou que em breve se findasse. Gostaria que nunca tivessem misturado o salitre, com o enxofre e o carvão. Não se pode querer vida sem derrubar os obstáculos a ela.

Quero a vida de todos. E entre todos gostaria de me encontrar. Até quando vida não houver, apenas memória dos filhos e netos. Pois se a quero para mim, não posso ficar calado, paralisar as vibrações de minhas cordas vocais, dizer, mesmo que flechas pareçam, aquilo que vejo e revelo. Apenas revelo por desvelo.
A roda da memória
- Claude Bloc -


Imaginei-me de frente para a porta de saída de minha casa, na Irineu Pinheiro. Fechei os olhos. Da porta onde eu me encontrava naquele momento, já podia ouvir os gritos animados das outras crianças lá fora. Elas pareciam vibrantes.

Aos poucos fui chegando perto até juntar-me ao grupo. Minha chegada deixou toda aquela meninada empolgada. Afinal, eu seria mais uma para alegrar a brincadeira. Todos fizemos um círculo e apontamos os dedos para o centro. Nas mãos só tinha zero ou um. Estávamos decidindo quem ia contar para que os outros pudessem se esconder. A brincadeira pegava fogo. Era gente escondida pra todo lado. Enjoados de brincar de esconde-esconde, optávamos por uma brincadeira mais animada. Pega-pega, lembra? Era uma gritaria só. Meninos correndo atrás de outros tentando tocá-los para fazer “o pega” ser o outro. E assim, continuavam as infinitas brincadeiras. A meninada parecia nunca cansar. Bastava enjoar de alguma coisa, com um tempinho a brincadeira mudava.

Engraçado relembrar essas coisinhas, depois de tanto tempo, sobretudo de como a nossa turminha se envolvia nessas brincadeiras que enchiam a rua e as nossas casas de euforia e alegria. As principais brincadeiras eram: peteca, macaca (amarelinha), mata (queima), pular corda, pique, passa-anel, arraia (pipa), triângulo, bila ou búria, elástico, pião, bilro, boneca, bola, carrinhos de rolimã... tantas! Ou simplesmente subir nas árvores frutíferas para “roubar” a fruta no pé.
Quem não se lembra, de uma forma ou de outra, quando a turma toda se encontrava depois da escola para brincar na rua ou numa praça perto de casa? Aos poucos, porém, essas brincadeiras deliciosas foram sendo esquecidas pela meninada. Com a modificação da sociedade, esses espaços em que nos deleitávamos desapareceram e as crianças passaram a ficar, mais com os brinquedos do que com os amigos. Atualmente muitos de nós vivemos em prédios e nossos filhos ou netos não têm a mesma infância que tivemos. Mesmo tentando amenizar um pouco, sabemos que brincar na calçada da nossa rua, nem pensar - infelizmente não dá.

Sei que os tempos são outros. O computador agora também faz parte dessa brincadeira, assim como a televisão, o mp3, 4, etc. É como se o tempo presente tivesse se esquecido da infância. Hoje menino não corre, não sobe em árvore, não respira ar puro. As escolas são quase mini-presídios, com exíguas salas de aula, recreios limitadíssimos, sem árvores nem espaço para brincar. Mas não podemos mudar o tempo nem as coisas. Eu, por exemplo, ainda sou capaz de me lembrar dos sons das vozes da minha turma na hora das nossas brincadeiras. E você? Do que se lembra?

Convido a todos a entrar na roda da memória: que brincadeiras animaram sua infância?


Claude Bloc

Síntese

Vejo um hematoma invisível
no meio da minha testa.

Sinal sagrado
da santa loucura.

Houve tempos mais estranhos:
beija-flor pela casa,
paredes rabiscadas
por Picasso.

O majestoso inferno da poesia
é um tesouro de pouco valor.

O mundo vive sem seu brilho.
Os entes sobrenaturais indiferentes.

Os versos importantes
apenas para quem os escreve.

A baba escorre da boca entreaberta.
A alma dá pulinhos um adolescente.

Às vezes um espírito penado
derrama uma lágrima
sente-se enamorado.

Mas é raro.

Normalmente quem lê
deixa claro a perda de tempo.

Lê o poema confessando a si mesmo:
"não sou tolo, não sou tolo, não sou tolo..."

Ou quando se arrebata
é tão rápido o êxtase
quanto o gozo
de um coelho.

Medo.

Pavor de ser tragado
pelo sombrio pântano.

De fato causa pânico
um matagal do qual
escapa juntamente
tigre,
serpente,
borboletas.

Se eu não escrevesse versos
certamente seria um covarde.

Escrevo, e apesar da escrita,
sou um covarde.

Imagino aquele que se sustenta
sonhando com suas estrofes
dentro da gaveta.

A temer o abismo.
Tentando de todas as formas
regular o juízo um tanto capenga.

Este hematoma no meio da testa
lembro-me quando surgiu.

Do nada.
Do Vazio.

A partir desse tombo
enlouqueci de vez.
Chocolate
- Claude Bloc -

Entrei na bodega de Seu Pedro Praieira e alguns minutos depois de pagar pelo “Diamante Negro”, fiquei esperando Gracinha terminar suas compras. Eu recebia por semana uns trocados para ir ao cinema, no Moderno ou no Cassino (e esporadicamente na Educadora). Com o troco comprava uma caixinha de Chicletes Adams ou uns dois ou três Pippers, para me entreter durante o filme. Pipocas também eram bem vindas. Mas... no domingo em que não íamos ao cinema, sobravam uns trocadinhos para uma barra de chocolate, meu pecado venial...

Hoje pude comprovar, talvez por isso, que aquele chocolate tinha gosto de infância realmente! Atualmente, mesmo com o paladar mais exigente, ainda fecho os olhos antes de saborear uma barrinha dessas e, nesse momento, me sinto voar para o Crato, para as minhas travessias pela Irineu Pinheiro, sempre meio a galope, indo aqui e ali, trocar um dedo de prosa ou buscar alguma brincadeira junto com a turma do bairro.

Mas, afinal, o que é o “gosto de infância”? Talvez uma mistura de inocência, despreocupação e alegria. Era isso que éramos: ingênuos, alegres, barulhentos e acalorados, sobretudo nas horas em que brincávamos das mais diversas brincadeiras de que dispúnhamos na época.

Ao morder aquele pequeno pedaço de chocolate, aquele que peguei na minha bolsa há segundos atrás, relembrei alguns desses momentos e senti vontade de terminar de comê-lo assistindo a algum filme com Graça, Glória, Judite, Simone, Fátima, Rita, Dominique, Iza... numa interminável apresentação de cinema, e depois, no tempo exato em que o passeio culminava na Praça Siqueira Campos. Como era uma barra generosa, deixei para comer o restante depois. Mas, nesse momento, simplesmente flutuei pelo éter das lembranças e divaguei febrilmente. Faltava-me apenas um laço nos cabelos, pés descalços e um vestido rodado para eu voltar a ser criança.

Cada mastigada era uma lembrança que me levava a uma dessas memórias mais calmas de que me recordava no momento. Os dias de calor em que eu voltava correndo do Pio X e tomava um enorme copo d’água olhando pela janela. Quando observava, extasiada, aquelas nuvens que dançavam em sincronia com as palhas das macaubeiras das redondezas que jaziam, na sua maioria, espalhadas pelo terreno do Teodorico Teles de Quental .

Lembrava também das tardes em que minhas amigas e eu brincávamos pela rua. E das muitas vezes em que íamos ao Granjeiro para nos refrescarmos na piscina. Nesse tempo, éramos meros/as aprendizes da vida, eu sei. Mas esse processo nos transformou no que somos hoje, delineou nossa caminhada e consolidou amizades eternas.

Numa dessas vezes, cheguei em casa com minha barrinha de Diamante Negro e olhando para os olhinhos pidões de Bertrand, dei o último pedaço do meu chocolate ao meu irmão, repetindo uma frase que tinha ouvido de uma amiga. Ele me olhou com estranheza, mas na primeira mordida, compreendeu o “gosto de infância” naquele pedacinho da barra de chocolate.

Claude Bloc

Dennis Hoper


Dennis Lee Hopper (Dodge City, 17 de maio de 1936 - Venice, 29 de maio de 2010) foi um ator e cineasta norte-americano.

Ficou famoso mundialmente ao dirigir e estrelar ao lado de Peter Fonda o filme Sem Destino (1969). Como ator, ele apareceu pela primeira vez no western Johnny Guitar, de 1954.

Em 2010, foi revelado que Dennis Hopper sofria de câncer da próstata em estágio terminal. A doença tornou-se irreversível e o ator faleceu em 29 de maio do mesmo ano.

wikipédia

ESTRELAS E LUARES - Por Xico Bizerra

Ficava na parte alta da cidade e tinha nome de mulher: Cristina’s, assim mesmo, com apóstrofo e tudo. Lugar chique, o jantar era servido à sombra do céu e com a mesa salpicada de luares. Isto é o que me disseram, lá nunca fui. Até que passei pertinho, certa noite, e vi o neon anunciando a casa, mas não entrei; nem podia, era apenas um estudante e só em sonho poderia entrar ali. Soube, tempos depois, que o restaurante fechou: o proprietário vendia ilusão e ilusões. À chegada da Polícia, escondiam-se sob as mesas algumas estrelas brancas e um raio prateado de luar. Os lustres estavam apagados e as toalhas sujas de lagosta. Chovia.
Por Xico Bizerra

Ainda sem destino - Emerson Monteiro

Neste sábado, 29 de maio de 2010, circulou pelos jornais a notícia da morte do ator norte-americano Dennis Hopper, diretor e coadjuvante de Peter Fonda e Jack Nicholson, no filme Sem destino (Easy rider), película que marcou os anos 60 e sua geração perdida.
Esse clássico enfoca, sem meias tintas, o drama daqueles finais de século, numa fusão sintomática de drogas, sexo e ânsias existenciais da juventude, busca desesperada de encontrar o promo do crescimento tecnológico impaciente e recheado de fascismo opressor, frieza inútil da macroestrutura capitalista materialista, institucional, avassaladora.
Ao lado deste, um outro filme, o inglês Depois daquele beijo (Blow-up), do diretor Michelangelo Antonioni, também refletiria com vigor o quadro sem saída que se desenhava no horizonte das eras e previa nuvens de impossibilidades reais da política, no futuro das próximas décadas mundiais.
Eram tempos de profundas divisões de águas, auge do movimento contestatório dos hippies, quando jovens de todas as classes sociais do mundo se espalhariam, a circular feitos formigas atônitas, catando possibilidades apenas imaginárias, a fim de tranquilizar a consciência das intuições que prenunciavam geopolítica infame a subjugar o âmbito das pessoas humanas.
No roteiro de Sem destino, dois fiéis representantes da contracultura viajam de motocicleta entre as cidades americanas de Los Angeles e Nova Orleans, cruzando impávidas o território estadunidense.
No longo itinerário, sentem de perto a liberdade do espírito aventureiro a lhes sacudir os longos cabelos, pelas estradas desertas, imprevisíveis, expostos e submissos às circunstâncias do acaso desafiador, porém confrontam os habitantes reacionários das povoações interioranas por demais preconceituosos.
Campo aberto para avaliações do tempo histórico totalitário da época, o filme apresenta com sucesso as marcas frias da mentalidade que dominaria logo mais os quadros planetárias posteriores à Guerra do Vietnam e, um pouco adiante, à queda do Muro de Berlim, portas atuais de outros absurdos totalitários.
Em rápido apanhado de verdadeiro profeta, ao término da narração, Dennis Hopper chocaria seus contemporâneos, que aguardavam final menos infeliz, com a explosão amarga da destruição dos dois personagens, cena de uma tocha de fogo produzida pelo disparo das armas dos seus perseguidores. Algo equivalente à incapacidade reconhecida de mudar o sistema plenipotenciário em que se reverteu o sonho das realizações ilusórias deste chão que foge ao contato dos nossos pés.
Hopper tinha 74 anos e morreu por volta das 8h15 deste dia, cercado por familiares e amigos, disse o seu amigo Alex Hitz.

Mulheres x Canções - por Socorro Moreira


A nossa essência é um poema...
O caminho para atingi-la é uma fábula!
Temos na mistura feminina
o ingrediente de todas as manhas e dons:


A pureza de Maria;
O olhar de Dulcinéia;
A graça de Isadora;
e, principalmente...
Os mistérios de Clarissa!
Teresa é muito dividida;
Marina só pensa em passar batom;
Januária ganha o mundo na janela;
Carolina não tira o cisco,
que a deixa triste;
Luiza é uma fotografia,
num prisma de sete cores;
A Rita leva o sorriso do povo,
e deixa um violão calado ;
Isaura tem que deixar o outro trabalhar,
afrouxar o laço do abraço;
Doralice já encontrou uma saída,
e deixou de achar que o amor é tolice?
Luciana , e o casaco marrom já poído,
das andanças, em busca da alegria;
Dora precisa entregar a faixa
de rainha do frevo...
Ainda requebra melhor do
que muitas?
Laura , e o sorriso ameninado ,
a flor que não murcha...
Laura, cadê seu amor?
Rosa , imagem de mulher
por Deus esculturada...
Irene, aquela louca ,
que vive no prozac!
E Beatriz?
Por ela,
alguns vivem por um triz !

manhã de sábado

O negócio agora é baixar a cabeça
e caminhar.

Sem olhar para trás.
Sem olhar para frente.

Chutar pedras
gravetos
tampinhas de refrigerante.

Esquecer teu aparelho dos dentes.
Os teus óculos lilases.

Somente uma vez por mês
o célebre porre homérico.

No teu dia.

Enquanto vertes sangue.
Bebo vinho.

O negócio agora é não se deixar morrer
iludido pelos pensamentos.

Dizem que são apenas névoas.
Mas cegam, meu velho.

Preciso abrir logo o olho.
Meter os pés no tênis sujo.

Nem lavar rosto.
Nem beber cafezinho quente.

Escapar do quarto.
Fugir da masmorra.

Até Voltaire se entristece
com tanto silêncio.

O negócio agora é levantar a cabeça
e bater asas.

Não olhar para o teto.
Não cortejar o passado.

Dizem que é apenas vento.
Mas vem junto o cisco.

A lágrima presa é outra estória.
Noutro dia conto.

Vejo da janela um lindo jardim
com pula-pula e carrossel.

Quem sabe não encontro por lá
uma fada esperta ou uma babá
que me abrace e me console
oxalá queira trocar
minha fralda geriátrica.

As formiguinhas do vaso sanitário
sabem que a minha urina é doce.

Portanto venham, oh, minhas fadas
oh, babás do condomínio
peguem pelo braço este poeta
e lhe deem o que beber.

Bateu sede.
Serve um peitinho.

Sem drama angelical.
Sem neurose puritana.

Ultimamente o poeta sofre
espantalho sob noite fria.

Tremem os ossos.
Acorda o coração moído.

O negócio agora é levantar-se.
Cortar as unhas.
Fazer a barba.

A cafeteira me espera.
Ouço seus espasmos.
Ofegantes sussurros.

Amada cafeteira
nunca deixa

o poeta desvalido.

olhos de mel

Até que ponto acreditar
nos meus arroubos.

Se te envolvo em minha lábia
e durmo contigo de novo

que será da realidade
no amassado dos travesseiros?

Eu que nunca te convidei pra jantar fora.
Nunca te ofereci um sorvete.

Vem então essa onda de saudade.
De sujeito cretino.

Faço força no olho direito
para que desça uma lágrima.

Se te conquisto novamente
e acordo contigo

pensaste na inquietude
passado o sonho?

Os travesseiros jogados fora.
Queimados na calçada.

Pensamento para o Dia 29/05/2010


Pensamento para o Dia 29/05/2010
“Para o fogo aumentar ou diminuir, o combustível é a única causa. Quanto mais combustível, mais brilhante será a luminosidade. O fogo tem o poder de produzir luz por sua própria natureza. Do mesmo modo, no fogo do intelecto do aspirante espiritual, o combustível que produz renúncia, tranquilidade, verdade, bondade, paciência e serviço altruísta tem que ser constantemente alimentado de modo que a luz da sabedoria seja produzida. Quanto mais "combustível" for colocado, mais eficaz e refulgente os praticantes espirituais se tornarão. Apenas as árvores que crescem em solo fértil podem render uma boa colheita. As árvores que crescem em solos salinos terão apenas um rendimento ruim. Assim também, é só nos corações que são imaculados que sentimentos santos, poder divino e dádivas brilham em esplendor.”
Sathya Sai Baba

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“Por razões políticas ou outras, algumas pessoas são presas e mantidas em detenção a fim de preservar a lei e a ordem do país. Elas são mantidas confinadas em grandes bangalôs e recebem um tratamento especial por ser próprio de seu status e são fornecidas refeições, bem como artigos de luxo compatíveis com sua classe de vida social e política. No entanto, em torno do bangalô e no jardim, sempre haverá policiais de guarda. Qualquer que seja o padrão de vida desfrutado pelo prisioneiro, ele não é um homem livre. Assim também, uma pessoa confinada na ‘prisão’ do mundo não deve se sentir eufórica sobre o conforto sensual de que pode desfrutar. Ela não deve se sentir orgulhosa por seus amigos e parentes ao redor, mas deve reconhecer e ter em mente que está na prisão.”
Sathya Sai Baba

Hoje é o dia D !


Eduardo Lara Resende

Sonhos

Pesquisa recente, realizada na Grã-Bretanha, revela que os jovens se consideram mais solitários do que adultos com idade superior a 55 anos. Ainda não há razões claras para explicar esse resultado, mas segundo a Mental Health Foundation, entidade que encomendou o levantamento, o declínio na vida comunitária e o foco cada vez maior no trabalho possivelmente sejam causas do problema.

Realizada em 1934 em Belo Horizonte, outra pesquisa – esta envolvendo cerca de 1.400 crianças que cursavam o então 4º ano primário nos Grupos Escolares daquela capital (pesquisa, aliás, já comentada neste espaço) – ao invés de solidões, revelaria pais e professores como modelos para grande número dos pesquisados. Sobre sonhos de futuro, eles se tornariam realidade desde que o sonhador se transformasse em piloto, médico, engenheiro, padre ou em advogado. Embora livros ocupassem o primeiro lugar na preferência dos jovens na hora de ganhar um presente, somente dois deles alimentariam o sonho de se tornarem escritores. Dentre outros, dois queriam ser jornalistas, um deputado, um ministro e um queria ser rei.

Do sonho simples de conhecer o mar, ao desejo humano e geral de ser feliz, todos temos à nossa frente sonhos que, ao lado da fé, nos põem a caminho. Em agosto de 1992, quando o Equador atravessava longo período de dificuldades políticas e econômicas, os muros da cidade de Quito amanheceram pichados com a frase anônima “a noite avança, mas os sonhos não”. Passados tantos anos, sua essência permanece atual para uma época em que pequenos-grandes sonhos se tornam diáfanos, tênues, desfazendo-se ao toque de uma realidade marcada por valores que lançam mão dos ideais da maioria, para a realização dos sonhos de poucos.

Há muito se sabe o que sonhos podem render, assim como onde podem levar quem os manipule com a destreza de um arrombador de fechaduras. Mais que ajudar a vender de tudo, sonhos são importantes para a conquista do poder. Convenientemente plantados, cevados e colhidos, a mesma sórdida crueldade que os induz, surrupia do sonhador as esperanças. E trata de realizar desejos de quem não reconhece nem dignidade, nem necessidades na pobreza dos que sonham um futuro honesto e simples.

A solidão – que para o romancista francês Henri de Régnier só é possível na juventude, época em que temos pela frente os sonhos – pode se tornar irremediavelmente amarga quando a capacidade de sonhar se esgota. A Arte não existiria se não fossem os sonhos – combustível também para as conquistas da Humanidade. E se ainda hoje insistimos em buscar explicações para o Universo, em explorar o Tempo e em conhecer os primeiros capítulos de nossa História, então é porque ainda mantemos viva a capacidade de sonhar.

Proust aconselha a que conheçamos bem nossos sonhos para que não soframos mais com eles. Por seu lado, é a partir de “vestígios de algum sonho dobrado em versos” que nossa escritora e blogueira Claude Bloc descreve o nascimento de um poema. Daí em diante, segundo ela, “o poema vai crescendo, rindo à toa, e o sonho afiado vai se perdendo nos descaminhos da imagem refletida na transparência dos sentimentos”.

Eis aí. Para o escritor Albert Béguin, é a solidão da poesia e do sonho que nos tira de nossa desoladora solidão. E se, no dizer de Bloc, os sonhos podem desaguar em poemas, bem orientados poderíamos – por que não? – voltar a tê-los como estímulo a um futuro melhor.

Para Ana Cecília - Com carinho e amizade

Aniversario


Pai e mãe hoje festejam
Essa criança em você.
A criança se acha grande,
quer fazer tudo o que gosta,
que em sua idade ninguém faz.

Deixa a infância em silêncio
em sossego, esse amor
deixa quieta a saudade
Ora! hoje é seu dia,
Hoje!

Cadê a infância?
Cadê a criança?
Que dormia e sorria em paz?
A criança de outros tempos
Que outras crianças apraz...
Aquela criança tranqüila
Aquela menina feliz
Que tanta lembrança nos traz...


Mas hoje é dia de festa
Dessa criança em você
Todos hoje celebramos:
Parabéns, parabéns
Abraços de bem querer.

(por Claude Bloc)

Ana Cecília o Cariricaturas abraça você.

A poesia de Ana Cecília S.Bastos





AZUL E DORES


É maio.
E faltam-me
pára-raios.



AZUL E AMORES

É maio.
Nada é mais importante que o puro azul de seus dias.

Quem lavou os dias
dos dias de maio?
Qual laboratório revelou a pura
cor do tempo?

Publicado em Uma Vaga Lembrança do Tempo.
Foto de MVítor.

Um poema de Everardo Norões

Poema VII


Restos de falas na mesa

e a náusea matinal.

O bule, a xícara, os copos.

A mão, submersa no sal,



da tarde, na planície,

tão clara, dessa mesa,

onde deslizam os repastos

da habitual tristeza



que cobre a toalha branca

de rendas. E essa fome,

bordada sobre a mesa

como as iniciais de um nome.



O jarro com flores e

as cinzas do outro dia,

fugindo aos arabescos

das rendas, tão frias,



como as coisas distantes

que nos aguardam à mesa:

o leite, o bule, o café,

o sono, a morte, a incerteza.


Em: Poemas. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1999. Prêmio Eugênio Coimbra (Conselho Municipal de Cultura), categoria Poesia, 1998.

Ana Cecília, hoje a festa é sua ! Com os desejos de felicidades e o abraço do Cariricaturas !

Feliz aniversário , poetisa e querida amiga !