Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um nonsense de senso - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando eu vi o meu amor,
Estava raspando mandioca,
Minha mãe lavando roupa
E eu na rodoviária dos pobres.

Estes versos foram escolhidos pela audiência da Rádio Cultura de Paracuru como a melhor poesia da quinzena. Desconhecendo o que você pensa dela, tomei conhecimento da mesma ao gravar um programa que fazemos para outra rádio da cidade e que narra histórias de vida.

O Jair Moreira, mais conhecido por Jair Boi uma vez que o seu programa de música brega na Rádio Cultura era bem condicionado em cálcio para surgir os chifres, foi quem me contou. O concurso era um quadro do seu programa e ele terminou brincando pela escolha de uma poesia que não dizia nada.

E abrimos uma conversa. Será que não? Será que não dizia nada mesmo? O poema fala das condições humanas e suas afetividades em sociedade. O meu amor, como eu é pobre: raspa mandioca para viver. A minha mãe que é de outra geração, também é pobre e lava roupa.

O poema está completo: a rodoviária dos pobres é um ponto de ônibus muito movimentado que fica no bairro de Antonio Bezerra em Fortaleza no qual centenas de pessoas simultaneamente pegam ônibus para as cidades próximas e a oeste da capital.

O que se deduz da rodoviária dos ricos por oposição: pegam o ônibus na rodoviária central, chegam de táxi e mesmo que de ônibus urbano estão na categoria da situação de abundância. Aliás, o poema começa exatamente pelo aparente nonsense dele que é o poeta na rodoviária dos pobres, a partir daí todo o resto faz sentido.

video

Era para ser a música Farinhada mas não encontrei em vídeo e como não sei postar mp3 escolhi esta "Nem se despediu de mim" que me enche de senso nordestino.

Victorio Micheletti, um artista anônimo



Por José Carlos Mendes Brandão





       Admirável a disposição de Pipol para divulgar a arte e, agora, este artista anônimo, Victorio Micheletti, tão anônimo que sua própria sobrinha não sabia dessa sua atividade “secreta”. Acontece que a arte é um fenômeno cultural: não é por sua qualidade, mas pela influência ou aceitação num contexto social que o artista se torna conhecido.
      
Pipol começa por nos mostrar Victorio dando uma lição de como fotografar. Afirma categórico esta verdade basilar: fotografia é luz. Lembra-nos o princípio do fotocentrismo, de como as plantas procuram a luz como se fosse toda a fonte da vida, para em seguida mostrar-nos que a contraluz tem mais profundidade que a luz chapada. Este seria o princípio da fotografia.
      
Depois vemos Victorio visitando a exposição de Henri Cartier-Bresson e apreciando com a ingenuidade e o encanto de uma criança a arte do grande mestre da fotografia, desconhecido para ele. Encantou-se com a arte de Cartier-Bresson, com ingenuidade, e com ingenuidade criticou-o como a um igual.





      
Bonito ver Victorio falar do “erro” de Cartier-Bresson num enquadramento, numa sombra fora de lugar. Pergunta-se o que o autor quereria dizer com isto ou aquilo. Um menino de bicicleta e seu reflexo no espelho d’água, uma tomada genial – mas havia um outro menino cortado, que Victorio diz que faria par com o primeiro, como se condenando essa falha do mestre (que ele não sabia ser um mestre). Em outra foto, deixaria mais espaço à frente. Em outra... Em muitas, a admiração sincera de quem admira por convicção e não por um julgamento preconcebido.
      
Lembro-me, isso faz uns quarenta anos, era o auge do formalismo/estruturalismo, que ditava as regras da arte... Ouvi comentar de artistas portugueses (os portugueses são inteligentíssimos) que “não sabem, mas fazem”. É o caso de Victorio: não encaixa a sua arte num esquema preconcebido. Como se estivesse criando sem saber, ignorante das diretrizes da criação. Já me disseram que eu falo mal dos professores – mas eu sou um professor! – quando o meu problema é a arte presa a trilhos de ferro ou aço, não se podendo criar de outra maneira para ser aceito. O que eu defendo é a arte dos anônimos – que poderiam ser grandes mestres! – como Victorio Micheletti.
      
As últimas imagens do filme levam-nos a pensar em um mestre da fotografia. É a limpidez, a luz e as sombras realçando-a, o enquadramento, a profundidade. Por que Victorio Micheletti era um artista anônimo? Pelo motivo que eu levantei de início: faltou a necessidade cultural de sua fotografia, que ela representasse seu tempo, que ela projetasse seu tempo para o futuro. Faltou um élan social que o projetasse no seu tempo tornando a sua obra necessária.





      
Nem quero advogar um maior reconhecimento para a obra que Victorio Micheletti nos deixou de herança, ao partir agora (7-3-11) deste mundo. O reconhecimento é necessário em vida. As suas fotos têm um peso específico que era preciso ter sido sentido. O mundo fica maior com a obra de um artista. Victorio, o homem da luz, poderia ter-nos iluminado mais.
      
Por fim um voto de louvor a Pipol, por seu trabalho de divulgação da arte que nem todos veem. Pipol começou o seu trabalho com a câmera aqui em Bauru, lá pela década de 80, filmando as andanças de um monstro de metal pelo centro da cidade ou a sua indefectível lambreta capenga atrapalhando o pouco trânsito da época. Era a arte gratuita, por ela mesma, como deve ser. Depois foi para São Paulo, profissionalizou-se e realiza um trabalho limpo com as imagens, tirando do limbo gente e ideias que são necessárias e nem sempre chegam a todos.




   É preciso ver e rever: www.cronopios.com.br/voltar17


                                                 * * *
 
José Carlos Mendes Brandão é autor de “Exílio” e “O silêncio de Deus”, entre outros, e detentor de vários prêmios literários, como o “José Ermírio de Moraes”, (1984); V Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (1991); Prêmio Brasília de Literatura, (1991); Prêmio Nacional de Literatura “Cidade de Belo Horizonte”, (2000); Prêmio Nacional de Literatura, da Universidade de Brasília (2010); Prêmio Nacional de Literatura “Gerardo Mello Mourão”, Fortaleza, CE (2010). Blog:http://poesiacronica.blogspot.com/ E-mail: jcmbrandão@gmail.com

 
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PROGRAMA CARIRI ENCANTADO SONORIDADES (29/06/2011)

Musicalidade caririense: uma “ruma” de sons diferentes

O Cariri tem em sua fortaleza fonte de indiscutíveis riquezas.

Terra de grandes mestres da cultura popular, a região apresenta uma musicalidade bastante marcada por elementos da tradição oral que influenciam, cada vez mais, novas gerações de músicos. Estas buscam no universo da tradição nordestina a matéria-prima para seus trabalhos artísticos.

Mas, igualmente, a região sempre foi aberta para as mais diversas informações que aqui chegam por vários meios, desde tempos mais remotos.

O resultado é um repertório regional de músicas universais, que, por isso, traz uma assinatura própria, marcada pela experimentação, ousadia e originalidade.

O programa Cariri Encantado Sonoridades de hoje traz uma das muitas possibilidades de seleção da musicalidade caririense, representada por compositores e intérpretes locais, como Bosco Lisboa, Abidoral e Pachelly Jamacaru, Luiz Carlos Salatiel, José Nilton Figueiredo, Lenynha Vaz, Zabumbeiros Cariris, Dr. Raiz, Cleivan Paiva, Célia Dias, João Carlos, Herdeiros do Rei e Geraldo Júnior.

Onde ouvir
Rádio Educadora do Cariri AM 1020 e www.radioeducadoradocariri.com.