Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Um cão contra o arrocho econômico da Grécia

video

Este foi o melhor vídeo da semana na rede mundial. Publicado pela BBC mostra um cão vadio das ruas de Atenas participando das manifestações populares contra o arrocho econômico no país. O cão parece ter lado: fica ao lado dos manifestantes latindo contra a polícia. A simbologia é enorme: guarda a reunião de todos que estão nas ruas. Quando a polícia adere ao mesmo lado, se torna revolução.

É DO INTERESSE PÚBLICO

Brasileiras e Brasileiros para uma boa antecipação de feriadão um endereço da internet que alegrará a todos: músicos, historiadores, fotógrafos, aficcionados da boa música e todo o povo da Batateira. Entrem neste site que é uma maravilha de acervo. Estão grandes nomes, uma tão vasta iconografia que vai fazer a festa do Zé Nilton e seus maravilhosos programas da Rádio Educadora do Cariri:

http://www.jobim.org/acervo/acervodigital.html

Um exôdo de Shangri-lá? José do Vale Pinheiro Feitosa

Não vou para Shangri-lá. Não me levem para Shangri-lá.

Por que Vovô? Shangri-lá é a felicidade. Tudo lá acontece e dar certo.

Shangri-lá apenas aparenta solidez. Ela é cheia de crises. Nevascas, ventos fortes, chuvaradas repentinas. As bases de Shangri-lá não suportam as intempéries do tempo.
Ninguém pararia um projeto que prometia felicidade e impuseram ao avô a jornada para Shangri-lá.

O ar era mais puro. A temperatura oscilava por volta dos 23 graus centígrados. Um céu brilhante e de uma pureza de azul igual nunca se vira. Mesmo que alguns vivessem ao relento por falta de moradia e emprego, a vida em Shangri-lá era a única possível, fora de Shangri-lá tudo era pior. Diziam os sábios astutos veteranos e com inúmeras ações dos investimentos feitos em Shangri-lá. Aqui pode não ser o melhor dos mundos, mas é o melhor que existe entre os que conhecemos.

O Avô não mudava de idéia. Shangri-lá era artificial e hedonista. Trocava uma vida inteira por um momento de felicidade. Mesmo quem sabia dos riscos de Shangri-lá, não poderia se manifestar: tudo que tinham estava aplicado na permanência de Shangri-lá.

E foi quando caiu uma nevasca como há mais de oitenta anos não se vira. Telhados caíram, muitos vizinhos morreram de fome e frio. No aprisionado de seus cômodos ameaçados, os de meia idade estavam nublados como a realidade e os jovens tinham olhares de névoa para o que pensava o avô.

Que dizia: eu avisei. Shangri-lá não é seguro. Não era e nunca será.

Mas a nevasca acabou o céu azulou límpido como as promessas da felicidade e todos festejaram. Esqueceram os mortos, eles não se levantam mais. Esqueceram os desabrigados, não existe mais neve. Shangri-lá continuava a verdade única.

O avô novamente esquecido em seu canto balbuciava: Shangri-lá continua um enorme perigo. Não é a conjuntura do tempo que desequilibra Shangri-lá, mesmo que reforcemos os telhados.

Mas veio uma chuvarada como ninguém vivo se lembrava de outra igual. Os problemas não foram os telhados. Foram as fundações, com deslizamentos, casas soterradas, famílias inteiras desaparecidas. Shangri-lá estava inundada, os de meia idade toldados de nuvens negras e os jovens com olhares de relâmpago para o avô.

Que dizia: Shangri-lá não agüenta outra catástrofe igual a esta. Iremos todos nos mudar se outra vier.

As chuvas pararam deixando um rastro de destruições. Mas Shangri-lá tinha o destino da fênix: ressurgiu da lama (ou das cinzas). Todos estavam felizes embaixo de um céu azul, os negócios a pleno vapor e Shangri-lá retornou à promessa do que era: um momento de felicidade, mesmo que apenas para um pequeno grupo que ao sentir-se bem dizia a todos que o dia de cada ainda chegaria. Com esforço e muita luta, mas chegaria, pois Shangri-lá tem o espírito do animal, sempre rompe as barreiras a si postas.

Foi quando um terremoto de poucos minutos destruiu toda a estrutura de Shangri-lá. Que era de materiais corrompidos pelo tempo. Os que não morreram começaram uma luta pré-histórica de auto-aniquilação. Só lhes restava a imagem objetiva de Shangri-lá. Nunca houveram por bem contemplar outra possibilidade.

Os de meia idade que restavam nada tinham para dizer. Os jovens levantaram-se e começaram a emitir opiniões. Há tempos não eram ouvidos. Agora que os responsáveis haviam emudecido, eles tinham a voz e subiram na mesa da casa fazendo discursos. Diziam que não arredariam pé da sala de jantar se algo não fosse decidido a respeito do futuro. Não queriam mais sofrimentos e o problema, agora tinham certeza: era Shangri-lá.

Vovô qual é o problema?

É Shangri-lá. Vamos nos mudar de Shangri-lá. Não podemos calar as forças do mundo, mas podemos viver num lugar que possamos enfrentar as mudanças que sempre existirão com mais segurança e compreensão. Vamos para outro modo, onde a felicidade é viver uma vida inteira.




Qual a medida de boa fé desta gente? - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os admiradores do Afif Domingues e da revista Veja, entre outras tantas vozes - estou apenas clamando pelos “simbólicos”- necessitam de uma boa rebolada. Vão ter que sambar. Chega desta cintura dura, fazendo discurso de paulistano da boa safra em pleno nordeste necessitado.
Assim como o velho barbudo da Alemanha no longínquo século XIX convocou à união dos operários do mundo, os liberais deste século XXI também chamaram os parceiros para a unidade. O símbolo deste povo de bem é muito diferente da inerte foice e martelo. Para eles o símbolo da luta é dinâmico: O IMPOSTÔMETRO.

Ficam escandalizados com a destruição dos lares pelo imposto cobrado. O Brasil é um horror. Os impostos aqui são os piores do mundo. O governo raspa todo o potencial do povo. Tudo aqui é superlativo.

Mas que moçada mais enganada meu Deus. Fica olhando aqueles números crescendo e lendo a Veja como um catecismo e não faz conta do que acontece no mundo real. Não basta, é preciso ir além. A Associação Internacional de Consultorias (Sigla UHY International em inglês com sede em Londres) acaba de divulgar um estudo comparando as 20 maiores economias industrializadas do mundo, incluindo o G7 que é a jóia da coroa dos liberais.

A conclusão principal é que no Brasil os mais ricos pagam pouco imposto. Além do mais tem o Brasil outra característica ruim: aqui o peso do imposto arrecadado é mais de impostos indiretos, embutidos nas mercadorias e serviços. Uma vantagem a mais para os mais ricos: têm mais meios para comprar no exterior e consomem mais mercadorias difíceis de tributar como obras de arte.

A face real brasileira: quem ganha até U$ 25.000 por ano (mais ou menos R$ 3.300,00 por mês) retém em impostos 16% e fica com 84% (igual á maioria dos demais países), enquanto aqueles com renda na faixa de U$ 200.000 por ano levam 74%. Ou seja, a diferença entre as duas faixas é de 10% uma das mais baixas entre os 20 países estudados.

Apenas para efeito comparativo: Malásia, França, Alemanha e Japão a diferença entre as faixas varia entre 15% e menos de 20%; nos EUA, Canadá, Espanha, Itália e Grã-Bretanha diferença varia entre 20% a menos de 25%; em Israel, Holanda a diferença vai crescendo até atingir 40% na Irlanda.

Enfim o impostômetro, Afif Domingues e a imprensa simbolizada pela Veja estão confundindo a sociedade e não propõem nada. Ao invés de abrir a verdadeira discussão sobre os impostos, fazem graça com a miséria de informações de todos nós.

SÃO JOÃO ANTIGO - Marcos Barreto de Melo



Já faz algum tempo, estamos sendo bombardeados por uma infinidade de músicas, se é que podemos assim chamá-las, que a cada ano surgem neste período que antecede as festividades juninas. Na sua quase totalidade, são músicas apelativas, com letras insinuantes e de duplo sentido, totalmente descompromissadas com o verdadeiro espírito da festa de São João. São músicas que em nada retratam os costumes ou a cultura do nosso povo, mas tão somente visam à lucratividade. Ao que me parece, um objetivo já alcançado, haja vista o crescente número de cantores e adeptos deste gênero. Por serem músicas passageiras, de breve duração, podemos até classificá-las como mais um artigo de consumo para uma determinada faixa da população. Como não apresentam qualquer sustentação poética, estas músicas não conseguem resistir à ação demolidora do tempo, residindo neste fato a grande diferença entre estas e aquelas músicas mais antigas.
Dificilmente encontramos hoje músicas que cantem o São João na sua forma mais autêntica, como ainda é festejado no interior. O São João de quadrilhas e brincadeiras ao redor da fogueira, com balões e foguetões, onde as pessoas fazem pedidos a São João e se divertem com as adivinhações. O São João de fartura, com milho verde, canjica, pé-de-moleque, licor e aluá.
As marchinhas, os forrós baiões com motivação junina são hoje raríssimas exceções. Os atuais cantores da música nordestina parecem desinteressados na preservação deste estilo ou encontram-se já corrompidos pela lucratividade que o pornoforró lhes proporciona. Naturalmente que há exceções ao que foi exposto acima como exemplos, podemos citar os sanfoneiros Dominguinhos e Luiz Gonzaga, dois pernambucanos de fibra e que sempre souberam se manter fiéis ao compromisso de cantar os valores e a cultura da terra nordestina.
Diante deste quadro, nos parece muito confortante o fato de ainda podermos ouvir músicas que são verdadeiros clássicos da música junina. São obras que não envelheceram, não obstante tenham sido gravadas há quase 40 anos, e que ainda continuam trazendo alegrias e recordações até mesmo para o público mais jovem. Se não ouvimos com mais freqüência estas músicas, é porque os esquemas de divulgação não permitem. Quem não conhece, por exemplo, São João na Roça (A fogueira tá queimando/em homenagem a São João/ O forro já começô ô...), marchinha junina composta por Luiz Gonzaga em parceria com o poeta pernambucano Zé Dantas, em 1952, e cantada até os dias de hoje; Noites Brasileiras (Ai que saudade que eu sinto/das noites de São João/das noites tão brasileiras, das fogueiras/sob o luar do sertão...), também de autoria de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, gravada pela primeira vez em 1954; São João antigo (Era festa de alegria/São João/ tinha tanta poesia/São João/tinha mais animação...), outra marcha junina composta por Zé Dantas e Luiz Gonzaga no ano de 1957; São João no Arraiá (Ô Iaiá vem vê/Ô Iaiá vem cá/vem vê coisa bonita/São João no arraiá ..), composição de Zé Dantas gravada por Luiz Gonzaga em 1960; Olha pro Céu (Olha pro céu meu amor/vê como ele está lindo/ olha pra aquele balão multicor...), de José Fernandes e Luiz Gonzaga, gravada em 1951.
Estes são apenas alguns exemplos de músicas juninas que se transformaram em imortais sucessos e que, indiferentes à ação do tempo, continuam vivas ainda hoje. Com isso, vemos que a música que tem base poética, de único sentido e voltada para os valores da terra, não tem vida limitada. Para ela, sempre haverá espaço.
Observamos hoje, com tristeza, que a descaracterização do São João não está apenas na música, mas, também, na maneira como vem sendo comemorado. O que se vê hoje nas grandes cidades não passa de uma grosseira imitação.
É necessário que haja uma conscientização ainda maior no sentido de preservar esta que é uma das nossas mais tradicionais festas populares. Por tudo isso é que procuro refúgio no intetior, seguindo o conselho de Zé Dantas e Luiz Gonzaga.em São João Antigo, para ter a certeza de que não mudei, nem tão pouco o São João. Quem mudou foi a cidade.


SÃO JOÃO ANTIGO – (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) - 1957

Era festa da alegria
São João
tinha tanta poesia
São João
tinha mais animação
mais amor, mais emoção
eu não sei se eu mudei
ou mudou o São João

Vou passar o mês de junho
nas ribeiras do sertão
onde dizem que a fogueira
ainda aquece o coração
pra dizer com alegria
mas, morrendo de saudade
não mudei, nem São João
quem mudou foi a cidade


SÃO JOÃO NO ARRAIÁ – (Zé Dantas) - 1960

Ô Iaiá vem vê
ô Iaiá vem cá
vem vê coisa bonita
São João no arraiá

Vem vê quanta fogueira
no terreiro embandeirado.
foguetes e balões
sob o céu todo estrelado
namoro à moda antiga
com suspiros ao luar
vem vê coisa bonita
São João no arraiá

Cachaça em Pernambuco
renda só no Ceará
café só em São Paulo
açaí só no Pará
no clube o ano novo
bom na rua é carnavá
natá só presta em casa
São João no arraiá.


SÃO JOÃO NA ROÇA - (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) - 1952

A fogueira tá queimando
em homenagem a São João
o forró já começô ô
vamo gente
rapá pé nesse salão
dança Joaquim com Zabé
Luiz com Yayá
dança Janjão com Raqué
e eu com Sinhá
traz a cachaça Mané
eu quero vê
quero vê paia avuá.


OLHA PRO CÉU – (José Fernandes e Luiz Gonzaga) - 1951

Olha pro céu, meu amor
vê como ele está lindo
olha pra aquele balão multicor
como no céu vai sumindo
foi numa noite, igual a esta
que tu me deste o coração
o céu estava, assim em festa
porque era noite de São João
havia balão no ar
xote, baião no salão
e no terreiro o teu olhar
que incendiou meu coração.

O POEMA





O Poema

O poema cresce das palavras
desde as raízes,
ou as sementes, jorra
sangue
e água,
inunda o mundo,
as rosas
e as covas
dos jardins do homem derrotado.

Tem tanto sangue um poema
quanto
um animal
ferido,
agonizante, é feroz
quanto
mais voltado
para si mesmo.

O sol explode nos laranjais,
nos girassóis,
nas estradas
esburacadas.
O poema é um corpo no ato do amor,
é todo interior,
em silêncio
e expectativa, o bote
armado
para o êxtase.

O poema domina o mundo com a sua ausência
e permanência
absoluta.

O poema é eterno,
as casas soçobram iluminadas pelas chamas
do poema.
As sombras enlaçam a mesa familiar,
dialogam
com as coisas
de uma a outra lâmpada.
As coisas ordenam-se com a força circular,
com a amplitude máxima,
com a harmonia do cosmo
no bojo do poema.

O mistério persiste
porque é a condição do seu ser perplexo
a ostra
e sua pérola mínima,
negra,
com toda sua carga de dor e maravilha.