Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

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sexta-feira, 31 de julho de 2009

MEDITAÇÕES.por SOCORRO MOREIRA

.

A liberdade de ir além, exige desobediência.
Mas quando chegamos no além,
a gente obedece ao tempo ,
e começa a voar no pensamento.

MEDITAÇÕES.por JOÃO MARNI

Obediência - Observando hoje os pássaros
ao final da tarde, à hora do recolhimento,
Sinto-me irresponsavelmente fora dela.

Para ti - Por Claude Bloc


Foi para ti que abriguei a chuva
que calei o vento
e derramei-me feito perfume
nos confins da terra...
Eu te garanto
não toquei em nada mas para ti foi tudo,
tudo o que escrevi!
.
Para ti, criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei a fruta mais doce
e o sabor do sempre
sempre ficar.
.
Para ti dei voz
ao meu olhar
às minhas mãos
.
Para ti
abri os gomos das horas
verti as gotas do tempo
e voltei á rua
e revi a cidade ...
.
Para ti, sim, para ti
Escrevi este poema
e pensei que tudo estava em nós
desde outrora, nessa doce espera
no engano das horas
de tudo sermos donos,
e nada termos...
.
Para ti escrevi
simplesmente porque era noite e não dormíamos...
.
Para ti dediquei
Verso por verso
Em cada prosa
A cada momento
em que eu descia em teu peito
para me procurar.
.
Por Claude Bloc

M.A.S.A.

Depois da primeira tentativa de chegar à lua, Juvenal fogueteiro literalmente criou asa. Não tinha conseguido o feito porque não pensara naquele pequeno detalhe: mandara o fogo em dia de lua minguante e o artefato desceu na pontinha da lua. Terminou escorregando e se lascando no chão. Depois do pouso da Apolo XI, no Mar da Tranquilidade, Juvenal ficou meio capiongo. Matozinho tinha perdido a corrida espacial, por um detalhe velho muito do besta! Ao invés de baixar a crista, o fogueteiro criou sustança nas canelas. Resolveu construir um foguetão e mandar para lua, agora num dia mais propício. Nessa data que corre lobisomem , ela fica mais perto da terra e o alvo, também, é mais fácil de acertar. Procurou o Coronel Serapião Garrido, militar reformado, e contou das suas pretensões. O coronel animou-se com a idéia: Matozinho ia passar quinau em outras cidades que se diziam muito mais desenvolvidas. Imaginou, por outro lado, que o feito lustraria seus brios de militar reformado e que nunca tinha disparado um tiro sequer em campo de batalha. Serapião impôs prontamente uma regra de difícil exeqüibilidade para o sucesso da missão:
--- Aceito o desafio de chefiar a missão, seu Juvenal, agora sob uma condição: o vôo vai ter que ser tripulado. Não adianta mandar só o foguete que ninguém vai acreditar que o bicho chegou na lua. Tem que ter uma prova! Não é possível que não se encontre um cabra macho para enfrentar o desafio aqui em Matozinho! Se eu fosse mais novo, já estava alistado!
Juvenal concordou com Garrido. Partiu para casa e começou a refazer os cálculos. Agora , com os novos planos, mudava totalmente a logística. O foguete tinha que ir e voltar com o astronauta e as provas do pouso lunar. Como conseguir o intento? Além de tudo, haveria necessidade de roupas e equipamentos especiais . Juvenal conseguiu um gibão, uma perneira , o peitoral e as botas de Antonio de Lausemiro um famoso vaqueiro de Bertioga. O velho Janjão tinha um motozão Índia e aceitou emprestar seu capacete para uma causa tão nobre. Cálculos feitos, projeto pronto, Juvenal seguiu para prefeitura e lá conseguiu convencer o prefeito Sindé Bandeira da importância do feito para a história de Matozinho. Sindé não mediu esforços:
--- Este é um dia histórico, Juvenal, para Matozinho e para o Brasil. Vamos entrar, definitivamente, na era espacial. Vou fundar a MASA – Matozinho Aeronautics and Space Administration. A prefeitura lhe vai dar todos os insumos necessários. Pode ocupar a área que era destinada ao Matadouro Público e que nunca foi terminado.
De posse da carta branca municipal, faltava a Juvenal apenas o detalhe mais crítico. O tripulante. Por mais que procurassem a coisa não estava fácil. A prefeitura prometeu recompensa, mas ninguém se atrevia a pegar no rabo do foguete. Mais uma vez Serapião, presidente nomeado da MASA, foi quem resolveu a pendência. Lembrou de um astronauta em potencial que dificilmente se negaria a encabeçar a missão: Tan-Tan. Ele era um doidinho que vivia nas ruas de Matozinho e que não tinha medo de nada. Montava em burro brabo, comia gafanhoto vivo , pegava cobra com a mão. Tan-Tan, convidado, aceitou de pronto a missão, exigiu como recompensa apenas um queijo de manteiga e uma lata de doce de leite.
A construção do foguete de Juvenal durou mais de três meses. Cortaram um imenso pé de braúna, esvaziaram o miolo do bicho e pegaram a socar pólvora. Gastaram mais de dez quilos só no foguete de ida. Pregado a ele, ao contrário, rabo com cabeça, ia o foguete de volta., Tan-Tan , após o passeio lunar, foi orientado a acender o bicho e voltar para terra de novo, com a prova da missão realizada: uma peça do arreio do cavalo de São Jorge !
No dia aprazado, um sábado de Lua Cheia, estrategicamente escolhido, toda Matozinho se espremia defronte do Matadouro Municipal que abrigava os dois foguetões amarrados um ao outro com cordas de agave e apontados para o firmamento. No meio, tinham ajustado um esqueleto de bicicleta, justamente onde Tan-Tan se acomodou , devidamente paramentado. Depois, os discursos de praxe:
--- Este é um pequeno vôo para Tan-Tan, mas um grande salto para Matozinho!
Já anoitecendo, quando a lua começou a vazar sangrando no horizonte, apontaram o foguete na direção do planeta e Juvenal acendeu o estopim. O foguete desapareceu numa imensa nuvem de fumaça, soltando fogo para tudo quanto é lado. Subiu fazendo pirueta, parecendo rabo de égua. Ouviam-se , em meio à fumaceira, os gritos e gargalhadas de Tan-Tan. O povo , temendo uma explosão, saiu correndo desesperado. Pelo chão ficou um sem número de objetos.
Passados os dias, Tan-Tan não retornou e não mandou notícia. Um mês depois , Juvenal e Garrido entraram vexados na prefeitura. Finalmente haviam tido os primeiros sinais de Tan-Tan na lua. Um foguete velho todo queimado havia sido encontrado por um caçador, na Serra da Jurumenha, junto com um chaveiro cheio de chaves. Juvenal explicou:
--- O foguete voltou. Achamos que Tan-Tan , aluado como era, se deslumbrou com a lua e resolveu ficar por lá. Mandou o foguete de volta apenas com a prova da sua chegada nos solo lunar!
O prefeito Sindé não entendeu:
--- Mas como, ele mandou algum arreio do cavalo de São Jorge ?
--- Não, mas mandou esse chaveiro cheio de chaves...
Sindé ,confuso, pergunta:
--- Mas o que é que diabos tem a ver chave com São Jorge, pelo amor de Deus?
Juvenal explicou:
--- Cavalo, que cavalo! O homem ta moderno,meu Senhor, foi do tempo de cavalo, São Jorge agora usa é Moto ! Ói as chaves dela aqui que Tan-Tan mandou!

J. Flávio Vieira

saudade

perdido nesta sala
cadê você?
os olhos ardem na sua ausência
a música invade a noite
a noite sou eu escuro de você

sem a luz do seu rosto para me acalmar
é duro dizer
não passo de um barco sem mar

perdido nesta sala
todos os dias intermináveis
quase morto
estou um barco num mar sem porto

enfim
estou aqui
sem o aqui está em mim

O Erotismo Poético de Gilka Machado


Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro RJ 1893 - idem 1980). Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915.
Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931).
Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro.
Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo.
Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo,em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma?
Biografia: http://www.itaucultural.org.br/

Livros: Cristais partidos (1915), Estados da alma (1917), Poesias (1918), Mulher nua (1922), Meu glorioso pecado: amores que mentiram, que passaram o grande amor (1928), Sublimação (1918).

LÉPIDA E LEVE

Lépida e leve
em teu labor que, de expressões à míngua,
o verso não descreve...
Lépida e leve,
Guardas, ó língua, em teu labor,
gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,
que teu nome a ti mesma acaricia,
que teu nome por ti roça, flexuosamente,
como rítmica serpente,
e se faz menos ruído,
o vocábulo, ao teu contato de veludo.

Dominadora do desejo humano,
Estatuária da palavra,
ódio, paixão, mentira, desengano,
por ti que incêndio no Universo lavra!...
És o réptil que voa,
o divino pecado
que as asas musicais, às vezes , solta, à toa,
e que a Terra povoa e despovoa,
quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá de tato,
ó língua-idéia, ó língua-sensação ,
em que olvido insensato,
em que tolo recato,
te hão deixado o louvor, a exaltação!

- Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!
- Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!
Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de alucinação,
és o elastério da alma... Ó minha louca
língua, do meu Amor penetra a boca,
passa-lhe em todo senso tua mão,
enche-o de mim, deixa-me oca...
- Tenho certeza, minha louca,
de lhe dar a morder em ti meu coração!...

Língua do meu Amor velosa e doce,
que me convences de que sou frase,
que me contorrnas, que me vestes quase,
como se o corpo meu de ti vindo me fosse.
Língua que me cativas, que me enleias
os surtos de ave estranha,
em linhas longas de invisíveis teias,
de que és, há tanto, habilidosa aranha...

Língua-lâmina, língua-labareda,
Língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...
Força inferia e divina
faz com que o bem e o mal resumas,
língua-cáustica, língua-cocaína,
língua de mel, língua de plumas?...

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,
amo-te como todas as mulheres
te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,
pela carne de som que à idéia emprestas
e pelas frases mudas que proferes
nos silêncios de Amor!...

Hoje não tem fita ...Tem papel ! - Por Zélia Moreira


Hoje, a Zélia apaixonada por cinema e música tirou folga.Deixou no seu lugar a que adora poesia.
Por falar em poesia, tenho com ela um caso de amor antigo e mal resolvido .
Durante muito tempo fui uma poetisa frustrada, até o dia em que assisti o filme "O Carteiro e o Poeta ".Num diálogo entre Pablo Neruda e o carteiro Mário Ruoppolo ,ele(o poeta) diz: "A palavra depois de escrita é de quem dela precisa.."
Era tudo que eu gostaria de ouvir. Faço de vez em quando minhas as palavras dos poetas, respeitando a autoria, claro!
Dia Mundial do Orgasmo , lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade e seu livro "Amor Natural ".
São poesias eróticas( nada pornográficas), que assinadas pelo grande poeta, dispensa comentários.

SEM QUE EU PEDISSE FIZESTE-ME A GRAÇA.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo, não te escuto, não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Escutatória - Rubem Alves


(Casa de João Marni - foto by Nilo Sérgio)

Rubem Alves (educador, teólogo, psicanalista e escritor, nascido em Minas Gerais em 1933)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro (o mestre de todos os heterônimos de Fernando Pessoa) que “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias dentro da cabeça sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.”

Parafraseio o Alberto Caeiro: não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor. Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração. E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Vejam a semelhança. Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos. Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se eu falar logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado. Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.

E, assim, vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência. E se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras. No lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia. Que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

Haikus - por Cesar Augusto

Vento deflora


uma árvore virgem


com ar estéril.



Soldado morto

vende suas entranhas

ao açougueiro.


Vozes na madrugada - Por Emerson Monteiro

Passada a guerra, em 1945, enquanto aguardavam terminar a casa que meu pai construía em uma colina fronteira ao pátio da pequena povoação, próxima da capelinha, meus pais ocuparam alguns meses uma das dependências da casa grande da fazenda.
Haviam casado em Crato, e logo se deslocaram para o município de Lavras da Mangabeira, onde, no Tatu, fixariam residência, nessa propriedade dos meus avós paternos.
O lugar guardava existência própria, na simples precariedade que detinha. Uma dúzia de casas de taipa habitadas por famílias de agregados. Dois açudes. Canavial. Moagem. Lavouras de subsistência no incerto período chuvoso. Arroz. Feijão. Milho. Fruteiras. Além da fama misteriosa de mal-assombrado.
Minha trisavó, Fideralina Augusto escolhera, na segunda metade do século anterior, estabelecer ali a sede do clã que formaria, filhos e genros senhores de baraço e cutelo na política e nas terras em volta. Construíra engenho a boi, o açude maior, uma casa senhorial e, no contar dos mais antigos em serões intermináveis, deixara enterrada botija de moedas de ouro, prata e ouropéis preciosos.
Desde sua morte, em 1919, vitimada por febre destruidora espalhada no mundo, vezes tantas apareceu nos sonhos, ou em vulto, causando transtorno fora e dentro dos antigos domínios. Queria a todo custo entregar o legado aos que ficaram, para escapar das chamas do engano e da maldição das almas penadas.
Minha mãe buscava não se impressionar com as histórias das aparições da matriarca. De formação católica, nutria outros pensamentos a respeito daquilo. Punha as histórias de alma na caixa do folclore, das tradições e lendas sertanejas, coisas de tipo fantasioso.
O tempo, senhor de tudo, no entanto, desfilava dias e noites e modifica até os mais arraigados conceitos.
Naquela hora, ainda acordada no meio de uma madrugada fria, escutava as rajadas do vento no escuro quando ouviu, de longe, o trotar de montarias. Vinham se aproximando. Pela estrada, percorriam o lado da bagaceira do engenho, passavam no terreiro da casa e mergulhariam pelo beco formado entre a casa grande e o engenho, indo desembocar no alto da parede do Açude Velho, fonte da água das imediações. Ao final, uma cerca de vara trançada e cancela que batia forte à passagem dos viventes, eco a deslizar na mata abaixo do açude.
O som da pisada dos animais chegava mais perto, realçando o vazio silencioso da solidão. Quase defronte da casa, vozes se destacavam em animada conversação.
- Hoje seu Amâncio começou a moer foi cedo?! – distinguiu nítidas as palavras de um dos cavaleiros.
Até então, nada incomum. No instante, contudo, ela lembrou ser dia de domingo, o feriado da semana, em que não se moia, a tornar irreal e estranho aquele comentário, a causar medo de ouvir sem uma razão que justificasse.
Ainda sob o impacto da afirmação desencontrada, frêmito percorreu seu corpo de cima a baixo, sob os lençóis, enquanto o tropel marchava adiante, deixando-lhe gravado no coração, naqueles vagos adormecidos, o ferro sombrio do inexplicável, presença constante na fase que viveria no sítio desde essa noite.



UM LONGO DIA



Ah! Tu não imaginas como são longos

Estes dias sem a tua presença amiga.

Correm morosos. e os minutos?

Estes se arrastam que nem carro de boi gemedor.

Passeio os meus olhos por estas velhas ruas

Do meu Recife a procurar teu rosto.

Vagueia o pensamento solitário por estas torres

E campanários,revolteando perdidamente livres

Em doces recordações de madrugadas convividas.

Ah! Não imaginas como é longo um dia...

Gostaria de não ter a mínima paciência e correr a teu encontro,

Ouvir histórias, descobrir teus segredos bem guardados.

Fazer amor ao entardecer, e já vindo a noite, te fazer dormir

Acariciando estes cabelos negros, soltos, livres

Como um mustang selvagem!

Quando estiveres comigo vou desejar dias assim... sem fim!




A DOR É SÓ MINHA

O vento gelado açoita meu rosto

E vai congelando devagar meu sorriso.

Os nervos crispados

Anunciam a metamorfose.

Sinto a falta dos teus pés

Na minha estrada, na viagem que você

Não fez pra dentro de mim.

Dói esta saudade do que não vivi...

Dos degraus que desci e te perdi.

Dói cada minuto do tempo perdido

Dos sonhos desfeitos

Que não tem volta e nem jeito (?)

Que dor é esta que vai e volta

Que sangra e para

Que une com dois pontos firmes

O Passado e o presente?

Cama suja

Luiz Felipe Pondé

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Desconfio das bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado
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NO FUNDO, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.

Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.

Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.

Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?

Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.

Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.

Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.

Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.

Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.

Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.

Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".

Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.

Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora.


...No dia mundial do orgasmo- Carlos Drummond !




AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
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Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,

e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

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O Chão é a cama

O Chão é a cama para o amor urgente,
O amor não espera ir para a cama.
Sobre o tapete no duro piso,
a gente compõe de corpo a corpo a última trama.
E para repousar do amor, vamos para a cama!


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Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica

quando tocamos a pessoa certa.

.
Carlos Drummond de Andrade

Das remessas por e-mail de Francini nos seus 16 anos

Este blog foi inventado por mulheres com a ajuda de dois grandes sujeitos do masculino pleno. Por isso não é demais postar o que tantos já fizeram. Ouso cair na mesmice, mas a verdade é que me tomo por referência, cada prato de arroz com feijão tem um sabor do dia. Mesmo fazendo o mesmo vôo lá:

Ana Kessler: Eu me habilito.

Minha cara botão de rosa, vestida em pensamento de mulher prosa.

Eu me habilito.

A jamais cobrar a costela que me roubaste.
Quando Gabriel expulsou-me do Paraíso,
levei-o comigo, um pedaço, feito tu.
Quando nossas vozes chorou no exílio de Nabucodonosor,
o doce canto era teu.

Prometo-te todas as estrelas,
a lua também,
quando tudo farei,
mesmo não indo além.

A minha natureza é cortar os galhos da floresta para que teu corpo trilhe solto.
Se teu semblante guerreiro afrontar-me flecha,
dos cabelos mover-me sequer uma mecha.
Quando presidires o congresso dos homens,
conduza-os com teu pleno instinto que gesta.

A decisão que nutre,
o outro que se cria,
nem maior e nem menor,
apenas como tu és.

Pois de outra mulher,
mesmo feminista,
o laço não se armou,
estava fora,
na produção.

A vida,
movida,
tangida,
subidas,
descidas,
saltos e atrasos resumira-se a meras jornadas.

Estiradas,
sulcadas feito disco gravado,
repetidas qual o passado que fala pelo presente.

Não esteve,
em ti e nem em outra,
a correia que move as engrenagens fabris.

Pois o maior dos erros é pensar em ti como parte duma caterpilar que esmagava,
Com as garras de suas esteiras,
como se este fosse um gesto de gênero,
feminino ou não.

Habilito-me a curtir o couro que tuas mãos soltam monções de artesanatos,
Secar a madeira que lentamente espelhará o formato incerto que teu corpo esconde.
A alma que faz brigadeiros,
papos de anjo,
toucinhos do céu,
ajoelhando-me por ti.

Como tanto a teu cérebro frenético ou aquele que recusa sair da cama.
Tanto ao teu corpo nu,
como à fantasia de extrair-lhe espartilhos e sutiãs.
Se algo confuso estou,
nem sempre se deva a papel teu,
pois paixão também entontece.

Seja o que fores,
o que ainda estar por vir,
ou jamais virá,
vivo porque és mulher.


Afinal sou apenas um José do Vale apaixonado por vocês.

Poema-Orgasmo- Por José Carlos Ary dos Santos

De sílabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmúrio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A Poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um Poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que fôr
fazer poemas é escrever amor
e poesia o que tem de ser é orgasmo.

ARY DOS SANTOS, José Carlos, "Obra Poética", Edições Avante, Lisboa, 1994, p.415

(Hoje é dia Mundial do Orgasmo)

PENSAMENTOS PARA O DIA – CHICO XAVIER



(texto retirado da Internet - SEJAM BEM-VINDOS AO MEU BLOG: http://bernardomelgaco.blogspot.com)

"Eu permito a todos ser como quiserem e a mim como devo ser."
Chico Xavier

3 frases

Concentre-se nas frases abaixo:

'Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez'.

'Quando Deus tira algo de você, Ele não está punindo-o, mas apenas
abrindo suas mãos para receber algo melhor'.

'A Vontade de
Deus nunca irá levá-lo aonde a Graça de
Deus não possa
protegê-lo'.
-----------------------------------------

(http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://botecoliterario.files.wordpress.com/2007/06/chico-xavier.jpg&):

“Cumpramos os nossos deveres, sabendo que a nossa responsabilidade tem o tamanho do nosso conhecimento”

(Chico Xavier, Programa Pinga Fogo 1972)
“Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível!”

“A vida, como a fizeres, estará contigo em qualquer parte. “

Estresse crônico dificulta decisões



(http://br.noticias.yahoo.com/s/afp/090730/saude/eua_ci__ncia_animais)
Qui, 30 Jul, 07h53

CHICAGO, EUA (AFP) - O estresse crônico afeta o cérebro dos ratos de laboratório de tal modo que tomam decisões de memória no lugar de mudar o comportamento para obter recompensas, revela um estudo da Universidade do Minho (Portugal) publicado nesta quinta-feira na revista Science.

O estresse crônico também modifica o comportamento e a memória, e a liberação de hormônios afeta o cérebro.

Para determinar o impacto sobre a tomada de decisões, os pesquisadores portugueses submeteram a testes diferentes tipos de ratos.

Nestes testes, os ratos podiam mover alavancas para ganhar recompensas, como torrões de açúcar, e os animais estressados empurravam a mesma alavanca, mesmo que não recebessem recompensa.

O exame dos cérebros de ratos submetidos a diversos fatores de estresse durante 21 dias mostrou que duas áreas do cérebro envolvidas na tomada de decisões estavam atrofiadas.

Uma terceira zona do cérebro, que se utiliza para formar a rotina, se expandiu nos ratos estressados.

A alteração para a tomada de decisões por memória pode ser um mecanismo para ajudar os animais estressados a preservar sua energia, mas é algo "altamente contraproducente" quando anula a capacidade de adaptação às mudanças do ambiente, escreveu o autor do estudo, Eduardo Dias-Ferreira, da Universidade do Minho.

Repentes nos bastidores - Claude, Magali, Carlos, César, Socorro e Anita


(Foto: Pachelly Jamacaru )
Fui cigana nessa vida
a sorte, aprendi a ler
na dança do fogo eu giro
o fogo tem seu poder
Porém só tenho um Deus
não sirvo a dois senhores
Mas prezo os escritores.

Minha mãe fazia a feira
Levando um grande balaio
Abastecia a fruteira
E eu dizia : de fome não caio !

flores enfeitam o olhar
deixam a vida perfumada
no campo do meu sonhar
a flor está camuflada

Gosto de fruta madura
Gosto do sumo da cana
Gosto de beijo na boca
Gosto de saudade louca

Entre esses gostos que existem
Não há nenhum gosto melhor
que o teu olhar quando brilha,
esse gosto sei de cor.

Se falta brilho na casa
eu encero tua lembrança
ou abro a minha janela
e espreito os passantes

Os passos e os pensamentos
se encontram na mesma rua
que já mudou de asfalto
tomara que a gente viva
o buraco que faltava

Aqui nesse blog novo
Poetisas eu encontro
Estou junto do meu povo
Neste grande reencontro

Peço que por piedade
Tenham pena do coitado
Que só sabe na verdade
Rimas de pé quebrado

Barbalha de Santo Antonio
Barbalha do Cariri
Uniu-se com Juazeiro
Ficou mais perto de mim
Agora quem pode tanto
com o danado do triângulo ?

A vivência de um amor
Também tem grande amizade
Exige respeito e fervor
Com muita fidelidade.

Carinho , diz a canção
na esquina não se compra
A pessoa carinhosa
é pródiga de muito encanto.

Vixe, como é difícil
fazer a danada da trova
é preciso muita emoção,
muita ternura na alma
e amor no coração
.
Tudo que se diz fácil
inibe nosso desejo
mamão com açúcar é fácil
rimar flor com amor
é besteira
mas na cartilha da gente
todo mundo é escritor
E o César Augusto, também !

Socorro você é gentil,
muito mais que generosa
reparto minha merenda
sua amizade é honrosa.

O César esqueceu do mote
Deixa grande a confusão
Não nos faça dançar xote
Põe um mote meu irmão!

Sapoti fruta gostosa
doce como um beijo casto
prometo pedir respaldo
ao meu amigo Esmeraldo
para quando esquecer o mote
nâo fazê-lo dançar xote

Dançar de rosto colado
nunca foi pecaminoso
mas tem que ser com o amado
senão não fica gostoso

Só está faltando o baile
e um bolero bem saudoso
falta tambem o meu par
que eu perdi nem sei o ano
portanto devo dançar
solta , e sem acompanhante.

O sono já vem chegando
Vem subindo a ladeira
Quando eu estou com sono
Fico falando besteira.

Mote: Sina

Blindados - E morreram como ratos ...- Por Joaquim Pinheiro

Muitos textos falando em corrupção sugerem que tudo começa com os mandatários ou partido no poder no momento. Foi assim, no regime militar, no governo Sarney, Collor, FHC e agora com Lula. Os novos escândalos se sobressaem sobre os de ontem e estes terminam esquecidos. Quase ninguém é punido, menos ainda perdem os bens adquiridos ou devolvem os recursos desviados do povo. Em Pernambuco houve um caso emblemático, resultou em 17 mortes, não se apurou nada, ninguém foi sequer indiciado.

Em 1928, o Governo de Pernambuco adquiriu dois carros blindados dos Estados Unidos. Os veículos deveriam ser iguais aos que a Polícia de Chicago utilizava para enfrentar o crime organizado. Custaram uma fortuna. Um dos argumentos para a aquisição era enfrentar os cangaceiros que imperavam no interior do Estado, principalmente Lampião, no auge da sua atuação. De saída, descobriu-se que os tais artefatos não teriam utilidade, já que os cangaceiros andavam nos matos, longe das estradas. Assim, sem ter como empregá-los, foram recolhidos e escondidos no pátio do Palácio do Governo e lá ficaram por dois anos.

Quando tropas do Exército, junto com estudantes e populares se rebelam contra a república velha e ao lado do movimento encabeçado por Getúlio Vargas, o então Governador de Pernambuco, Estácio Coimbra lembrou-se dos dois blindados e ordenou que fossem postos em ação contra os revoltosos. Assim, dois tenentes, dois sargentos e sete soldados da polícia militar embarcaram em cada uma das viaturas e se dirigiram ao quartel amotinado. Foram trucidados, não chegaram a disparar nem um tiro, sequer. Não deu nem tempo de acionar as metralhadoras que empunhavam. Morreram como ratos, sem chance ao menos de morrer com dignidade, oferecendo resistência, por mínima que fosse.

Descobriu-se depois que em vez de couraça, a proteção dos carros era de flande ou, como se disse na época, era “lata de goiabada”. O governador fugiu para o exílio, entrou novo governo, abriu-se inquérito mas não se chegou aos culpados nem denunciaram os responsáveis pela importação fraudulenta.

Arrisco-me a dizer que os “vivaldinos” de então, como acontece sempre, aderiram ao novo sistema, tornaram-se amigos das novas autoridades e a apuração não foi em frente.


Joaquim Pinheiro

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nunca fui beijada - Sessão IX - Por Zélia Moreira


Mesmo sendo uma pessoa adulta(?), tenho meus momentos de tardia adolescência.
Adoro tudo que me faça rir ou suspirar.
O filme que trago hoje é uma comédia romântica de 1998.
Alguns não gostam do gênero.Eu o recomendo aos que gostam de músicas dos anos 60, especialmente sendo de The Beach Boys.
Pode até parecer absurdo, mas uma única cena, com um bom fundo musical, pode valer o ingresso pago.
"Nunca fui beijada", tem Drew Barrymore(Et) no papel de Josie Geller, revisora de um jornal em Chicago. Querendo se firmar como repórter, ela aceita o desafio de cobrir o dia a dia de adolescentes numa escola , passando por um deles.
O curioso em Josie, é que ela tem 25 anos, nerd e uma vida amorosa inexistente.
Nem preciso falar muito sobre o desenrolar do filme....Afinal comédias de amor têm sempre um final feliz. Ela além de fazer as pazes com o seu passado, ganha o amor do professor bonitão da escola.
Preparem as pipocas... Quando a necessidade for simplesmente descontrair, eis um bom programa.

Fiquem com a cena final e a música Don't worry baby/ The Beach Boys.

Zélia Moreira

Um comentário para o Coletivo - Por Socorro Moreira




Um blog é um Planeta novo , estrelado , no imenso cosmo virtual.
O Cariricaturas tem vista panorâmica para o Cariri, mas com seu olhar de lince, avista além do que está aqui.
Em dez dias recebendo o povo e o seu pensamento, já criou vários cantinhos e recantos.
Já instalou cadeiras de balanço na varanda, e armou suas redes cearenses. Acendeu o fogão de lenha, chaleira de água fervente, e uma panela de baião-de-dois com queijo de coalho e piqui. O pilão funciona a toda hora pisando a paçoca, o café; no tacho, o doce de buriti.
Claude entre versos, sempre de coração alterado de paixão, fotografa quem chega ,quem traz na sacola, um poema ou textos do nosso agrado.
É só clicando, sorrindo, e mostrando o canto.
Nilo Só fala no Madrigal, e nos amores do passado, que sempre acabam voltando. Ele sabe o quanto as emoções de outrora nos interessam, e como se cristalizaram na nossa alma.
Zé do Vale e Rafael trazem sempre ilustres convidados. São presentes, nessa festa.
Carlos e Magali têm a pontualidade dos caririris. Na ponta da língua um causo, um repente. Vivem com os olhos na gente e um sorriso de simpatia.
Joaquim por instantes esquece as pontes “venezianas”, o tabuleiro do xadrez, e traz uma novidade com seu ar de amigo e cavalheiro. Quando falta, a cadeira fica vazia.
Cumprimenta todos porque todos lhes são caros. A maioria é parenta ou colega de infância.
Leonel demorou, mas chegou. Trouxe Mônica sua musa, e a sua prosa poética sempre inteligente.
Zé Flávio já entrou, já conversou, e já deixou pendurado um dos seus legados. Mas ele é alado... Voa pra tudo quanto é lado. Aprendeu com Ícaro e com Vieirinha a ser um prosador danado. Danado de bom!
Dihelson já instalou o som. Reuniu o que de melhor existe na música, pra nos deixar chapados. É como se pra nós tocasse “Night and Day”.
Jairo está batucando algum jazz. Pensando em inglês, como um Rui Barbosa.
Da Bahia a Corujinha se intimida. Chega sorrateira, e nos promete poesia.
Ana Cecília já passou, deixou seu sorriso, seu talento, que ficou registrado. Com certeza voltará, com mais pérolas, nas suas ostras, pra gente apreciar.
Zélia é cinema, pipoca e emoção. Chega com aqueles olhos enormes de alegria, em poder dividir a emoção.
César deixa as terras distantes, e aterrissa nesse Planeta, como uma estrela cadente.
Liduina começou a bem postar. Tá cultivando orquídeas, mas sei que voltará.
Anita é quase uma cearense. Chega trazendo os haicais, e toda sua ternura, na poesia.
Emerson e Melgaço, espíritos elevados , são meus gurus. Acendo incensos de mirra para recebê-los. Que cheguem sempre!
João Marni e Fátima nos recebem em sua casa, e a gente se alegra quando chegam aqui, com uma prosa no bolso pra enfeitar a guirlanda de colaboradores.

Sávio, Domingos e Chagas são mestres nos poetares. Não pensam... Poetam!
Dimas, Nicodemos, Glória, Kaika, Roberto, Armando, Vera... Presenças queridas, ainda em silêncio. Mas quem os conhece sabe que eles sentem!
Tirando o chapéu de interiorana cratense para Everardo Noróes, Assis Lima, Stela, Tiago, Lupeu, Edilma, Pachelly... Belas contribuições. Nos primeiros acordes, já nos impressionaram.
Agora é hora de servir o rango. Estou de avental e colher de pau na mão.

Venham todos, a mesa está servida. Os nossos visitantes também são convidados!


Perseveremos, na alegria do encontro !

Namastê !
Socorro Moreira
Foto de Nilo Sérgio Monteiro

O Molusco

Dorme o molusco latente
só esperando sal e pimenta

e logo se acenda a lata
por efeito do arrebatamento

torna-se o molusco
um monstro apavorante

mil tentáculos venenosos
cruel cinismo

a devorar-me,
a enlouquecer-me
a lançar-me à morte

então estraçalhados
meu coração, meus pulmões e meu fígado

volta a dormir o molusco inocente
só esperando sal e pimenta.

Junções

Seu vazio,
a sua moeda encantada.

Deixe-a dentro
das rachaduras das paredes.

Lá repousam os medos
as faces medonhas
o corredor escuro.

Mas também o sorriso
da nódoa de chuva

entre a linha da porta
e a brancura do teto.

A FESTA DOS PORCOS


Que interesses econômicos se movem por detrás da gripe suína???
No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vitimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro. Os noticiários, disto nada falam!
No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarréia que se poderia evitar com um simples soro que custa R$ 0,25.
Os noticiários disto nada falam!
Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano.
Os noticiários disto nada falam!
Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves... os noticiários mundiais inundaram-se de noticias... Uma epidemia, a mais perigosa de todas...Uma Pandemia!
Só se falava da terrífica enfermidade das aves.
Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos...25 mortos por ano.
A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25.
Um momento, um momento... então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves?
Porque atrás desses frangos havia um "galo", um galo de crista grande.
A farmacêutica transnacional Roche com o seu famoso Tamiflú vendeu milhões de doses aos países asiáticos.
Ainda que o Tamiflú seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população.
Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro.
-Antes com os frangos e agora com os porcos.
-Sim, agora começou a psicose da gripe suína. E todos os noticiários do mundo só falam disso...
-Já não se fala da crise econômica nem dos torturados em Guantánamo...
-Só a gripe suína, a gripe dos porcos...
-E eu pergunto-me: se atrás dos frangos havia um "galo"... atrás dos porcos... não haverá um "grande porco"?
A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflú. O principal acionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro, Donald Rumsfeld, secretario da defesa de George Bush,artífice da guerra contra Iraque....
Os acionistas das farmacêuticas Roche e Relenza estão esfregando as mãos, estão felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflú.
A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da saúde.
Não nego as necessárias medidas de precaução que estão a ser tomadas pelos países, mas se a gripe suína é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação...
Se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com esta enfermidade, porque não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza o fabrico de medicamentos genéricos para combatê-la?
Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos gratuitos a todos os países, especialmente os pobres. Essa seria a melhor solução.

Texto do Dr.Hercilio Rohrbacher Junior

QUASE LIBERDADE

Embora pouco, ainda tenho muito pensado
Na pena das asas dos anjos que tornam
A tocar minha face quando sonho,
Num sonho de bêbado onde as putas recitam poemas
Onde poetas recriam os mundos
Dourados como a cárie dos dentes dos bêbados
Que palitam sob a luz da lua,
Sob o som dos ratos, som da lembrança
Das danças fugazes, das valsas que dançastes
Entre moças e rapazes em sua velha juventude

Embora o acaso dos dias infindos
Onde sóis e luas carcomem o meu rosto
Onde letras carcomem meus olhos
A mente burila idéias de fuga dos mundos
Onde bigornas nos bolsos carrego
Onde grilhões me mordem os passos
Onde juízes me podam pecados

Eu voo, embora me queiram por perto
Eu voo, embora sorriam os gênios sem obras
Embora não exista Lei Áurea para casos perdidos
Para mendigos, putas ou bêbados,
Existe o sorriso que teima na treva
Existe para nós o que jamais tu percebeste
Um veneno mortal ou uma chave que nos dá asas
Chamada poesia.

Embora pouco, ainda tenho muito pensado
Embora peso, ainda muito tenho voado.

Imagem: Antonio Mateus
Fonte: http://br.olhares.com/

O leitor e a bibliotecária - por Ronaldo Correia de Brito

Na cidade do Crato, no Ceará, onde vivi parte da infância e adolescência, havia uma biblioteca municipal. Ou seria diocesana? Também não sei aonde foi parar o acervo que marcou tão profundamente minha meninice pobre de livros. O prédio da biblioteca não existe mais; no local funcionam um bar e lojas de bugigangas. Embora o acervo literário fosse deplorável, quase todo formado por livros católicos mal impressos e muito velhos, acho que a troca de uma biblioteca por um comércio nunca é feliz. Já existem bares em excesso nas cidades brasileiras.

Imagino que sou a única pessoa do mundo que leu a coleção Grandes Romances do Cristianismo, de que fazem parte títulos como Perseguidores e Mártires, Quo Vadis?, Otávio, Papai Falot, Ben-Hur, Os últimos dias de Pompéia, Os noivos e por aí afora. Na falta de livros melhores, eu mergulhava nessas narrativas lacrimosas, escritas para arrebanhar os espíritos rebeldes, transformando-os em almas piedosas. Afora esses livros exemplares, havia a biblioteca de um primo, com a melhor literatura universal: só que todos eles estavam parcialmente devorados pelos cupins e pelas traças. Dessa maneira, minha formação ficou cheia de hiatos. Nela, faltam muitas páginas, capítulos inteiros, começos, meios e fins.

Não sei por arte de que nigromante os insetos não comeram uma única página, uma lombada sequer, nem mesmo o parágrafo mais insignificante das obras completas de Machado de Assis, José de Alencar e das crônicas de Humberto de Campos. Dessa forma, até os quinze anos eu já lera todos esses respeitáveis senhores, de cabo a rabo, tão bem lido que nunca mais voltei a eles. Minto: jamais consegui atravessar Guerra dos Mascates, do meu conterrâneo cearense, e sempre releio os contos de Machado. Humberto de Campos, confirmando a transitoriedade do sucesso, anda esquecido. Ninguém lembra que ele foi o autor brasileiro mais lido há algumas décadas, um fenômeno nacional parecido com Paulo Coelho. Sem a auto-ajuda, claro.

A Biblioteca Municipal era pouco freqüentada e a bibliotecária passava a maior parte do tempo fazendo crochê ou rezando num terço de contas azuis e brancas. Creio que o seu interesse pela leitura não foi além das orelhas e prefácios. Dessa forma, ela construiu um conhecimento de superfície sobre o pequeno acervo, quase sempre doado, o que me leva a supor que se tratava de refugo, aquilo que as pessoas têm em casa e não apreciam. Nunca tive notícia de uma aquisição feita pela prefeitura da cidade, da compra de um pacote de bons livros. Quando completei catorze anos, deixaram que eu tivesse acesso à biblioteca da Faculdade de Filosofia e aí conheci livros melhores.

A bibliotecária pertencia à irmandade das Filhas de Maria, vestia-se de branco no mês de maio e usava uma fita azul no pescoço com uma imagem em prata de Nossa Senhora. Ela sempre me pareceu ingênua, boa e feliz. A necessidade de um emprego colocou-a no lugar de bibliotecária, sem vocação ou preparo para isso. Nossa amizade se deu por eu ser apaixonado pelos livros. A devoção que ela punha nas rezas eu colocava nas leituras. Diante de um menino deslumbrado por objetos de que ela cuidava sem maior convicção, sentia-se tocada. E era sincera quando me apresentava um título que acabara de chegar, uma nova doação. Esse é bom, dizia sem haver lido. Esperando que eu retornasse para a devolução com um resumo da obra e comentários que respeitavam sua fé católica.

Talvez um bibliotecário de grande erudição, culto e arrogante, tivesse me inibido. A bibliotecária modesta, com seu fetiche pelos objetos livros e sua admiração pelo menino leitor, me seduziu para a leitura. Ela me olhava invejosa e seus olhos confessavam: Ah, se eu tivesse coragem de atravessar esses dramas! Mas sua formação católica, de um catolicismo popular e singelo, reprimia vôos e fantasias, mesmo em romances que pareciam inventados por sugestão de Roma.

Quase todas as vezes em que voltava ao Crato, passava em frente à casa da bibliotecária. Nossa conversa não se mantinha por mais de dez minutos. Eu temia que a qualquer momento ela sacasse a sugestão de um novo romance. Mas o catolicismo anda em baixa e livros edificantes de escritores como Paulo Coelho tendem para o ecumenismo e o paganismo. A bibliotecária já não possui biblioteca, nem leitores a quem cativar.

Ela sabia que o menino curioso se tornara médico e escritor. Talvez desejasse ouvir um agradecimento que só agora faço: obrigado pelos livros que você me colocou nas mãos. Por mais estranhos que eles me pareçam hoje, contribuíram para me fazer leitor. Tomara que os santos em que você acredita lhe dêem no céu uma pequena biblioteca, com livros que você poderá nunca ler, mas com certeza amará, abaixo de Deus.

Ronaldo Correia de Brito

Arrastaí!


Dedicado a Dona Almina Arraes


Em 1979, no governo de João Figueiredo, derradeiro presidente da ditadura militar instaurada em 1964, foi aprovada uma ampla anistia política. Centenas de exilados começaram a retornar ao país, dentre eles os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes, o líder comunista Luís Carlos Prestes e o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira. Foi quando, ainda menino, comecei a despertar para a política, com grande curiosidade pela história recente e profunda do país, querendo preencher as muitas lacunas existentes, devido, sobretudo, à ação da censura e aos outros entulhos ditatoriais

Lembro, com bastante nitidez, os acontecimentos daquela época. A volta do pluripartidarismo, com as siglas que eram anunciadas: PMDB, PDS, PP, PDT, PT, PCB e sua dissidência, PC do B; o debate que voltava a fluir com a distensão do regime e os lançamentos editoriais que ajudavam a construir a memória da luta contra a ditadura. Um livro, particularmente, chamou-me atenção e ajudou na minha formação política: Carbonários, Memória de uma Guerrilha Perdida, de Alfredo Sirkys. Li-o duas vezes seguidamente, pois ao ler a última página retornei imediatamente para a primeira.

Lembro, ainda, com riqueza de detalhes, da volta triunfal de Miguel Arraes ao Crato, para visitar sua mãe, dona Benigna, e irmãs. Era sábado, por volta do meio-dia quando ele chegou à casa localizada no início da rua Dr. João Pessoa, que estava lotada de gente, espalhada pelo enorme jardim, pela sala, cozinha e quartos. Antes, ele percorreu algumas ruas em carro-aberto, à frente de uma carreata.

Fui para este evento porque Arraes sempre foi um nome familiar para mim. Meu pai, durante a permanência de Miguel Arraes no exílio, na Argélia, dava assistência à sua mãe e irmãs que residiam no Crato. Como era leitor assíduo de jornais e revistas, papai colecionava toda e qualquer referência a Miguel Arraes e repassava para elas. Por conta disto, quando retornou ao Brasil, Miguel Arraes mandou entregar ao meu pai o livro Jogos do Poder, de sua autoria, com dedicatória e agradecimento escrito do próprio punho.

Não sei por onde anda esse livro, que gostaria imensamente de reler e de tê-lo comigo, como uma relíquia que uniu dois grandes homens: Miguel Arraes e meu pai.


Obs1.: Esta matéria foi publicada originalmente no blog Tudofel (tudo-fel.blogspot.com).
Obs2.: Quando da recente mudança que fiz (agora estou residindo na cidade), encontrei o precioso livro que julgava perdido.

PAPO ENTRE AMIGOS - Por João Marni


CRÔNICA DE OLIVAL HONOR - PAPO ENTRE DOIS AMIGOS

Quase todos os cronistas da Rádio Educadora têm curso superior. Quando se encontram para bate-papo, têm por diretriz um pensamento clássico de Berthold Brecth, meio pernóstico ou gabola, mas a rigor verdadeiro, que define as pessoas em três categorias, quando conversando: as inteligentes, que falam de idéias; as pessoas comuns, que falam de coisas; e as pessoas medíocres, que falam de pessoas. As medíocres por falta de assunto, comentam a vida alheia, mentem, caluniam, detratam, - são as conhecidas e famosas faladeiras ou fuxiqueiras, categorias na qual o Ceará é campeão brasileiro e tem o Crato como vencedor “hors-concours” de todos os certames estaduais.
Pois foi em um desses bate-papos que pedi ao meu grande amigo, Dr. João Marni de Figueiredo, conhecido pediatra de nossa cidade, o qual é também formado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco, que me dissesse de onde vem a paixão,- por que as pessoas se apaixonam, algumas por um ideal, outras por objetos, tantas outras por animais e outras ainda, misteriosa e irracionalmente, por outras pessoas. Ele não respondeu imediatamente, mas entregou-me sua resposta seriamente escrita e de forma tão elegante e rica, que resolvi publicá-la hoje, enriquecendo esta crônica com seus conceitos.
Define assim o Dr. João Marni a origem da paixão:
“ A paixão vem de regiões escondidas da nossa alma, dos mares bravios de lá, surge de forma súbita arrebatadora feito uma doença incontrolável: sem limites, sem regras, sem remédio. É capaz de invadir, prender e matar, como um tirano. Para em seguida desatar os nós dos laços, saindo em busca de outros chamados, de onde rouba o sono e a fome. O amor...ah! , o amor é brando, paciente, contemplativo e capaz de sofrer em silêncio, querer bem sem ser correspondido; é fiel, gosta de prender-se a um aconchego, a um cafuné. Tem juízo e vem do coração do Mar da Tranqüilidade. A paixão aproxima, é chama ardente, é verão. O amor une, gruda, é fogo brando em permanente primavera.
A paixão é o hoje, é terra de ninguém, “non sense”. Alimenta-se de cartas românticas.O amor é o hoje e o amanhã e alimenta-se da verdade.
A paixão prende e procria, o amor liberta e perpetua.
Mas acredite: - quem criou um, criou o outro”!

29.07.2009

Reviver

Quando o Messias aconselha
a deixar para trás os mortos

percebe quão doloroso
esquecer a soberania do corpo

mesmo os músculos flácidos
e a carne podre.

Agora que acordaste
com os olhos bem abertos

e a alma adormecida
da queda de ontem

nega de vez o combate -
aceita teus despojos
lodosos e insignificantes.

Não há outra verdade
senão a luz faísca do tormento.

Mastiga teu comprimido contra vermes.
Bebe um pouco de água.

Agora dorme.

Só um toque

um toque


Anita D.Cambuim


Toque o meu coração agora

e me encha de ternura

Por que tu, ó criatura

tens o dom de me tocar

Toque o meu coração agora -

ponto reflexo da minha alma

Toque leve, tenha calma

pois, embora não pareça

eu sou frágil como uma flor

Toque o meu coração pra

que eu sinta quão suave é teu tocar

Desvenda os meus mistérios

Me ensina a delícia de te amar.

Haicai 002

Atchim no elevador

Esvaziado no próximo andar –

Conscidência?

Anita D.Cambuim

Zé Clementino - Por A.Morais



A morte do compositor José Clementino consternou o Cariri.

Ao lado de Luiz Gonzaga, Padre Antônio Vieira e Patativa do Assaré, Zé Clementino fez parte da “Trilogia do Ciclo do Jumento”, um movimento idealizado em Crato, em defesa do jegue.

A iniciativa tomou dimensão nacional através da música e da poesia dos quatro defensores do jumento. A campanha ganhou mais intensidade na década de 80, quando os quatro se encontraram na Exposição Agropecuária do Crato (Expocrato), sob a presidência de Henrique Costa.

Padre Vieira chegou ao palanque, onde se encontravam Luiz Gonzaga, Patativa e Zé Clementino, montado num jumento. Ao lembrar este fato, destacacamos que Zé Clementino foi um dos mais vigorosos músicos do Ceará. É o autor de autênticos clássicos da música nordestina, tendo sido interpretado por alguns dos grandes nomes da MPB, dentre os quais o “Rei do Baião” — Luiz Gonzaga.

Funcionário público aposentado, Zé Clementino, que já morou em Crato, quando trabalhava no INSS, integrou-se à vida boêmia da Princesa do Cariri, fazendo parcerias com outros artistas. Com o “velho Lua”, o talento de Zé Clementino ganharia destaque nacional, ao passo que, por outro lado, a inventiva produção artística do compositor varzealegrense proporcionaria vitalidade e renovação à obra musical de Luiz Gonzaga.

O “batismo” fonográfico da parceria Luiz Gonzaga-Zé Clementino procedeu-se, de certa forma, quando o “Rei do Baião” atravessava um longo período de ostracismo e mesmo de indefinição quanto à continuidade da carreira artística.

No seu trabalho anterior, o ilustre “sanfoneiro de Exu” mostrava-se desestimulado e cético quanto aos possíveis rumos de sua até então vitoriosa trajetória musical. Numa de suas canções mais emblemáticas da época, Luiz Gonzaga lamentava:

“Pra onde tu vai, Baião? / Eu vou sair por aí / Mas por que, Baião? / Ninguém me quer mais aqui...”.

De fato, o Baião, assim como outros ritmos nordestinos, havia perdido o forte apelo comercial que gozara no passado, particularmente em virtude do surgimento de novos movimentos musicais — a Bossa Nova e a Jovem Guarda.

Nesse panorama, foi lançado o álbum “Luiz Gonzaga – Óia Eu Aqui de Novo”, o qual continha três canções compostas por Zé Clementino. Uma delas, o “Xote dos Cabeludos”, uma bem humorada crítica à estética ‘hippie’ que conquistava a juventude de todo o mundo, tornou-se uma das músicas mais executadas do país no verão de 68, trazendo o ‘Rei do Baião’ de volta à mídia e despertando o interesse das novas gerações pelo riquíssimo acervo musical do artista. Naquele mesmo ano, Zé Clementino confere uma legítima e emotiva dádiva à sua cidade natal, quando compõe a letra do Hino Oficial de Várzea Alegre.

No seu álbum seguinte, Luiz Gonzaga grava “O jumento é nosso irmão”, uma homenagem à luta, encampada pelo Padre Vieira, em prol da preservação da espécie asinina. Em 1976, fazendo proveito do mesmo tema, o Rei do Baião gravaria “Apologia ao jumento”, uma espécie de discurso inflamado em que, com muito bom humor, exalta as benesses do “pobre e castigado” animal. Registra ainda o xote “Capim Novo”, outra canção do compositor varzealegrense, cuja letra sugere uma “discutível” alternativa terapêutica e afrodisíaca para os homens que enfrentam os “percalços” da terceira idade. Em 1978, o Trio Nordestino, na época o campeão em vendagem de discos no segmento de música regional, grava “Chinelo de Rosinha”, uma parceria de Zé Clementino e Paulo César Clementino.

Em 1983, o Brasil vê-se tocado pela sensibilidade musical do prodigioso varzealegrense Serginho Piau, que executa a comovente canção “Simplesmente Zé”, de autoria de Zé Clementino, em alguns programas televisivos. Por fim, os anos 90 marcaram o processo de revitalização estética e musical do forró, e o cearense Sirano, um dos mais bem sucedidos artistas do Ceará.

Entre as suas músicas estão: “Aí não deixo não”, “Xote dos cabeludos” , “O jumento é nosso irmão”, “Apologia ao jumento”, “Contrastes de Várzea Alegre”, “Capim novo”, “Sou do banco", "Xeêm”, “Chinelo de Rosinha”, “Jeito bom”, “Hino Oficial de Várzea Alegre”, e “Simplesmente Zé”.

Ele faleceu vítima de enfarte no Hospital de Várzea Alegre, aos 69 anos de idade.

Gravada pelo Trio Nordestino e campeã de vendagem veja a letra de :

Aí não deixo não!

Não, não, aí não deixo não!
Se você beijar aí vai ser grande a confusão.

Eu gosto muito de você e tenho admiração,
Entreguei só pra você meu coração.
Meu benzinho pelo bem do nosso amor,
Eu lhe peço, por favor.
Aí não deixo não!

Leve seus troços, vá deixar noutro lugar
Se você não quer casar
Porque vem com enrolação,
Você bem sabe, estas coisas não aceito,
Isso é falta de respeito
Aí não deixo não.

Não, não, aí não deixo não.
Se você beijar aí vai ser grande a confusão.

A. Morais

Apresentação do Madrigal , em 17.07.2009- Por Nacélio Oliveira



Dia do Patrimônio Cultural - Crato, 30 de Julho






















A furta cor de um dia

O parque, da quadra Bi-Centenário do Crato, sempre foi para mim uma espécie de refúgio, de idílio e de reserva imaculada de auto-afirmação, durante os meus conturbados anos de adolescência. Era um período de revolta inerente. Eram os fins da década de setenta e inícios dos anos oitenta. Foram praticamente três anos na companhia diária de Geraldo Urano, Clélio, Romildo e Orlando, principalmente. Sempre recebíamos algumas visitas inusitadas, bem como sabíamos de algumas despedidas repentinas, como a minha, por exemplo, rumo aos jardins suspensos do bairro Pinheiros, em São Paulo.

O horário sagrado era o pingo da mei dia. Os alunos passando ao largo, os sonhos flutuando à nossa volta, como pedras coloridas suspendidas, as divagações assumindo deliberadamente a solidão dos andarilhos envoltos em lençóis psicodélicos, enquanto a filosofia vã dos desocupados desenhava em nossas mentes paisagens urbanas ocupadas por tropas de assalto e anarquistas espiritualizados nas mais altas esferas da teosofia, dos mitos e do esoterismo fácil dos mundos adjacentes ao absurdo.

Discutíamos de tudo, tanto no sentido lato como no sentido estrito. As leituras eram colocadas em dias e debatidas com uma ferocidade sarcástica que se superava a cada dia, trocando de pele como uma cascavel da caatinga, recém chegada dos desertos americanos. Geraldo tinha uma capacidade mórbida de desconcertar qualquer um com comentários lúcidos e perturbadores. Romildo era dono inconteste de argumentos ferinos contra qualquer coisa. Clélio era o anarquista que todos nós precisávamos constantemente para crucificar a sociedade em nosso passatempo preferido. Orlando era a mansidão naturalista em pessoa, o peso ideal para aliviar e elevar as nossas dores marginais.

Geralmente chegávamos ao nosso encontro diário e inadiável com as idéias fervilhando os nossos ideais. Sempre existia uma certa concordância inicial sobre qualquer coisa. Depois a dialética revestia nossas íris com um arco-íris chamuscado pela urgência existencial de cada um. A catarse era coletiva e individual, com a mesma intensidade com que um ovo é fritado na imaginação de um vagabundo, aos pés de um viaduto de uma metrópole encardida pela fuligem do asfalto e do gás carbono. A tensão era a nossa marionete. A sociedade o nosso Pantagruel. A arte e a cultura eram o outro perdido no labirinto de Borges. Nosso senso crítico distribuía igualitariamente um Dom Quixote para cada moinho movido pelas nossas controvérsias. A gente se despedia, ou não, sempre de mãos vazias, mas com a alma repleta de saudades inconfessadas já para o próximo dia.

Naquele dia sentamos em completo silêncio e nele mergulhamos nossos anseios, vitórias e derrotas, e nele permanecemos, em perturbações imperceptíveis, como uma árvore que cria cascas, quebrando espelhos e fundando universos paralelos. Foram as três horas mais prolíferas da minha vida, naquele período de descobertas indomáveis. Foi aquele silêncio barulhento que fez com que eu percebesse que naquele exato momento aqueles dias inesquecíveis haviam acabado e que não reencontraríamos mais nenhum daqueles nós mesmos de há pouco tempo atrás. Foi naquele dia que o saudosismo foi definitivamente banido do meu reduto. Senti na face o vigor do sorriso de quem reconhece o próprio sangue pulsando nas veias.

Nicola di Bari , na amplificadora blogal

Divórcio à Italiana - por José do Vale Pinheiro Feitosa

Olho para teu sorriso, outrora sedutor, e nele um plástico moldável pela conveniência diária. Os cabelos continuam longos, brilhosos e envolvendo teu corpo, mas me dão coceiras de calor. Sabe estes olhos entre verdes e azuis, uma cor de encanto de borboleta, se tornaram enfeites inertes do cotidiano.

Quando falas com humor, acende-me um fogareiro de rancor. Vagueias pelas incertezas humanos de Shakespeare ou Nietzsche e todo o meu dia se torna um tédio com porta aberta para a rua. Se falas das coisas doces ou dos perfumes naturais, sinto as moscas sobre o merengue e me transporto aos odores dos matadouros.

E me vens com as lembranças dos filhos. Dos filhos que ambos fizemos no exercício das paixões em cópulas de dias inteiros, mas o que me resta são as faturas das creches ou as notas incertas dos colégios. A conta do médico, a paga da farmácia, a padaria, o mercado, a TV a cabo e a internet.

O nosso passado e o nosso amor são chagas que doem em cada esquina do cotidiano. E quando me vens à memória, é com certo asco que a esqueço. És palha de arroz, o borralho da queima da caldeira. Quando te vejo em foto, me vem um desejo de deletar teus pixels. Um desejo de nem mais haver uma tela em branco. De nunca ter havido uma tela.

O pior da palavra divórcio é a perpetuação em si do casamento, pela via da negação. Quando alguém me diz divórcio, logo um fel de lembranças ruins me toma da cabeça aos membros. E hoje, nem gostaria de sonhar que um dia nunca tivesse te conhecido. Tal sonho é apenas a lembrança de meu corpo colado ao teu. E tenho rejeições como uma doença crônica.

Nada mais me restando, mudo de vida, mudo de cidade, embora não mude de mim, vou a busca da bomba atômica que promova a fissão da minha substância. E mesmo envenenado pelas partículas que de mim se dissiparão é preciso que morra com esta lepra de amor roto.

E desesperado após esta última frase, todo motivo novo é uma solução do velho. E jamais gostaria de ter vivido este velho. Mas vivi. E ainda vivo dele. Dela. Dos múltiplos que vieram dos dois.

Como fazer? Divorciar-me do divórcio?