Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

o sertão

o sertão salta das linhas da mão
e percorre a lâmina dos olhos
sua água imprópria à sede

com ela se mede a distância
do vivido ao sonhado
e hoje se funde numa só certeza

o sertão antes do outro lado
agora sua paisagem exposta nesta mesa
o sertão, irmão, sou eu enluarado

no presente sua presença perfumada
que se acerca e não consola mais
da tão grande diferença dada
entre a areia e as cercas das estradas
agora em mim vestidas de metais

o sertão sou eu secando no lajeiro
de sílabas mal contadas
de rimas todas tortas
o sertão, irmão, sou eu quando é janeiro
e fecharam-se todas as portas

de não se poder encontrar uma saída
aprisionado numa triste esfera
semente no interior da pedra
o sertão maior do que o que era
no momento de sua despedida

o sertão, irmão, sou eu por toda a vida...

5 comentários:

Edilma disse...

Chagas,

Lindo e verdadeiro o seu poema do sertão.
Adorei e adoro tudo que vem do nosso chão.
Parabéns !

Abraço !

Chagas disse...

Edilma,

Ontem eu tava num bar da Rua Washington Luis, lá no centro, bebendo uma cerveja com um amigo. Saímos pra fumar. De repente, surgiu uma senhora baixa, magrinha, rosto marcado pelo tempo. Ela perguntou como fazia pra chegar ao Vale do Anhangabaú. Explicamos, e ela, muito educadamente, agradeceu e se foi. Eu não tive dúvida. Aquela fala, aquele rosto, toda aquela simplicidade incongruente com esta cidade, certamente era uma mulher da minha terra, há muito tempo vivendo aqui. Na música de Adriana Calcanhoto, "toda sexta-feira, todo o mundo é baiano". Aqui em São Paulo, todo nordestino é baiano.

Pois bem, a pessoa sai do lugar, mas o lugar não sai da pessoa. Foi daí que me ocorreu a idéia de escrever um poema sobre o sertão, não o que está fora, mas o que vindo de fora permanece dentro da gente, memórias.

Esse poema é um gesto de simpatia para com aquela senhora, que certamente nunca mais eu verei.

É isso...

Aloísio disse...

Chagas,

Beleza de poema. Parabéns!!!
Já passei por esta experiência quando vivi no Rio de Janeiro. Uma música, um sotaque, uma comida, tudo isto nos traz ao nosso torrão natal.
Este seu comentário acima explica tudo.

Abraços
Aloísio

Edilma disse...

Chagas,

Que gentileza me contar este episódio.
Essa proximidade que a internet nos proporciona é algo tão bonito que as vezes nem nos damos conta de distancia.
Estamos aqui tão longe e tão próximos, mas se encravando no peito uma linda amizade.
Bom ter voce como amigo.

Até a próxima!
Edilma

Claude Bloc disse...

Chagas,

Seu poema é um retrato de cada um de nós que ama esta terrinha.

Depois de explicada a sua motivação para escrevê-lo fica mais explícita a beleza do momento que o levou a escrever...

Me senti um fragmento daquela mulher.

Abraço,

Claude