Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Onde andavam essa fotos? - Por Claude Bloc



Claude (3 anos)
Tentei bordar algumas lembranças enquanto dormia. Uma menininha sorridente insistia em me dizer que a vida era boa. E eu acreditei. 

Olhei para a primeira foto. A imagem de uma vida feliz  estava estampada no sorriso inocente daquela menininha. Senti saudade dos meus avós maternos e por incrível que pareça, um velho filme, desenrolou-se em minha memória. Nessa época, eu estava na França. Na horta de minha avó Germaine. Aprendia o Francês com facilidade e me tornei fluente. 

Ia à praia com meus primos Michel e Mailé e observava o mar descer muitos quilômetros até se esconder nos confins da baía (Bassin d'Arcachon). Deixava atrás de si, grandes valas naturais onde a gente ia pegar camarão e mariscos. A água era fria e em alguns trechos havia muitas algas finas. A brincadeira era sempre marcada de risadas... Gritinhos finos. O mar sem ondas era propicio ao banho...
Georges Bloc, Claude, Janine, Dominique e Huguette

Mas o Brasil tinha seus apelos. Meus avós paternos decidiram se instalar no Ceará e viver entre os filhos e netos. Assim, Fortaleza e Serra Verde foram os polos de sua moradia. Depois veio o Crato. Isso foi definitivo. Dividiam-se enquanto a família se multiplicava devagarinho. Inicialmente éramos eu e Dominique.

Mamãe, sempre bela, tinha alguns percalços a superar. Sabe como é aquela convivência entre sogra e nora numa mesma casa... Algo meio complicado quando a sogra tem um sentido muito apurado de família e quer ter um espaço e uma participação, além do que deveria ser... No Início, foram ossos duros de roer. Depois, a força do amor e da amizade fizeram pontes entre os sentimentos e a harmonia acabou com o ranço.

Dominique, Mamie Menotte (Germaine) e Neném - (e os cães Dick e e Nico)
Minha avó materna veio ao Brasil algumas vezes. Era mais fácil vir assim apenas uma pessoa. O calor nordestino a incomodava, mas a alegria de poder conviver com a família brasileira a fazia esquecer esses detalhes.

Deixou a cada viagem o seu exemplo e sua simplicidade como marca fundamental. Apesar da barreira do idioma, conseguia se comunicar com as pessoas serraverdenses. Queria aprender os costumes, observar as diferenças e semelhanças entre a vida na França e aquela que encontrou naquele sertão brabo. 

Como exímia costureira e bordadeira, observou naquela época que na maioria dos bordados da região prevalecia a cor vermelha nas flores e o verde forte nas folhas e folhagens. Apesar de não ter conseguido falar Português, ela também observou que, na década de 50, nas letras das canções brasileiras a palavra "coração" ( que ela não conseguia pronunciar direito) aparecia na maioria delas. Enfim, foi uma convivência ímpar, que se repetiu duas ou três vezes mas que nos trouxe um grande carinho e amor por aquela avó brincalhona e gentil.
Hubert Bloc (já em Serra Verde)

 Seu Hubert, meu pai, era um caso à parte. Uma alma gentil e amorosa.  Vigoroso em seu trabalho, parecia um dínamo. Chegou novinho (23 anos) ao Brasil e teve que se aclimatar num sertão de gente matuta, mas cheia de vigor.

Já a essa idade havia vivenciado as agruras da II Guerra e tinha que se superar num país estranho e totalmente diferente daquele mundo polido e cheio dos travos da guerra. Sempre dizia que tinha um "Português ruim", mas o Rótary lhe deu asas e conseguiu escrever o Português melhor que muitos brasileiros. Era belo, inquieto, aventureiro. Tentou viver o que a guerra lhe privou de ter  nas mãos. Errou, mas não foi por falta de garra. A vida ceifou seu futuro muito cedo (65 anos) mas conseguiu, na sua espontaneidade, deixar amigos onde quer que fosse e um legado de amor entre os seus. 

Agora fico aqui entre essas fotos. Fazendo elos entre elas. Nos vazios me debruço sobre essas irremediáveis faltas. Ausências que vão se deixando ficar pela história da minha vida.


Claude Bloc

7 comentários:

Magali de Figueiredo Esmeraldo disse...

Gostei de ler as suas memórias! Lindas as fotografias! Feliz Páscoa!

Um grande abraço.

Magali

Liduina Belchior disse...

Que menininha tão linda e pura!
Ali já existia, em miniatura, a grande poetisa Claude!

Abraços; Liduina.

Edilma disse...

Claude,

Me emocionei ao rever as fotos de seus avós paternos e avó materna. A primeira mousse de chocolate que deliciei na vida foi feita por Mami Huguette, lá na Serra Verde. Lembro até hoje aquele gosto especial no pequeno potinho de vidro...
A foto do seu pai, mostra como era belo e elegante.
Belas lembranças...
Beijo !

Claude Bloc disse...

Magali,

Estava com saudade de você por aqui.
Sei porém como anda atarefada, mas sua presença é sempre motivo de alegria.

Abraço,

Claude

Claude Bloc disse...

Obrigada, Liduína, pela sua presença aqui e sobretudo pelas palavras de carinho.

Abraço,

Claude

Claude Bloc disse...

Edilma,

Onde é que você anda, menina? Que bom que você gostou da minha historinha!

As fotos foram cedidas por Ceni, filha de Neném que trabalhou lá em casa, na Serra Verde. Ceni está na postagem anterior. Não sei se você se lembra dela.

Mas aquele pudinzinho de Mami, eita bicho bom!

Pena que era só uma porçãozinha para cada um (risos).

Abraço,

Claude

Daniel Boris (Jacques) disse...

Mana, a saudade e lembranças boas, é como carinho de mãe,nunca é de mais.

Beijos

Teu Mano