Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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sábado, 2 de abril de 2011

Pode ser uma bênção a sensibilidade artística? – por Ronaldo Correia de Brito (*)


Quando havia feiras de rua semelhantes às da Idade Média, em Crato e Juazeiro do Norte, as duas cidades eram tomadas por artesãos: ceramistas, flandeiros, tecelões, moveleiros, celeiros, pessoas que trabalhavam o couro, a palha do buriti e do babaçu, o agave e a lã vegetal.

A região ainda não fora invadida pelos plásticos, eletroeletrônicos vindos do Paraguai, nem pelas quinquilharias importadas da China. Havia artistas populares que viviam de trabalhos manuais, de utilidade na vida diária, como potes, quartinhas, panelas, colchões, arreios e cordas. As cidades mudaram e esse artesanato perdeu sua razão de existir.


Com a proliferação das motos, diminuíram os cavalos e os fabricantes de celas. As panelas de alumínio, os plásticos e acrílicos ganharam a concorrência com os utensílios de barro, que se transformaram em objetos decorativos. O que era útil perdeu a função. Para que fabricar caixotes de madeira e malas de armazenar rapadura, se não existem mais engenhos nem consumo de rapadura como antigamente?

A história do homem pode ser acompanhada pelo que fabrica ou deixa de fabricar. Máquinas de datilografia viraram peças de museu, da mesma maneira que vitrolas e câmeras super-8. Vez por outra encontram um novo uso para o que foi encostado. Os DJ reinventaram um jeito de tocar os discos de vinil. Todo esse preâmbulo para falar de uma ceramista de Juazeiro do Norte, conhecida pelo nome de Ciça do Barro Cru, pois não levava ao forno os objetos de sua criação, deixando-os secar ao sol.


Conheci-a quando fazia ponto de venda junto a um canal, construído pela prefeitura do Crato para conter as águas do rio Granjeiro. Ela se apresentava como boa parte das romeiras do Padre Cícero: vestido de algodão colorido com pregas, cintura alta e cobrindo o joelho. Um chapéu de palha na cabeça, guarda-sol, cabelo com bastante óleo de coco, preso por marrafas, lábios pintados de vermelho e faces com bolas de ruge carmim. Sentava num caixote de madeira, o mesmo em que transportava sua arte.

A vida meio rural e meio urbana do Cariri era representada em mulheres costurando, fazendo renda, homens com enxada no ombro, burrinhos, lagartixas com rabo de borracha, pavões com calda de papel laminado e areia prateada, rádios, panelas, galinhas, papagaios, não havendo uma única coisa que o freguês imaginasse que Ciça não fosse capaz de executar para ele. Contemporânea, incorporava ao barro o lixo urbano, isso que hoje chamam de reciclagem. Performática, criava cenas, ambientes e falas para seus personagens.


Ousada nas cores, nos materiais, nas invenções. Certo dia, cheguei para comprar. Vi a cerâmica de uma mulher faltando uma perna, apoiada numa muleta, com uma trouxa de roupa na cabeça própria das lavadeiras, e um menino no braço, mamando. Perguntei quem era a figura. - É uma infeliz, me respondeu. O marido deixou ela com um menino de peito, e a coitada ganha a vida lavando roupa. Sustenta a família com esse ganho pouco. Como se não bastasse, foi atropelada por um carro e perdeu uma perna. Não é mesmo uma desgraça? E se pôs a chorar. Tentei consolá-la e perguntei se era alguma conhecida, mas ela respondeu que não. Imaginara a história. Grandes artistas criam um mundo e mergulham nele. Correm o risco de uma esquizofrenia com a realidade. Mas isso nunca aconteceu com Ciça, felizmente.


Também não me vendeu a cerâmica. Se pudesse, não venderia uma única peça de sua criação, me falou quando propus a compra. O dinheiro que pagavam era bem pouco. Melhor ficar com tudo guardado, mesmo que passasse fome. Sem chances de concorrer com os utilitários, o bom barro sobreviveu como arte, graças às Ciças e outros artistas populares. As panelas de barro... As panelas de barro? Vocês conhecem os últimos lançamentos em teflon? E as de aço? As de aço...


(*) Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca, Livros dos Homens e Galileia, dentre outros. Reside em Recife.

2 comentários:

Claude Bloc disse...

Armando,

Essa postagem nos traz uma história rica, não só em informações como também em termos humanos, nos mostrando a grandiosidade e o tesouro escondido na alma dessa gente nossa.

Uma sensibilidade que denota uma inteligência que a pouca cultura não permite muitas vezes evidenciar.

Simplesmente fantástico esse texto de Ronaldo Correia.

Armando Rafael disse...

Claude:
Outro dia reencontrei Ronaldo Correia de Brito no Aeroporto de Juazeiro.

Ele regressava a Recife, após uma de suas costumeiras visitas ao Cariri, coisa que ele faz com relativa frequência.

De imediato o reconheci. Ele ainda lembra aquele rapazinho pálido que morava nas imediações do antigo Parque Municipal (hoje Praça Alexandre Arraes) onde fica a Quadra Bicentenário.

Apesar de ser hoje um dos maiores escritores brasileiros (ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, com seu romance “Galileia”, considerado o melhor livro do ano), Ronaldo continua com a mesma simplicidade daqueles tempos.

Penso que você se lembra dele, pois Ronaldo estudou no Colégio Diocesano nos anos 60 e era habituée das tertúlias do Crato Tênis Clube.