Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Helena e o Vento - José do Vale Pinheiro Feitosa



video

Prece ao Vento - música de Gilvan Chaves, Alcyr Pires Vermelho e Fernando Luiz Câmara cantada pelo Trio Nagô.


Ontem por volta das 18 horas, a considerar a variação do tempo entre um território e outro: romperam-se as barreiras dos céus. Num repente que assusta nossos espíritos afeitos ao esperado.

Um tsunami de ventos. Dizer que foi um vendaval não desvenda a surpresa de quem estava nas ruas do Rio. Não houve anúncios. Abriram-se as vagas de uma ventania que já vai levantando, arrastando, derrubando, quebrando, dobrando, enfim num gerúndio que parece durar até o infinito.

Afinal para nós os portadores da finitude, o infinito é tudo aquilo que vai até a marca do fim. Maria Helena Carvalho abriu os olhos mais do que todas as surpresas anteriores. Mas logo os fechou com o pavor dos argueiros a danificar a visão.

Jarros de flores caiam. Um canto agudíssimo saía de cada fresta de sua residência. As portas interiores da casa batiam quase a ultrapassar os batentes dos portais. Sobre o teto da casa barulhos de coisas em velocidade estorvadas por obstáculos.

Tudo que era flexível estava em espasmos quase epiléticos. O que era sólido ameaçava rachar e quebrar-se. Os líquidos eram maremotos proporcionais ao espelho de suas águas, como aquelas no copo que Helena desejava beber.

Um mundo estava literalmente se desagregando. Se espatifando. Se vidros houvesse se estilhaçariam. As pétalas das flores se esgarçavam. As folhas voavam. Os galhos se quebravam e caíam em rodopio em alvos potenciais. Poderia ser qualquer alvo, era apenas uma questão de grande chance de acertar.

A prova maior da pouca separação entre a intimidade do mundo e a intimidade de Helena: os pensamentos eram ciclones endoidecidos. Helena não conseguia juntar idéias, buscar uma experiência anterior. Não tomava qualquer decisão por falta de uma reflexão para mover a vontade.

Mas acontece. No nevoeiro enlouquecido do medo, quando todas as idéias corriam aos ventos, Helena lembrou uma simpatia da mãe. Lá nos idos dos tempos perdidos, naquele interior de Cachoeira do Itapemirim, as casinhas da roça com as telhas ameaçadas pela ventania. Todas as crianças apavoradas e a mãe de Helena fazia uma “simpatia”.

Helena nem refletiu e partiu para a janela da frente de sua casa a repetir o que a mãe fazia. Abriu a tesoura para a ventania. Ela cortaria as cordas do vento. Enfraqueceria o vento ao dividi-lo em partes. Era uma medida quase militar.

E o vento cessou. O mundo novamente tinha a humanidade de Helena. A “simpatia” funcionou.

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