Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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domingo, 12 de dezembro de 2010

Eu vou......José do Vale Pinheiro Feitosa

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Nossos sentidos além de absorver a filigrana de milhões de coisas é o maior centro da síntese humana. Nenhuma referência é mais forte do que um perfume, um gosto, uma audição, um olhar ou um toque. Apenas a insinuação de qualquer um se torna um quantum, um momentum sintético de enredos completos ou de um discurso inteiro.

Assim é o gosto de segunda feira no côncavo da minha terra. O casco dos animais trazendo a mercadoria para serem arrumadas nas ruas. A conversação dos comerciantes no sereno das madrugadas entre o domingo e a segunda feira: o dia da feira no Crato.

O caleidoscópio especializado de ruas ou trechos de um ramo de mercadoria: cerâmica (barro), corda, frutas (especialmente banana e abacaxi); legumes, rapadura, roupas e objetos de couro. Um caleidoscópio complexo que, se tentássemos fazer o percurso inverso das centenas de tributários que alimentavam a feira, daríamos em terras encantadas do mais profundo rural antigo.

Os altos falantes das lojas anunciando as vantagens que existiam uma vez se ultrapassem suas portas ou se abeirassem das bancadas que expunham as ofertas. A voz altitonante dos anúncios ao se mesclar no vozerio das pessoas se espremendo nas calçadas nos deixando com a cabeça atordoada de tantas mensagens.

Um quebra queixo, um olhar de filhós, um desejo de mariola, a paquera do tijolo de leite de Joaquim Patrício. Um refresco, quem sabe o velho crush só para dar um arroto de arrasar quarteirão. E as obrigações, no Salão ABC para a máquina raspar o cabelo nas laterais, deixando apenas um resto de matagal no topo da cabeça.

E de repente respirar fundo ao deixar para trás aquela multidão igual um temporal no largo generoso e sedutor da Praça Siqueira Campos. Mizalmir, Cu de Apito, Lasquinha, Pedro Maia e seu Berredo no velho Chevrolet dos anos 40. O encanto dos cartazes do cine Cassino e o desejo de seduzir as atendentes do Café Crato. Nunca aconteceu, não era para aquele moleque, mas repetia para não ser diferente.

No final da tarde, pelas três e meia, com um dinheiro da entrada, um trocado para um Sonho de Valsa e as correntes do Cine Moderno, em desejo da bilheteria aberta. A sessão que remetia o freguês para mundos fantásticos, que podia ser uma aventura no futuro, em Marte ou na Velha Roma, nalgum recanto do Velho Oeste ou na Fantasia de Conto de Fadas.

Nas seis horas, um coração solitário. Um medo de isolamento, sensação de abandono. Pela Santos Dumont, com as lojas fechadas (o verdadeiro Canto do Cisne é o das portas corrediças das lojas sendo abaixadas), oS restos de cascas de frutas na altura do mercado, a Padaria de José Cirilo com o mantra do pão da noite.

E tudo cessava, o mundo se ajeitava, retornava ao domínio da insensata segurança, nas luzes de um lampião de camisa. Um lampião Aladim.

7 comentários:

socorro moreira disse...

Tu me matas, diacho !
Parece que eu tô é vendo, sentindo e gostando !
Farda com as pregas amassadas, ao meio dia.
Um cheiro de white magnólia, na sessão das 4 h
Uma espera ansiosa na cadeira guardada . A gente ainda segurava com o braço pra ninguém ocupar aquele lugar sagrado.
Faço de contas que o passado chegará nesta madrugada.
Te espero na feira do amendoim !

Abraços por tantas emoções multiplicadas.

Claude Bloc disse...

Menino José,

Desta vez você remexeu com as raízes mais profundas de minha saudade. Num relance a minha vida cratense repassou pela minha memória. Coisas idas e vindas. Feira, Novenas de N.S. da Penha com seus leilões, Exposição Agropecuária, praças, festas nos clubes, tertúlias nas residências... vidinha provinciana cheia de encantos (juvenis).

Veio tudo de repente numa enxurrada... Obrigada por me proporcionar este momento.

Abraço,

Claude

Edilma disse...

Do Vale,

Só ia dar uma espiadinha rápida por tantos afazeres as vésperas do Natal mas não me contive.
Este é o Blog Cariricaturas que adoro com voce descrevendo este Cratinho de Açúcar tão gostoso de se ler.
Leitura prazerosa e cheia de emoções em cada relato da saudade dos seus tempos de menino.
Eita do Vale você vale demais !
Feliz Natal !

José do Vale Pinheiro Feitosa disse...

Meninas deixe jeito sim! Eu vou....

José do Vale Pinheiro Feitosa disse...

Eita caba errado: num é deixe, ou é, mas devia ser "desse jeito sim". Nem sempre o erro é erro, pode ser "ato falho".

socorro moreira disse...

"Desse jeito sim
Desse outro jeito não... "
Acho que entrei na onda xote ( risos)
O nome de bastyidor agora é academia do xote !
Quem fala do Crato desse jeito tem que entrar e aguentar a festa !

Edilma disse...

Do Vale,

Estou participando de duas coletivas no Rio de Janeiro por este mes de dezembro.
Se poder conferir se faça meu convidado.
A primeira no V Salão Artes da Marambaia, Centro de Avaliação do Exército. A Expô vai até o dia 17 deste. A ilha, a uma hora e meia do centro do Rio, protegida pelas forças da Marinha, Exército e Aeronáutica. Uma exposição de artes plásticas anuais de obras selecionadas, as visitas são guiadas pelos militares que fazem as honras aos visitantes.As visitas são por via aérea ou marítima. Estou representando o Crato com uma marinha de Veneza intitulada " Gôndolas de São Marcos " medindo 92X60. trabalho expressionista.
A outra é no VI Salão Especial de Artes Plásticas - ABD,
Museu Militar Conde de Linhares, também com encerramento em 17 deste.No salão das bandeiras, Av. Pedro II, 383, São Cristovão, estacionamento no local com seguranças militar. Estou representando a nossa gente com arte moderna Contemporânea, medindo 52X52, trabalho em vidro líquido, intitulado "Pavor em Chamas".
Se me der o prazer ficarei lisonjeada com a sua visita.
Grande abraço !

Edilma Rocha