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"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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domingo, 26 de dezembro de 2010

Por José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando se pega a história de alguém a partir do seu momento, geralmente se esquece que muito daquela trajetória poderia ser outra. Antes como possibilidade e depois como fato consumado.

Uma das maiores “dores de parto” do século XX, em termos de história, teve um ano como referência: a revolta estudantil de 1968. Ali o velho mundo pós guerra era testado, sobre as liberdades, o progresso material e direitos sociais, como à educação.

No Brasil, em 1969, vivia-se uma ditadura que engrossava a repressão. O Presidente Militar morreu, dizem que não foi por causas naturais e sucedeu-lhe uma Junta Militar. Com Atos Institucionais que tiravam a liberdade das pessoas e no meio estudantil, o alvo estratégico do regime, um decreto que perseguia estudantes em militância política.

Vincou a repressão e logo nasceu o movimento de resistência. Seja pela guerrilha ou no meio cultural. Foi aí que surgiu um dos jornais mais importantes do Brasil no referido século. O Pasquim. Um jornal iconoclasta para a época, que nem se engessava na disciplina do PCB e nem prestava loas aos donos da grande imprensa que ajudavam o regime.

Na contramão desta contra-reação, meio por acaso para eles, mas determinístico para os interesses do regime, surgiu, no V Festival de Música Popular Brasileira uma dupla de baianos: Antônio Carlos Marques Pinto e José Carlos Figueiredo. Cantava uma música popular, que caía rapidamente no gosto das rádios e toda ela em espírito meloso, bem sambado, com melodias e refrões que colavam na memória do ouvinte.

Era a dupla Antonio Carlos & Jocafi contra a qual o Pasquim “mandava brasa”. Naquele tempo de música de protesto, politizada, vinha aquela dupla com o passivo escapista. No meio daquele perigo todo, tentando escapar da polícia nas madrugadas de pichação, a ditadura não vinha abaixo e ainda tomávamos umas caipirinhas ouvindo a dupla melosa.

O que fazer? Era gostosinha aquela música. Lembrava o velho Brasil dos sambas canções, por vezes indo lá no fundo daquele samba meio amaxixado ou marchas típicas da época de Sinhô. Este aliás se envolveu em muitas polêmicas com seus pares, acentuou a famosa pirataria das autorias de sambas, tão comum com Chico Alves, numa polêmica com Heitor dos Prazeres que acusava Sinhô de ter-lhe “roubado um samba”, respondeu este respondeu-lhe: “Sam é como passarinho. É de quem pegar”. Isso veremos sobre um roubo com a dupla de baianos.

Antonio Carlos casou-se com cantora Maria Creuza que fazia muito sucesso na época. Por uma conjuntura da época começaram a carreira nos festivais: em 1969 no V Festival de Música Popular Brasileira" com a música "Catendê" gravado por Maria Creuza com grande sucesso. Aqui a música com ela, Vinícius e Toquinho. O poetinha vivia sua era baiana, quando fez o gostoso Tarde em Itapuã.



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Em 1971, o pau comia para cima dos estudantes e os Festivais perderam o viço rebelde e viraram o circo para desviar a politização da juventude. Antonio Carlos e Jocafi classificaram a canção “Desacato” em segundo lugar no VI Festival Internacional da Canção.


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A canção de maior sucesso da dupla até hoje foi “Você Abusou”, de 1973, que fazia parte do LP Mudei de Idéia, cuja canção título teve sucesso, mas não como a citada. Esta canção teve sucesso internacional, foi gravada na França com nome de “Fais comme l'oiseau", de Michel Fugain e virou hino do Partido Socialista francês. O compositor francês assinou como sendo o autor da música e a dupla teve que entrar na justiça, ganhando a causa. Ela tem versões em espanhol e japonês, além de gravações de Célia Cruz, Sérgio Mendez e Stevie Wonder.


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Vejam como o Francês Michel Fugain de fato teve um lapso de memória sobre a autoria do Você abusou: o "Fais comme l'oiseau", sou como um pássaro é cópia fiel do você abusou. Ainda hoje ao se buscar a lírica da música está nos sites internacionais como de autoria dele.

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Aqui um sabor muito especial com este Toró de Lágrimas. É como muitos corações se sentem na solidão do amor perdido.



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Com o Pasquim indo para cima, a dupla fez esta música com todos os ingredientes do movimento estudantil.


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E por último esta Teimosa com os suspiros ritmados de voz tão próprios da dupla.


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Um comentário:

socorro moreira disse...

Todas as músicas da dupla foram bem cantadas por nós. Até meu pai trocou os sambas-canções, por outras canções.
"Queixas" é o espelho da época.
Quem não era "comunista" era alienado. Os que ficavam em cima do muro sentiam medo e frio na barriga.
Eu vivia de longe, e na proximidade. Tinha um namorado de alma belíssima ,que se dizia materialista dialético , e eu o admirava. Nem me assustei quando falou que nunca casaria no papel.Que casamento era prostituição oficial.Mas guardei comigo aquela sentença. Não podia dividi-la com as amigas, nem com a família. Morreu solteiro, machucado pelos tempos das torturas.
Depois, agora no futuro, reconheço a sua alma especial.
Ele tinha senso de humanismo e justiça, e lutava por seus ideais.
E a gente cantava Jocafi...E a gente arrumava o enxoval pra casar, e a gente aprendia receitas culinárias, fazia o curso Normal, e bordava os aventais.
Eu só me dei conta depois, que existiam em mim outras sementes plantadas... Elas também germinaram.
Eu poderia ter sido uma "companheira", boa "camarada", mas passei batida , não estava preparada.
Vivi o lado luminoso da arte, sem engajamento político.Lia o Pasquim , sem a praticidade das ideias, sem entendê-las na sua amplitude, sequer...
Nem a "Teimosia" ficou...Ficou o desejo de que poderia ter sido diferente.