Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O sol e o tempo

 - Claude Bloc -


Quando pequena, observava as formas assombradoras que as sombras dos galhos das árvores formavam em minha parede. Seguia o movimento moroso dessas imagens. A parede parecia um cenário de personagens medievais: monstros, armaduras, fantasmas que lutavam entre as sombras e a luz do velho gerador...
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O tempo escorria pelo meu quarto sem que eu me desse conta, enquanto eu ouvia o som baixo e, ao mesmo tempo, ensurdecedor da pia gotejando a noite inteira... Seriam passos? Os cangaceiros iriam querer romper o assoalho para virem me assombrar? Medos, medos que metiam na cabecinha inocente daquela criança que fui, criança do tempo em que contavam histórias mal assombradas, para me fazer dormir, ou me manter na cama... Medos que, invariavelmente, povoavam as mentes infantis dessa época, deixando um rastro de cismas tão concretas quanto assustadoras.
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À noite, vez por outra eu ouvia o latido dos cachorros soltos lá fora. Era a única coisa que eu podia fazer naquela escuridão. Ouvir e esperar. Esperar o sono vir ou a luz voltar, mesmo que fosse a luz de uma lamparina a querosene. Esperar o sono vir ou a luz voltar, o que acontecesse primeiro.
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Bem mais tarde o galo cantava. Era um novo dia. Se era julho ou dezembro não importava. Não me ocupava em olhar o calendário para saber se o tempo estava passando, porque para mim isso não fazia diferença. O tempo parecia apenas aderir-se à vida infinitamente. Era sutil, leve e eu não tinha idade suficiente para ocupar-me  com a sua passagem pelos meus dias. Só sabia quando era inverno por causa da chuva e porque era o tempo de fazer canteiros e de plantar feijão e milho no jardim da casa grande da fazenda.  Só sabia que era julho por causa da moagem, do alfenim, da garapa e das rapaduras. Não ligava para o meu crescimento nem  entendia o que aquilo representava diante das marcas que papai fazia, a cada ano, na parede do alpendre, com um lápis de ponta grossa. Mesmo assim eu sabia que ainda era uma criança. Pelo menos na estatura.
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A comida lá em casa era farta. Simples. Tivemos, meus irmãos, amigos e eu, que nos habituar a comer verduras no almoço. Era um hábito herdado dos meus pais. Nas férias, a mesa era sempre uma festa, um mundo de crianças. De vez em quando, Mamy (minha avó) vinha fazer uma supervisão nos nossos hábitos e posturas. Nada de cotovelos na mesa, nem dedos nos pratos. Logo eu que adorava pegar aqueles ossinhos de galinha com os dedos e roer uns bons caroços de pequi!!  Quando a fiscalização cessava, a bagunça recomeçava. Bolinhas de pão voavam pra todo lado e sempre havia um choramingando porque lhe acertavam um olho, uma orelha...
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Não se olhava o relógio nesse tempo. Tudo parecia ser eterno. Horas passavam-se, dias, meses ou quem sabe, anos, isso não importava. Hoje, ainda posso sentir as alegrias que deixei pintadas nas paredes do meu quarto azul. A sombras não mais me assustam. Já não sinto mais a insegurança que tinha e nem o medo. Ao chegar à minha casa, olho para o céu e lá está o sol nem sempre tímido como fui, mas quase sempre saindo detrás das nuvens, para depois dormir no Alto do Caboclo.
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É verão!
 Claude Bloc

Um comentário:

Jacques Boris Daniel disse...

Kkkkkkkkkkkk as bolinhas de Pão era muito bom, até papai brincava e ele tinha uma pontaria certeiras valeu as relembraças,beijos Mana.