Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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domingo, 28 de março de 2010

Seixos
-Claude Bloc -

Olhava detidamente para aquele ambiente amarelado à sua volta. Era pouco mais de meio-dia e sentia aquela preguiça que sempre lhe dominava o corpo e a mente àquele horário. Estava sentada, como sempre fazia, debaixo de um velho pé de cajarana que ficava do lado de sua casa.

Naquele dia o tempo estava quente e abafado, mas de vez em quando uma brisa vinda das bandas do açude lhe refrescava o calor. A claridade agredia-lhe os olhos e aumentava a vontade de ficar indefinidamente naquela sombra única e acolhedora. Não havia o que fazer a não ser observar o silêncio pousar nas coisas, pois os poucos tons de verde deixados pela chuva já haviam sido sugados pelo ocre e pelo cinza da paisagem.

Sentiu naquele momento uma sensação de abandono e exaustão causada pela tonalidade da mata e pela temperatura quente do chão. Sentia aí uma espécie de secura e de esvaziamento por dentro como se a qualquer momento também ela fosse sumir com o vapor do tempo.

Olhou o céu. O azul de tão intenso, parecia agressivo e opressor. Nenhuma nuvem. A claridade daquele céu era hipnótica. Bocejou várias vezes. As pálpebras começaram a pesar e uma agradável sonolência a dominava cada vez mais. Sorriu para os arbustos da caatinga seca e para os pés de palma que cresciam por perto e cochilou por breves instantes.

Vez por outra ouvia os sons do tempo. O movimento dos irmãos dentro de casa. Naquele momento ela se sentia quase feliz. Era a hora em que ela podia ficar sozinha. Que podia remexer em seus sonhos e lembranças. Era o tempinho em que ela podia ser ela mesma ou a personagem que quisesse ser. Um momento de pura autodedicação. Depois, bom, depois, voltaria aos seus afazeres: estudar, cuidar das coisas do seu dia a dia.

Não mais resistindo ao sono, ela passou a mão no chão de terra afastando alguns pedregulhos. Arrumou nas raízes do pé de cajarana seu lenço de seda e nele repousou a cabeça. Devagarinho suas pálpebras se fecharam e ela dormiu. Dormiu profundamente.

Sonhou. Sonhos simples. Coloridos. Sonhou que Raínha (sua cadelinha pedura) era sua irmã. Brincavam na beira do açude. Juntavam seixos. Ela se encantava com aquelas pedrinhas polidas de cores diferentes. Algumas reluziam feito ouro. Outras pareciam feitas de barro vermelho... Raínha a seguia fielmente naquela busca. (Raínha ou a irmã?) Era engraçada aquela brincadeira. Observava as pedras como se fossem mágicas e via nelas formas misteriosas. Nos seixos via figuras que ninguém mais via. Acreditava que algum ser místico desenhava nelas aquelas coisas todas, só para ela e Raínha descobrirem.

Mesmo no sonho pensou no andamento da vida. Lembrou-se de que a chuva havia cessado há tão pouco tempo que parecia sentir-lhe ainda o frescor, mas o solo massacrado pelo calor do sol dava mostras de um novo estio. Pois bem, quando chegasse o inverno, quando a chuva voltasse no ano seguinte, haveria de lhe trazer novos seixos, novos sonhos. Era isso que queria.

De repente, um estalido leve a despertou. Era Raínha. Gentilmente a cadelinha lambia seu rosto despertando-a de vez. Ela sorriu abraçando-a. Espreguiçou-se e olhou novamente pro céu. Sentia-se feliz. Levantou-se e alongou o corpo descansado. Saiu para casa cantarolando para encontrar mais uma tarde como tantas outras.

Claude Bloc

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