Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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Colaboração:Claude Bloc


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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Última Crônica - Fernando Sabino


"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)

Morreu em 11 de outubro de 2004, véspera do seu aniversário, por volta de meio-dia, o escritor Fernando Sabino. O escritor vinha lutando há dois anos com um câncer no esôfago.

Fernando Tavares Sabino era mineiro de Belo Horizonte, onde nasceu em 12 de outubro de 1923, filho do representante comercial Domingos Sabino e de Odete Tavares Sabino. Na infância e juventude, destacou-se como escoteiro, locutor de programa infantil aos 12 anos e autor do primeiro conto ainda no secundário. Aos 16 anos venceu vários campeonatos de nado de costas em Minas, São Paulo e Rio de Janeiro e, aos 17 anos, escreve artigos literários para o jornal mineiro O Diário, onde também eram publicados Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino.

Sempre eclético, faz serviço militar na cavalaria do CPOR, estuda direito e entra para o funcionalismo público em 1942 na secretaria de Finanças, além de dar aulas de português. Em 1944, muda-se para o Rio, onde vai trabalhar na justiça e convive com a nata intelectual do então distrito federal, incluindo Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti e Manuel Bandeira.

Em 1946, forma-se em direito e se muda para os Estados Unidos para trabalhar no consulado brasileiro. De lá inicia uma longa cooperação com a imprensa brasileira, escrevendo para o ''Diário de Notícias'' e, ao longo dos anos, para o ''Diário Carioca'', ''O Jornal'', ''Jornal do Brasil'' e ''O Globo''.

Seu primeiro sucesso literário foi o romance ''Encontro marcado'', lançado em 1956, lançado em vários países e levado diversas vezes ao teatro. Em 1962, outro livro de sucesso, "A mulher do vizinho" e escreve o roteiro do filme "O homem nu", com direção de Roberto Santos com Paulo José.

Foi adido cultural da embaixada do Brasil em Londres durante o governo de João Goulart e fundou em 1967 a editora Sabiá, em sociedade com Rubem Braga que lança autores como Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Pablo Neruda e Manuel Puig. Em 1971 exerce seus dotes de diretor de cinema, realizando um curta sobre Rubem Braga e, no ano seguinte, oito pequenos documentários sobre Hollywood para a Rede Globo.

Em 1979, lança "O grande mentecapto", que lhe vale o prêmio Jabuti. Lança ainda "O menino no espelho" (1982), "O gato sou eu" (1983), faca de dois gumes (1985) e é condecorado com a Ordem do Rio Branco pelo governo brasileiro. Em 1991, lança a biografia autorizada da então toda poderosa do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello. Na seqüência, lança em "Aqui estamos todos nus" (1983), seguido de "Com a graça de Deus" (1995), "A chave do enigma" (1999) e "Amor de Capitu" (2000).

Fonte: O GLOBO ONLINE

"Nasci homem, morro menino".
Fernando Sabino
12/10/1923 - 11/10/2004

9 comentários:

joyce disse...

ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei a crõnica com
certeza sabino foi um grande cronista parabens sabino!!

Anônimo disse...

Todas as vezes que leio (a ultima cronica) eu me emociono.
Fernando Sabino deveria ter sido um dos melhores cronistas da "face da Terra".
AMO todas as cronicas que ele escrevel.

fernanda e barbara disse...

Adoooooooooooooorei sua cronica parabens é lindo!faça mais outras cronicas.

Alessandra disse...

Emocionante, toca com os nossos sentimentos!
Parabéns por essa crônica espetacular Fernando Sabino!

solange disse...

São poucas as pessoas capazes de perceber a simplicidade do dia a dia,vivê-la e se emocionar,enquanto existirem Sabinos por aí,ainda existirá esperança.
Solange.

Anônimo disse...

bom eu vi essa cronica pela primeira vez depois eu lia quase todos os dias se tão emocionante q é
sinceramente eu adoreiiiiiiii
e isso ai fernando sabino é do nosso tão maravilhoso minas gerais
"fernando sabino de minas para o mundo"
ameiiiiiiiiiiiiii

Bhiaa* disse...

Realmente é muito lnda essa crônica me emocionou muito...cheguei a chorar..Paranbenss

Anônimo disse...

Esta crônica é singular, terna e simples como a maioria dos trabalhos de Sabino. Um dos meus escritores preferidos.

Anônimo disse...

Sem palavras para descrever o quão bela é essa crônica.