Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

ENVIE SUA FOTO E COLABORE COM O CARIRICATURAS



... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


FOTO DA SEMANA - CARIRICATURAS

Para participar, envie suas fotos para o e-mail:. e.
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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PARA FAZER CRÍTICA NÃO TEM LIMITE

Pedro Esmeraldo

Antes pensava que lutava sozinho, mas noto que tenho seguidores em meu caminho.

Encontrei apoio moral do meu irmão Carlos Esmeraldo, engenheiro, professor que me deixou glorificado com as suas encorajadoras palavras que me vêem incentivar para continuar na luta e seguir com esperança o meu combate em defesa do Crato.

Ambicionava encontrar outra corrente de homens dignos e que queiram elevar o espírito diante da transfiguração de cidadão cratense. Por isso, desejo encontrar com amigos que venham auxiliar-me e levar o barco para fora das águas revoltas.

O que mais me impressiona é ver o Crato gigante e associado ao desenvolvimento que se faz, tornar-se estranho quando se vê a falta de decisão desses políticos que perambulam para lá e para cá, estendendo a mão mirrada aos políticos “inimigos da cidade”, dizendo “amém”, e entregando os pontos com muita facilidade.

Agora mesmo, fico com medo do retorno de um político pré-histórico que vive zanzando nas praças, falando mal de administrações passadas, como se a dele fosse uma figuração importante que fez medo do Crato cair na bancarrota e ficar perdido no seio da sociedade.

Em tempos passados, Crato sofreu da síndrome de homens despreparados para exercerem as funções políticas.

Procuro relembrar alguns homens do passado, já que foram notáveis em seu trabalho. Deixaram marcas indeléveis. Bem que queria vislumbrar o Crato de outrora.

Quero ver o Crato bem alumiado e enaltecido, forçando o cratense a lutar sem medo, gritando quando for preciso, com o desejo de transformá-la em modelo e que não venha cair no mesmo erro do passado, sem coragem de viajar, sem luta e sem arrojo.

Aqui todos são vítimas da perfídia, da discórdia e da calúnia, já que fica isolado dos benefícios governamentais que esperam transformar a cidade no mesmo modelo dos tempos passados, sem luta, apática e desencorajada.

E lembro-me das revoltas dos governadores pertencentes aos estados detentores do pré-sal que, por causa de uma simples perda de royalties alvoroçaram-se com gritos estridentes, reclamando seus direitos.

E agora, o perguntamos: por que esses políticos não lutam em defesa da terra? Por que se calam quando encontram os mais simples obstáculos? Por que em vez de trabalhar pelo filho da terra, preferem dar seu palpite pelo simples fator de permanecerem submissos aos açoites dos poderosos? Por que não reagimos a esses cruéis inimigos, virando as costas, mandando irem pescar em outro lugar?

Infelizmente, essas figuras do Crato estão esquecidas porque o homem pré-histórico acomodou o cratense moderno, amoldando-o à sua maneira, fez-se calar diante dos momentos sombrios e das dificuldades crescentes e que empurram o Crato para cair no abismo do esquecimento.

Crato, 19 de novembro de 2010.

Fragatas aos céus - José do Vale Pinheiro Feitosa

Além do gavião peneirador, quem mais plana nos céus da minha terra é o urubu. E a ave planadora é uma das maravilhas do universo. Aqueles movimentos de giro, de despencar, com um friozinho na barriga, até uma nova lâmina de flutuação. Pairar sobre os ares é o sonho mais sublime destas duas pernas fincadas na gravidade.

Só romper esta força onipresente, é um feito de sublimação desta nossa sólida vida. Horas passava, à sombra da minha casa, com o rosto voltado para o céu azul, olhando os urubus naquelas alturas. Transportando-me em imaginação para o que viam, os largos horizontes que ultrapassavam estas visões rotineiras do imediato mundo.

No Rio de Janeiro levei algum tempo para me despir do planar dos urubus. É que por aqui, especialmente nas zonas costeiras, planava outro tipo de ave. Mais leve e de maior altitude que aqueles urubus, que se apartavam do grupo e iam mais alto que o alto de todos. Levei tempo para me despir, mas desde o primeiro minuto lhe vi como uma ave de formato diferente: as asas eram anguladas e a cauda bifurcada.

Vendo aquele planador estranho tomava como referência os pterodáctilos das profundezas do tempo. Mas os seres voadores iam às alturas. Sobre os céus do Rio de Janeiro. Eram as Fragatas, Tesourões ou João Grande, que habitam as ilhas costeiras como o arquipélago das Cagarras. Que tem semelhança com nome substantivo “cagarraz” o mesmo que mergulhão e também de uma ave que habita a ilha da madeira, mas não se encontra nas Américas. O mais provável, até por que sua primeira notação foi num mapa francês (1730), com o nome de Ilha Cagade e depois um mapa português com o nome de Ilha Cagado. Na verdade o arquipélago é tingido de branco por tanto cálcio dos dejetos das aves comedoras de peixes.

As fragatas pertencem a uma das cinco famílias da ordem dos Pelecaniformes. A família fregatidae tem coloração geralmente preta, asas muito longas, estreitas e angulosas, além das caudas bifurcadas como uma tesoura. São aves de menos peso por unidade de superfície da asa. Os ossos são pneumáticos, leves e elásticos e elas nunca pousam na água pois encharcam rapidamente e nem nas praias. Descansam pousadas em ilhas, empoleiradas ou sobre rochas. E o mais espetacular dos sonhos, descansam planando.

A fragata que vive no Rio de Janeiro é a Fragata magnificens, e confirmo o sentimento do ornitólogo que assim a nomeou. Elas podem atingir 106cm de comprimento e suas asas têm uma envergadura que supera 2m. Na última quarta feira, num dia de chuvas, com tempo de suspender coisas leves nos ares, fui visitar um amigo no Leblon e da varanda do apartamento dele meus sentimentos voaram. Arrebatados do rés do chão das conversas políticas e técnicas.

Centenas de fragatas magnificens, em grupos como as praças do interior em noite de festas, em alturas distintas e separados no espaço generoso do céu. Elas giravam em eixos imaginários em cada grupo. Tomavam os céus do Rio de Janeiro entre o Leblon e o Morro Dois Irmãos. Aquilo efetivamente era um Avatar da natureza, por sobre o concreto armado e distante das pedras onde descansam. Mas não repetirei a ciência: as fragatas não descansavam. Elas festejavam a oportunidade do ar ascendente e nele tirava a seiva lúdica do viver. O lúdico esquecido nesta danação do trabalho cá embaixo entre os homo sapiens.

"FLORESIAS" EM PROSAS E VERSOS - AUTORES DIVERSOS - EDIÇÃO ESPECIAL DO CARIRICATURAS



-Sem ônus para os escritores.
-Número de textos por autor : 2 + release + fotografia
-Reciprocidade : 5 livros para cada autor.


Autores convidados: todos os nossos colaboradores !

-Os textos deverão ser enviados para o e-mail de Stella ,até no máximo, 15 de Dezembro de 2010.
-Fase de revisão : o necessário .

- stelasiebra@yahoo.com.br

"TODOS SERÃO CHAMADOS. MUITOS, OS  ESCOLHIDOS" 

PARTICIPEM DESSE BANQUETE POÉTICO !

Pensamento para o Dia 19/11/2010


“A essência das virtudes, bons pensamentos e amor deve ser oferecida a Deus como um fruto cultivado pelo seu próprio Sadhana (exercício espiritual). O mundo será beneficiado por um indivíduo que tenha boa conduta. Se começa a pegar fogo em uma árvore na floresta, esse fogo não irá parar depois de queimar essa única árvore. O fogo irá se espalhar e queimar a floresta inteira. Do mesmo modo, se há um indivíduo que possui más qualidades, ele irá danificar toda a comunidade, além de se arruinar. Por outro lado, se houver uma árvore que esteja carregada de flores perfumadas, ela irá preencher toda a região com boa fragrância. Da mesma maneira, se houver um indivíduo com um nobre código de conduta, ele não somente irá melhorar a si mesmo, mas também irá melhorar toda a sociedade ao redor dele através de sua boa conduta.”
Sathya Sai Baba

Caos interior- reforma exterior ! - Por Socorro Moreira

Minha casa está um caos. Pintando paredes e portas de cima a baixo, me faz retirar tudo do lugar. Depois tem que limpar a poeira, os vidros , e a arrumar a parte interna.. Isso tinha que acontecer mais dias, menos dias. A Poesia também  resolveu tomar banho de cal.Ficou branca, invisível. Olho para ela  com o coração cansado, mas  é como se dissesse : de ti não desisto.
Há poesia na desarrumação, quando encontramos objetos e sentimentos perdidos.

Edilma podia chegar , e dar um toque com suas mãos de fada, no recolocar das peças no lugar, ou noutros espaços pra mudar a cara do ambiente, que também gosta de posar  para um retrato. 

Perfil de uma amiga 

Edilma é um retrato do bom gosto
Do querer é poder
Do fazer com acertos
Do sentir e superar
Ela decora  casa e coração de todos
Nos múltiplos pendões 
Que possui
É privilegiada  pela natureza
Como artista e amiga ...
Apreciada e querida !

"Mestre, meu Mestre".Por Margareth Monteiro.


Meu Mestre

"Mestre, meu mestre!

Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,

Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,

Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,

Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!" (Fernando Pessoa)



É mesmo feliz o Homem Marçano?

Enxergar e ver são ações realizadas sem a intencionalidade de quem as pratica. Não exigem reflexão mental, nem análise do objeto. Por isso, nenhuma angústia traz ao Homem. Enquanto, olhar, perceber, conhecer, analisar, criticar, julgar e optar é ações que incitam a dúvida, gerando angústia na alma humana. Enquanto aquelas trazem à alma certeza mediata, estas promovem incertezas ante o desconhecido.

Qual a melhor forma de viver? E qual traz felicidade, livrando das "angústias sensacionistas de todos os dias"?

Não será melhor sofrer a "mágoa cotidiana" à qual o conhecer arremessa o homem, do quer ser um "escravo de tudo como um pó de todos os ventos", inconsciente, sem a percepção de que está indo na correnteza da vida, participando, sim, porém, moldado ao interesse alheio?

O incauto carrega um fardo. Todavia, desconhece sua própria capacidade de conduzi-lo. Ademais, não tem noção de seu volume e dimensões. Já o curioso, melhor dizendo, investigador da realidade em que está incluso, este sabe o que está conduzindo e é conhecedor do volume, tamanho e ainda questiona a sua origem e a utilidade no viver humano.

Na historicidade humana, quem não esperou acontecer, mas fez acontecer, este fez parte, faz parte e sempre fará parte de uma minoria sofredora.

É fascinante a angústia humana frente ao desconhecido.

Margareth Lima


Lembra de seu primeiro Baú? Por:Manoel Severo

Ainda lembro quando Gabriel, meu filho mais velho completou seus dez anos, comemoramos juntamente com o aniversário do irmão Pedro que fazia sete anos. Todas as providências tomadas e lá chegou o esperado momento do pôr-do-sol, com ele também chegavam os primeiros convidados, o lugar estava muito bonito, o esmero da decoração enchia nossos olhos, mas havia algo que não me agradava tanto, na verdade fui induzido e quase obrigado a aceitar aquele instrumento intruso na decoração de entrada da pequena festa: Um grande e largo baú de papelão... Lugar para minha surpresa que teria um guardião quase que eterno: O pequeno Gabriel.

Claro que quem chegasse teria que passar pelos incômodos porteiros, o Baú e evidentemente, Gabriel. Não gostaria de estar na pele de quem não teve tempo de comprar o presente ou a famosa lembrancinha... Um horror! Na verdade os anjos da guarda acabaram vendo essa situação antes de tudo e o fato é que todos levaram seus presentinhos, e Gabriel ali, impassível, “acocorado” ao lado do dito e inesquecível “baú da felicidade...” Se eu soubesse disso não teria contratado palhacinhos, mesa com motivo do He Man, enfim, apenas o querido e imponente Baú.

Quem não tem uma história parecida para contar? Puxa Vida! Quantos presentes ganhamos durante nossa vida? Talvez tenhamos ganhado tantos que não percebemos o valor de cada um deles, nem tão pouco sabemos diferenciá-los, usá-los, agradecer por cada um deles. Presentes sempre nos remetem a mais sublime de todas as virtudes: Gratidão.

Presentes quase sempre nos deixam felizes. Todos? Bem, nem todos, menos aqueles sob forma de um belo e maravilhoso “cavalo de madeira”... Será que desses precisamos manter distância? Mas até esses têm sua razão, sua história, sua missão.É uma pena que depois de tanto tempo ainda não conseguimos perceber o quanto recebemos a cada dia, a cada minuto, cada segundo.

Como não sentir o valor de tudo isso?

Todos quando fomos criados já nascemos dentro do próprio “baú”, e que baú! como pode comportar tanta coisa? Fechemos os olhos e visualizemos o nosso baú, e todos os presentes que ganhamos a cada momento. Consegue perceber? Que bom! Mudei de idéia, talvez o baú tenha sido e será sempre o personagem principal.Viva o baú nosso de cada dia!

Vida! Esse é o maior e mais sublime presente de todos.

Por:Manoel Severo

AVE DE RAPINA - Marcos Barreto de Melo

Como ave de rapina
Você chegou sorrateiro
Naquela madrugada fria
Sem estrela e sem luar
E o dia nasceu cinzento
Sem ter o sol a brilhar

Veio trazendo na bagagem
Dias de amargo sabor
E noites de escuridão
Com o seu jeito indigesto
Marcado por cada gesto
Ao nascer de um novo dia

Ainda tentou me envolver
Com um aceno de paz
Querendo me alegrar
Mas, eu não acreditei
Pois conheço o teu passado
Sei de tudo que é capaz

Ao passar de cada dia
Você foi se revelando
Demonstrando a sua ira
E num gesto traiçoeiro
Num momento de descuido
Colheu tudo o que queria

Não sei se foi por maldade
Ou mesmo por vaidade
De quem procura um troféu
Para exibir lá no céu
Você levou minha prenda
E por isso eu te detesto
Deixando aqui meu protesto
Maldito mês de agosto


Marcos Barreto de Melo
O Gato
- Claude Bloc -

 Eu escrevo versos
Ele...
pula (in)versos
descreve sinuosidades
piruetas, malabarismos

Quando encontro a rima
lá se vem o gato
pisando no meu teclado
borrando o meu bordado
e nessa acrobacia
vai digerindo o tema
(com leveza e graça )


o gato habilmente
conseguiu o seu intento
(produziu o que queria)
ser a inspiração e a sinfonia,
o maestro insigne,
a minha própria poesia.

Claude Bloc
Fotos: pés de Ricardo Rocha
Gato (de Elvira - em D. Quintino - CE)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Amar verbo incondicional - José do Vale Pinheiro Feitosa



OUÇA A MÚSICA ENQUANTO SEGUE O POEMA

eu amo teus olhos baços,
não como lembrança do brilho de outrora,
amo as luzes finas,
penumbras que traduzem detalhes,
pupilas que escondem universos,
pálpebras pregueadas de resguardos,
amo teu olhar lento,
penetrando o irrevelado,
e assim me deixa leve,
leve de palavras não ditas.

como amo tuas rugas universais,
cada trajeto de tuas veias tortas,
as vigas musculares de tuas mãos,
as manchas solares de teu corpo,
amo a trajetória no tempo,
a longa espera dos espaços,
amo a delicadeza de tua pele frágil,
cada detalhe da superfície de teu mundo,
este mundo ao qual gravito.

amo teus cabelos opacos,
a rebeldia dos fios esquecidos da cor,
cada mecha que diz: até aqui vivi,
o modo displicente que parece pouco,
quando na verdade foram muitos anos,
e tantos que parecem evocativo sésamo,
sobre os ombros como se nunca houvesse fim.

amo tua coragem de viver,
pois a beleza não é estética plástica,
é um pouco de forma, um tanto conteúdo,
como uma fera que teima sobreviver,
uma criança que deita-se no colo para sonhar,

amo tua virtude de envelhecer,
sendo outra a cada passo
e a mesma no horizonte,
amo teu ardor de viver,
pois beleza não é grade da juventude,
ela é o que meus olhos amam,
como amo teus olhos baços,
tuas rugas universais,
teus cabelos opacos,
subterfúgio para amar tua coragem.

Que rapaz é esse? Que estranho canto.....

Sidney Miller morreu aos 35 anos de idade em 1980. Andava um tanto esquecido da sua vida de compositor e trabalhava na FUNARTE. A Sala de Apresentações recebeu seu nome. Na época corria a boca pequena que ele suicidara-se, mas hoje a versão que predomina é a morte subida por parada cardíaca.

Mas foi o que ocorreu com a morte de outro grande compositor e poeta, o piauiense Torquato Neto. Ele morreu aos 28 anos de idade e foi achado morto no dia seguinte pela empregada da família, enquanto sua mulher e filha dormiam num quarto vizinho.

Estas duas composições, no entanto, antecipam fatos. Dizem coisas que ocorrerão. Uma por anúncio (Torquato Neto – leiam a letra abaixo) e a outra por uma profunda crítica ao modelo de desenvolvimento que esvazia as pessoas e as deixam sem razões de viver, pois é, prá quê?


Prá dizer Adeus (Edu Lobo e Torquato Neto)

Adeus /Vou pra não voltar / E onde quer que eu vá /Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor / Nem é bom pensar / Que eu não volto mais / Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber / Como te contar / Que o amor foi tanto /
E no entanto eu queria dizer / Vem / Eu só sei dizer / Vem / Nem que seja só
Pra dizer adeus

Pois é, prá quê? (Sidney Miller)

O automóvel corre / A lembrança morre /O suor escorre / E molha a calçada
A verdade na rua / A verdade no povo / A mulher toda nua /Mas nada de novo
A revolta latente / Que ninguém vê /E nem sabe se sente/ Pois é, prá que?
O imposto, a conta / O bazar barato / O relógio aponta / O momento exato
Da morte incerta / A gravata enforca / O sapato aperta /O país exporta
E na minha porta / Ninguém quer ver / Uma sombra morta / Pois é, prá que?
Que rapaz é esse? / Que estranho canto / Seu rosto é santo / Seu canto é tudo
Saiu do nada / Da dor fingida / Desceu a estrada / Subiu na vida
A menina aflita / Ele não quer ver / A guitarra excita / Pois é, prá que?
A fome, a doença / O esporte, a gincana / A praia compensa / O trabalho a semana
O chopp, o cinema / O amor que atenua / Um tiro no peito / O sangue na rua
A fome, a doença / Não sei mais porque / Que noite, que lua / Meu bem, prá que?
O patrão sustenta / O café, o almoço
O jornal comenta / Um rapaz tão moço
O calor aumenta A família cresce
O cientista inventa / Uma flor que parece
A razão mais segura / Prá ninguém saber
De outra flor / Que tortura...
No fim do mundo / Tem um tesouro
Quem for primeiro / Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro / Quem tem mais pressa
Que arranje um carro / Prá andar ligeiro
Sem ter porque / Sem ter prá onde / Pois é, prá que?
Pois é, prá que? / Pois é!

Frases de Guimarães Rosa



Viver é etecetera."
(Guimarães Rosa)

"Viver é um descuido prosseguido."

"Infelicidade é uma questão de prefixo."

"Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor..."

"O amor? Pássaro que põe ovos de ferro"

"Sorte é isto. Merecer e ter."

"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."

"Nunca digas que esqueceste um amor diga apenas que consegue falar nele sem chorar, pois o amor é... inesquecível"

"É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado."

"Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?"

"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."

"Felicidade se acha é em horinhas de descuido"

"O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando."

"O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando."

"Saudade é ser, depois de ter."

"Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo."

"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

"Quem muito se evita, se convive"

"O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver."

"Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data."

""Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela"

"No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade."

Guimarães Rosa



João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967), foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata.

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

wikipédia

Meu primeiro Amor - Por Rosa Guerrera

.

Para falar sobre o meu primeiro amor ...
precisaria existir ainda tanta coisa
dentro de mim !!!

Seria necessário
o encanto da aurora,
a pureza dos meus verdes anos,
o chilrear dos pássaros,
e a doce ternura
de um beijo roubado...

A culpa eu sei,
não é do vento ,nem do tempo,
nem da chuva...
É que a gente vai crescendo !
Aquela poesia aos poucos
morrendo,
e outros sonhos
tomando o seu lugar .

O meu primeiro amor
teve um gosto ameno,
sereno,meigo e angelical.
Teve a doçura dos brinquedos
das crianças...
Era eu menina de tranças
e ele um loirinho tímido
sem igual !

Era suave como o cair da noite
num céu estrelado...
Risonho , alegre,
despreocupado .
O meu primeiro amor
teve gosto de fruta,
teve aroma de flor !

Ah ! Meu primeiro amor !
Faz tanto tempo
que ele aconteceu ...
Que as vezes pensativa
me pergunto :
" Terá morrido ele
ou morrido eu ? "

rosa guerrera

Madrugada

Estou ficando cego,
literalmente.

Não compro outros óculos
nem me acostumo à vidraça.

Vidraça só é útil quando chove
se encosto meu rosto ao vidro
confundem-se os pingos lá fora
com as minhas doces lágrimas.

Não tem chovido.
Nem tenho chorado.

Mas a alma tem visto coisas
(de madrugada)

ao fazer eu a barba
ou a lavar cuecas.

De madrugada desvendo de que forma as formigas dormem.
Há aquelas excêntricas que levantam as perninhas e torcem
as juntas das clavículas, quadris, tornozelos.

De madrugada percebo pelas migalhas
(maçã, bolacha, miolo de pão, casca de tangerina)
que as formigas se comunicam através dos despojos.

Ao dia vivem silenciosas
mascando cravo e fumo.

(para não deixar pista no hálito)

Estou ficando cego.
Não é louco.

Pede Passagem - Sidney Miller


Pede passagem
(Sidney Miller)



Chegou a hora da escola de samba sair
Deixar morrendo no asfalto uma dor que não quis
Quem não soube o que é ter alegria na vida
Tem toda avenida pra ser muito feliz
Vai, arrasta a felicidade pela rua
Esquece a quarta-feira e continua
Vivendo, chegando
Traz unido o povo, cantando com vontade
Levante em teu estandarte uma verdade
Seu coração
Vai, balança a bandeira colorida
Pede passagem pra viver a vida

Perfil de um amigo - por Socorro Moreira

 Foto de Emerson Monteiro

Personagem da minha adolescência
Uma visão distante, sem aproximação
Encontro amigo, passo a passo,
sem pressa para um abraço.
Traz a paz e o talento,
nas visitas esporádicas...
Foi-se tornando da casa ,
na sutil presença das poucas palavras
Signos e elos nos ligam...
Campo fraterno.
Amor amigo !

DO BAÚ DE STELA

Dizei-me espelho meu


Quem é essa mulher refletida no espelho?
No espelho do quarto,
da água do rio,
da água do mar,
da água da chuva.

Quem é esta mulher refletida no espelho de outros espelhos?

Que beleza maior o espelho não revelou?
Que grandeza maior ele ocultou?
Que sabedoria ficou atrás do reflexo do espelho?
Que riqueza guarda essa mulher?
Que mistérios guarda essa mulher?
De quantas máscaras já se desfez essa mulher?
E esse baú de reminiscências guardando véus, pedras e cartas?
Será de uma bruxa, de uma sacerdotisa, de uma deusa?
Ou tão somente de uma cidadã do século XXI?

O espelho responde de forma enigmática,
(afinal é o meu espelho!):
A resposta está nos astros.


(StelaSiebraBrito 14/02/06)
(

Viagem - Por Rosa Guerrera



Imagine que você está a beira mar e vê um navio partindo.
Você fica olhando, enquanto ele vai se afastando, cada vez mais longe, até que finalmente parece apenas um ponto no horizonte – Lá onde o mar e o céu se encontram.
E você diz: “pronto, ele se foi” .
Foi para onde?
Foi para um lugar que sua vista não alcança. Só isto.
Ele continua tão grande, tão bonito e tão importante como era quando estava perto de você.

A dimensão diminuída está em você, não nele.
E naquele exato momento em que você está dizendo “ele se foi”, há outros olhos vendo-o aproximar-se, há outras vozes exclamando com júbilo: “ele está chegando”.

 por rosa guerrera

A poesia de Lupeu Lacerda



Deus amarra o cachorro
Abstrato late o lato senso
Deus cria o tosco
Iconoclasta que ama sua estátua dourada

Deus faz o homem de carne de segunda
No sábado mal passado
E cria o bandeirante adâmico
Comedor de índias evas

Deus miscigena
Por tédio
Por experimentação e erro

As plantas ele bota de sacanagem
As plantas e as
Muriçocas


por Lupeu Lacerda

Poema do Nicodemos

CLIQUE - FAZENDA SERRA VERDE - Por Edilma Rocha


PROGRAMAÇÃO PARA O DIA 18.11.2010
(QUINTA)

19h00min - Palco: A COMÉDIA DA MALDIÇÃO (Livre, 60min), Grupo de Teatro Curumins do
Sertão, de Farias Brito-CE

20h30min - Arena: CABORÉ (Livre, 50min), Cia. Desabafo de Teatro, de Juazeiro do
Norte-CE


PROGRAMAÇÃO PARA O DIA 19.11.2010
(SEXTA):

19h00min - Palco: AS IRMÃS CASTANHOLAS (12 anos, 60min), Cia. Mandacaru de Artes e
Eventos, de Juazeiro do Norte-CE

20h30min - Arena: AVENTAL TODO SUJO DE OVO (12 anos, 70min), Grupo Ninho de Teatro,
de Juazeiro do Norte-CE

Cacá Araújo TeatroCARIRI INSUBMISSO!!!

Nós, caririenses, estamos construindo o alicerce de uma nova era de desenvolvimento das artes cênicas na região, pautada na ampla geração de oportunidades e na ação cooperativada.

A Guerrilha do Ato Dramático Caririense é um poema-movimento de amor à arte e aos artistas locais. Somos 26 companhias de teatro, dança e circo bravamente unidas no propósito de ocupar um legítimo espaço na cena brasileira a partir de nossa própria terra, conquistando o merecido reconhecimento, o necessário respeito e a devida valorização do que produzimos dedicada e devotadamente.

Cacá Araújo
Coordenador Geral da Guerrilha do Ato Dramático Caririense

Amor Incondicional - Colaboração de Francisco Babo


Há muito tempo atrás, um certo casal morava em uma casinha humilde de madeira. Tinham uma vida muito tranqüila, alegre, ambos se amavam muito e eram realmente felizes, apesar de não terem conseguido realizar o sonho de ter filhos. Um dia aconteceu um acidente com a senhora, que era uma mulher muito bonita. Ela estava trabalhando em casa quando começa a pegar fogo na cozinha e, na tentativa de apagá-lo, as chamas atingiram todo o seu corpo. O esposo acorda assustado com os gritos e vai à sua procura. Quando a vê envolta pelas chamas, tenta ajudá-la e as labaredas também lhe atingem mas, mesmo se queimando todo, consegue apagar o fogo.
Quando chegaram os bombeiros, já não havia mais fogo, apenas fumaça e parte da casa destruída. Levaram rapidamente o casal para o hospital mais próximo, onde foram internados em estado gravíssimo. Aquele senhor, um pouco menos atingido pelo fogo, saiu da UTI uns dias antes do que sua esposa e foi ao encontro de sua amada. A senhora, toda queimada, pensava em não viver mais, pois estava bem deformada. Ela foi logo falando:
- Tudo bem com você, meu amor?
- Sim, respondeu ele, mas pena que o fogo atingiu os meus olhos e eu não posso mais enxergar... Mas fique tranqüila, meu amor, que a sua beleza estará gravada em meu coração para sempre! E o resultado daquele tragédia poderia ter sido ainda pior, não é mesmo?
Então, triste pelo esposo, refletiu:
- Puxa vida... Deus, diante de tudo o que aconteceu a meu marido, ainda tirou-lhe as vistas para que não presencie esta deformidade em que eu me transformei! As chamas queimaram todo o meu rosto e estou parecendo um monstro...
Depois de algum tempo, já recuperados das queimaduras, voltaram para casa, esforçando-se para se adaptarem à nova rotina de forma bastante positiva. O tempo foi passando e seu esposo continuava a dizer-lhe, todos os dias: "Como eu te amo!" E assim conviveram até que aquela senhora veio a falecer. No dia de seu enterro, quando todos se despediam, então veio ele sem seus óculos escuros e, com a bengala na mão, chegou perto do caixão. Beijando o rosto e acariciando sua amada, disse em um tom apaixonado:
- "Como você é linda, meu amor, eu te amo muito!"
Vendo aquela cena, um amigo que estava ao lado perguntou se o que tinha acontecido era um milagre. Olhando nos olhos dele, o velhinho apenas murmurou:
- "Nunca estive cego, apenas fingia, pois quando a vi toda queimada, sabia que seria muito difícil para ela viver daquela maneira!"
Eles haviam vivido sempre muito felizes e apaixonados por mais vinte anos depois daquele episódio do incêndio.

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Essa história nos ilustra, além da beleza de um amor absolutamente incondicional, que é possível reconstruirmos nossa vida, deixarmos de ser vítimas dos infortúnios e nos tornarmos os autores da nossa própria história. "Pedras no caminho"? Guardo todas. Elas me servem de escada para um patamar superior em minha vida.

Edil de Fora - José do Vale Pinheiro Feitosa

Edil - na antiga Roma, funcionário ou magistrado cuja função era observar e garantir o bom estado e funcionamento de edifícios e outras obras e serviços públicos ou de interesse comum, como ruas e o tráfego, abastecimento de gêneros e de água, condições de culto e prática religiosa etc.; nas municipalidades do Império Romano, funcionário administrativo regular, de segundo escalão

Pessoal, vocês têm de entender que o Crato é final de linha; só vai ao Crato quem tem negócios lá”. – Frase dita pelo Prefeito do Crato segundo relato de José Nilton Mariano Saraiva.


Logo que li o texto do Mariano, fui fazer uma caminhada matinal. Enquanto andava uma palavra martelava minha cabeça: Juiz de Fora. Segundo a Wikipédia: “O Juiz de Fora Parte (ou simplesmente Juiz de Fora) era um magistrado nomeado pelo Rei de Portugal para atuar em concelhos onde era necessária a intervenção de um juiz isento e imparcial, que normalmente seria de fora da localidade. Em muitíssimas ocasiões, os juízes de fora assumiam também papel político, sendo indicados para presidir câmaras municipais como uma forma de controle do poder central na vida municipal.”

Segundo o Houaiss Edil é um regionalismo nordestino, mesmo que seja um diacronismo obsoleto, é o mesmo que prefeito. E então temos o Edil de Fora. Pode-se chamar de Prefeito de Fora, com a mesma conotação do Juiz. No nosso querido Ceará esta instituição corrompida existe à sorrelfa.
Eleitos pelo povo para exercer o poder político dos municípios, não só das cidades, mas dos seus miseráveis e revoltados distritos, muitos prefeitos não moram por lá. Vivem em Fortaleza ou noutra cidade mais favorável à sua vida particular e familiar. Só dão atenção aos problemas dos seus municípios em alguns dias da semana, muitos chegam no final da terça e somem na quinta antes do sol se pôr.

A rigor é um prefeito terceirizado. Que apenas administra como se o município fosse apenas um negócio. E não é: é um problema coletivo, cheio de contradições e desejos de melhoria. Se fosse para administrar o fluxo de caixa, bastava apenas um contador juramentado. Se fosse para tornar em negócio a saúde, a educação, a segurança patrimonial, as obras essenciais, bastariam técnicos. Cada um cuidando das tecnologias necessárias e de seus custos.

Ora, bolas, o problema é político meu filho. Cada um tem o direito à vida que quer mas não faça o modelo dela um símbolo para as pessoas que amam e vivem nos seus municípios. Elas não estão ali apenas para receber serviços, elas acordam, respiram, se alimentam e dormem num mundo completo: com ruas, carros, escolares, alegrias, festas, esperanças e desejo de construir.

O Edil de Fora é uma aberração e o extremo da “corrupção” do papel político da autoridade mais importante das pessoas: o Prefeito. As pessoas, não respiram no Brasil e no Estado: elas vivem mesmo é nos municípios. As estrelas que brilham ali podem brilhar noutros lugares, mas os olhos que as vêm são daquele território.

Curtas. Liduina Vilar.

O passo raso
do arraso
o arraso de
nao ser compreendida.
Aos pedaços a cada dia. Guindastes imensos, homens suspensos entre as águas e o chão de cimento da beira da lagoa. Uma traquitana imensa de pequenas peças a serem montadas umas as outras. Parafusos, pinos, arrebites. Fios quilométricos entremeando a estrutura cônica da construção.

Pelos gritos dos que estão em partes distantes da imensa estrutura dando notícias da articulação de partes tão separadas. Já se percebem espirais metálicas sobre a superfície em etapas que se afila para os céus. Os olhos não têm dúvida: ali se edifica aquelas luzes que atrairão milhões de pessoas por força do natal.

A orla da Lagoa Rodrigo de Freitas se tornará num grande berçário de gentes. E gentes e seus automóveis estacionados de qualquer modo, da fieira incontrolável de engarrafamentos sem que os apitos dos guardas de trânsito nada possam. Os guardadores ganharão o seu terceiro mês de pobreza, igualmente as barracas, as pipoqueiras, tanto coco que o coqueiral do nordeste se esvaziará.

A árvore de natal da Lagoa, estamos observando, é uma paulatina construção. Uma montada de partes e eventos distintos a cada passo. Um esforço tão descomunal que logo se imagina quão importante ali se monta um grande símbolo. Um símbolo salvador. Um símbolo, quem sabe, de esperança. Um quê de alegria que contaminará as tristezas da dura realidade.

Uma festa materializada neste esforço descomunal de tantos homens pendurados. De tanta gente no interior de vigas, nas entranhas como uma trama digestiva que parece tornar aqueles seres frágeis num trânsito fisiológico. Um paradoxo entre eles e os mineiro aprisionados das minas assassinas do mundo. Os homens digeridos por alguma coisa que não se sabe bem qual a razão.

Mas é inegável que sobre esta infra-consciência do hoje observado se ergue uma grande festa. Um grande espírito do tempo, dos cursos cotidianos numa grande apoteose de liberdade e opções. Ali se erguerá a alegria com substrato, um riso provocado por algo efetivo.

E toda esta imensa construção, materializada na estrutura da árvore de Natal da Lagoa, se esparramará como um leite de rosas no coração das pessoas no dia solene de sua inauguração. Adoçará a virtude do dia e esquecerá o fel dos idos e dos acontecidos. Como uma excelência a substituir tantas coisas detestáveis no cotidiano.

Um símbolo de amor. De agradecimento. Um símbolo completando as falhas de tantos poentes. Um sinal de luz e amplitude a céu aberto muito além das paredes apertadas dos domicílios hodiernos. Como se tudo que se martela o tempo todo se esquecesse por causa deste símbolo de luzes.

Afinal, a edificação da árvore é o maior neon do comércio. Esta festa de esperança que todos cultuam em cada prateleira. Nos papéis especiais de embrulho. Sob árvores das salas humildes. Da cidra gelada a lembrar champagne. Na rabanada que engorda mais estas vidas adiposas.

As dívidas, como um cordão de rosário, a amarrá-los na trama que não permite rupturas na corrente. E no ano seguinte, repetirão os mesmo passos.

A MOÇA DE LAVRAS DA MANGABEIRA - TEXTO DE RAQUEL DE QUEIROZ - Por Edilma Rocha


Uma pintora ilustre, consagrada: quadros seus espalhados pelos museus e pinacotecas de sua terra e do estrangeiro; mais carregada de medalhas de ouro que muito marechal vencedor de batalhas. Exposições vitoriosas. Críticas laudatórias.
Consagração na Academia Brasileira de Belas Artes. Currículo tão brilhante é raro: e conquista-lo representa uma vida inteira de dedicação e luta, e principalmente trabalho, trabalho. No final, a glória.
Mas onde começou essa glória ? Em Paris, Roma, no Rio, nos inúmeros lugares da Europa e América por onde a pintora andou ? Não, por essas terras não eram mais começos, era batalha plena. Tudo começou em uma pequena velha cidade do sul do Ceará - Lavras da Mangabeira. Lá nasceu a moça, de lá alçou o seu vôo. Ah, quem começa na cidade grande não terá nunca a idéia do que representa começar por ser uma moça de Lavras da Mangabeira. Eu sei, porque comecei também por ser uma moça de Quixadá, mesmo Estado, mesma região, mesma linha do trem, sertão, tudo. O Quixadá ainda mais ríspido e difícil, emparedado no seu ninho de monólitos, Lavras, pelo menos mais amena, lavada nos ares frescos do Cariri; na minha zona o boi e o algodão; na de Lavras já a cana, o açúcar, a agricultura superior. Mas tudo Ceará, tudo Nordeste, tudo distância; a moça que nasceu para pintar, como a moça que nasceu para escrever, sentem ambas que aquele reino não é o seu; tem fôlego largo no peito, precisa expandir-se. A terra pequena, com suas limitações, a incompreensão geral, ante a vocação inesperada da menina, as nenhumas possibilidades para exercício e desafio - e ela quer fazer, ela tem que fazer, ela há de fazer !
No começo tudo são flores, admirações, até vaidade alimentada por pai, mãe, tios, amigos. O primeiro desenho, o primeiro verso: meu Deus, que menina mais inteligente, como é que ela sabe copiar  uma flor, traçar o risco de um pássaro no céu, desenhar aquela cabeça de homem que parece mesmo estar vivo ?
No colégio de freiras ensinam-lhe a técnica do fusain, a cópia de modelo de flores e volutas, as primícias da aquarela; tudo copiado de outros desenhos, outras aquarelas, claro. O resto, a fuga daquelas primícias inocentes, ela tem que fazer sozinha, em casa enquanto prepara o vôo para longe.
Pode-se imaginar a importância do salto, o esforço, as lutas e as lágrimas que lhe custou o desprender-se da cidade pequena, da família , das imposições do ambiente do tempo, da sua condiçao de moça de boa família, à qual parece mal-soante a sua vocação artística. Ninguem entende - ou talvez só uma pessoa a entenda - a mãe ? O pai ? Uma irmã mais velha ? No caso de Sinhá não sei, no meu, para a fuga, tive facilidade extra - a cumplicidade inteligente de pai e mãe. Mas o resto, o círculo geral, fechava-se em ferro e condenações.
Mas Sinhá foi para a Escola de Belas Artes, a Nacional, a do Rio. Cursou a Academia de Belas Artes de Florença. Salto incrível esse segundo, já não mais Brasil, mas Europa, Itália, o estrangeiro. Verdade que aí já tinha a autoridade do êxito; não há como o êxito para dar segurança e força.
Mas a tarefa de ser uma grande pintora não se mede apenas em  termos de êxito pois que ela precisa ser pintora em primeiro lugar para ela própria - realizar-se artisticamente, satisfazer-se; terminar a obra, contemplá-la e poder dizer a si mesma que aquilo está bem. A sua arte não é apenas inspiração espontânea; a maior parte dela é técnica, aprendizado, progresso. O laborioso, humilde aprendizado que não acaba nunca; aos vinte, aos trinta, aos cinquenta, aos setenta anos como agora- trabalhando sempre, progredindo sempre, descobrindo sempre.
Assim se fez, assim continua a refazer-se esta grande pintora, esta grande dama, esta brasileira que, por mares além, tem levado na sua arte o nome do Brasil : Sinhá D´Amora. Cearense de Lavras da Mangabeira, orgulho da sua terra, que a gente saúda e abraça com comovida alegria vaidosa de poder declarar de público que é sua amiga, sua admiradora, sua fã.
Deus a abençõe, Sinhá.

Raquel de Queiroz

Texto publicado no livro
Sinhá D´Amora
40 anosde vida artística

Tela intitulada - Êxodo Nordestino -de sua autoria, pertencente ao Museu de Arte Vicente Leite do Crato