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Acordei sobressaltado, olhei o relógio, três horas da madrugada. Não consegui mais dormir no restante daquela noite. Aquele sonho me deixou completamente preocupado, pois temia muito que meus pais morressem antes que eu concluísse meus estudos. A cada passagem do trem suburbano do outro lado da Ribeira, sentia-me no São José, com o tão familiar apito e o barulho dos rolantes dos trens. E um medo muito grande me encheu por completo. Aquele sonho mexeu comigo.
Durante o vôo não conseguia me livrar da preocupação que o sonho me trouxera. Bobagens, sonhos são apenas sonhos, talvez apenas projeções inconscientes dos nossos medos. Tentava desse modo me livrar daquele mau estar.
Quando o velho DC-3 pousou no Aeroporto de Fátima, de longe se avistava a pequena estação de passageiros. Tomei um susto porque não vi meu pai, que sempre costumava me esperar nessas viagens. Em seu lugar estavam dois irmãos. Mal desci do avião, perguntei a eles: “Por que papai não veio?” “Papai está doente. Apareceu um derrame abaixo das duas axilas.” Responderam. Novamente o sonho da noite anterior voltou a me incomodar.
Uma semana depois da minha chegada, um primo médico foi com meu pai ao Recife, onde na véspera do Natal daquele ano ele foi submetido a uma cirurgia para retirada dos gânglios sob suas axilas, tendo a biopsia constada que se tratava de melanoma, um dos tipos de câncer mais mortal. A previsão dos médicos era a de que ele teria no máximo três meses de sobrevida.
Meu pai viveu ainda seis meses. Durante esse tempo, ele tinha consciência do seu estado e enfrentou aqueles dias com muita serenidade e confiança, que somente a certeza dos que crêem na imortalidade da nossa alma podem ter. Nos seus últimos dias, nossa casa ficou repleta de familiares e de uma multidão de amigos, que a gente não imaginava que meu pai fosse tão querido.
Percebendo que suas forças estavam acabando, ele chamou os filhos para uma última conversa. Por ser o filho caçula, fui o último a ouvir suas palavras, quase num sussurro. Foi muita emoção! De imediato, eu não compreendi porque ele me agradeceu as alegrias que eu lhe havia proporcionado. Depois entendi que ele estava dizendo o que esperava de mim no futuro. E durante toda a minha vida, eu procurei norteá-la pelo exemplo de vida que meu pai deixou. Um homem honesto, correto, amigo de todos sem distinção e de uma postura moral irretocável. Agora, depois de quarenta e três anos daquela despedida, espero haver correspondido àquele agradecimento que, para mim foi um direcionamento para o futuro.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
3 comentários:
Carlos,
Acompanhei meu pai até o S. José, em uma das visitas a "Seu" Zé Esmeraldo. Pelo comportamento do seu pai, incluindo o bom humor, seria impossível alguém ao menos desconfiar que mal terrível lhe acometia. Posteriormente, subindo para a aula no D. Bosco, o vi se despedindo dos irmãos do RJ. Ele chegou ajudar na arrumação a bagagem. Depois soube que ele pôs em dia todos os negócios, quitou todos os compromissos em andamento e organizou a situação da sua avó e dos filhos. Foram fatos que me impressionaram muito. A dignidade que ele emosntrou nos últimos dias, chegando a sugerir a antecipação do casamento da D. Ana Tereza, então minha professora, por sinal, excelente mestra. Seu pai demonstrou energia incrível, a meu ver, heróica. Foi um grande exemplo.
Carlos,
Acompanhei meu pai até o S. José, em uma das visitas a "Seu" Zé Esmeraldo. Pelo comportamento do seu pai, incluindo o bom humor, seria impossível alguém ao menos desconfiar que mal terrível lhe acometia. Posteriormente, subindo para a aula no D. Bosco, o vi se despedindo dos irmãos do RJ. Ele chegou ajudar na arrumação a bagagem. Depois soube que ele pôs em dia todos os negócios, quitou todos os compromissos em andamento e organizou a situação da sua avó e dos filhos. Foram fatos que me impressionaram muito. A dignidade que ele emosntrou nos últimos dias, chegando a sugerir a antecipação do casamento da D. Ana Tereza, então minha professora, por sinal, excelente mestra. Seu pai demonstrou energia incrível, a meu ver, heróica. Foi um grande exemplo.
Caro Joaquim
Obrigado pelas suas palavras. Seu pai e o meu eram primos e muito amigos. Abraços
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