Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Divane Cabral - Uma escola de arte , viva ! - Por Socorro moreira




Um Colégio de vanguarda, o Dom Bosco. Primava pela educação integral. Fiel às normas de Diretrizes e Bases, complementava em disciplinas, as lacunas, que por ventura existiam.Assim, continuamos a estudar latim, quando deixou de ser obrigatório, no currículo escolar. Dizia-nos Dr. Zé Newton: “ninguém aprende português, sem saber latim ". Ladainha diária. Sabíamos que tinha razão, mas o latim era um tanto indigesto. Melhor deixá-lo para o ensino nos Seminários. Os colégios não ministravam “Educação Artística” – uma disciplina nova, que reunia o estudo de todas as artes. Divane era a mestra. Durante os quatro anos ginasiais, abordou com uma certa profundidade, todas elas !
Começamos pela música, e o estudo dos clássicos, que a representavam: Bach, Mozart, Beethoven, Carlos Gomes, Vila Lobos, etc. Prova oral era pra tremer. A gente escutava um deles, e tinha que identificar o instrumento musical executado pelo músico. Sabíamos o que vinha a ser uma música clássica, sacra, erudita e popular; formávamos jograis de poesia, corais, maestrados por Divane , num atento despertar dos eventuais talentos.
A partir do segundo ano, encontrou uma forma de aferir aprendizagem, e expressar resultados, na produção de Grandes Espetáculos!
Neles foram desenvolvidos: a música, a dança, literatura, teatro, poesia.
O primeiro da minha lembrança, muito bem lembrado por Edilma Saraiva foi “Uma noite em Portugal”. Presença do fado, interpretado pela voz maravilhosa de Rosineide Ramos, além de explorar as danças, a cultura, aspéctos históricos, políticos e sociais daquele país irmão (como nos fazia crer).
O segundo foi “Uma noite na Espanha”. Danças e músicas flamengas. Belíssimo. Esse aconteceu, no palco da Rádio Educadora. Os personagens escolhidos eram as morenas ou loiras de olhos claros (de preferência). Lembro de umas delas , que nem pareciam cratenses , depois de caracterizadas de espanholas.
O terceiro espetáculo foi “Uma noite no Japão”. A quadra Bicentenária foi completamente transformada ! Pés de cerejeiras, jardins japoneses com suas pontes, e as japonesas, claro! Ah, nem faltou o pagode japonês, e a iluminação esteve perfeita!

Nessa eu participei como a oriental que contava tudo sobre aquela terra distante: seus costumes, educação, música, religião... Contava até sobre seus vulcões. Foi uma noite que se repetiu por quase uma semana. Quadra lotada, e o povo extasiado.

Aonde aquela mulher pescava tanta cultura, associada à sua própria criatividade?

Divane era um gênio, e a gente ia na onda, sem perceber o seu real valor.
Os últimos espetáculos foram as peças infantis : Cinderela , a Bela Adormecida e Branca de Neve. Na primeira todo mundo virou bailarino, e na segunda todo mundo virou fada, inclusive eu. Os figurinos eram etéreos, nas organzas de todas as cores. E as meninas dançando balé, completamente familiarizadas com as sapatilhas? Uma aprendizagem mágica de poucos dias de ensaios. Uma das fadas madrinhas foi a Magali, acho! A bela Adormecida foi protagonizada por Regina Vilar; a Cinderela por Ana Benvinda, e a Branca de neve por Graça Couto. Se eu forçar a memória, lembrarei de muitos mais detalhes, mas também poderia tornar cansativa , a narração.
Com relação às artes não citadas, cinema e pintura, também fizemos os nossos ensaios. Ninguém terminou o ginásio, nas mãos de Divane, sem entender como era montado um desenho animado, e o papel de cada profissional, na produção de um filme.
Como conferia nosso entendimento?
Tínhamos que assistir um determinado filme, “Fantasia” de Disney, por exemplo. Depois nos questionava, valendo nota, sobre o filme, em todos os seus aspéctos relevantes: direção, produção, trilha sonora, fotografia, atores, roteiro, etc.
Divane para nós foi tudo isso: uma mulher versada em todas as artes!
E como se não bastasse tinha uma mão levíssima para o desenho, tocava vários instrumentos, cantava, dançava, e um fantástico olhar, como fotógrafa.
Divane permanece tudo isso... O Crato e o seu povo sabem disso!
Nós do Dom Bosco, jamais a esqueceremos. Ela foi um exemplo de arte e criatividade. Nos fez entender ,definitivamente ,que o homem sem sensibilidade é uma pedra bruta.
Quando me tornei uma executiva, cumprindo os ossos do ofício, jamais deixei de cuidar da minha sensibilidade, mesmo sem os seus atributos principais: talentos.
Digo, confortável e conformadamente: não sou artista, mas tenho alma de artista!

*Ofereço esse texto à Eleonora ( filha de Cândido Figueiredo), uma entusiasta aluna dessa grande mestra, e a todos os que foram seus alunos, em todos os tempos.


Socorro Moreira

3 comentários:

Edilma disse...

Socorro,

Somos previlegiadas em um dia no passado estudantil ter respondido as sabatinas artisticas da professôra Divane Cabral. Sabe que ainda hoje quando escuto uma música procuro identificar os instrumentos como ela nos ensinou.
Justa homenagem aos tributos de uma cultura em forma de mulher.
Parabéns pelo texto !

João Marni disse...

Socorro,uma homenagem merecida.
Acho inclusive que a administração do Crato deveria prestar uma homenagem a todos dessa familia que tanto fizeram e fazem pela cultura da cidade há geraçoes.
abraços.

Anônimo disse...

Socorro, ótimo texto, excelente memória. Fui fada sim e se não me engano, meu vestido era amarelo e tinha até varinha de condão.
Com essas danças, íamos perdendo a timidez.
Divani fazia todo o trabalho com muita dedicação.

Abraços