Criadores & Criaturas



"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Urucubaca


Aquilo era caié demais para uma semana só ! E nem tinha surrado o Dalai Lama, dado um sabacu em freira, insultado Chico Xavier ! Como tanta urucubaca assim caíra de repente em cima dele ? Não seria, por acaso, aquele nome horrível e profético de Caetano com que o haviam batizado que já começava com Caié? O certo é que o cocô do passarinho já lhe acertara o cocuruto, no início da semana, já batera o carro numa carroça e o carroceiro, meu senhor, não possuía um pau pra dá num gato ! Na terça, a esposa, escarafunchando sua gaveta, encontrara uma suspeita conta de hotel em Jericoacoara, em seu nome e acompanhante, de três anos atrás e que não fazia parte do arquivo oficial da patroa : cara trombuda e ameaça de separação. Na quarta, havendo sonhado toda a noite com o Clóvis Bornay, fechou a fezinha nas dezenas 94,95, 96 e 97 : veado. Fim do dia, deu 85 na cabeça : Tigre ! Se ao menos houvesse sonhado com o Leão Lobo, vá lá! Aquilo só podia ser praga de urubu, de sogra, de ex-mulher ou de mãe! Na quinta acordou com o oficial de justiça o intimando para uma audiência: a ex entrara com uma petição querendo aumento da pensão alimentícia. À tarde , a única boa notícia, mesmo assim atrelada a uma péssima: tinha em mãos a prova cabal de que não poderia ajudar a naja velha na sua solicitação : foi demitido do emprego de tabelião que já exercia há mais de 20 anos, por uma suposta contenção de despesas. Que despesa ? Tinta havia subido? Carimbo ? Caneta? Almofada? Papel? Com que diabo é que cartório gasta dinheiro? Imaginou que deveria sim ser demitido por justa causa e via estampada na sua Carteira Profissional a razão : Ziquizira!

A audiência de homologação do pontapé estava prevista para a sexta-feira. Acreditou que a via crucis finalmente havia acabado. Não existia a seu ver espaço para mais pé-frio. Topara! E quem sabe depois do tsunami não viria a calmaria? E foi pensando nesta possibilidade, de volta à casa depois do pé-na-bunda que nem prestou muita atenção na estrada e nas lombadas eletrônicas. No outro dia é que entendeu a música de Orestes Barbosa, “Chão de Estrelas” e aquele verso famoso: “Sinfonia de pardais anunciando o alvorecer”.

Terminada a audiência, na sexta-feira, recebeu em dinheiro a indenização demissional, na justiça do trabalho. Pois naquele dia mesmo, o “Ronda do Quarteirão” da sua área, fora atender uma ocorrência. Desceram da Hylux vistosa os soldados e entraram rápido na casa solicitante, aparentemente se tratava de uma ameaça de roubo. Saíram tão ligeiro para a ação que nem houve tempo de travar o veículo. Os ladrões que já deixavam a casa com o fruto do furto, pelos fundos, aproveitaram a oportunidade e carregaram também dois celulares do Ronda que estavam dando sopa dentro do carro semi-aberto. Pois bem, Caetano, de posse da grana que dava para começar um negocinho, temendo a reincidente urucubaca, resolveu ligar para o Ronda . Conhecia bem os soldados da sua área, eram bem legais e podiam dar uma mãozinha , escoltando-o, com segurança, até o banco, onde faria o depósito. Ligou e nem desconfiou do palavrório meio esquisito do pessoal. Contou a situação e foi prontamente atendido :
--- “Cara, dá um tempo, fica na tua aí, mermão, que nós já chega, num dá uma de otário, não ! Num vacila , não ! Se não a grana já era, sacou ?

Com uma meia hora chegaram uns caras estranhos, de bonezinho e montados em duas motos. Caetano ainda tentou voltar para o interior do prédio, mas sob a ameaça de dois berros, entregou o envelope com o dinheiro da indenização. Pronto, havia se fechado com chave de ouro a caiporice! Estava com uma mão no cano e outra no feixe!

Deprimido, resolveu pôr fim à vida. Subiu no viaduto, à noite , no sábado e pulou no escuro, de ponta, num salto desesperado e definitivo. Embaixo, no entanto, ia passando um caminhão transportando rolos de fumo vindos de Arapiraca. Caetano caiu de ponta no meio da carga. Ainda meio atordoado, no breu da noite, imaginando que acordara no outro mundo, caquiou os rolos de um lado para outro e concluiu:
--- É não adianta não ! Bem que o Padre Nosso diz : “Assim na terra como no céu” ! É fumo lá e fumo cá, meu senhor !

J. Flávio Vieira

3 comentários:

Claude Bloc disse...

J. Flavio,

Adorei te ler e isto não é novidade. O enredo, como sempre, irretocável. E o mais interessante as palavras de nossa terrinha circulando pelo contexto. Ri sem querer quando li o termo "caquiar". Há quanto tempo não (ou)via isso!!!

Abraço ao meu escritor predileto...

Claude

socorro moreira disse...

O jeito de te encontrar sem adoecer é ler você.Bom demaisss !
Fiquei pensando nos antídotos das urucubacas.Um banho de nascente, na falta do mar. Olhar o Crato lá de cima, de algum lugar , e se atirar na beleza que é o Cariri. Não prometo esquecer o azar, mas é uma tentativa feliz.

jflavio disse...

Claude e Socorro,
que dupla! Estou com saudade de vcs( real , que virtual não serve tanto!) . Ainda bem que vcs tiveram paciência de ler o texto, meio longo.
Beijo,