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"Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
"

(Carlos Drummond de Andrade)

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... Por do Sol em Serra Verde ...
Colaboração:Claude Bloc


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Luiz Gonzaga - Eterno Rei do Baião- Marcos Barreto de Melo




A identidade de Luiz Gonzaga com o Nordeste e, principalmente, com a terra que o viu nascer, o torna indubitavelmente o maior símbolo do sertão. Luiz Gonzaga é a expressão mais viva e autêntica do homem sertanejo, de sua vida e de seus costumes. A sua obra é um patrimônio que transcende as fronteiras de Exu, no sertão de Pernambuco, para atingir toda uma Nação, além de constituir-se num documento histórico de significado inconteste, no momento em que registra os sentimentos e a alma dessa gente simples e sofrida da terra nordestina. Luiz Gonzaga é o sertão em corpo e alma. Como já disse o renomado mestre e folclorista Luis da Câmara Cascudo, "Luiz Gonzaga é um documento da cultura popular. Autoridade da lembrança e idoneidade da convivência. A paisagem pernambucana, águas, matos, caminhos, silêncio, gente viva e morta. Tempos idos nas povoações sentimentais voltam a viver, cantar e sofrer quando ele põe os dedos no teclado da sanfona de feitiço e de recordação". Luiz é uma bandeira do sertão nordestino que tremula no Brasil inteiro, no momento em que ele faz gemer os 120 baixos de sua sanfona branca. Uma sanfona mágica, de esperanças e recordações.
Luiz Gonzaga é a imagem do retirante nordestino, que foge da terra seca e exaurida pelo sol causticante da caatinga, deixando para sempre o seu tão pobre e querido torrão natal. Do retirante que vende tudo o que tem, que joga a família em um pau-de-arara e parte rumo ao Sul na busca ilusória de melhores dias. Luiz é o sertanejo que planta, replanta e não perde as esperanças de um bom Inverno. É o nortista forte e valente, mas que, chegada a hora de partir, esquece a sua rudeza nativa e se deixa levar pela emoção. É o caboclo que chora, quando se sente condenado a deixar o seu pedaço de chão.
Luiz Gonzaga é o vaqueiro das caatingas do Nordeste, de chapéu de couro, gibão e perneiras, destemido e forte como uma aroeira, que anda no coice da boiada e corre no carrasco, no marmeleiro fechado ou entre espinhos de mandacaru no encalço de uma rês desgarrada. É o vaqueiro que laça, derruba e domina uma rês enfezada. É o vaqueiro afamado e bom de campo que arranca aplausos da multidão nas festas de vaquejada quando, ligeiro como um corisco, derruba o boi mandingueiro e cobre a pista de poeira. Que acorda antes do sol e sai para o campo ainda de madrugada, que almoça farinha com rapadura, que bebe da água represada nas lagoas e que toma cachaça no chocalho. Luiz Gonzaga é o vaqueiro que, no cansaço da luta, descansa à sombra de uma barriguda e que, no fim do dia, junta o gado, sacode o pó do marmeleiro e vai para junto do seu bem.
Luiz Gonzaga é o caboclo da roça, homem simples e trabalhador, que acredita no canto agourento da acauã chamando a seca, no canto triste do vim-vim e na profecia do pássaro carão, que quando solta o seu canto é sinal de muita chuva no sertão. É o caboclo esquecido, de mãos grossas e calejadas e que traz o rosto marcado pela vida árdua do campo. É o roceiro que faz experiências com as pedras de sal, que espera ansioso pela barra do sol no dia de Natal e que só se convence da seca quando vê passar sem chover o dia de São José, o santo de sua devoção.
Luiz Gonzaga é o sertanejo de fé, que reza por uma chuva e pede a Deus pra não ter seca, que faz promessa ao Padim Ciço pra se curar de uma doença e que vai para as missões pedir uma bênção a frei Damião. É o caboclo que nasceu na caatinga e que dali não quer sair, porque para ele não existe lugar melhor. É ali que está enterrado o seu umbigo e é neste mesmo chão que ele quer morrer. Ser enterrado à sombra de um velho umbuzeiro, vestido de vaqueiro e com uma cruz de madeira amarrada com cipó, no meio da caatinga onde tanto aboiou e onde, infelizmente, o seu grito de aboio ficará para sempre esquecido.
Luiz Gonzaga é o morador de pé-de-serra, que trabalha de sol a sol durante toda a semana, mas que não abre mão de um samba de latada com o chão de barro batido e a luz mortiça do candeeiro, onde triângulo, zabumba e uma sanfona de oito baixos comandam a alegria. Um forrozinho onde a cabroeira brinca, dança e se diverte, enquanto a poeira sobe e o tocador, animado, vai castigando a sua concertina.
É o caboclo reimoso, esperto, brincalhão e prosista, com muitas estórias engraçadas para nos contar, com aquela maneira que lhe é particular.
Luiz Gonzaga é o caminho que nos traz de volta aos pés-de-serra do sertão nordestino através de xotes, baiões e toadas que tão bem retratam a nossa terra. Luiz é a energia que mantém viva em cada retirante a lembrança do seu longínquo sertão e a esperança derradeira de um dia ainda voltar para ele.
Luiz Gonzaga é tudo aquilo que emana do sertão. É a expressão de uma terra pobre e sofrida, ora seca e triste, ora verde e alegre. De uma terra esquecida e castigada, mas infinitamente bonita pela pureza de sua gente.
Luiz Gonzaga é a Asa Branca que volta correndo para o sertão quando ouve o ronco das primeiras trovoadas; é o cheiro gostoso da terra molhada; é o juazeiro com o seu eterno verde esperança; a peitica que, na copa do umbuzeiro, canta alegre com a chegada do inverno; é o riacho que corre vorazmente, arrastando árvores com as águas da primeira chuva; é o açude que sangra após anos de seca; é um fole velho gemendo numa palhoça, alegrando o São João na roça; é a rama verde da gitirana que, quando nasce, faz renascer o sertão.
Luiz Gonzaga é o filho de Januário que nasceu em Exu, em pleno sertão pernambucano, nas terras dos Alencar, e que aprendeu com o pai a puxada da sanfona. Luiz é aquele moleque que fugiu de casa em 1930, para tornar-se, um dia, o grande e insuperável Rei do Baião. Luiz Gonzaga é o sanfoneiro do Riacho da Brígida, de rosto redondo e riso largo, que deixou o sertão do Araripe para ser o dono de um reinado que não tem fim, posto que, o seu canto é eterno.

Marcos Barreto de Melo

Um comentário:

Aloisio disse...

Prestar uma homenagem, mais que merecida, ao Rei do Baião, só poderia partir de um cabra sertanejo, cujo coração transborda sentimentos e emoções e pulsa o sangue de um nordestino de cepa. Parabéns Marcos